Estarás Sempre Comigo
20 Chucky, o regresso a casa e a vaca
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Chucky, o regresso a casa e a vaca
E stava um dia fresco e húmido de Janeiro, com um céu cinzento de chumbo atravessado por um raiozinho de sol que penetrava por entre uma aberta nas nuvens. A terra estava seca e enrijecida pelo frio que permeava até a roupa mais quente. Eu tinha as mãos azuladas sob as mangas que me cobriam os punhos. Passei pelos portões e fui serpenteando através das campas que levavam até à do John. Doía-me o nariz e sentia a pele à volta dos lábios a gretar. Estuguei o passo e prometi dizer o que tinha a dizer e ir-me embora. Cheguei ao meu destino minutos depois, mas descobri que naquela terrível manhã fria não me encontrava ali sozinha. A mãe de John, Patricia, estava a limpar a lápide. Pensei momentaneamente em esconder-me, mas os seus olhos encontraram os meus e fui apanhada.
– Emma! – Sorriu calorosamente, apesar do frio.
– Patricia! – bradei, demasiado alegre.
Ela aproximou-se com os braços estendidos e fui ao encontro do seu abraço.
– Já não te via há tanto tempo.
Pedi profusamente desculpas, sentindo-me ruborizar.
Ela apercebeu-se do meu sentimento de culpa e pôs-me de imediato à vontade com o seu largo sorriso.
– É tão bom ver-te!
– A ti também, Patricia. – Disse-o com sinceridade, apesar do embaraço que sentia.
Peguei numa esponja e juntas limpámos a lápide. Ela falou sobre a vizinha que ganhara uma viagem à volta do mundo e eu falei sobre a escola e as aulas. Quando a lápide ficou a brilhar de limpa, perguntou-me se queria ir com ela tomar um café. Eu não tinha falado com John, mas estava a ter uma conversa tão agradável com ela e, além disso, o café significava calor.
Desatou a chover quando voltávamos aos carros. Estávamos as duas encharcadas quando entrámos no café. Um velhote muito simpático pegou nos nossos casacos e pendurou-os num cabide na porta. Sentámo-nos ao pé da lareira que crepitava, a um canto da sala, e começámos lentamente a aquecer. Uma empregada tomou nota dos nossos pedidos e ficámos a olhar uma para a outra como se fôssemos velhas amigas que haviam estado afastadas mais tempo do que o desejado.
– Pareces feliz – disse ela.
O sentimento de culpa voltou.
– Estás feliz, Emma? – perguntou ela, amavelmente.
– Sim – admiti.
– Linda menina – disse ela.
Não queria falar-lhe de Seán porque isso seria injusto. Magoaria demasiado, a minha felicidade com o melhor amigo de John, enquanto ele dormia debaixo da terra fria. Pareceu-me que não o devia dizer.
– E o Seán? – perguntou ela.
– Está bom – disse eu, corando.
– A tua mãe contou-me sobre vocês os dois e fiquei feliz com isso. Estou tão contente, Emma. Estávamos todos preocupados que não fosses encontrar ninguém.
Oh, meu Deus. Devia ter dito qualquer coisa.
Não conseguia olhar para ela.
Ela riu-se.
– És tão querida.
– Desculpa, Patricia. – Quis chorar, mas já estava suficientemente molhada.
– Não há necessidade de pedires desculpa – disse ela.
– Eu ainda o amo – confessei, à laia de desculpa e algo pateticamente.
– Eu sei, eu também, mas ele partiu e nós estamos cá.
Ela era tão sensata. De repente, senti a falta dela.
– O Seán é maravilhoso – disse eu, com um sorriso.
Ela riu-se.
– Tenho a certeza de que sim… teve bastante experiência.
Rimo-nos e brindámos com as nossas chávenas de café. Era tão bom vê-la. Mais tarde, abraçámo-nos ao pé dos carros e prometemos manter contacto. Apercebi-me a caminho de casa que não tinha de contar ao John. Ele sabia e estava feliz por mim.
* * *
As semanas a seguir ao Natal voaram. Seán mudou-se para minha casa em princípios de Fevereiro. Todos estavam felizes por nós, excepto o gatito Leonard, que sofria intensamente com a nova dieta. A falta de comida aliada à vinda de um novo companheiro causou uma reacção violenta. De início, o gatinho mostrou o seu descontentamento fazendo chichi no lado da cama de Seán, portanto certificámo-nos de que a porta do quarto ficava sempre fechada, o que deu resultado durante alguns tempos, até que uma noite, Seán, a respirar com dificuldade, acordou a meio da noite e encontrou Leonard a dormir enroscado sobre a sua cara. Acordei a tempo de ver Leonard bater na parede oposta, executando uma espécie de salto mortal e aterrando nas suas pequenas patas gordas. Seán explicou-me a situação, enquanto o Leonard ficava ao fundo da cama com o pescoço muito esticado, fitando-o com um olhar venenoso. Foi então que notei que a porta estava fechada. Olhei para Seán, que parecia não conseguir desviar os olhos de Leonard.
– Deixaste o Leonard lá em baixo quando viemos para a cama, não foi?
Ele fez um gesto de assentimento.
Apontei para a porta.
– Como chegou ele até aqui então? – perguntei, intrigada.
Seán empalideceu.
– Caraças, ele é como o Chucky! – murmurou.
Sentámo-nos a olhar para o gato durante muito tempo, tentando perceber como teria ele chegado à cara de Seán. O gato acabou por desistir e miou, dirigindo-se para a porta. Deixei-o sair e tentei perceber o que se tinha passado. Seán dormiu sentado nessa noite e nunca descobrimos como aquilo acontecera.
Na manhã seguinte, falei sobre isto com Doreen, que tentava escapar ao marido, que se juntara recentemente ao Partido dos Verdes. Aparentemente, ele começara a separar o lixo dela e a tentar convencê-la a instalarem um sistema para reciclar o lixo caseiro. Ela sentou-se à mesa da cozinha enquanto eu fazia um chá.
– Quer dizer, pelo amor de Deus, Emma, quando me casei com ele, nunca concordei em tomar banho na minha própria urina reciclada!
Concordei que era mais do que quaisquer votos de casamento poderiam suportar. Leonard passou por nós e vi-o a dirigir-se para a sala de estar. Dei uma corrida, fechei a porta e procurei o conselho da minha amiga mais velha e mais sábia. Expliquei os acontecimentos problemáticos da noite anterior.
– Como entrou ele no quarto? – perguntou ela.
Respondi-lhe que não sabia.
– Estranho – retorquiu, intrigada.
Eu estava à espera de mais. Levantou-se, abriu um pouco a porta e espreitou para ver Leonard sentado à janela a observar um pássaro a saltitar sobre o relvado. Ao sentir a sua presença, o gato voltou-se para a observar. Ela ficou ali durante alguns instantes, analisando-o, antes de fechar a porta.
– Ele está esfomeado – disse-me.
Não percebi o que aquilo tinha que ver com o facto de o meu gato ser um psicopata.
Ela sentou-se.
– Ele tem aquele ar assombrado de uma modelo! – Riu-se.
Eu ainda não estava a entender.
– Quando é que o puseste de dieta? – perguntou ela.
– No princípio de Fevereiro – respondi.
– E quando é que o Seán veio viver para cá? – perguntou
– No princípio de Fevereiro – respondi.
– Bom, então aí tens. Ele associa a fome ao Seán. Provavelmente, pensa que, se matar o Seán, será alimentado.
Meditei naquilo.
– Podes ter razão.
– Eu tenho mais de sessenta anos, querida. Tenho sempre razão.
Acreditei nela até me perguntar se já alguma vez tinha considerado a hipótese de meter Leonard numa terapia para animais. Queixei-me que já pagava uma fortuna por um nutricionista. Ela assentiu com a cabeça, com ar sábio, e lembrou-me que eu poderia sempre pedir ao veterinário a eutanásia. Acho que ele a ouviu porque quando ela ia a sair o gato desatou numa correria para as suas pernas. A Dor não se mexeu – limitou-se a olhar para baixo, para o seu pequeno focinho gordo, e ameaçou parti-lo. Ele afastou-se.
– Uma mão firme é tudo o que é preciso – disse, e saiu. Olhei para Leonard.
– Aguenta-te! – gritei. Virei-lhe as costas e fui para a cozinha.
Mais tarde, informei Seán do que acreditava ser o problema de Leonard. Ele concordou que a teoria tinha algum mérito. Decidiu que devia dar ao Leonard as suas escassas refeições. Assim foi, e o gato urinou na comida. Não lhe demos mais nada durante toda a noite, trancámos a porta do nosso quarto e Seán voltou a adormecer sentado na cama. Isto durou três dias. Ao terceiro dia, o gato comeu o seu franguinho cozinhado a vapor e, depois disso, já não houve mais tentativas de homicídio.
As semanas e os meses foram passando e, enquanto Leonard perdia peso, Seán e eu habituámo-nos a ser um casal. De início, eu estava preocupada com o facto de ele se mudar para a casa que eu partilhara com o seu melhor amigo. Ponderámos até arranjar uma nova casa, mas, na altura, as rendas estavam a ficar mais caras. Eu gostava imenso do sítio onde vivia e ele também. Comprámos uma nova cama, mas, ao não conseguir livrar-me da antiga, O Seán sugeriu que a mudássemos para o quarto de hóspedes e deitássemos fora a cama desse quarto. Ele não estava com ciúmes nem se sentia sequer ameaçado nem aborrecido com a minha posição. Em vez disso, compreendeu as minhas razões e eu amei-o ainda mais por isso.
* * *
Noel partira havia um ano. Seán e eu encontrávamo-nos em casa dos meus pais para o jantar de domingo. O meu pai estava adoentado, a minha mãe com uma dor de cabeça e eu com o período. Seán encheu-se de coragem, ali rodeado de sofrimento.
– Então como vai o trabalho? – perguntou ele ao meu pai.
– Difícil – respondeu o meu pai.
Perguntou então à minha mãe como corriam as suas aulas de brídege.
– Sou uma trapalhona – retorquiu ela.
Vi que começava a ficar desanimado. Senti pena dele.
– O Seán foi promovido – disse eu, animada. Eles ficaram contentes por ele e deram-lhe os parabéns. – Vai ser o editor de uma nova revista que irá ser lançada em Maio.
A minha mãe ficou radiante porque o título de «editor» a impressionava. No entanto, não conseguiu evitar dizer que as revistas masculinas estavam cheias de coisas que não interessavam a ninguém.
– Quero dizer, que raio sabem os homens sobre seja o que for? – perguntou ela.
Ri-me, enquanto Seán e o meu pai sorriram e trocavam um olhar sabedor.
O telefone tocou e era Noel. A minha mãe quase pisou o meu pai ao tentar chegar rapidamente ao telefone. O seu humor melhorou de imediato. A minha mãe estava radiante e ia pontuando cada frase com a palavra «filho», enquanto o meu pai insistia em gritar para o telefone, apesar de a ligação estar boa. Quando chegou a minha vez de falar, o meu irmão contou-me que estava em África. Imaginei-o bronzeado, com a barba por fazer e um cabelo à hippy, a beber Coca-Cola e a jogar póquer com personagens obscuras, até que ele mencionou que a irmã Augustino e a madre Bernadette o haviam deixado numa aldeia para fazer a chamada. Contei-lhe o que acontecera comigo e com Seán. Claro que ele já sabia e chamou-me lenta. Tinham passado quatro meses desde que faláramos a última vez, e sentia terrivelmente a sua falta. Chamei-lhe sacaninha descarado, para descontentamento da minha mãe.
– Emma, pelo amor de Deus! – repreendeu-me, num tom estridente.
Quase conseguia ouvir Noel sorrir do outro lado da linha. Perguntei-lhe quando viria a casa, ao que ele respondeu que seria durante o ano e, de seguida, despedi-me porque Seán não parava de me chatear para lhe dar o telefone. Quando ficou com o telemóvel, não falou muito – em vez disso assentiu imenso, depois acabou por levar o telefone para o corredor.
No caminho de regresso a casa, perguntei-lhe sobre o que tinha ele conversado com Noel, mas Seán limitou-se a sorrir e nada disse. Achei aquilo muito irritante e lembrei-o da força bizarra dos meus murros, mas, mesmo assim, ele não se descoseu. Quando chegámos a casa, distraiu-me com sexo e esqueci o assunto em pouco tempo.
Dois domingos depois, Seán não pôde ir jantar a casa dos meus pais; assim, fui sozinha. Os meus pais e eu sentámo-nos à mesa e estávamos a discutir o progresso da dieta de Leonard quando a campainha tocou. A minha mãe levantou-se para ir ver quem era. O pai e eu continuámos a debater o teor de gordura do atum quando ouvimos a minha mãe dar um grito. Senti um baque no coração e o estômago às voltas. O meu pai deu um salto, mas eu estava à frente dele. Corremos para o vestíbulo à espera de algo terrível; em vez disso, deparou-se-nos a minha mãe abraçada a Noel e Seán, sorridente, ao lado deles. O meu pai abraçou o filho e a minha mãe ao mesmo tempo. Era como uma cena de telenovela.
– Olá, Em – saudou Noel, sorrindo por cima do ombro do meu pai. – Tiveste saudades minhas?
Os meus pais separaram-se e eu agarrei-me a ele e abracei-o com toda a força. O meu pai recuou, observando os filhos com lágrimas nos olhos. Noel escapou-se dos meus braços e voltou ao pai. Abraçaram-se com força e o meu pai chorou. A minha mãe ofereceu a Seán três sobremesas como recompensa por ter trazido o seu filho a casa, que ele comeu com agrado, enquanto Noel nos falava sobre as suas viagens, nos mostrava fotografias de lugares exóticos e nos ia entregando lembranças de todo o mundo. Estava muito descontraído e, quando se ria, os seus olhos brilhavam. Cansados da emoção, os meus pais acabaram por ir para a cama, deixando-me a mim, a Seán e a Noel sozinhos, três velhos amigos a porem a conversa em dia.
Noel estava muito feliz por eu e Seán finalmente nos termos encontrado. (Palavras dele, não minhas.) Chamei-lhe lamechas. Noel chamou-me cara-de-pau e Seán concordou. Não pude deixar de me lembrar da bela amizade entre John e Seán. O pensamento, embora fugaz, fez-me sorrir. Seán viu o meu sorriso e apertou-me a mão, trazendo-me de novo para o presente.
Parece que Seán já confessara os seus sentimentos por mim a Noel havia muito tempo.
– Não foste a única a ir ter comigo ao confessionário, Em – brincou Noel.
Seán riu-se, lembrando-se de um dia se ter deixado levar durante uma das suas conversas confessionais com o meu irmão e de acender um cigarro. Noel cheirou o fumo e pensou que a igreja estivesse a arder.
Passámos a maior parte da noite a conversar sobre cultura africana, tecnologia asiática e como os elefantes eram criaturas magníficas. Era a primeira noite de Noel em casa, por isso nenhum de nós falou sobre o futuro. Não o queríamos pressionar a revelar-nos os seus planos.
* * *
Clo chegou a minha casa no sábado seguinte. Eu andava atarefada a lavar roupa. Ela estava radiante.
– O que foi? – perguntei.
– O Tom pediu-me em casamento – respondeu.
Deixei cair o cesto da roupa.
Ela riu-se e começou a dançar de felicidade.
– Eu disse que sim.
Tropecei no cesto, mas consegui abraçá-la sem me magoar. Parece que estavam em casa, a ver This Life e, durante uma discussão sobre se Miles era um homem sensual ou não, Tom fez-lhe o pedido. Assim, sem mais nem menos. Iriam comprar o anel nessa tarde. Sentámo-nos na cozinha a conversar.
– Tem graça a forma como as coisas funcionam, não é? – perguntou ela.
– Pois tem – respondi, percebendo o que ela queria dizer.
– Sempre pensei que o próximo casamento seria o teu com o John.
Sorri.
– Também eu.
– Achas que ele teria gostado do Tom?
Fiz um gesto de assentimento com a cabeça.
– Sem dúvida. Ela sorriu.
– Pois. O Tom também teria gostado dele.
Perguntou-me então se eu ainda sentia a falta dele. Respondi que sim.
– Mas não mudavas a tua vida agora? – perguntou.
Respondi-lhe que não tinha a força para poder mudar nada e que, pela primeira vez, percebia porquê e, no fundo, não queria mudar as coisas – afinal, se eu controlasse a vida e a morte, provavelmente iria estragar tudo.
– Este mundo é um tabuleiro de xadrez e nós somos meros peões – declarei, com um ar pomposo.
Ela olhou para mim fixamente.
– Só temos de desfrutar do jogo – tentei explicar.
– Cala-te – pediu, pondo-me no meu lugar.
Ri-me.
– Está bem, mas percebes o que quero dizer.
– Ninguém percebe o que queres dizer quando começas a divagar. – Sorriu. Depois, passado um bocado, acrescentou: – É bom ver-te feliz.
– Eu também gosto de te ver feliz.
Tudo iria correr bem, pelo menos por algum tempo, e eu podia viver com isso. Seán era o meu futuro, estava apaixonada e talvez houvesse, no fundo, uma parte de mim que dizia que me apaixonara por ele a primeira vez que o vira. Sempre achei que ele era muito bonito. Sorri enquanto me lembrava. Ela perguntou-me porque sorria e eu expliquei-lhe. Ela concordou.
– A vida é engraçada – comentou, com um ar triste.
– Pois – concordei, mas nada me perturbaria no dia em que a minha melhor amiga me dissera que ia casar.
– O Tom é um bom partido – observou ela.
– Oh, bem sei – concordei.
Doreen chegou então com uns biscoitos. Instalou-se à mesa da cozinha.
– Não vão acreditar no que ele anda a magicar agora – disse ela, e sabíamos que falava do marido.
Clo riu-se e pôs a chaleira ao lume.
Dor contou-nos que ele estava numa marcha de protesto contra o abate e venda de árvores. Clo achou que se calhar até tinha razão. Ela lera num sítio qualquer que as árvores eram importantes. Doreen disse-nos que eram árvores de Natal.
Clo adorava árvores de Natal. Pensou um pouco.
– Oh, o que importa isso? Dor, vou casar-me!
Dor pousou a chávena de chá.
– Ama-lo? – perguntou.
– Mais do que amo sapatos!
– Ele ama-te?
– Mais do que ao futebol!
Doreen acabou o seu interrogatório perguntando se ele teria algum interesse no Partido dos Verdes.
– Que eu saiba, não.
– Óptimo! Toda a sorte do mundo para vocês, meu amor.
Perguntei a mim mesma como teria sido Doreen nos seus vinte anos. Se eu e Clo aos sessenta anos também iríamos estar na cozinha a queixarmo-nos dos nossos maridos e dos seus esquemas ou de os nossos filhos serem uns ingratos, a dar conselhos aos jovens que vivem na porta ao lado e a fazer bolinhos que se comiam enquanto todos os problemas eram discutidos.
Clo e Doreen saíram juntas. Clo ia ter com o noivo para comprarem o anel, e Doreen para ir buscar o marido perto de uma árvore. Voltei a tratar da roupa e ia começar a passar a ferro quando Noel chegou.
– Cortaste o cabelo – gemi. Gostava imenso de o ver com o cabelo comprido.
Ele limitou-se a sorrir, dizendo:
– Vou encontrar-me com o bispo amanhã.
– Podias usar um chapéu – aconselhei, mas ele apenas sorriu.
– Não para isto.
Parecia mais velho, mas mais feliz. As rugas que tinham aparecido à volta dos olhos no último ano apenas serviam para realçar a luz que brilhava no seu íntimo.
– O que vais dizer? – perguntei, fazendo figas com os dedos.
– Sou um padre, Emma – disse ele num tom que sugeria uma alegria resignada.
Não tenho problemas em admitir que senti um peso no coração. Ocultei o meu desapontamento limpando a bancada. Não estava à espera. Pensei que as suas aventuras à volta do mundo lhe teriam feito ver que ele não pertencia à Igreja, mas, lá está, eu não era Noel.
– Então e a questão de nunca poderes ter família, amor ou sexo? E ver as outras pessoas viverem a sua vida, mas ficares de fora? E a solidão? – perguntei, ficando cada vez mais aborrecida pela sua revelação.
Ele pegou-me na mão.
– Sabes, vivi muitas coisas ao longo deste último ano. Algumas delas maravilhosas, excitantes. Tudo era novo para mim e um desafio, mas vi também coisas, Em, coisas que as pessoas nunca deveriam ter de ver, e muito menos viver.
Falou-me da viagem que fizera ao Sudão e, em particular, de um menino de quatro anos que ele encontrara a morrer de má nutrição. Tinha o corpo numa lástima, os ossos quase a rasgar a pele, os músculos atrofiados, o ventre inchado. Estava cego, a maravilhosa dádiva da saúde com o qual nascera fora-lhe roubada. A pequena criatura estava sozinha no mundo. A mãe morrera um mês antes e o meu irmão encontrara-o moribundo, numa cama suja, a chamar pela mãe. Quando Noel pegou na mão do menino, as lágrimas correram pelo rosto emaciado. O menino agarrou-se a ele, desesperado, não queria ser abandonado mais uma vez. Tinha quatro anos e sabia que estava a morrer. O meu irmão cantou-lhe uma canção. Tratou dele e, quando a criança entrou em insuficiência renal, deitou-se a seu lado, tomou-o nos braços e rezou em voz alta, beijando-lhe o rostinho molhado. Aquele pequenino homem nunca iria ter a vida que nós tomamos como certa. Nunca conheceria a doçura que a vida nos pode trazer. Apenas iria conhecer perda e dor. Porquê?
A sua história causava uma dor profunda. Fez-me perceber a sorte que tínhamos. Mesmo quando perdemos, muitas vezes acabamos por ganhar. Então e ele? Quando iria aquele menino ganhar alguma coisa? Noel ficou com a criança durante dois dias. Deu-lhe a extrema-unção e depois o menino morreu nos seus braços; Noel jura que morreu com um sorriso nos lábios. Parece que a presença do meu irmão fora tudo o que precisara. A sua alcunha era Bassa, e queria ser médico quando fosse grande. Noel interrompeu-se, com o rosto molhado pelas lágrimas. Eu fiquei sem saber o que dizer e sentia o rosto ardente.
– Ele é a minha família, Em.
Sentei-me envolta em tristeza pelo rapazinho que nunca conhecera e pelo meu irmão, que o vira morrer.
– Vais voltar, então.
O coração pesava-me, começava a despedaçar-se.
– Vou voltar – confirmou.
– Podias trabalhar numa organização humanitária…
– Sou padre.
Chorámos os dois, mas, no fundo, sabíamos que ele estava a fazer o correcto e, apesar de ter o coração a sangrar e de sentir um estranho zumbido nos ouvidos, sentia-me orgulhosa por ter um irmão assim. Envolvi-o nos braços.
– Adoro-te.
– Também te adoro, Em.
Foi o fim da conversa.
* * *
Uma semana depois, andava nas compras com Clo. Procurávamos roupa para a sua festa de noivado.
– Como fica o meu rabo grande nisto? – perguntou Clo pela décima quarta vez.
– Tu és magrinha, Clo. Como pode o teu rabo ficar grande nalguma coisa? – respondi pela décima quarta vez.
Já não podia com os pés doridos, e não estava com disposição para compras. Por fim, ela lá escolheu um vestido preto, que, inacreditavelmente, se parecia com os outro oito vestidos pretos que ela já tinha no roupeiro. Fi-la ver isso, mas os meus comentários não foram bem recebidos.
– Emma, não percebes nada – comentou, a caminho da caixa.
Eu estava demasiado esfomeada para discutir. Já tínhamos os sapatos comprados e, finalmente, íamos comer. Sentia-me praticamente de rastos e Clo estava bastante impertinente. Tínhamos acabado de pedir a comida quando o telemóvel dela tocou. Era o número de telefone do trabalho de Tom. Ela atendeu, mas não era Tom. Vi o seu sorriso desvanecer-se e empalidecer. Tom tivera um acesso de dores fortíssimo e fora levado para o James’s Hospital, de ambulância. Saímos do restaurante sem dizer nada. Chegámos ao carro com poucas palavras.
– Ele vai ficar bem – disse-lhe, aterrorizada por poder estar errada.
– Eu sei – respondeu, apática.
Nenhuma de nós conseguia acreditar no que acontecera. Ela guiou como uma doida e não me queixei. Corremos até ao hospital, quase aterrando em cima do balcão de informações. O pai de Clo morrera de ataque cardíaco e, ao encontrar-se ali, naquele balcão, sabia que ela, no íntimo, estava convencida de que Tom teria o mesmo destino triste. Tremia, torcia as mãos e, quando tentou falar com a enfermeira, ficou sem voz. Agarrei-a com firmeza, aterrorizada, à espera de um desabafo de dor. Ela aclarou a garganta e perguntou pelo noivo. A mulher sorriu e verificou os dados no computador. Clo fechou os olhos, mas os meus estavam fixos na mulher e no monitor. Olhou para nós ainda a sorrir.
– Ele está a ser operado, minha querida – respondeu, com ar alegre.
Uma operação era uma coisa boa. Uma operação significava que ele não tinha morrido. O pai dela não chegara à cirurgia. John não chegara a ser operado. Eram boas notícias, e sentimos isso. Clo suspirou fundo. Tom não estava morto e, depois, ambas nos lembrámos que isso ainda podia acontecer. As pessoas morriam nas operações, e o que podia haver de errado com ele? Clo ficou branca outra vez e acho que também fiquei como ela.
– É alguma coisa no coração? – perguntou, já a chorar, antecipando a resposta.
As lágrimas queimavam-lhe os olhos e agarrava-se à minha mão com tanta força que era possível já ter fracturado algum osso. A mulher olhou para o ecrã outra vez.
– Não – sorriu. – Pensamos que é o apêndice, querida.
A palavra apêndice ficou a pairar sobre nós. Olhámos uma para a outra.
– Suspeitam de apendicite? – perguntou Clo, voltando-lhe a cor ao rosto.
– Sim. Já não deve demorar muito – confirmou a mulher, mantendo o sorriso.
– Suspeita de apendicite – repeti, para ter a certeza de que não partilhávamos uma alucinação feliz.
– Apendicite – confirmou Clo, sorrindo, e depois rimo-nos histericamente sem conseguir parar. Clo inclinava-se para mim com os joelhos juntos, como se precisasse de ir fazer chichi, e eu ia limpando as lágrimas da cara e esforçava-me por não resfolegar.
O sorriso da mulher desapareceu. Obviamente, pensou que éramos doidas. Isso tornou a situação ainda mais engraçada. Eu precisava de fazer chichi. Clo já estava com dores no rosto de tanto rir e, temendo que estivéssemos prestes a ser expulsas do hospital, recuperou alguma compostura.
– Desculpe – disse ela à mulher –, mas importa-se de nos dizer onde é a casa de banho das senhoras?
Então, desatámos às gargalhadas, e a mulher sugeriu friamente que saíssemos do hospital até nos recompormos.
Assim, ali estávamos nós, sentadas no carro de Clodagh ao pé do hospital. Quando ficámos calmas, ela virou-se para mim.
– Achas que já acabaram de o operar? – perguntou.
Olhei para o relógio.
– Acho que é uma operação que só dura vinte minutos.
Ela ficou séria.
– Céus, Em, o que hei-de fazer?
– O que queres dizer com isso?
– Daqui a pouco ele irá para o quarto e proibiram-nos de entrar.
– Não, não proibiram. A empregada apenas pediu que nos recompuséssemos.
– Parecíamos umas idiotas lá dentro. A apendicite é uma coisa grave. Eu não queria rir-me daquilo… só que fiquei tão aliviada por não se tratar do coração!
– E eu fiquei contente por ele não ter sido atropelado! – admiti.
– Achas que ele vai ficar bem? – perguntou, de súbito, empalidecendo um pouco.
– Tu ficaste bem quando foste operada ao apêndice? – perguntei.
– Sim – admitiu Clo.
– E eu, fiquei?
– Bem, gemeste muito, tanto quanto me lembro, mas também eras cá uma queixinhas em adolescente… – sorriu.
– Bem, então, eles descobriram a tempo, estão a operá-lo. Ele vai ficar bom num instante.
– Está lá dentro o Rupert, o irmão dele – disse Clo, antes de reparar que eu limpava fios invisíveis das minhas calças.
– Pára com isso!
– Desculpa – respondi, cruzando as mãos sobre o colo. – Queres entrar?
– Ainda não. Não suporto o Rupert – confessou-me.
– Ai sim? Porquê? – perguntei, interessada. Ela nunca o mencionara antes.
– Tem a mania que sabe tudo – balbuciou.
Assim que consegui informações sobre a localização de Tom da parte da mulher glacial ao balcão de entrada, e tendo pelo menos uma hora de espera antes de Tom recobrar, dirigimo-nos à cantina, pedimos bacon com couves, que não nos apetecia, e esperámos por Seán.
Aguardámos quase meia hora. Já tínhamos acabado de comer. O café arrefecera. Estávamos com aquela sensação incómoda de nos encontrarmos a ocupar uma mesa vazia quando há cerca de cinquenta pessoas com bandejas na mão à espera de lugar. Por fim, uma velha senhora com artrite em ambas as pernas e cabelo azulado veio até à nossa mesa, vociferando para a amiga que continuava na fila.
– Já não posso mais, Dolores, os meus joelhos não aguentam!
Percebemos a indirecta e fomos lá para fora, beber o café insípido em copos de plástico entre um grupo de fumadores, um dos quais teve a simpatia de nos oferecer um cigarro.
– Não, obrigada, deixámos de fumar – admitiu Clo, com alguma tristeza.
Quinze minutos e dois cigarros depois, chegou Seán. Tom fora finalmente transferido para o terceiro piso.
O irmão Rupert encontrava-se sentado junto à cama.
– Onde raio estiveram vocês?
Antipatizei com ele imediatamente.
Tom estava ligado ao soro, babando-se e imerso num nevoeiro induzido pelos medicamentos, mas, assim que viu Clo, sorriu-lhe.
Ela inclinou-se e beijou-o, ignorando ostensivamente o irmão.
– Desculpa, tu já estavas a ser operado quando chegámos ao hospital.
Tom sorriu e anuiu com a cabeça.
O irmão olhava para a Clo com ar descrente.
– Trabalhas só a dez minutos do hospital.
Ai que vontade de o esmurrar!
Clo limitou-se a sorrir e respondeu calmamente:
– Bem, cá estamos.
– Mais vale tarde do que nunca – resmungou Rupert.
– Porque não te calas? – sugeriu Clo, embora continuasse a sorrir.
Tom soltou uma risada, apesar de não se perceber se seria por achar graça a Clo ou por estar a ver elefantes cor-de-rosa a dançar.
O irmão continuava sem se deixar impressionar.
– Ele podia ter morrido, sabes?
Clodagh esboçou um sorriso falso.
– Ele está bem.
– Pode morrer-se de apendicite e não é assunto para rir – rosnou Rupert.
O sorriso de Clo esmoreceu.
– Olha, vai levar no cu, Rupert – retorquiu ela e Tom riu-se.
Afinal, estava ali connosco.