Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 15 de 26

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Estarás Sempre Comigo

14 Os três da vida airada

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Os três da vida airada

 

N ão passara muito tempo desde a nossa pequena conversa quando Noel se separou do amor da sua vida. Ela precisava que ele fizesse uma escolha; não aguentava mais vê-lo assim destroçado.

– Não quero mais sentimento de culpa – exigira ela.

Noel sabia que isso não seria possível. Ele não podia desistir de ser padre e, ao admiti-lo, foi forçado a abandonar quaisquer esperanças que se permitira ao longo do ano que passara. Estava acabado. Ela chorou desesperadamente, tal como ele. Implorou-lhe que ficasse com ela, e ele suplicou-lhe que compreendesse. A dor era imensa. Ela agarrava-se a tudo o que tinham e ele tentava desesperadamente abrir mão disso. Ele deixou-a a chorar, sentada à porta em camisa de dormir e chinelos. Desceu a rua cego pelas lágrimas, com o coração destroçado e o som do desespero dela nos seus ouvidos.

Oh, meu Deus, o que fiz eu?

Noel não a voltopu a ver. Ela levantou-se e entrou em casa, fechando a porta a Noel e ao futuro abortado de ambos. Ele foi para a casa que partilhava com Rafferty, que continuava alegremente alheio à sua situação.

Achou difícil estar sozinho no quarto. Precisava de pessoas à sua volta. Alguém que o fizesse sentir-se normal. Alguém que não o julgasse e que compreendesse que ele precisava de tempo para se curar. Começou a passar mais tempo em minha casa, e eu estava contente com a sua companhia. Caímos então numa rotina. Noel ficava três ou quatro noites por semana. O meu irmão não era grande cozinheiro, mas cozinhava muito melhor do que eu. Eu chegava a casa e encontrava um empadão de carne no forno e Noel a limpar a cozinha.

Ele gostava de se manter ocupado e eu gostava que ele gostasse de se manter ocupado porque as limpezas não eram mesmo nada comigo. É claro que as fazia, mas deprimiam-me. Não fui feita para as limpezas. Eu era uma desarrumada. Víamos filmes juntos e, de vez em quando, ele pegava nos jogos de vídeo de John e eu encontrava-o a jogá-los tão entretido como acontecia com John. Ele andava triste e, por vezes, parecia que estivera a chorar, mas, noutras vezes, era quase como o velho Noel. Quase.

* * *

Seán separou-se da última namorada, mas, pior ainda, sofria de bloqueio de escritor. Andava a trabalhar num romance havia mais de seis meses e, inicialmente, tudo correra bem, mas chegara a um impasse e o computador atormentava-o. Assim, saía de casa sempre que podia. Logo que se apercebeu de que Noel estava a passar tempo comigo, juntou-se ao grupo. A casa começava a ficar um bocado cheia de mais. Agora, quatro vezes por semana, eu chegava a casa para ver Seán e Noel a beber chá e a lutar pelo comando do televisor.

– Noel, não vou ver de novo o Starsky e Hutch! – gritei acima do genérico que se ouvia à entrada em altos berros.

– Oh, vá lá! – suplicaram ambos.

– Haja paciência – suspirei.

Havia duas camas no quarto de hóspedes, por isso, de vez em quando, ambos ficavam comigo. Conseguia ouvi-los a falar e a rir através da parede, e aquilo parecia já um acampamento. Falavam até de madrugada. Acordava cheia de sono e fazia fila para o duche. Quando chegava ao frigorífico, o leite tinha desaparecido e a minha torrada evaporara-se misteriosamente quando virava costas. Começávamos a depender muito uns dos outros e estávamos a fazê-lo em minha casa. Não era saudável. Sabia que as coisas teriam de mudar.

Numa noite, quando Noel e Seán bebiam umas cervejas e viam o jogo da Irlanda contra a Letónia, Clo chegou com o novo namorado, Tom. Noel e Seán estavam mais que contentes por partilharem as suas cervejas; eu só queria uma noite sossegada, mas, obviamente, encontrava-me em minoria. Tom estava maravilhado, a beber cerveja e a ver futebol, e depressa encantado com as duas pessoas responsáveis pela nova alegria que encontrara. Os rapazes relacionaram-se depressa enquanto discutiam a importância de uma boa defesa e as suas ideias da estratégia de equipa, e, claro, todos acreditavam que sabiam mais do assunto do que o treinador irlandês.

Clo e eu escapámos para a cozinha.

– Não sabia que a casa ia estar cheia – disse ela.

Não era por nada, mas, por alguma razão louca, sentia mesmo falta de estar sozinha; então explodi.

– É um pesadelo! Eles estão aqui a toda a hora. Não é que eles não tenham casa para ir, cada um tem a sua! Céus, só quero enroscar-me e ler um raio de um livro sem ter de ver o Wrestle-Mania.

– Então, diz-lhes que vão para casa – respondeu.

Ela tinha razão. Já bastava. Porém, não queria afugentá-los por completo. Sentiria a falta deles. Não se tratava de não serem boa companhia, e, lá no fundo, eu tinha um fraquinho pelo Starsky e Hutch. Só não queria ter de fazer fila para a casa de banho quatro vezes por semana.

– Vou dizer-lhes – declarei.

Perguntei-lhe como era Tom.

– Encantador – sorriu ela.

Andavam a sair havia um mês e ainda não tinham dormido juntos.

– Vai ser amanhã. – Ela sorriu.

– Já não é sem tempo – observei.

– Não podes falar – indicou ela.

Ela tinha razão. Por isso, calei-me.

– Estou a pensar usar o meu vestido preto com o decote em V. O que achas? – perguntou.

– Fizeste-o esperar mais de um mês… acho que até podias usar vomitado de cão que ele te saltava para a espinha na mesma.

– Bem visto – disse ela, com um sorriso. – Vou cozinhar qualquer coisa boa para ele, ponho música calma, acendo umas velas… Até comprei lençóis de seda.

Ela tinha estilo, tinha de admitir.

– Parece-me bem – disse-lhe.

– Sim.

Ficámos ambas a sonhar com corpos quentes durante alguns minutos.

– Então e tu? – perguntou ela.

– Ninguém – respondi.

Seán entrou na cozinha, tirou três cervejas do frigorífico e contou uma piada qualquer sobre o gosto de Noel em relação a homens. Ri-me e fiquei a vê-lo sair.

– Tens a certeza? – perguntou ela.

– O quê? – perguntei.

– Tens a certeza de que não há ninguém?

– Não há ninguém – declarei, mas estava a mentir a ambas. Ela não insistiu e eu não queria que ela o fizesse.

– Olha – disse ela passado um bocado –, queres que te empreste o meu vibrador?

Olhei para ela, esperando que se desatasse a rir. Não o fez.

– É muito bom, compacto, podes pô-lo na mala e não vou precisar dele depois de amanhã à noite. – Ela sorria.

Meu Deus!

Era um pensamento simpático, mas disse-lhe que deveria guardá-lo para uma eventualidade, enquanto tentava disfarçar o meu desconforto.

– Emma, és tão puritana! – Ela sorriu.

– Pois sou – concordei.

Clo e eu fomos para a sala. Tom e os rapazes estavam a dar-se como velhos amigos. Mais tarde, descobri que Tom tivera algum receio de se dar com um padre. Deduzo que ele estaria preocupado com a conversa. A maioria das pessoas acha difícil falar de outra coisa que não o clima com um padre, por recear que se possa incriminar aos olhos de Deus.

No entanto, seguiu o exemplo de Seán, que nunca receava partilhar os seus sentimentos, relacionados com Deus ou não.

Clo estava radiante. Tom pôs-lhe a mão na perna enquanto falava com os outros e ela contou algumas piadas que fizeram todos rir. Era agradável de ver e fez-me desejar ter alguém que tocasse na minha perna. Olhei para Seán e ele sorria para mim. Olhámos um para o outro por apenas um momento antes de nos voltarmos a envolver na conversa, mas sentia-o próximo. E foi também um bocado estranho porque o meu estômago deu uma pequena reviravolta como fizera da primeira vez que John me apresentara a ele, no bar da universidade.

Quando Clo e Tom se foram embora, Noel e Seán pediram que me sentasse.

– Sabemos que queres que saiamos da tua casa – disse Noel.

Corei, tentava murmurar as palavras «não» e «não sejam parvos».

– Ouvi-te na cozinha – disse Seán, sorrindo.

Fora apanhada. Pelo menos, parecia que eles estavam a aceitar bem.

– Desculpem – murmurei, ainda embaraçada.

– Não é preciso – disse Seán. – Não queríamos transformar a tua casa numa república de estudantes.

Noel sorriu com a noção de que ele, mais do que ninguém, fosse o responsável por transformar a minha casa numa república.

– Não é isso – admiti.

– Então é o quê? – perguntou Noel, não por se sentir insultado, mas porque era apenas a sua preocupação habitual.

– Receio que estejamos a contar demasiado uns com os outros. Quero dizer, por quanto tempo poderá isto continuar? Se me habituar a tê-los sempre à minha volta, o que farei quando se forem embora?

E lá estava. Admiti-a, a minha verdadeira preocupação. Tinha medo de que, se deixasse os meus inquilinos a tempo parcial envolverem-se ainda mais comigo, então fosse demasiado difícil deixá-los ir embora, e eles não eram meus. Era simples, na verdade. Ambos sorriram.

– Nós não vamos a lado nenhum – disse Noel.

– Apenas para casa – disse Seán.

Ficaram ainda nessa noite e, na manhã seguinte, saíram os dois e disse-lhes adeus. Fechei a porta. Estava sozinha de novo, mas não era assim tão mau.

* * *

Na noite seguinte, Clo dormiu com Tom. Telefonou-me de manhã. Ele ainda lá se encontrava, a dormir. Ela estava eléctrica. Tinham tido momentos maravilhosos. As coisas não haviam corrido exactamente como ela planeara. Esquecera-se de comprar um isqueiro ou fósforos para acender as velas. Então tentara acendê-las com o gás do forno, mas isso só deixara o fogão coberto de cera. O vinho sabia a queijo e a refeição fora um fracasso total. Tom chegou a casa da namorada stressada com uma piza, uma garrafa de vinho de confiança e um filme. Comeram piza e beberam vinho e riram-se durante o filme Screwballs.

– Screwballs? – Eu não acreditava nela.

– Eu sei, é de loucos. Também é o filme preferido dele.

Fiquei perplexa. Ele realmente partilhava com Clo o gosto por filmes de treta.

– Uau!

– Eu sei – disse ela. – O sexo foi óptimo – continuou –, mas não quero continuar a falar sobre isso porque, se o fizer, ainda dá azar. É tudo uma questão de quebrar rotinas, Em. Eu estou a fazer mudanças.

– Que bom para ti – admiti, sem ter a certeza do que ela quisera dizer.

– Sim. – Adivinhei o seu sorriso do outro lado da linha.

– Vou casar-me com ele – disse ela com grande convicção.

Concordei que havia uma grande possibilidade de ele ser o Tal, agora que essa coisa do Screwballs tinha vindo à baila.