Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 2 de 26

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Estarás Sempre Comigo

1 A ténue linha azul

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A ténue linha azul

 

E stávamos no início de Março e chovia. As nuvens aliviavam-se da sua carga com uma ferocidade semelhante à de um bêbedo a urinar depois de ter bebido catorze cervejas. Olhei através da vidraça embaciada, imaginando o impacte que o aguaceiro teria na minha roupa branca, enquanto as bátegas eram furiosamente sopradas pelo vendaval. Depois olhei para o chão, reparando imediatamente no tom amarelado da massa à volta da sanita.

Homens, pensei. Será assim tão difícil acertar no buraco? Perguntei-me então como conseguiria o meu namorado jogar bilhar e colocar as bolas todas no buraco sem falhar uma, estacionar o carro num espaço do tamanho de um selo e, ainda assim, no que toca a apontar o pirilau na direcção de um buraco grande, ter a pontaria de um bêbedo. Senti o frio da borda da banheira por baixo da minha saia

Três minutos.

Três minutos podem ser muito tempo. Perguntei-me se pareceriam muito longos se estivesse a desarmar uma bomba. Comecei a contar os segundos, mas depressa perdi o interesse. O espelho precisava de uma limpeza. Iria fazê-lo no dia seguinte. Distraidamente, brinquei com o stick que tinha na mão até que me lembrei que acabara de urinar nele. Pousei-o. Sacudi o pó invisível da minha saia, um hábito que apanhara do meu pai, apesar de, obviamente, ele não usar saia. Era a nossa reacção aos nervos. Algumas pessoas esfregam as mãos; eu e o meu pai limpávamos a roupa.

A primeira vez que realmente reparei nessa peculiaridade que tínhamos em comum foi quando o meu irmão, aos dezassete anos, anunciou que, em vez de se tornar o médico com que os meus pais haviam sonhado, ia para padre. A minha mãe, petrificada pelo pensamento de perder o filho para um Deus abstracto, passou uma tarde inteira a gritar até se acalmar e ter ido parar à cama durante quatro dias. O meu pai sentara-se em silêncio, a limpar o fato. Nada disse, mas sentia-se profundamente desapontado. Recordo-me de que não me pressionaram muito nessa altura. Enquanto adolescente egocêntrica, não partilhava as mesmas preocupações sobre o sacrifício do Noel com os meus pais, apesar de a ideia de termos um padre na família me envergonhar um bocadinho.

Na altura, eu e o meu irmão não éramos muito próximos. Ele era o típico sabichão, estudioso, intenso e politicamente consciente. Estudava muito, levava sempre o lixo para a rua sem sequer lhe pedirem e era um grande fã de Doctor Who. Nunca fumara, nunca bebera antes da idade própria, nem se metia com raparigas. Durante algum tempo, pensei que fosse homossexual, mas depressa me passou essa teoria quando me apercebi de que para se ser gay é preciso ser-se interessante. Entretanto tornáramo-nos adultos e, apesar de eu nunca ter percebido a sua devoção ao Todo-Poderoso, os tempos haviam mudado e todas as características que fizeram dele um adolescente sabichão transformaram-no num adulto fascinante. O padre Noel era um dos meus melhores amigos.

Dois minutos.

Eu tinha vinte e seis anos. Estava apaixonada e a viver com o John, o meu amor de infância. Tive o prazer de ver o meu amante crescer e transformar-se de um rapaz loiro, de olhos azuis, idealista, num homem loiro, de olhos azuis, seguro de si. Já estávamos juntos havia doze anos e para mim ele era, sem dúvida alguma, o Tal. Vivíamos juntos desde a faculdade. Alugáramos um apartamento engraçado – dois quartos, duas casas de banho, uma cozinha e uma sala de estar confortável – à saída de Stephen’s Green e, apesar de pequeno e por vezes cheirar a velhotas, não nos saía muito caro, o que era excelente, tendo em conta a localização. Eu tinha um bom emprego. Ensinar não era propriamente o sonho da minha vida, mas nessa altura considerava-me com sorte por ter sido aliviada do fardo da ambição. Ensinar parecia ser um trabalho tão bom como qualquer outro. Havia dias em que gostava das crianças e outros em que não, mas era um emprego estável. Chegava a casa a maior parte dos dias às quatro e meia e tinha três meses de férias no Verão. O John ainda estava na faculdade a fazer um doutoramento em Psicologia, mas também trabalhava quatro vezes por semana como empregado num bar. Havia semanas em que ele trazia para casa mais dinheiro do que eu e dizia que aprendia mais com as pessoas bêbedas do que com o que lhe ensinavam na faculdade.

Vivíamos felizes. Éramos um casal feliz e bem ajustado. Levávamos uma boa vida, tínhamos boas perspectivas e bons amigos. Há muitas pessoas que gostariam de ter a segurança que nós tínhamos um com o outro.

Um minuto.

A minha mãe perguntava várias vezes em voz alta quando é que eu e o John pensaríamos casar-nos. Eu dizia-lhe que se metesse na sua vida. Ela respondia que eu era a vida dela. Discutíamos sobre o tema da privacidade por oposição ao amor de mãe. Aos vinte e seis anos, sentia-me ainda muito nova para me casar e esse sentimento permanecia em mim, apesar de a minha mãe me estar sempre a lembrar que aos vinte e quatro anos já tinha dois filhos.

– Eram outros tempos – costumava eu dizer, e era verdade. A maior parte dos amigos da minha mãe já estava casada e com filhos aos vinte e poucos. Eu era de uma geração completamente diferente. A Show Band contra a geração MTV. Enquanto ela crescera a ouvir Dickie Rock, eu rodopiava ao som da Madonna. Antes de conhecer o meu pai, a sua ideia de uma noite de diversão era ficar encostada à parede no salão de baile, à espera que um dos rapazes a fosse buscar para uma valsa. Eu, por outro lado, era da geração disco. Além disso, nenhum dos meus amigos era casado.

Trinta segundos.

Muito bem, é mentira. A Anne e o Richard conheceram-se na faculdade. Ela era a filha do meio de uma família de classe média de Swords. Ele era o filho de um dos latifundiários mais ricos de Kildare. Encontraram-se na fila para se inscreverem num grupo de teatro amador. Meteram conversa e abandonaram a fila para ir tomar café. Depois disso, tornaram-se inseparáveis. Casaram-se um ano após terem acabado a faculdade. Grande coisa, eles eram os únicos nessa situação.

Clodagh, a minha melhor amiga desde os quatro anos, nunca conseguira manter uma relação por mais de quatro meses. Saíra da faculdade uma mulher tenaz, inteligente e trabalhadora, conseguindo chegar a senior account manager de uma grande empresa de publicidade em apenas três anos. Era bem-sucedida em tudo o que fazia, com a pequena excepção da sua vida romântica, e essa falha magoava-a. Depois, havia o melhor amigo do John, Seán – sombrio, taciturno, algo seco e lindo. Clo chamava-lhe «o David Vivo». Ele não só conquistara oitenta por cento das raparigas do Trinity Arts, como também conseguira namorar algumas professoras. A sua relação mais longa até à data fora com uma americana chamada Candyapple (é o seu nome verdadeiro, não estou a brincar) durante um Verão que passámos a trabalhar em Nova Jérsia. Era a típica rapariga de tez mestiça, com olhos castanhos, peito grande, cintura pequena. Tinha cabelo comprido encaracolado que fazia lembrar à Anne o guitarrista dos Queen, Brian May. Seán chamava-lhe «Deliciosa»; nós chamávamos-lhe «Brian». O namoro durou seis semanas. Ele deixou a faculdade e, depois de alguns passos em falso, caiu em si, arranjando um emprego como editor de uma revista masculina. A sua perspicácia, a adoração sincera pelo futebol e conhecimento enciclopédico da carnalidade feminina asseguravam-lhe sucesso contínuo. As relações não interessavam e o casamento e a família certamente não eram para ele uma prioridade.

Dez segundos.

John amava a vida que tínhamos. Conhecem aqueles casais presunçosos com que ao primeiro encontro antipatizamos imediatamente? Ele podia ser assim. Parecia não se importar que Seán houvesse tido a sua conta de mulheres ao longo da faculdade. Nunca se importou por só ter tido sexo com uma pessoa. Sentia-se satisfeito, amado, feliz. Era alguém raro. Nós éramos fora do comum.

Tínhamos ambos dezasseis anos quando fizemos amor pela primeira vez. Numa tenda, acampados junto de uma colina em Wicklow. Era uma noite quente de Verão, sem uma nuvem no horizonte. Estava lua cheia, redonda e brilhante, o céu tingido de um azul profundo e espesso como veludo, e as árvores, altas e frondosas, reflectiam tons acobreados. Não havia vento nem uma brisa bulia, o mundo encontrava-se em paz. Fizemos a nossa pequena fogueira, tínhamos um cesto de piquenique, uma caixa de preservativos e uma garrafa de vinho, do qual só bebemos um gole, pois as nossas papilas gustativas ainda não o sabiam apreciar, confundindo a sua frescura frutada com algo azedo. Os beijos passaram às carícias, que, por sua vez, deram origem a abraços apertados, que levaram a festinhas com o nariz, que conduziram a pouco e pouco ao acariciar febril dos genitais e, num instante, estávamos nos braços um do outro olhando para as manchas de beatas na tenda azul e interrogando-nos por que razão, afinal de contas, haveria tanto alarido sobre aquilo.

A Clo tinha-me dito que a prática levava à perfeição. Nós fizemo-lo quatro vezes antes de regressarmos a casa dos nossos pais, orgulhosos e cheios de segredos.

Cinco segundos.

Eu não estava preparada. Senti-me doente e rezei para que fosse algo relacionado com o stresse e não com enjoos matinais.

Merda! O que vou fazer? Não quero ser mãe. Não quero ser esposa. Não me quero sentir como a minha mãe antes de ter vivido. Pretendo fazer coisas, não tenho bem a certeza do quê. Desejo ir a vários sítios, não sei bem aonde. Não estou preparada.

Não tinha dito ao John que o meu período se atrasara duas semanas e nem sequer comentei que comprara um teste de gravidez. Não estava habituada a guardar segredos para com ele, mas tinha a certeza de que não o queria envolver naquilo.

Porquê preocupá-lo?

O problema é que eu não tinha a certeza se ele iria ficar preocupado. Ele sorria sempre que a minha mãe brincava connosco sobre o casamento e bebés. Era capaz de parar durante as compras no supermercado e ficar a observar uma criança a brincar, enquanto eu continuava impaciente com tudo e desejosa de me despachar.

Dois segundos.

Ele ficaria animado, sei bem. Pior que isso, iria querer o bebé. Não haveria sobrancelhas franzidas nem decisões difíceis a tomar. Haveria muita animação e planeamento e livros e roupas de bebé. Comecei a sentir dores de estômago.

Não estou preparada.

As minhas mãos tremeram quando virei o stick.

Por favor, não sejas azul, meu Deus, não sejas azul!

Tinha os olhos fechados apesar de não me lembrar de os ter fechado voluntariamente. Respirei fundo e isto lembrou-me que era fumadora, por isso pousei o stick e corri ao meu quarto para ir buscar o maço de tabaco. Voltei e acendi um cigarro. Inalei profundamente, determinada a desfrutar do que podia ser o meu último cigarro durante um longo período. A minha intenção era acabá-lo antes de desvendar o meu futuro. No entanto, este plano gorou-se pelo som das chaves do John na porta principal. Apaguei o cigarro à pressa, colocando-o na água fria com uma mão enquanto abanava com a outra numa tentativa de dissipar o fumo, que parecia crescer em todo o espaço confinado da casa de banho. Ouvi os seus passos a subir as escadas até ao sítio onde me encontrava. Já não tinha mais tempo.

– Emma!

– Estou na casa de banho! – gritei, num tom um pouco estridente.

Ele tentou abrir a porta. Olhei, indefesa, escondendo o stick na manga da camisola. Estava trancada. Respirei de alívio.

– Porque tens a porta trancada? – perguntou, desconfiado.

– Sabes que tranco sempre a porta – menti, rezando para que ele perdesse a memória momentaneamente.

Não aconteceu.

– Não, não trancas – disse ele, puxando a maçaneta.

– John – retorqui com firmeza –, podes dar-me só segundo?

– Ouvi-o afastar-se para o quarto e murmurar qualquer coisa sobre eu ser uma cabra quando estava com o período.

Quem me dera.

Sentei-me e virei o stick. Olhei para ele durante séculos. Fechei a mão e depois voltei a olhar. Mordi o lábio, magoando-me enquanto o fazia. Abri os dedos outra vez, revelando um branco glorioso. Nem uma pinta de azul. Aproximei-me da janela para ter a máxima luz. Nada. Estava limpo. Sem linha azul. Tinha a minha vida de volta. Não estava grávida. Nem um bocadinho grávida. Tratava-se apenas de um atraso e estava convidada para uma festa.

Obrigada, meu Deus!

* * *

Quando o avô do Richard morreu, aos noventa e um anos, deixou-lhe em herança grande parte dos bens, tornando-o extremamente rico. Por isso foi decidido que se iria organizar uma festa para celebrar, uma «festa de herança». A Anne inicialmente estava preocupada, dizia que era de mau gosto.

– Ele era um homem muito velho, que morreu depois de ter vivido uma vida repleta de amor e sucessos. Por que razão dar uma festa para celebrar a tua sorte é uma falta de respeito? – perguntara-lhe eu.

– Já não vamos a uma festa há tanto tempo – foi a contribuição de John para a causa.

– Para além disso, o meu avô tinha um excelente sentido de humor. Iria gostar imenso da ideia – aventou Richard, desejoso de gozar a sua fortuna.

– É uma ideia fantástica! Podemos celebrar a sua vida e o facto de os nossos amigos estarem cheios de dinheiro – insistiu Seán.

Anne acabou por concordar e, assim, o dia em que descobri que não iria trazer uma vida ao mundo foi também aquele em que o meu mundo mudou para sempre.

* * *

Já pensei várias vezes em escrever-te. Nunca achei que iria mesmo conseguir fazê-lo, mas, quando o fiz, pareceu-me muito fácil... As recordações são coisas absurdas. Algumas são vagas, outras cristalinas, outras ainda demasiado dolorosas para as lembrarmos e outras, então, deixaram-nos tanta dor que não conseguimos esquecê-las. Recordamos os tempos felizes com carinho e risos, lembramo-nos deles como de anedotas contadas no pub, exageradas, ditas para toda a gente. As recordações realmente boas fazem-nos companhia numa tarde solitária. As recordações mais nítidas são as das ocasiões em que vivemos grandes altos ou baixos. É da emoção que a situação inspira de que nos lembramos. É aquele sentimento de enorme exaltação ou de terrível desespero que faz com que o nosso cérebro repare nos pormenores que normalmente nos passariam despercebidos, como a cor da T-shirt de alguém, um gesto de uma mão ou de como fazia calor ou frio nessa altura.

Conseguimos recuperar na memória as rugazinhas causadas por um sorriso nos lábios de alguém amado ou a maneira como as lágrimas caíram dos seus olhos. Porém, a dor é difícil de expressar por palavras e, na vida, há sempre dor. É tão natural como o nascimento ou a morte. A dor torna-nos quem somos, ensina-nos e doma-nos, pode destruir e pode salvar. Todos nós temos arrependimentos – até o Frank Sinatra tinha alguns. Algumas tragédias são causadas por nós, mas, por vezes, acontecem coisas que estão fora do controlo deste mundo; quando acontecem, deixam-nos totalmente estupefactos.

A felicidade é um dom. Derrama o seu calor sobre nós e recorda-nos a beleza. Nunca devemos considerá-la um dado adquirido. Eu nunca devia tê-la considerado um dado adquirido. Aquela ténue linha azul representava felicidade. Não sabia, então, que iria mais tarde representar algo que eu jamais recuperaria. No entanto, nessa altura, não estava preparada.