Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 3 de 26

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Estarás Sempre Comigo

2 Bolas saltadoras, cigarros e batom

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Bolas saltadoras, cigarros e batom

 

A cabado o meu drama, tentava, enquanto me lavava na banheira, afastar da cabeça a escola secundária de St. Fintan. Apesar da minha sorte, estava de mau humor e sem vontade para ir à festa que eu própria incentivara. A porta destrancou-se, o John entrou e ao sorrir mostrou-me que a minha pequena explosão anterior fora perdoada.

– Posso lavar-te as costas?

Disse-lhe que me deixasse em paz.

– Lavas as minhas?

Fiz-lhe um manguito.

– Ah, os sacaninhas fizeram-te passar um mau bocado! – riu-se.

– Não chames aos meus alunos sacanas! – admoestei.

– Porque não? Tu chamas. Aliás, quando eles te chateiam, eu é que tenho de sofrer as consequências, por isso, acho que tenho o direito.

Ele tinha razão.

– Está bem, dou-te autorização para me animares – sorri.

– Que simpático da tua parte – disse ele, ajoelhando-se no chão e brincando com a água do meu banho, com um brilho nos olhos.

Senti todo o meu gelo derreter-se.

– Okay. Entra, mas não me empurres para as torneiras – avisei.

Ele despira a roupa quase antes de eu proferir a palavra

«torneiras». Sentou-se atrás de mim e deixámo-nos ficar na água quente, com os braços dele em volta do meu glorioso ventre vazio e a água a salpicar o chão. Deixei sair alguma água pelo ralo, recostei-me e perguntei como fora o seu dia. Falou-me de um fantástico teste psicológico que encontrara na internet e arrependi-me imediatamente de ter perguntado.

– É espectacular! Tenho de o experimentar em ti – ameaçou ele.

Olhei para ele.

– Em mim? Que sexy...

– É muito divertido. Mas vais precisar de um papel.

– Estou no banho – realcei, enquanto me instalava mais confortavelmente.

Ele começou a lavar-me as costas.

– É muito revelador – observou, num tom entre o sinistro e o malicioso.

Disse-lhe que, após seis anos, tinha a impressão de que ele sabia tudo o que havia para saber sobre mim. Ele riu-se, presunçoso.

– Há sempre mais alguma coisa, Em. Por vezes, nem nos conhecemos a nós próprios. Como, por exemplo, até ontem eu não sabia que conseguia comer dois Big Macs, uma pacote grande de batatas, seis McNuggets de galinha e um batido de chocolate sem me sentir maldisposto.

– Céus! – exclamei. – Isso é repugnante.

Ele assentiu.

– Isso sou eu, querida! – Riu-se, com os braços no ar.

* * *

Mais tarde, ele chegou ao quarto com um pedaço de papel e uma caneta.

– John, estou a tentar vestir-me.

Ele pousou o papel e a caneta no toucador.

– Vá lá, são apenas alguns testes. Dez minutos. Quero experimentar isto antes da festa.

Não podia acreditar naquilo.

– Estás a pensar fazer isso na festa? – perguntei, incrédula.

– Em, isto é divertidíssimo – disse ele, teimoso.

Então peguei na caneta, sabendo que não tinha hipótese de lhe escapar.

– Faz lá isso depressa. Tenho de secar o cabelo – avisei.

Ele tirou as instruções da pasta e começou a ler.

– Muito bem, escolhe uma cor e toma nota.

Pensei um pouco e escrevi-a no papel.

– Muito bem, indica três coisas que associas a essa cor.

Pensei mais uns segundos e escrevi as três palavras.

– Já escreveste?

Anuí.

– Que cor escolheste?

– Vermelho.

– Boa, agora quais são as três palavras? – Ele sorria com ar presunçoso.

Li as minhas palavras em voz alta:

– Bola saltadora, cigarros e batom.

– O quê? – perguntou ele, claramente perturbado. O sorriso desapareceu-lhe dos lábios e olhou-me curioso.

– Bola saltadora, cigarros e batom – repeti.

– Eu ouvi-te à primeira. Não faz qualquer sentido. Estás a fazer mal.

Não podia acreditar e, para ser franca, já estava farta do jogo.

– Que raio queres dizer com isso? – gritei, para me fazer ouvir acima do barulho do secador. – É um teste. Pediste-me que escolhesse três palavras que associo ao vermelho e escolhi-as. Como pode isso estar errado?

Desnorteado, tocou na testa e tornou-se óbvio que lutava contra a vontade de coçar a cabeça.

– Como é que associaste bola saltadora, cigarros e batom ao vermelho? – gritou ele.

Eu lutava com um caracol rebelde que acabara de descobrir e não tinha desatado a rir como ele me prometera, mas, como antevi que as gargalhadas não seriam o resultado do pequeno jogo de John, respondi-lhe apenas na esperança de que me deixasse em paz.

– Quando era criança, a minha bola saltadora era vermelha. Fumei Marlboro, o maço era vermelho, e a minha cor favorita de batom é o vermelho. É tão simples quanto isto. – Aumentei a intensidade do secador.

– Isso não faz sentido nenhum – murmurou ele, relendo o papel.

Depois gritou algo acerca das três palavras e como estas, em princípio, deveriam descrever como eu me via a mim própria. Ele estava claramente perturbado com a minha resposta; portanto, num esforço para aliviar a sua dor, desliguei o secador e pensei por um minuto.

– Talvez esteja a revelar que, no fundo, sou uma fumadora que gosta de bolas saltadoras e de batom vermelho. É espantoso. Tens razão. Aprendi realmente algo sobre mim mesma. – Estava a rir-me nesse momento, mas ele continuava perplexo.

– Quando fizemos isto na aula, resultou muito bem. Deves ter um problema mental, Em. Juro que isto funciona com qualquer outra pessoa.

Amachucou o papel e atirou-o para o caixote.

Quando saiu do quarto ouvi-o a murmurar:

– Malditas bolas saltadoras!

* * *

Quando John e eu chegámos à festa, esta já ia animada. A porta de entrada encontrava-se aberta e vimos um casal sentado nas escadas, aos beijos. Quando passámos por eles, John imitou o som de um grande beijo húmido. Felizmente pareceram não ouvir. Dirigimo-nos à cozinha, onde Seán estava já sentado à mesa a enrolar um charro. John sentou-se ao lado dele, enquanto fui procurar Anne e Richard, e encontrei-os na sala de estar. Anne andava atarefada a ver se os convidados se divertiam, enquanto Richard emborcava álcool como se a sua garganta fosse um buraco que precisasse de ser enchido.

Havia um grande cartaz feito à mão pendurado sobre a lareira com as palavras «ESTAMOS CHEIOS DE DINHEIRO». Ri-me quando o vi e disse a Anne que gostava do estilo. Ela, enjoada com o sentido de humor do marido, pediu-me que não a lembrasse de coisas tristes e tentou manter-se de costas viradas para o cartaz.

A música estava alta, algumas pessoas conversavam, outras dançavam, e todas bebiam. Na verdade, eu não conhecia a maioria dos convivas, eram colegas de trabalho dos anfitriões; por isso, regressei à cozinha para encontrar os dois amigos com os olhos turvos e John a tossir.

Seán olhou para mim e sorriu estupidamente.

– Toma uma passa – disse ele.

Dei uma passa e senti a minha nuca a explodir.

– Ai, credo! Preciso de um chapéu.

Riram-se os dois e Seán contou-nos que um amigo lhe enviara de Amesterdão uma selecção de amostras de diferentes cannabis. Os pequenos sacos de plástico haviam sido etiquetados e vinham acompanhados por um menu. Estávamos concentrados a olhar para aquilo quando Anne irrompeu pela cozinha com uma bandeja vazia e olhou para nós.

– Que lindo, que monte de inúteis! Estão aqui há cinco minutos e vejam bem o vosso estado!

Sorri-lhe. A Anne parecia às vezes a nossa mãe. John costumava dizer que ela já tinha nascido adulta. Era aquela pessoa que todos considerávamos sensata e nunca deixava de corresponder a isso.

– Tens copos? – perguntei, sem me conseguir mexer.

Deu-me dois copos grandes para cerveja antes de sair da cozinha, com a bandeja cheia de sandes. Enchi o meu copo com vinho e o de John com cerveja. Olhei para o vinho por alguns minutos antes de beber um gole e tomei mentalmente nota para nunca mais pôr vinho num copo de cerveja. Tendo dito isto, soube-me bem. Seán fazia outro charro e eu comecei realmente a sentir-me descontrair depois da tensão do dia

– Onde está a Clo?

– Está cá – respondeu Seán, enquanto dispersava o tabaco com mãos de perito.

– Onde?

– Lá em cima com um tipo – respondeu, sorrindo.

De repente fiquei alerta.

– Tentei entrar no quarto para deixar o meu casaco – continuou ele. – A porta estava trancada e ouvi a voz da Clo a mandar-me ir passear.

John começou a rir. Eu quis ir espreitar, mas as minhas pernas não obedeciam. Anne continuou a vir reabastecer-se, ficando apenas o tempo suficiente para recomendar que não exagerássemos. Richard, bêbedo, assentara arraiais na sala. Continuámos na cozinha a beber, a fumar e a rirmo-nos com disparates.

Passado um tempo Anne voltou.

– Como está a correr? – perguntei.

– O Richard vai no seu quarto discurso sobre a nossa imensa riqueza. Realmente, não percebo o que lhe aconteceu – disse ela, e, de repente, lembrei-me da minha mãe.

Seán riu-se.

– Metade de uma garrafa de vodca, quatro shots e, pelo menos, dois charros – indicou ele como se estivesse a ler uma lista de compras.

Anne permaneceu impávida.

– Sim, muito engraçado, Seán. És um comediante e peras. Seán estava tão embriagado que considerou o tom sarcástico dela um elogio.

– Saúde! – exclamou, erguendo o copo, e John e eu seguimos o exemplo.

– Vocês são um bando de calões – disse Anne, e desatámo-nos a rir, encantados.

Ela sorriu e desviou o olhar para o céu como se fosse um pai divertido a repreender crianças travessas.

Estava a pôr mais comida nas travessas quando Clo entrou com um tipo atrás.

– Olá pessoal – cumprimentou ela, tirando o charro das mãos de Seán. O tipo ficou por ali, sem saber onde se meter. Clo instalou-se numa cadeira e tocou na do lado. – Senta-te aqui – disse, sorrindo novamente para o seu novo amigo.

Ele não reparou, por estar demasiado ocupado a olhar para nós, que o observávamos fixamente como só as pessoas pedradas conseguem fazer. Ele sentou-se, parecendo incomodado. Esperámos que ela nos apresentasse. Clo sorriu-nos, como se esquecesse o objecto sexual ao seu lado. John acabou por lhe pedir que no-lo apresentasse.

– Ah – fez ela –, este é o Philip.

Anne, depois de terminar de encher a bandeja, deu-lhe as boas-vindas à sua casa e dirigiu-se para a sala. Ficámos todos a sorrir até que ele pediu licença para ir à casa de banho. Assim que a porta se fechou atrás dele, fiz a pergunta em que todos nós pensávamos.

– Acabaste de ter sexo com ele lá em cima?

– Não! – afirmou ela categoricamente enquanto assentia com a cabeça.

– Então onde conheceste o pobre desgraçado? – perguntou Seán, com bastante tacto.

– Na praça de táxis.

Rimo-nos novamente.

– Os transportes públicos têm muito que se lhes diga – afirmou ela, e Seán concordou.

Anne regressou. Seán disse-lhe que se sentasse connosco, mas ela precisava de arranjar mais gelo. John chamou-lhe Doris Day e, quando ela saiu, ele viu um manguito pela segunda vez naquele dia.

Philip regressou e sentou-se. Olhámos todos para ele. Após alguns instantes, falou.

– Então isto é uma festa por causa de uma herança?

Assentimos de novo.

– O que é isso exactamente? – perguntou ele, parecendo pouco impressionado.

Parecia-nos demasiado óbvio, mas Seán decidiu responder-lhe.

– É quando um avô muito, muito rico morre numa idade muito avançada e te deixa montes de dinheiro.

Sorrimos para ele, estupidamente encantados com a simplicidade de tão honesta resposta. Philip não estava convencido.

– Então, morreu alguém? – foi a sua pergunta.

John olhou-o como se fosse atrasado mental.

– Ele era muito velho – disse Seán.

Deu uma passa no charro e expeliu o fumo lentamente, sorrindo a Philip. Ele fazia-me lembrar o Steve McQueen, em Os Sete Magníficos, e nós, pedrados, rimos novamente. Philip era crescidinho e, portanto, não ficou impressionado. Desculpou-se, dizendo que ia para a sala, mas sabíamos todos que o que ele queria mesmo era sair da casa. Esperámos até ouvir a porta da frente fechar-se.

Seán olhou para Clo e disse o que era óbvio.

– Tens a noção de que ele se foi embora, não tens?

Ela sorriu para ele.

– Desaparecido mas não esquecido! – Riu-se da sua rima.

Virei-me para John e, com uma surpreendente habilidade, agarrei-lhe no queixo e virei-o para mim, olhei-o nos olhos e disse-lhe com sotaque americano:

– Espero que esta noite me dês algo inesquecível.

Sem hesitar, ele respondeu com o mesmo sotaque:

– A ti e à tua irmã, querida!

Seán, que bebia um gole da sua caneca, quase se engasgou com o génio cómico do amigo, e todos riram novamente. Pouco depois, Anne e Richard juntaram-se a nós. Clo passou o charro a Anne, que deu a sua primeira longa passa, e a Doris Day abandonou aquela casa. Só alguns minutos depois é que ela se apercebeu de que Philip já não se encontrava presente.

Quando perguntou por ele, Clo respondeu:

– Está desaparecido.

– Mas não esquecido – acrescentou John.

Desatámos todos a rir e Anne exclamou:

– Céus!

A noite continuou com aquela atmosfera louca. A dada altura, John e eu dançávamos – bom, de facto, estávamos meramente abraçados, a oscilar. Anne pôs a tocar «Purple Rain», de Prince, que era a nossa música. Continuámos a dançar um pouco mais lentamente, lembrando-nos da noite em que ouvíramos aquela canção enquanto baptizávamos o nosso Ford Escort de dez anos, acabadinho de comprar. Sorrimos com a recordação e lembrámo-nos de como ficámos espantados ao descobrir que as janelas embaciavam mesmo. John inclinou-me para trás no final da música e deixou-me cair. Apesar desta pequena falha, senti-me a Ginger Rogers – de novo o poder das drogas... Depois de me ajudar a levantar, beijou-me e julguei-me como se tivesse dezasseis anos. O John conseguia sempre fazer-me sentir assim, o que era uma das razões para eu o amar tanto.

As pessoas começaram a ir-se embora da festa e Clo foi dormir debaixo das escadas, um hábito que apanhara na escola. Despreocupados, esquecemo-nos de a procurar quando saímos. Eram três da manhã e Richard e John estavam embrenhados numa conversa sobre um estúpido jogo de futebol. Encontrávamo-nos à porta e eu sentia-me arrasada e cheia de frio.

Anne acabou por dizer que estava na hora e dirigimo-nos para a rua. Não tínhamos chegado ao passeio quando me lembrei que deixara o meu isqueiro na cozinha. Quis ir buscá-lo, mas o John insistiu que o fizéssemos de manhã. Não lhe dei ouvidos. O isqueiro era um Zippo prateado que Noel me oferecera quando fiz vinte anos… O meu irmão mandara-o gravar e eu gostava imenso dele, não apenas por ser um isqueiro fixe, mas também porque, para mim, representava a sua aceitação do meu estilo de vida hedonista. Assim, apesar dos protestos de John, voltei atrás. Ele disse-me que esperaria por mim lá fora.

Anne e Richard estavam na sala a recolher latas; Seán continuava na cozinha, a fumar outro charro. Sorri-lhe e fiz uma observação estúpida enquanto procurava o isqueiro. Ele ofereceu-me uma passa para o caminho. Aceitei. Ele sorriu.

– És linda – disse ele.

Sorri, à espera do resto da piada.

As palavras permaneceram no ar.

– Obrigada – disse eu, um pouco tarde de mais.

– Desculpa, não era minha intenção deixar-te embaraçada – sussurrou.

– Tudo bem – disse eu, corando. Vi o meu isqueiro sobre a mesa e apanhei-o. Instintivamente, baixei-me para lhe dar um beijo na face em sinal de despedida. Ele voltou-se quando cheguei perto do seu rosto e senti um choque percorrer-me quando os seus lábios tocaram nos meus. Ambos recuámos e ele começou a desculpar-se profusamente. Não queria que ele continuasse, visto aquilo ter sido um acaso. Éramos amigos e não havia problema.