Estarás Sempre Comigo
19 O fim da linha
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O fim da linha
A cordei na manhã seguinte na minha cama e suspirei de alívio. Foi apenas um terrível pesadelo.
Depois tacteei o rosto. Caramba!
Saltei da cama e dirigi-me ao espelho, ainda aos tropeções. Sentei-me e vi o meu pobre olho inchado, que estava a ficar com pelo menos algumas das cores do arco-íris. Chorar doía, mas chorei na mesma. Não era por estar triste – apenas por puro medo. À luz do dia e na privacidade do meu quarto, descobri que estava muito assustada. Eu não era Buffy, a Caçadora de Vampiros. Não sabia caraté. Nem sequer frequentara aulas de autodefesa. Na verdade, a única vez que batera em alguém tinha cinco anos e, para ser sincera, fora mais um incidente, um puxar de cabelos, do que propriamente bofetadas. Ponderei um pouco. Certamente não podia ser considerada ousada. Até no parque de diversões era sempre aquela que ficava sentada no banco, a guardar os casacos dos outros, enquanto todos faziam fila para a montanha-russa. Não conseguia andar numa roda gigante. Até tinha medo de bolas voadoras, por amor de Deus! Mas quem me julgara eu na noite anterior? Podia ter sido morta ou, pior, aquele sacana podia ter posto as suas patas sujas em mim. Por isso, que raio de coisa me arrastara até àquele beco? Senti-me ligeiramente com náuseas e, de repente, dei-me conta.
– John?
Olhei à volta do quarto, desconfiada.
– John? Estás aí?
Estou a ficar maluca.
Voltei para a cama e fiquei lá o resto do dia.
* * *
Tal como previsto, o dia de Natal passou sem grandes incidentes. Não mencionei aos meus pais a luta com o violador, receando algum ataque de coração. Em vez disso, contei-lhes que caíra, depois de ter bebido uns copos. A minha mãe arengou durante vinte minutos, o meu pai riu-se e Noel telefonou, socorrendo-me e livrando-me de apuros até à distância. Era bom ouvir a sua voz. Sentia a sua falta e desejei que estivesse em casa. Ele estava feliz, a divertir-se, e fiquei contente por ele. Os nossos pais ficaram tão encantados por ouvir a sua voz que não se importaram que ele não tivesse cumprido a sua promessa. Não tivemos muito tempo para conversar. O pai passou a maior parte da chamada a falar sobre o tempo.
– Telefona-me quando chegares a casa – disse Noel e deu-me um número antes de desligar.
Mal podia esperar. O dia foi longo. Sentia-me empanturrada. A minha mãe insistiu em vermos Música no Coração, e o filme parecia nunca mais acabar.
Cheguei a casa depois das oito. Peguei no número e telefonei a Noel.
– O que se passa? – perguntou-me.
– Nada – respondi, na defensiva.
Eu não acreditava que ele conseguisse sentir os problemas a quilómetros de distância. Porém, a verdade é que estava aborrecida. Aquele meu encontro com o patife violador tinha-me deixado um sabor amargo na boca.
– Conta-me – pediu.
Então contei-lhe a minha triste e sórdida história.
Ele não interrompeu até eu terminar.
– És uma boa samaritana dos tempos modernos – comentou.
Ri.
– Se os bons samaritanos dão pontapés na cabeça das pessoas, então sim, sou eu.
– Bem, usei o termo dos tempos modernos – observou o meu irmão.
Sorri.
– Não estás zangado?
– Fizeste o que tinhas de fazer e correu bem. Estou orgulhoso de ti.
Eu não estava para lhe contar a minha teoria sobre John. Queria que ele ficasse orgulhoso, em vez de recear pela minha sanidade.
– E tu? – perguntei então.
– Estou óptimo. Sem dar pontapés na cabeça de ninguém, mas a viver, e é muito bom.
Ri-me, sinceramente feliz.
– Tenho saudades tuas – disse, sem ser capaz de me conter.
Ele disse-me que também sentia a minha falta e tive vontade de me aproximar dele e tocar-lhe.
– Quando vens a casa?
– Não sei – respondeu.
– Ainda és padre?
Silêncio.
– Não sei – disse ele.
– Está bem. Adoro-te – disse.
– Também te adoro.
– Como está o Seán? – perguntou.
De repente, senti-me triste.
– Ele vai-se embora para Londres. Vai ser editor de uma revista por lá.
Silêncio.
– Talvez ele precise de algo que o faça ficar – disse ele.
– Isso não depende de mim – respondi.
– Talvez. – Depois, acrescentou: – O John já partiu há algum tempo, sabes?
Eu sabia, mas não sabia a razão de ele de repente falar sobre isso.
– Eu sei.
– Feliz Natal, Emma!
– Feliz Natal, Noel!
Pousei o telefone e abri uma garrafa de vinho.
– Feliz Natal, John – disse eu, e levei a garrafa para a cama.
Quando me deitei, estava bêbeda. Incapaz de dormir, deixei-me ficar no silêncio e perguntei-me se John me poderia ver. Seria possível? Seria o paraíso um lugar de onde ele podia olhar para baixo, para o mundo, sempre que quisesse? Será que ainda me poderia tocar? Assustou-me pensar que ele estaria algures, consciente de que, por vezes, eu me esquecia de pensar nele, durante um dia ou uma semana ou um mês, sabendo que a dor no meu coração se dissipara. Embora ainda sentisse a sua falta e o amasse, tinha de olhar para uma fotografia dele para realmente o ver. E se ele soubesse que eu não me conseguia lembrar do som do seu riso? E se ele soubesse que…?
Assim, preferia que ele estivesse apenas a dormir. Noel diria que fora a vontade de Deus, o Seu plano, e que a vida continua. Sentia-me uma traidora. Talvez ele não quisesse que eu seguisse com a minha vida, talvez desejasse que eu o amasse até que a morte nos reunisse, e talvez me tivesse enviado para aquele beco para morrer. Tê-lo-ia feito? Será que quisera que eu ajudasse aquela rapariga, ou estaria a enviar-me um sinal? O Noel dissera-me uma vez que eu pensava na morte como um castigo, mas ele via-a como uma dádiva. O meu irmão via em tudo uma dádiva. Se alguém lhe desse um murro na cara, ele agradecer-lhe-ia. Perguntei-lhe uma vez se acreditava mesmo que tinha respostas para tudo. Ele disse-me que não. Apenas acreditava. Esse era o problema: eu não sabia se queria isso. Caí num sono embriagado, apenas para acordar com a campainha da porta a tocar.
Doreen entrou de rompante. Trazia nas mãos um bolo de frutos numa caixa.
– Obrigada – agradeci, quando ela a pousou no balcão.
– Deixa-me olhar para a tua carinha – ordenou.
Levou algum tempo a examinar o meu olho inchado.
– Como está a tua mão? – perguntou.
– Está boa.
Mexi a mão para lhe mostrar que estava bem. Fiz chá. Doreen preferia chá – o café fazia-a ficar irritável.
– O Seán ligou-me – disse ela. – Eu não fazia ideia de que morava ao lado do Walker, o Ranger do Texas. Ele receia que tenhas enlouquecido.
Porque teria ele telefonado a Doreen?
– Ele telefonou-te? – perguntei então.
– Claro que sim. Todos sabem o quanto sou boa numa crise. Trabalhei na Linha de Apoio dos Samaritanos durante um ano, sabes? Já ouvi de tudo.
Ri-me.
– Não há nada para ouvir.
Doreen sorriu.
– Há sempre algo para ouvir, querida – corrigiu ela, com conhecimento de causa.
Disse-lhe que não tinha intenção de perseguir mais violadores por becos.
– Não é com isso que estou preocupada. É altura de seguires em frente – disse ela sem mais nem menos, mas percebi imediatamente de quem e do que falava.
– Não há razão para estares preocupada, Dor, a sério. Eu segui em frente – disse eu, olhando para o balcão.
Ela aproximou-se, pegou-me no rosto com uma mão e olhou para os meus olhos.
Não havia modo de lhe fugir.
– Onde está a rapariga que eu conhecia? Onde está a rapariga com o sorriso que conseguia derreter o mais duro dos corações? Eu sei que está aí, algures, por trás de toda essa dor, desse sentimento de culpa.
Senti vontade de chorar.
Ela pegou-me no queixo. Algo em mim se partiu por dentro, e dei voz ao sentimento de que andara a fugir durante todos aqueles meses.
– A culpa é minha! Se eu não tivesse voltado atrás! – Lágrimas começaram a arder nos meus olhos.
Doreen olhou para mim severamente.
– Ouve lá, rapariga, os «ses» não existem. Não podes mudar o que aconteceu. Não foi nunca por tua culpa que as coisas aconteceram.
Abanei a cabeça.
– Ele não queria que eu voltasse atrás.
– Não interessa.
– Ele disse-me que deixasse lá o isqueiro… só queria ir para casa.
– Não interessa.
– Ele ainda estaria aqui hoje.
– Não. Não estaria.
Afastei-me.
– Porquê? – gritei.
– Porque, Emma, estava destinado a acontecer assim – disse ela calmamente.
Recuei e ficámos em silêncio por momentos. Ela pegou na minha mão e acariciou-a, permitindo-me absorver os factos. Assim fiz, mas ela não conhecia a história toda.
– Dor, já não o sinto no meu coração. Nem passaram dois anos e não consigo senti-lo. Ele merece melhor. Odeio esta sensação. – Eu começara a chorar.
Ela falou num tom mais meigo.
– Deixa-me perguntar-te o seguinte: se fosses tu a ter morrido, não ias querer que ele seguisse a vida, que fosse feliz?
Claro que sim, ela sabia disso. Fiz um gesto de assentimento.
– Porquê? – perguntou.
– Porque o amava!
– E ele amava-te.
Solucei e assenti, e ela sorriu.
– É tempo de o deixares partir, querida. Ficares parada no tempo só magoa ambos – disse ela, gentilmente.
– Dor?
– Sim.
– Achas que ele nos consegue ver?
– Provavelmente, de vez em quando. Deve ser muito frustrante para ele.
– Que queres dizer com isso?
– Bom, ele seguiu em frente.
Fiz um gesto de assentimento e, lá no fundo, sabia que era altura de fazer isso mesmo.
* * *
Íamos a caminho de Kerry. Tom conduzia, Clo seguia à frente e Seán e eu estávamos no banco de trás. Sentia-me feliz por sair de Dublin, mais feliz ainda por me encontrar sentada ao lado de Seán. Perto dele sentia-me segura.
Foi uma longa viagem. Após cinco horas sentados, parámos à beira de um longo caminho de acesso ladeado de árvores. Era impossível não ficarmos impressionados. A casa parecia enorme; a luz do alpendre brilhava à distância. Tom tocou a buzina. Anne e Richard estavam à nossa espera. Doía-me o rabo. À Clo também
– ela não parava de levantar o rabo do assento, massajando-o e dizendo «céus!» repetidas vezes.
Seán foi o primeiro a saltar do carro. Ele e Richard abraçaram-se. Clo e Anne dançaram à roda, abraçadas e eufóricas. Eu fiquei para trás, a sorrir. Tom manteve-se ao meu lado, a observar.
– Richard, Anne, vocês lembram-se do Tom – disse eu. Apercebi-me de repente que fora uma estupidez dizer aquilo. Afinal de contas, tinham passado um fim-de-semana inteiro em Paris com ele. Anne parecia preocupada com o meu olho enquanto caminhávamos para casa. Perguntou-me se eu estava bem.
– E contente por estar fora do carro – respondi.
Richard agarrou na minha mão.
– Olá, Rambo! Sorri.
Anne mal podia esperar pelas novidades.
– Mas eu contei-te tudo ao telefone – murmurei, desesperada.
Ela parou de encher a chaleira enquanto eu admirava a sua cozinha, que tinha o tamanho da minha casa.
– Emma, uma história só é real quando contada pessoalmente – disse ela.
– Desde quando? – perguntou Clo.
– Quero ouvir tudo – pediu Anne, ignorando-a.
– Ela esmurrou-o na cara – disse Clo como se lá tivesse estado, e sorriu. – E deu-lhe um pontapé nos tomates.
– Foi mais um apertão – corrigi.
– Quem diria que és tão cruel? – retorquiu Anne, e ambas me olharam com ar aprovador.
Seán observava-nos em silêncio; não se mostrava tão impressionado como os outros. Eu estava contente por isso, porque não tinha intenção de repetir a cena. Richard apareceu, vindo da sala de estar.
– Como está a pobre rapariga? – perguntou.
– Está bem – respondi.
Contudo, não sabia se era esse o caso. Falara com a mãe apenas uma vez por pouco tempo ao telefone. Ela agradecera-me e dissera que ia levar a filha para fora, numas férias, o que não significava necessariamente que a rapariga estivesse bem, mas eu tinha esperança de que tudo fosse correr pelo melhor.
Tom e Seán encontraram a PlayStation de Richard, por isso não vimos os nossos amigos a maior parte da noite. Anne, Clo e eu sentámo-nos na cozinha, a beber vinho e a olhar para um bonito pátio de pedra que dava para o rio. A vista era de tirar o fôlego. Clo e eu estávamos no paraíso.
– Este lugar é qualquer coisa – comentou Clo.
Anne sorriu.
– Sim – concordou, antes de mudar de assunto.
Sabíamos que ela não estava totalmente convencida a viver em Kerry, mas, olhando em volta, era difícil não gostar daquilo. Clo pôs um CD a tocar. A Anne perguntou como estava o Leonard.
– Ontem apanhei-o a tentar engolir o seu rato de brinquedo – respondi.
Clo riu-se e contou a Anne que, na semana anterior, ele tinha conseguido entrar no meu frigorífico e morder em tudo o que lá se encontrava.
– Isso é muito estranho – disse Anne.
– A quem o dizes. Ele conseguiu engolir três costeletas de borrego e metade de uma garrafa de vinho branco!
Anne achava que eu devia levá-lo ao veterinário. Clo discordou e defendeu o saudável apetite do meu gato.
Anne sentiu-se repugnada.
– Não existe nada de saudável num gato a devorar três costeletas de borrego com uma garrafa de vinho.
– Metade de uma garrafa – corrigi.
Ela lançou-me um olhar zangado antes de perguntar se ele era gordo. O gatito tinha quase dois anos e o tamanho de um cão de porte médio.
– É largo de ossos – expliquei.
Clo apoiou-me.
– Tem que ver com a raça – defendeu ela.
Anne lançou-nos mais um dos seus olhares zangados.
– Emma, leva esse pobre gato ao veterinário – disse ela, num tom que fazia lembrar Doreen.
Fiz um gesto de assentimento, assumindo a minha derrota e tive de admitir que o meu gato sofrria de um problema qualquer. Questionei-me por momentos se seria uma má mãe.
De repente, Anne desatou a rir e explicou que não estava habituada a beber porque ela e Richard andavam a seguir uma dieta rigorosa havia dois meses que incluía a não ingestão de álcool.
– Porquê? – perguntou Clo, chocada.
– Para aumentar as nossas hipóteses de ter um bebé – sussurrou Anne, embora os rapazes estivessem na sala de estar a quilómetros de distância na ala oeste, como lhe chamou Clo.
Clo pensou nisso por um minuto. Sorri porque sabia no que ela pensava.
– Tem graça, pensava que a maioria das mulheres ficava grávida após uma refeição decente e alguns Bacardi Breezers. Ou serei apenas eu?
Engasguei-me com o vinho. Anne ficou em silêncio por um minuto antes de observar.
– Ora aí está uma opinião pertinente.
Rimos às gargalhadas durante uns vinte minutos. Seán chegou vitorioso. Vencera Richard no Time Crisis.
– A sério? Que aborrecido – observou Clo antes de lhe agarrar no rabo.
Ele disse-lhe que ela não percebia nada enquanto ia buscar algumas cervejas ao frigorífico. Anne ainda se ria.
– Onde está a piada? – perguntou Seán.
– Na bebida – foi a sua resposta.
Clo e eu desatámos a rir estupidamente.
– Pois – disse ele e saiu.
Íamos a meio de uma segunda garrafa de vinho e Anne começava a não se aguentar direita.
– É tão bom, tão bom, tão bom ter-vos aqui – disse.
Clo e eu sorrimos. Era a primeira vez que estávamos juntas havia meses, e ela tinha razão, sabia mesmo bem.
Richard indicou-nos os nossos quartos enquanto Anne tentava encontrar o seu. Despedimo-nos. Cinco minutos depois, bateram à minha porta. Era Richard.
– Não tivemos grande oportunidade de falar – começou.
Detestava quando as pessoas me diziam aquilo. Havia um tom que não era difícil de reconhecer. O tom que anunciava que vinha um sermão a caminho.
– Sei no que pensas e não vim dar-te um sermão.
Sim, pois.
– Só queria ter a certeza de que estás bem – disse ele, sorrindo. O sorriso não me enganou.
– Estou bem – retorqui.
– Óptimo – disse ele. E então veio o que eu temia. – Mas eu estava a pensar…
Mesmo em cheio.
– Não foi a coisa mais segura do mundo, sabes, atacar um violador. Alguns diriam que foi uma atitude um bocado louca.
Ele olhava para o chão. Segui os seus olhos. O chão era de mármore.
Bonito.
– Não tenciono fazer uma coisa assim novamente.
Ele sorriu.
– Ainda bem.
Continuou então, dizendo que Seán ficara bastante perturbado.
– Não me digas.
– Digo.
O seu sorriso desapareceu.
– Ele gosta muito de ti.
Corei.
– Eu sei – respondi.
– Gostas dele? – perguntou, num tom acusador.
– Claro.
Começava a sentir-me algo ressentida.
– Ele disse que ia para Londres – continuou, implacável.
– É uma boa oportunidade – respondi, sentando-me, ainda à espera que ele saísse.
– E foi isso que lhe disseste?
– Sim.
Estávamos ambos a ficar irritados.
– Se tens alguns sentimentos por ele, e todos sabemos que tens, sugiro que ganhes coragem e lhe digas.
Eu não acreditava. Sacana descarado!
– Kerry está a tornar-te mau.
– Digo as coisas como as vejo, e todos sabemos que não vejo muita coisa – disse ele, sorrindo. Depois dirigiu-se para a porta, enquanto eu ficava emudecida com o seu descaramento. Voltou-se: – Olha, podemos manter esta pequena conversa entre nós? Se a Anne sabe que falei contigo, mata-me. Boa noite. – Piscou-me o olho. – Gosto muito de ti, Em, mas às vezes és mais cega do que eu.
Nem por isso – a tua mulher odeia a sua nova vida.
Deitei-me, mas não consegui adormecer. Continuava a pensar no que ele dissera, que todos sabiam que eu sentia algo por Seán. Clo nunca me dissera nada. Brincara com o assunto, mas ela brincava com tudo. Anne também não o mencionara. Talvez Seán soubesse. Corei. Tinha vinte e oito anos, encontrava-me num quarto às escuras, sozinha, e estava a corar.
– Meu Deus, preciso mesmo de falar com Clo.
Clo e Tom dormiam. Já passava da uma da manhã. Bati à porta e entrei. Tom gemeu.
– Tom – sussurrei.
Ele virou-se na cama, ainda a dormir.
Aproximei-me.
– Tom – repeti.
Ele estava ainda na terra dos sonhos.
– Raios! – sussurrei eu. Não acredito que eles já estejam a dormir.
Aproximei-me uma vez mais e abanei-o.
– Tom! – chamei, junto ao seu ouvido.
Ele levantou-se subitamente da cama.
– Estou acordado, estou acordado – disse, olhando em volta, apercebendo-se de que era de noite. Concentrou-se com os olhos turvos no meu roupão. – Meu Deus, Em, que horas são? – perguntou, esfregando os olhos.
– Peço imensa, imensa desculpa, mas isto é uma emergência. Podemos trocar de camas?
– O quê? – Ele pareceu surpreendido com o que eu achava um pedido perfeitamente razoável.
– Preciso mesmo de falar com a Clo – implorei.
Ele olhou para Clo, que, adormecida, se babava.
– Ela está a dormir – observou.
– Eu sei como acordá-la. A sério, isto é uma emergência. O meu quarto fica duas portas à esquerda.
– Está bem – concordou ele, começando a perceber a urgência da minha situação.
Sorri-lhe e esperei que ele saísse da cama.
Ele sentou-se a olhar para mim.
– Que foi? – perguntei, já a ficar irritada.
– Preciso de vestir qualquer coisa – murmurou ele, embaraçado.
– Ah, certo, desculpa – disse, e virei-me de costas para ele.
Ele levantou-se e vestiu uns boxers e uma T-shirt. Saiu do quarto e logo a seguir sentei-me na cama.
– Hum, que quentinho. – O chão de mármore era muito bonito, mas muito frio. – Clo – sussurrei.
Ela murmurou.
– Clo – abanei-a ligeiramente.
– Mais dez minutos – murmurou ela.
Sacudi-a com mais força.
– É a Em, preciso muito de falar contigo – disse, ainda a abaná-la.
Ela não se sobressaltou, nem sequer abriu os olhos.
– Mas que…?
Acendi a luz. Ela abriu os olhos lentamente.
– Espero que tenhas uma boa explicação – avisou.
– Estou apaixonada pelo Seán – confessei.
Foi engraçado porque eu não tencionara começar a conversa daquela maneira.
Ela sentou-se e encarou-me.
– Bom, já não era sem tempo – observou, com um meio sorriso.
Eu estava em pânico.
– E agora o que faço? – perguntei, aflita.
– Diz-lhe – aconselhou-me ela.
– Para ti é fácil falar – respondi, tentando pôr-me mais à vontade.
– E para ti é fácil fazê-lo – continuou ela. – Ele está apaixonado por ti e tu estás apaixonada por ele. Simples. – Pegou nos cigarros.
– Achas mesmo? – perguntei.
Ela acendeu o cigarro e deu uma passa.
– Tenho a certeza. Ele contou-me no ano passado.
Eu não acreditava.
– Porque não me contaste? – quase gritei.
Ela olhou para mim com ar sabedor.
– Porque ambas sabemos que tu irias reagir mal e dar-me pontapés.
Meditei na resposta e, à luz dos acontecimentos recentes, não tinha realmente argumentos para aquilo. Ela estava certa. Eu teria reagido mal. Não estava preparada.
– Mas agora estás – disse, lendo-me os pensamentos.
Sentia borboletas no estômago. Tinha esquecido o que era sentir aquilo. Era bom, mas também algo problemático.
– Meu Deus – disse eu.
– Meu Deus – concordou ela.
Ficámos em silêncio, e ela terminou o cigarro.
– Onde está o Tom? – perguntou, após alguns cinco minutos
– Mandei-o para o meu quarto.
Ela riu-se.
– Então, como é que lhe conto? – perguntei.
– Basta saltares para cima dele.
Conselho sensato, mas não era dos que eu procurava.
A minha expressão deve ter dito tudo porque ela continuou muito rapidamente.
– Não requer nenhuma ciência extraordinária, Em, só tens de lho dizer.
Ficámos em silêncio novamente.
– Não achas que é injusto para o John? – perguntei, precisando de a ouvir dizer a palavra «não».
– Não sejas parva – respondeu ela.
– É o suficiente.
E isso pôs fim àquele tipo de perguntas.
– Está bem – concordei. – Vou dizer-lhe. – Sorri resolutamente.
– Boa – disse ela, colocando o cigarro no cinzeiro. – Agora apaga a luz e vê se dormes.
Obedeci e deitei-me.
Estou apaixonada pelo Seán, pensava, enquanto mergulhava num sono tranquilo.
* * *
Encontrámo-nos todos ao pequeno-almoço. Clo avisou educadamente Tom que não abrisse a boca sobre as ocorrências da noite anterior, e ele obedeceu. Sentámo-nos à mesa do pequeno-almoço.
Anne, de ressaca, murmurou.
– Não me apetece ovos.
Clo e Tom brincavam com os pés um do outro e riam como tolinhos. Richard comia torradas e ia escrevendo um itinerário para o programa do dia. Eu não sabia o que Seán estaria a fazer porque não conseguia olhar para ele, receando que pudesse corar e vomitar ao mesmo tempo. Pensava que aquilo podia tornar-se um grande problema quando Richard interrompeu os meus pensamentos.
– Tenho um grande dia planeado. Vamos fazer uma caminhada até à montanha. Depois, vou mostrar-vos alguns bosques aqui na zona. Temos um barco de pesca reservado para um passeio pelo rio à tarde e, a seguir, se tiverem vontade para tal, estava a pensar num jogo de golfe durante uma hora, antes do jantar. Pensei que podíamos comer por volta das oito. Que vos parece?
Clo riu-se e disse-lhe que parecia um inferno. Anne ameaçou-o de morte, mas Seán achou óptimo e perguntei-me por instantes o que seria que eu via nele. Recobrei para acrescentar as minhas preocupações.
– Se fizermos isso tudo e comermos uma grande refeição às oito, estaremos a dormir pelas dez, e é dizer adeus à nossa noite de Ano Novo.
Anne e Clo concordaram. Pensei que Tom se fosse levantar para me fazer uma ovação, mas limitou-se a ir ao frigorífico buscar leite. Quando a sua sede estava finalmente saciada, concordou com Richard e Seán. Eram as raparigas contra os rapazes e eu não gostava das probabilidades. A vontade de Anne para se juntar à nossa luta não era grande e Clo podia ser comprada por uma promessa do Tom. Era óbvio que, mais uma vez, Richard faria as coisas a seu modo.
Richard perguntou-se por que razão não estaria de ressaca e rezei para que a qualquer instante percebesse. Não percebeu, e quando nos arrumámos no seu Range Rover, amaldiçoei Deus novamente. Seán ia sentado à frente. Clodagh, o Tom, a Anne e eu seguíamos atrás. Apanhei Seán a sorrir para mim pelo espelho retrovisor. Algo me fez andar a cabeça à roda e de repente senti-me atrapalhada. Dei por mim a compor o cabelo duas vezes num espaço de cinco minutos, e entrei em pânico. Anne estava entalada ao meu lado. Inclinou-se e eu sobressaltei-me, com medo de que ela estivesse prestes a vomitar.
– O que se passa contigo? – perguntou.
Descontraí-me.
– Pensei que ias vomitar.
– Eu estou bem – garantiu-me, com o rosto cinzento e a cheirar a vinho.
Não fiquei convencida.
– Queres ir à janela?
Ela inclinou-se de novo.
– Não. Então, o que se passa? – sussurrou.
– Nada – respondi.
– Estás a mentir – sussurrou ela um pouco mais alto.
– Não sei do que falas – murmurei, tentando não parecer em pânico e preocupada que Tom pudesse ouvi-la.
– Algo se passa. Estás calada, não paras de mexer no cabelo desde que entrámos no jipe e Clo contou-me o que aconteceu a noite passada.
Ela sorriu e inclinou-se para trás no assento, recuperando alguma cor.
– Eu ia contar-te – sussurrei, embaraçada e a esmurrar mentalmente Clo na cara.
– Já não era sem tempo! – riu-se ela.
Corei, e, apercebendo-me de que corava, corei ainda mais. Apercebendo-me de que corava mais, corei ainda mais. Estava numa situação embaraçosa e por isso escondi a cara no colo. Clo inclinou-se sobre Tom, receando que eu estivesse maldisposta.
– Emma, estás maldisposta?
Richard parou o carro. Seán ergueu-se sobre o assento.
– Estás bem? – perguntou, preocupado e num tom muito doce.
Ainda da cor da beterraba, decidi responder do aconchego meu colo.
– Estou bem.
– Podes levantar a cabeça? – pediu.
Deixa-me em paz, implorou silenciosamente o meu cérebro.
Ele não ia a lado nenhum, por isso levantei a minha cara avermelhada para encarar a dele.
Clo desatou a rir.
– Richard, por favor, conduz – disse eu, com toda a autoridade que consegui reunir.
Seán voltou para o banco da frente, ligeiramente confuso. Clo pronunciou a palavra «desculpa», mas era óbvio que não era por se estar a rir. Richard continuou a conduzir. Anne ia demasiado maldisposta para se rir, mas senti que ela manteria o riso tolo até chegarmos ao raio da montanha. Fechei os olhos e encostei-me à janela. As minhas pálpebras protegiam-me dos que se encontravam ao meu redor e a minha voz interior repetia
«fica calma, fica calma». Passado algum tempo, comecei a pensar quem estaria eu a tentar enganar. Seán sabia que eu não estava bem e não parecia importar-se. Além disso, já que me havia apercebido de que o amava, o mínimo que podia era tentar não fazer papel de tola a cada instante. Mas eu não conseguia mudar. O problema era que ele me conhecia demasiado bem. Era tudo muito confuso. Mais tarde, quando Richard parou o carro para que Anne pudesse vomitar, dei por mim a olhar pela janela, sorrindo para a bela paisagem que me rodeava e esquecendo o meu pequeno estúpido mundo por um momento.
Iniciámos a caminhada até à montanha pelas onze horas. Ainda continuávamos a andar às três da tarde. Richard, Seán e Tom seguiam à frente, a falar sobre futebol, carros de corrida e a admirarem a flora e a fauna. Clo, Anne e eu ficámos para trás. Inicialmente estávamos mesmo a gostar. Anne sentia-se muito melhor. A paisagem era linda, não chovia e, embora fizesse frio, o céu estava azul. Foi óptimo durante cerca de uma hora. Três horas mais tarde, encontrávamo-nos esgotadas. Perdêramo-nos e os rapazes demoraram algum tempo até notarem isso. Decidimos manter-nos ocupadas a falar sobre o tema da minha recente descoberta. A conversa tomou o curso normal. Sentia-me nervosa e insegura. Elas estavam entusiasmadas e achavam que aquilo ia correr bem. Disse alguns disparates e elas disseram-me que eu era fantástica. Falei mais um pouco sobre coisas sem importância e Clo elogiou o meu cabelo. Depois, lembrei-me da série Friends e parei. Olhei para Clo e Anne. Elas retribuíram o olhar.
– O que foi? – perguntou Clo, mais para me fazer mexer do que para me fazer falar.
– Friends – respondi.
Elas olharam fixamente para mim.
– Ross e Rachel – disse eu, acreditando que seria o suficiente para elas perceberem.
Não foi.
– E? – inquiriu Clo.
Eu mal podia acreditar que não me entendiam. Friends era a sua série televisiva preferida. Era perfeitamente óbvio a que me referia.
– O Ross está apaixonado pela Rachel, em segredo, há muito tempo, mas não diz nada… limita-se a ser seu amigo. Está ao lado dela sempre que ela precisa. É o seu porto de abrigo. Ela tinha acabado de sair de uma grande relação. Ela vai-se divertindo enquanto ele espera nos bastidores. E, quando, por fim, ela se apercebe de que está apaixonada por ele, ele anda a sair com uma chinesa. Na semana passada, ela deu de caras com a rapariga no aeroporto.
Terminei a minha homenagem à série americana a tempo de recuperar o fôlego.
Clo sorriu.
– Emma, está tudo bem. Seán não está com uma chinesa… está ali ao fundo a tentar olhar para o rabo de um veado.
Eu continuava a sentir-me desconfortável.
– É uma analogia – expliquei.
Anne sorriu.
– O que foi? – perguntei.
– Nada – respondeu ela.
Eu permanecia imóvel.
– Foi apenas um episódio engraçado – disse ela, com um sorriso.
Clo deu-me o braço e começou a andar comigo. Lembrou-me que a minha vida não era um episódio de Friends e também previu que a chinesa não iria durar muito tempo. Ross e Rachel estavam destinados a ficar juntos. Eu não tinha a certeza, porque o amor consumado nem sempre era um vencedor de audiências. Sabia que aquilo não era um bom argumento, por isso fiquei calada e prossegui caminho.
Acabámos por encontrar um pub e estávamos todos esfomeados. Eram três e meia e o itinerário programado de Richard fora por água abaixo. As raparigas gritaram vivas. Os rapazes tiveram de ceder. A brincadeira tinha acabado. Comemos bastante e passámos três horas muito agradáveis a beber irish coffee e a aquecer-nos à lareira. Não voltámos para casa antes das oito. Tomámos todos um duche quente, mudámos de roupa e começámos a fazer o jantar apenas às nove. Bebemos vinho, embora Anne se ficasse por uma cerveja fraca. Todos ajudaram, pondo a mesa, metendo música, fazendo os molhos e enchendo os copos, enquanto esbarrávamos uns nos outros. Definitivamente, éramos demasiados cozinheiros num só espaço. Peguei no casaco e decidi ir fumar um cigarro lá fora.
Sentei-me no banco a contemplar a escuridão com apenas o cigarro a iluminar-me o caminho. Ouvi passos atrás de mim e o coração saltou-me no peito porque sabia que era Seán.
– Pensei que tivesses deixado – disse ele.
Sorri, enquanto ele se sentava ao meu lado.
– E deixei – respondi, exalando fumo. – Isto é só uma transgressão.
Ele sorriu.
– Importas-te que te faça companhia? – perguntou e eu quis desesperadamente beijá-lo.
Em vez disso, dei-lhe um cigarro. Fumámos em silêncio, embora eu mantivesse uma grande conversa na minha cabeça.
Seán, como está o teu cigarro? Ah bom. Ouve, a propósito, amo-te e quero fazer amor contigo aqui e agora.
Permanecemos sentados em silêncio.
Depois ele perguntou-me porque sorria.
– Por nada.
Voltámos ao silêncio. Comecei a sentir a tensão no ar. Precisava desesperadamente de dizer qualquer coisa, fosse o que fosse que desse início a uma conversa. A tensão adensava-se no ar. Não conseguia pensar em nada, o que era ridículo – éramos amigos havia anos. Continuei a questionar-me por que razão ele não falava e a desejar que dissesse qualquer coisa, mas Seán limitava-se a fumar. A atmosfera começava ficar estranha, por isso decidi apenas abrir a boca para dizer a primeira coisa que me viesse à cabeça, e ao diabo com as consequências; então assim o fiz.
– Feliz Ano Novo, Seán.
Ele olhou para mim.
– Ainda são nove e meia.
Sorri.
– Bem sei – retorqui, e dei uma passa no meu cigarro, desejando fumar mais rapidamente.
Aquilo era muito difícil. Eu era uma cobarde. Sentia-me vulnerável e assustada. Era engraçado, não fizera ideia de que estava apaixonada por Seán até à noite anterior e, de repente, a possibilidade de o perder mostrava-se assustadora. Seán contara a Clo que estava apaixonado por mim, mas encontrava-se bêbedo e acontecera havia um ano. Talvez ele tivesse seguido em frente
– e por isso ia para Londres. Londres era a chinesa de Seán! Eu estragara tudo, deixara as coisas para demasiado tarde. Ele ia para Londres e eu perdera o barco. Dizer agora fosse o que fosse seria estúpido. Só tornaria as coisas mais difíceis e poderia arruinar definitivamente a nossa amizade. Não tinham passado dois anos desde que John morrera. Quando acabámos de fumar os nossos cigarros intermináveis, decidi que seria melhor deixar as coisas como estavam. Voltámos para dentro de casa e ele pôs o braço à volta dos meus ombros.
– Pareces triste – disse ele.
Sorri e abracei-o com força.
– Não estou triste. Estou feliz por estar aqui – respondi. Senti o seu calor e afinal quis contar-lhe.
* * *
Jantámos e bebemos vinho. Anne até bebeu um copo ou dois. Fomos para a sala de estar. Lá fora, chovia. Richard tinha acendido a lareira. A televisão estava sem som e a aparelhagem tocava. Seán sentou-se ao meu lado e senti que toda a sala se encontrava à espera de que algo acontecesse. Ele não reparou. Entretinha-se a rabiscar no seu bloco de notas. Anne perguntou o que fazia. Respondeu-nos que tinha um artigo para escrever para a terça-feira seguinte e que tomava algumas notas. Clo censurou-o por só pensar em trabalho. Não acreditava que faltavam trinta minutos para a meia-noite, na véspera de Ano Novo, e que ele estava a trabalhar. Ele defendeu-se, dizendo que os seus artigos eram sempre tema de conversa, enquanto ignorava convenientemente o facto de as conversas terminarem sempre em discussões.
Daquela vez, precisava de definir a mulher moderna.
Clo riu-se.
– Fácil. Uma grande namorada, uma esposa da treta.
Todos rimos e concordámos que ela tinha razão.
Ele tomou nota. Então olhou para mim.
– E tu, Em? Se as pérolas, os saltos altos e o espanador definiam uma mulher nos anos cinquenta, o que descreverá uma mulher nos anos noventa?
Era uma boa pergunta. Eu não sabia o que responder. Ele tirou os olhos do bloco notas.
– Então?
– Queres a resposta das revistas? – Sabia que ele queria sempre a resposta das revistas.
Ele sorriu e anuiu.
– Está bem – comecei. – A Cosmopolitan leva-nos a crer que a mulher moderna trabalha arduamente, paga as suas contas, traz consigo preservativos, não é adversa a passar uma noite com alguém que mal conhece. Sabe cozinhar, mudar um pneu furado, fazer contas, dar à luz numa piscina sem anestesia, conservar o corpo de uma rapariga bem dotada de dezasseis anos aos sessenta, ser uma amante desinibida, uma adepta do futebol, ter uma grande colecção de música e gostar de anedotas indecentes.
Os outros riam enquanto Seán rabiscava freneticamente e eu me perguntava porque não se limitaria ele a ler a Cosmopolitan.
Ele olhou para cima passado um bocadinho.
– E o que dizes tu? – perguntou.
– É uma mulher livre – respondi, sem pensar.
Clo começou a cantarolar «Working on the Chain Gang». Os outros juntaram-se, mas Seán limitou-se a sorrir e abanou a cabeça enquanto eu fiquei a pensar no que tinha acabado de dizer.
Sou livre.
Perguntou à Anne quem gostaria ela de ser se pudesse escolher uma personagem feminina qualquer da televisão.
Ela pensou por um minuto, agitando o copo de cerveja com um grande sorriso.
– Lois Lane.
Ele perguntou porquê, embora parecesse demasiado óbvio para nós.
– Por causa do Super-Homem – respondeu ela, sorrindo. Não precisava de dizer mais nada...
Clo concordou e disse que gostaria de ser Pamela Anderson nas Marés Vivas, e Tom apoiou a sua escolha entusiasticamente. Eu disse que seria Dana Scully. No entanto, quando Clo observou que Scully estava sobrecarregada de trabalho, tinha um emprego difícil, não tinha namorado e estava sempre em crise, questionei-me por instantes sobre a minha sanidade mental e mudei rapidamente para Jasmine Bleeth, a melhor amiga de Pamela nas Marés Vivas. Clo levantou os polegares.
Richard ligou o televisor. Faltavam cinco para a meia-noite. Eu estava sentada ao pé do Seán.
Deus meu.
Considerei por momentos a hipótese de acender um cigarro, mas não quis que Anne soubesse que eu ainda fumava. De repente, sorriam todos uns para os outros e gritavam a contagem decrescente. Sentia a bexiga cheia e receei não me aguentar. Gritaram em uníssono «Feliz Ano Novo!». Anne e Richard beijaram-se e abraçaram-se. Clo e Tom deixaram-se afundar os dois no cadeirão. Seán e eu sorrimos um para o outro.
– Feliz Ano Novo, Em – disse ele e o meu coração parou, tornando difícil responder-lhe.
Ele sorriu e puxou-me para junto de si e juro que reanimou o meu coração. Eu estava em polvorosa, tal como uma adolescente, mas depois acabou por me beijar na face e afastou-se.
– Feliz Ano Novo – murmurei, e ali ficámos, atrapalhados, à espera que os outros começassem a separar-se. Depois disso, ouvimos música dos anos oitenta e embebedámo-nos.
Clo e Anne seguiram-me até à cama. Estavam preocupadas por eu não ter tirado partido do beijo de Ano Novo de Seán como fora combinado no dia anterior. Pedi desculpa por ser uma pateta. Anne compreendeu-me, mas Clo não conseguia aceitar aquilo, dizendo-me que tomasse uma atitude. Aleguei que não podia fazer nada.
Clo sorriu.
– Claro que podes. Vais ao quarto dele.
Anne concordou. Já passava das três da manhã, mas os meus protestos caíram em orelhas moucas. Clo relembrou-me desnecessariamente que iríamos voltar para Dublin no dia seguinte e que o tempo se esgotava. Ela e Anne foram até à porta do quarto.
– É agora ou nunca – disse Anne.
– Ámen – Clo baixou a cabeça.
Noel havia mencionado ao telefone que estava a pensar em ir à Nova Guiné no dia de Natal. Perguntei-me se ele teria lá ido ou não, mas esqueci o assunto assim que elas fecharam a porta. Sozinha num quarto escuro, encontrava-me perante uma decisão que poderia levar-me à pior humilhação da minha vida. Podia simplesmente ir ao quarto dele e contar-lhe ou, então, ir para a cama e deixá-lo partir.
De repente, apercebi-me de que não tinha escolha, ou contava-lhe ou então enlouqueceria. A única coisa que havia a fazer era arranjar coragem, por isso lavei-me, escovei os dentes, pus um batom e fiquei encostada à porta do meu quarto durante muito tempo. Foi a ameaça de cãibras no pescoço que me levou a avançar.
Fui até à porta do quarto de Seán e parei, nervosa, mas sabia que não havia possibilidade de voltar atrás, assim bati à porta.
– Quem é?
Parecia estar acordado. Eu não contava apanhá-lo totalmente desperto.
– É a Emma – respondi.
A porta pareceu abrir-se de imediato. Ele disse-me «olá» e eu respondi «olá». Disse-lhe que precisava de falar com ele. Ele convidou-me a entrar.
As cortinas estavam abertas e uma meia lua espreitava pelo vidro. Ajustei os olhos à semiobscuridade para me dar conta de que as cortinas iam até ao chão. A janela era uma porta para o pátio, que dava para um pátio privado, com vista para o rio. Era muito bonito. Aproximei-me e abri a porta do pátio. Ele sorriu.
– É um grande quarto.
Não acreditava no que via; eu nem sequer tinha uma casa de banho privativa. Ele seguiu-me até ao pátio. Eu olhava para o banco de dois lugares ao lado das plantas em vasos.
– Eu não tenho um pátio – queixei-me.
Ele sorriu.
– Já te mostrei a minha casa de banho privativa? – perguntou, quase a rir.
Ficava atrás do que parecia um roupeiro. Era luxuosa, a banheira redonda e cheirava a Coco Chanel. Eu não podia acreditar no que via. Ali estava Seán hospedado no Ritz, enquanto eu fora atirada para o raio do Holiday Inn. Enquanto ia pensando em Anne como uma grande cabrinha, Seán aguardava que eu lhe explicasse a razão da minha visita. Então, quando recuperei da indignidade de me ter sido dado um quarto rasca, segui-o de volta ao seu luxuoso aposento. Ele sentou-se na cama e eu sentei-me ao seu lado. Com a injustiça esquecida, fui forçada a lidar com o assunto que tinha em mãos. O meu coração bateu mais depressa; senti os músculos ficarem tensos. Ele perguntou se estava tudo bem, enquanto olhava para mim estranhamente. Eu garanti-lhe que sim, mas o meu sorriso histérico e meio louco provavelmente deixou-o com algumas dúvidas. Com o passar dos segundos, ele começou a parecer assustado com a minha sanidade mental. Aquele não era o começo que eu esperara, mas mantive-me firme. Era o momento de lhe dizer que o amava.
Suspirei e falei.
– Não quero que te vás embora – disse-lhe.
Porra, eu queria dizer que te amava.
Não seguira o plano e encontrava-me em território novo. A expressão dele alterou-se e ele olhou para mim intensamente.
– Porquê? – Pareceu um bocado rouco.
Rezei a Deus para que ele não estivesse a ficar constipado e respondi-lhe o mais sinceramente que pude.
– Porque ia sentir muito a tua falta.
Porra, porra, porque não consigo dizê-lo logo?
Quis olhar para o lado, mas o seu olhar prendeu o meu. Os seus olhos estavam húmidos, bem abertos e tristes. Vi a sua boca macia e a poucos centímetros da minha. Ele só vestia umas calças de fato de treino e, embora os seus olhos me fixassem, conseguia sentir a proximidade do seu peito. Meu Deus, senti-me fraquejar.
– Porquê, Emma? – perguntou ele.
Amo-te.
– Porque irias sentir a minha falta? – desafiou ele.
– Porque… – A minha voz abandonou-me.
– Porque o quê? – perguntou, com um tom de urgência.
– Porque te amo – confessei, num tom algo estridente. Embora, por fim, o tivesse dito. Creio que respirei fundo.
– Amas-me? – repetiu ele, céptico.
Assenti com a cabeça, porque era verdade.
Ele sorriu.
– Tu? Amas-me?
– Sim.
– Não gostas de mim apenas como amigo?
– Não, não é apenas como amigo.
Ele aproximou-se.
– Há quanto tempo?
– Há muito tempo – respondi com sinceridade.
Ele sorriu.
– Eu também te amo – disse-me então.
De repente estávamos aos beijos e oh, meu Deus, como aquele homem sabia beijar. E depois tocávamo-nos e não me pareceu estranho – em vez disso, soube bem, muito bem, demasiado bem para conseguir explicar. Não me recordo de um único pensamento que tenha tido. Apenas de um sentimento intenso de felicidade. Despimo-nos com uma surpreendente velocidade e destreza. Era como se já nos conhecêssemos intimamente. Sem batermos com a cabeça um no outro, sem sermos desastrados, sem toques de mão fora do que pretendíamos tocar. Era como se, de alguma maneira, nos encaixássemos perfeitamente.
Ele encontrava-se sobre o meu corpo, nu, quando me perguntou:
– Tens a certeza?
Olhei para ele.
– Sim – respondi a rir.
Puxei-o para mim e ele riu-se e, depois, estávamos aos beijos novamente e ele estava dentro de mim e, oh, meu Deus, como aquele homem sabia…
Mais tarde, encontrávamo-nos na banheira redonda da casa de banho de Seán com um cheiro impossível a Coco Chanel, quentes e nus.
– Em que pensas? – perguntou-me, quando me apanhou a sorrir.
– O que me terá feito demorar tanto tempo? – perguntei.
Ele riu-se.
– Tu és lenta.
Fez-me sorrir porque ele tinha razão. Eu era lenta, mas ninguém é perfeito. Falámos durante toda a noite, deitados nos braços um do outro, sobre o passado e sobre o futuro. Ele disse-me que não iria para Londres e eu fiquei tão feliz que chorei.
Na manhã seguinte, tomámos o pequeno-almoço na cama. Richard, Anne e Tom tinham, muito gentilmente, acordado mais cedo para nos trazerem comida. Agarrámo-nos aos lençóis, tendo apenas dormido vinte e cinco minutos, assustados e sentindo-nos bastante nus, enquanto eles sorriam eufóricos e diziam coisas como: «Que bom para vocês!» «Calculámos que tivessem apetite!»
Parecia que a qualquer momento um deles ia agarrar numa máquina fotográfica e gritar: «Sorriam!» Depois, saíram e ficámos a olhar um para o outro, emocionados com a situação e, de seguida, desatámos a rir e eu senti-me como se tivesse dezasseis anos.