Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 23 de 26

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Estarás Sempre Comigo

23 Amor, casamento, e um bebé num carrinho

23

Amor, casamento,

e um bebé num carrinho

 

E ram nove e meia da manhã do dia em que Clo ia casar. Eu estava de joelhos na casa de banho a vomitar tudo o que tinha no estômago. Limpei a boca e maldisse Seán e o seu sémen saudável. Era dama de honor e estava preocupada porque a última prova do vestido fora duas semanas atrás e o vestido ficava um pouco apertado. O meu sutiã Wonderbra já não era preciso para preencher espaço e encontrava-se guardado na gaveta da roupa interior; perguntei-me se conseguiria usar as cuecas grandes. Infelizmente o facto de o meu vestido ser bastante justo significava que cuecas grandes, ou sequer de tamanho médio, estavam fora de questão. Arranjei o cabelo, pus um pouco de maquilhagem e balancei-me como uma pata até à cozinha, onde Seán se encontrava a preparar o pequeno-almoço, lindo, com um ar fabuloso no seu fato.

Sacana.

Mantivera a promessa e nada dissera a ninguém sobre o bebé; estava a ser mais difícil do que alguma vez imaginara, especialmente porque parecia a todos os que me conheciam que eu meramente engordara. Nem sequer parecia grávida – em vez disso, parecia rechonchuda. Clo acabara por devolver os vestidos de dama de honor, com receio de que Anne continuasse a matar-se à fome na ânsia de caber no seu. Optou por comprar tecido do mesmo padrão e contratou uma costureira que não deixara de reparar no meu tamanho sempre a mudar, visto as provas dos vestidos servirem como uma espécie de cruel monitor de peso. Enquanto eu aumentava de peso, Anne diminuía, e a pobre Clodagh e a sua costureira começavam a ficar bastante aflitas com a situação. O vestido era de seda e quase um insulto para as minhas ancas florescentes. Eu ainda considerara a ideia de não ir, mas depressa caí em mim e resignei-me ao facto de que teria de cumprir o meu dever, gorda ou magra.

Repuxei a minha nova saia de seda, preocupada, pensando que seria difícil respirar depois de ter comido. Fingi sorrir.

Seán riu-se.

– Estás óptima!

– Cala-te! – gemi. – Pareço uma baleia.

– Sempre tive um fraquinho por baleias perfumadas. – Ele fingiu cheirar o ar e, apesar de achar aquilo infantil, não pude deixar de rir. De súbito senti fome e achei Seán tão delicioso que desejei desesperadamente despi-lo, saltar para cima dele e deitá-lo ao chão, o que me fez pensar se, dentro das circunstâncias, eu não andaria um bocadinho estranha de mais.

* * *

O casamento decorria maravilhosamente. Clo estava deslumbrante, a seda branca a fazer sobressair a pele morena, um longo véu e um sorriso inabalável. Tom, nervoso, viu-a e depois descontraiu-se. Foram trocados os votos sem contratempos. Acenderam a vela e a igreja não ardeu. Quando chegou a altura de a cantora começar a cantar, fê-lo sem incidentes. Tudo corria tão bem… Encontrava-me no altar ao lado da noiva. Fazia calor, o meu vestido começava a ficar apertado, doíam-me os pés e tinha a cabeça a andar à roda. Precisava mesmo de me sentar, mas o padre nunca mais acabava o discurso.

Aguenta-te só mais cinco minutos. Não desmaies! Não desmaies. Por favor, não desmaies.

Suava e não conseguia entender o que o padre dizia, mas devia ser qualquer coisa muito boa, pois a multidão aplaudiu. Clo e Tom começaram a descer os degraus do altar com os restantes convidados a segui-los. O fotógrafo ia tirando fotografias do feliz casal.

Desce lá os degraus, disse a mim própria.

Infelizmente, a minha sorte acabara. Quando o fotógrafo proferiu as palavras «olha o passarinho!», perdi os sentidos e acordei no chão a olhar para o padre, os noivos e Seán.

– Peço imensa desculpa – balbuciei, tentando pôr-me em pé. – A igreja está quente – balbuciei novamente.

Seán ajudava-me a levantar quando as costas do vestido se romperam. A multidão permaneceu silenciosa enquanto me ajudaram a sair por uma porta lateral com um casaco enrolado à cintura. O ar ajudou-me, mas não ao vestido – não havia solução para o vestido. Clo e Tom estavam muito preocupados comigo, mas implorei-lhes que voltassem à festa, era o seu dia de casamento.

– Estou bem. Juro. Desculpem-me.

Clo limitou-se a sorrir.

– Muito gostas tu de atrair as atenções, Em.

Desatei a rir e acrescentei com sinceridade que nada lhe poderia roubar as atenções a ela. Estava deslumbrante, o dia corria muito bem e eu não passava de um mero percalço que se devia ignorar. Ela riu-se do meu embaraço e concordou com Seán que era melhor eu ir directamente para o hotel. Uma vez dentro do nosso quarto e já sem o que me restara do vestido, senti-me bastante melhor. Olhei-me ao espelho e todo o meu corpo me pareceu um pouco maior do que de manhã cedo. Não tinha a certeza se estaria apenas a imaginar isso ou se seria verdade. Seán estava deitado na cama à espera que me juntasse a ele.

– Precisas de te estender – não parava ele de dizer.

– Achas que estou gorda?

– Não – quase rosnou entre dentes. – Já te disse, estás com óptimo aspecto.

Suspirei.

O sorriso dele transformou-se num sobrolho franzido.

– É disso que se trata? Andas a fazer alguma dieta estúpida? Sabes que não podes fazer dieta enquanto estás grávida.

Fui ter com ele à cama.

– Não. Claro que não. Se estivesse de dieta, não teria comido meio frango, um pacote grande de batatas fritas e ainda uma dose de rodelas de cebola ontem à noite, pois não?

Seán meditou no assunto uns instantes antes de concordar. Despira a camisa. O quarto estava aquecido, sentia a pele dele quente e ele tinha um aspecto ainda mais quente. Subitamente senti-me muito melhor. Beijei-o e ele sorriu e voltei a beijá-lo e desapertei-lhe as calças. O sorriso dele abriu-se e de repente estava deitada de costas e as maminhas já não estavam tão doridas. Ele parou para pôr o preservativo e perguntei-me porquê, mas ele era uma criatura de hábitos e não quis dar cabo do momento. Levantámo-nos e estávamos encostados à parede, a fazer amor, quando a porta se abriu e Anne e Richard entraram. Não demos por nada até ouvirmos o grito de Anne. Richard proferiu um delicado «desculpem-nos» e empurrou-a lá para fora. Felizmente para mim, Seán serviu-me de cobertura. Eu teria morrido de vergonha se Richard tivesse visto as minhas gorduras recém-adquiridas. Ouvimos a porta fechar-se, olhámos um para o outro e desatámos a rir. Seán ainda se preocupou um pouco por Anne ter visto o seu rabiosque, mas, assim que lhe lembrei que toda a gente vira o seu rabo quando a Irlanda derrotara a Itália, no Campeonato Mundial de 94, acalmou-se. Ele voltou a vestir o fato. Eu meti-me num vestido preto tricotado, abençoadamente elástico.

Encontrámos Richard e Anne no vestíbulo.

– Então, sentes-te melhor? – inquiriu Anne, com um brilhozinho nos olhos.

– Sim, obrigada – respondi, corando.

Richard e Seán trocaram um sorrisinho e fomos até ao bar. Pedi uma água. Anne pediu qualquer coisa mais forte.

Os noivos chegaram pouco depois. Eu perdera as fotografias fora da igreja, mas Clo não se importou. Pedi desculpa pelo vestido, mas ela também não deu importância nenhuma. Estava delirante e tinha o fulgor da Jennifer Lopez. Sentia-se contente por eu te melhorado. Anne nada disse sobre o que vira, e fiquei-lhe eternamente grata. O fotógrafo acenou-nos e sorrimos para a câmara, e lá fomos trocando de lugar com os sogros, conhecidos, amigos e vizinhos, até o fotógrafo acabar de tirar as fotografias da praxe e ser altura do banquete. Fiquei de novo grata, pois sentia tanta fome que estava capaz de comer um boi. A comida ia e vinha. Os discursos foram hilariantes. Rupert, o irmão de Tom, acabou por conseguir ser simpático, até engraçado, e interroguei-me se não o teria julgado mal no hospital – afinal de contas, ele estava apenas preocupado com a operação do irmão. Depois, contou uma anedota sobre mulheres que não tinham cérebro e percebi que a minha reacção inicial estivera certa. A mãe de Clo e o padrasto sorriam orgulhosos ao ouvirem as histórias que lhes contavam sobre a filha.

* * *

Depois da refeição, Anne, Clo e eu subimos à suíte nupcial. Clo maquilhou-se. Anne deu um arranjo ao vestido e eu corri à casa de banho para um vómito rápido. Abri as torneiras para cobrir o som, mas eram daquelas de aspersão, a água corria com muita força, mas pouco barulho. Vomitei e voltei a vomitar e vomitei novamente. Vomitei outra vez e ainda de novo. Ouvia-as falar lá fora. Forcei o vómito, com ruído, e parou.

– Em?

Era Clo.

– Sim? – disse o mais animada possível.

– Estás bem?

Ia começar a dizer «óptima», mas comecei com «óp…» e o resto saiu em vómito.

A Anne estava junto da porta.

– Deixa-nos entrar! – gritou ela, aflita.

– Está aberta – respondi, com a cabeça na sanita.

Elas entraram então, ambas preocupadas.

Clo parecia aterrorizada.

– Oh, meu Deus, comeste os mexilhões como entrada?

– Sim, estavam uma delícia – disse eu, do fundo da sanita.

– Ai meu Deus, é uma intoxicação alimentar! Metade dos convidados comeu os malditos mexilhões! – gritou.

Tentei argumentar, mas o vómito impediu-me. Clo parecia à beira das lágrimas. Anne mantinha-se calada. Parei de vomitar.

Ah, que alívio!

Comecei a lavar a cara enquanto negava a acusação de intoxicação alimentar. As duas olhavam-me muito atentas.

– Emma, andas a tomar drogas? – perguntou Clo, muito séria.

Levei algum tempo a afastar-me do lavatório e a olhá-la de frente, só para ter a certeza de que ela não brincava.

– O quê? – perguntei, incrédula.

– Bem, ora desmaias, ora a seguir estás fazer sexo como uma devassa, e agora vomitas como doida. Lembras-te daquela vez que tomei coca? Exactamente a mesma coisa.

– Não tomei coca – respondi, embaraçada por a Clo estar consciente de que eu perdera as fotos na igreja em troca de uma cópula devassa.

– Eu sentia-me melhor – acrescentei, de modo pouco convincente.

Clo meditou no assunto por um instante.

– Muito bem – acenou, com ar alegre. – Então, não se trata de coca nem de comida estragada.

Concordei que nem era uma coisa nem outra.

– Então quando é que nos vais dizer que estás grávida, Em? Suspirei, aliviada.

– Agora – retorqui, numa voz débil, sem saber se havia de rir ou de chorar.

– Estás grávida? – Anne soltou gritinho.

– Estou de três meses – confessei.

– Oh, meu Deus! – repetiu Clo várias vezes, antes de me perguntar se tinha a certeza.

– Absoluta – retorqui. – Fiz um teste.

Anne retorquiu que, por vezes, os testes podem enganar, mas pareceu contente quando contei que fizera dois, seguidos de uma consulta ao médico, que confirmara o estado. Anne perguntou se Seán sabia e confirmei que sim e que estava feliz. Clo abraçou-me, mas eu afastei-a com medo de que algum vómito fosse parar ao seu vestido. Ela riu-se e Anne abraçou-me, enquanto afastava os meus receios. Apertei-a com força contra mim, consolada pela sua resposta positiva.

Quantos livros sobre gravidez terão a Anne e o Richard lido e quanto esforço não terão empreendido para chegarem onde eu e o Seán chegámos por acaso?

– Estou tão feliz por ti! – exclamou ela, quando se afastou, sorriu-me, sincera, mas apercebi-me das suas lágrimas.

Clo andava aos saltinhos.

– Vou ser tia!

Anne e eu nem nos atrevemos a dizer nada. Acabámos de nos arranjar e dirigimo-nos para a festa.

* * *

Seán e eu balouçávamo-nos na pista ao som de um tema mais lento de George Michael. Ele apertava-me contra si e eu sentia o olhar de Anne nas costas. Ela queria que eu admitisse que lhes confessara a verdade para o poder abraçar também e para me poder arrastar para um canto qualquer e passarmos a noite a falar de bebés. Pedira-lhes que não dissessem nada. Sabia que isso seria especialmente difícil para Anne. Seán e eu concordáramos que os nossos pais seriam os primeiros a saber, e eu prometera manter-me caladinha até lá. Entretanto, prometera a Anne que iria contar a Seán que lhes falara do bebé. Tornava-se algo complicado.

Ele mata-me!

Então, ali estávamos nós, a dançar num casamento, ironicamente ao som de George Michael. Seán sorria-me. Perguntei-me quanto tempo duraria o seu sorriso. Precisava mesmo de ir à casa de banho.

Digo-lhe depois de fazer chichi.

Anne e Richard dançavam ao nosso lado. Ela captou-me o olhar e mexeu os lábios sem emitir som:

– Diz-lhe.

Pensei se a minha bexiga aguentaria.

– Diz lá, vamos! – murmurou ela, enquanto rodopiavam à nossa volta. Aquela canção era como o cigarro da noite de Ano Novo – nunca mais acabava.

– Seán – disse então.

Ele inclinou-se para a minha boca.

– Contei à Anne e à Clo sobre o bebé – murmurei, nervosa.

Ele fez um gesto de assentimento, algo cauteloso, com a cabeça.

– Sei que combinámos esperar, mas tive de esclarecer as coisas e…

– Eu contei ao Richard e ao Tom – sussurrou-me, enquanto me fazia rodopiar.

Absorvi a informação.

– Paspalho!

– O que foi? – perguntou, com ar inocente.

– Estava aflita. Pensei que quebrara o grande pacto.

– Bem, e quebraste… e eu também!

Ele sorria como costumava sorrir quando estava contente consigo próprio. E, subitamente, tudo era real. Eu estava grávida, dois pares de sapatos para três pessoas. Claro que fora real enquanto vomitara, engordara e chorara por dá cá aquela palha, mas agora Clo e Anne sabiam, por isso era verdadeiramente real. Não chorava, mas uma lágrima lá me caiu pelo rosto e tombou no chão.

– Estou mesmo contente – disse eu, com o olhar nos pés de Seán.

Ele pegou-me no rosto, fazendo-me olhar para ele.

– Eu também.

Os nossos narizes tocaram-se e, àquela distância, os olhos dele pareciam dançar. Claro que poderia ter que ver com as luzes da pista de dança. Fiz um sinal com o polegar a Anne e ela e Richard aproximaram-se, seguidos de perto pelos noivos. De repente, estávamos todos aos abraços e beijos, os homens a darem-se palmadinhas nas costas, e o meu coração, antes destroçado, recompôs-se e senti-me plena.

* * *

Reconheci o jardim repleto de flores exóticas a despontar da areia macia e verde. O arbusto ardente ainda brilhava à distância e já não me sentia insegura sobre onde me encontrava e em relação ao que ali estaria a fazer; encaminhei-me propositadamente para o sol púrpura a pairar sobre a árvore de mil ramos. Enquanto subia o monte, alisei a saia e dei um jeito ao cabelo, sempre com o olhar fixo no sol púrpura e rodopiante. O terreno tornou-se plano quando cheguei ao cimo, junto da árvore florida em que as papoilas azuis baloiçavam nos ramos cor de cereja. Mais uma vez uma mão invisível me atirou o sol. Deixei-o balançar na mão e atirei-o de volta.

John apanhou-o e sorriu.

– Voltaste – disse, enquanto atirava o sol para trás do ombro.

Abraçámo-nos.

– Precisava de te ver – respondi, como se visitar um morto fosse algo de perfeitamente normal.

– Estou intrigado. – Ele sentou-se debaixo da árvore e juntei-me a ele, piscando os olhos à luz brilhante no céu.

– A Clo casou-se hoje.

– Sim?

Assenti com a cabeça.

– A catorze de Julho de oitenta e nove, ela jurou que nunca se casaria – retorquiu.

– Aonde queres chegar?

– Que ela me deve vinte libras. – Riu-se, e eu dei-lhe um pequeno encontrão.

– Ela está mesmo feliz. O marido é o Tom. É tão divertido. Irias gostar dele.

– Ainda bem – disse ele, e notei que estava sentado muito quieto e com um olhar fixo como Gandhi.

– Ainda te amo – lembrei-lhe.

– Hás-de amar-me sempre – respondeu.

Eu não estava ainda preparada para lhe contar sobre o bebé.

– Então mandaste-me para o beco, naquela noite, para levar uma tareia?

– Não posso ficar com os créditos disso, Xena. – Sorriu. – Mas aposto que daria um bom programa de televisão.

Dei-lhe outro encontrão. Permanecemos sentados em silêncio e reuni alguma coragem.

– Tinhas razão – disse eu, esforçando-me para que olhasse para mim.

– Ai sim? – retorquiu, parecendo a léguas.

– Da última vez, quando disseste que me estava a apaixonar. Tinhas razão. – Ao dizer isto, baixei a cabeça, já não queria ver a cor dos seus olhos.

– Fico contente.

– Contente – repeti, desgostosa. – Que raio de palavra é

«contente»?

Ele não estava a acompanhar-me.

– Contente é uma palavra de livros infantis – disse-lhe. – É uma palavra dos anos cinquenta, não é?

– Queres outra palavra? – perguntou, com um sorrisinho.

– Não, tens razão – admiti, terminando o meu pequeno discurso.

– Ele ama-te tanto quanto te amei – disse ele, assentindo com a cabeça para si próprio.

Uau!, pensei. Claro que ele não precisava que lhe contasse nada. Soubera sempre.

– Então quanto é esse tanto? – arrisquei, mas ele limitou-se a rir.

– Queres passear? – perguntou, e perante nós surgiu uma estrada amarela.

– Não – respondi. Mesmo a dormir e a sonhar, estava exausta. Tinha ainda uma coisa a dizer. – Então não preciso de te dizer que estou grávida?

Ele abanou a cabeça.

– Não precisas mesmo.

– Então estás contente? – perguntei, no meu melhor tom sarcástico.

Ele concordou, rindo.

– Muito.

Subitamente encontrávamo-nos a caminhar ao longo da estrada amarela apesar do cansaço das minhas pernas.

– O Feiticeiro de Oz – disse eu, sorrindo para os tijolos amarelos sob os meus pés e para a recordação de Judy Garland nos seus lindos sapatinhos de rubi.

John parou e olhou muito sério para mim.

– Queres uns sapatinhos de rubi? – perguntou, como se fosse um pai a falar com uma criança mimada.

– Não, isso seria pedir de mais – murmurei timidamente.

Ele voltou a rir-se e, ao ver o seu sorriso franco e os lindos olhos grandes, lembrei-me de como ele costumava ser.

Subitamente, tudo desapareceu excepto uma porta.

– Está na altura de te ires embora – disse ele, e entrei um pouco em pânico.

– Não – queixei-me. – Acabei de chegar.

Porém, era tarde de mais e dei por mim, acordada, na cama. Seán dormia profundamente a meu lado com Leonard enroscadinho à volta da sua cabeça.

A estrada de tijolos amarelos, pensei. Céus, quem diria que eu era tão lamechas?

* * *

Íamos dar a novidade aos meus pais no dia seguinte, mas, apesar de ser adulta e estar numa relação estável, tenho de confessar que me encontrava algo assustada. Afinal de contas, havia ainda a questão do casamento. Seán estava óptimo, principalmente porque agora habitava no Sétimo Céu e não dava importância alguma ao que os meros mortais, habitantes da Terra, pensavam da nossa situação ou de nós. Ia ser pai e já decidira que seria o melhor pai do mundo. Seguíamos então no carro a caminho de casa dos meus pais e eu roía as unhas.

– Pára de roer as unhas – pediu-me, enquanto não tirava os olhos da estrada.

– Não estou a roer as unhas.

– Vai tudo correr bem. Aposto que o teu pai vai chorar. – Sorriu-me.

– Espero que não – retorqui, brincando com as mãos.

– Aposto que é uma menina – disse ele, virando na esquina da nossa rua.

Sorri e depois vi a casa dos meus pais e senti-me mal. Ele passou-me o saco de plástico.

– Obrigada – consegui dizer, pálida e tentando imbuir-me de um sentimento de firme determinação. Não consegui.

Ele estacionou em frente da casa.

– Estás pronta? – Sorriu-me, parecendo estranhamente entusiasmado.

– Não – respondi, saindo do carro.

– Muito bem.

Toquei à campainha, esquecendo-me que tinha a chave. A minha mãe veio abrir a porta, percebendo logo que eu não usara a chave, e preocupando-se com as implicações do meu esquecimento.

– Olá – disse-lhe, num tom tão despreocupado quanto a situação mo permitia.

– Olá, meus lindos. – Olhou-nos com ar desconfiado.

Seán, logo atrás de mim, acenou, sorrindo como um palhaço drogado.

– O que foi? – perguntou ela, ainda a segurar na porta.

– Podemos entrar? – perguntou Seán.

Entrámos e seguimo-la até à cozinha.

– Muito bem, então. – Aguardou.

– Estou grávida. – Sorri, esperançosa, não querendo ir muito a fundo no assunto. Ela sentou-se e ficou calada alguns instantes.

Ai, vida, aqui vamos nós!

– Sente-se bem? – perguntou Seán, indo buscar à pressa um copo com água.

Ela ergueu a cabeça e sorria.

– Bem, gostava que se tivessem casado primeiro, mas, vamos lá ver, o teu irmão entregou-se a Deus, por isso acho que as coisas estão equilibradas.

– Então acha bem?

– Acho bem, sim – respondeu a minha mãe, abraçando-me antes de começar a chorar. O meu pai reagiu praticamente do mesmo modo, apesar de Seán perder dez libras, pois, afinal, ele acabou por não chorar.

* * *

Com o pai de Seán correu às mil maravilhas. Era um homem de trato fácil. Suponho que tinha mesmo de ser – a mulher abandonara-o quando Seán era ainda criança e fora ele quem criara Seán e o irmão mais novo. Ficou muito orgulhoso e partilhou um charuto com o seu primogénito.

– Sabia que eras um homem à maneira, filho – disse, orgulhoso.

Telefonei a Noel. Encontrava-se em Nova Iorque, a acabar um curso humanitário qualquer. Seán insistiu em falar com ele ao mesmo tempo que eu.

– Então quando vão dar o nó? – perguntou Noel depois de as congratulações preliminares terem acabado.

Eu não pensara nisso.

– Qualquer dia – respondeu Seán.

– Qualquer dia?

Continuei calada, pois nunca faláramos sobre casamento.

– Muito bem – disse o Noel, pensativo – Mas vão casar-se, não vão?

– Claro – retorquiu Seán, com grande à-vontade.

Sorri.

Oh, pois muito bem. Bebé, casamento, está bonito isto. E não estou com dificuldade em respirar. Fixe.

Noel estava muito entusiasmado e já fazia planos para o casamento.

– Poderei estar em qualquer parte do mundo. Mas voltarei logo – afirmou. – Dêem-me uma data e aí estarei – prometeu.

* * *

Pois era, tudo corria às mil maravilhas, claro – mas isso foi antes de eu ficar realmente pesada e de barriga grande. Mais tarde,

Seán e eu estávamos estendidos na cama, imersos em sonhos sobre como o nosso filho iria ser e a pensar em nomes invulgares e bonitos, mas disparatados. Rimo-nos e ele acariciou-me a barriga, que começava a ficar bem grandinha, fazendo-me lembrar um rotundo jogador de basquetebol do terceiro ano que tentara implicar comigo uma vez. Clo afastara-o com um pontapé e depois disso não mais se metera comigo. Sorri, ali deitada, perguntando-me se ele teria perdido a gordura que eu agora ganhava.

* * *

Dois meses depois, estava mesmo muito gorda e a roupa que tinha quase rebentava pelas costuras. Clo e Anne levaram-me às compras para roupa de mamã. Andámos de loja em loja, percorrendo longas filas de prateleiras e cabides de fatinhos à marujo e vestidos às florezinhas e aos folhos, que realçavam todas as curvas crescentes.

Eu começava a ficar profundamente deprimida e, embora Anne continuasse entusiasmadíssima, Clo entendeu o meu desconsolo.

– Nunca hei-de engravidar – murmurava, enquanto eu saía do gabinete de provas com um top rosa magenta e umas calças que pareciam um balão.

– Estás bonita – dizia Anne, olhando maliciosa e furtivamente para Clo.

Eu estava fora de mim.

– Estou feia, feia, feia! – repeti, voltando para o gabinete de provas para despir o vil conjunto. Pareceu-me levar uma eternidade para conseguir despir-me. Andava sempre tão cansada. Calculara que estar grávida fosse difícil, mas aquele tipo de exaustão ultrapassava todas as expectativas.

– Sentes-te bem? – ouvi Clo perguntar-me, mas foi só quando bateu à porta do gabinete que acordei.

– Estou bem – respondi, esforçando-me por entender como adormecera com um braço enfiado no top magenta e o outro de fora.

Mais tarde, no café, Clo ia divagando sobre o estado da moda para grávidas e sonhando desenhar roupa que, embora funcional, fosse também atraente, apesar de não ter ideia alguma sobre o assunto. Olhei para Anne e sorri, sempre consciente de que a minha barriga cada vez mais volumosa era uma constante lembrança do seu fracasso em engravidar.

– Estás bem?

Ela anuiu.

– Estou, Em. Na verdade, tenho uma novidade a dar-vos. Preparei-me. Detestava quando as pessoas tinham notícias que normalmente implicavam mudanças, pois isso preocupava-me. Clodagh era toda ouvidos.

– O Richard e eu vamos fazer FIV – disse.

– FIV? – inquiriu Clo, sem ter bem a certeza do que se tratava.

– Ele tem baixa contagem de esperma. Parece que nunca mais engravidarei do modo normal, por isso, decidimo-nos pela inseminação artificial.

Fiquei boquiaberta.

Clodagh inclinou-se para a frente.

– Estamos a falar de um tubinho? – perguntou, com ar conspiratório.

Anne suspirou fundo.

– Não.

– Então o que é? – perguntou Clo, fascinada.

– O Richard dá uma mostra de esperma e, se for de boa qualidade, o médico injecta-ma através de um cateter. Não dói nada, é talvez somente algo desconfortável.

– Uau! Quanto tempo demora a saber? – perguntei.

– O mesmo tempo que leva a qualquer pessoa. Se não me vier o período, faço um teste de gravidez.

– Que giro – disse a Clo. – Imaginem, por esta altura, no ano que vem, ambas podem ser mães.

– Pois, bem… ainda não são favas contadas. Poderá não resultar.

– Não sejas tão negativa. Tens de ser positiva a respeito do positivo – disse Clo, com uma risada.

– És mesmo uma idiotazinha! – riu-se Anne.

– Que hipóteses têm vocês? – perguntou Clo.

– Quem sabe? – respondeu Anne, erguendo, evasiva, as mãos.

Clodagh deu-lhe uma cotovelada.

– Então e o médico, é giro?

Anne desatou a rir.

– É velho e gordo. De qualquer maneira, só vos queria contar.

– Sabes que vamos estar a teu lado, não sabes? – perguntei.

– Bem sei – sorriu ela.

– Vocês, o Richard, o médico e o tubinho.

Ela sorriu e desatámos a rir. Que mais poderíamos fazer?