Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 7 de 26

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Estarás Sempre Comigo

6 O urso, o coelho...

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O urso, o coelho...

 

A cordei numa sexta-feira de manhã. John morrera um mês antes. Abracei a sua almofada, que ainda guardava o cheiro dele, porque eu fazia questão de a pulverizar com o seu aftershave quando a lavava. Ainda era cedo e só tinha de estar na escola dali a umas horas, por isso tentei dormir, mas o meu corpo recusou-se a cooperar. Estava bem desperta, pela primeira vez, desde o acidente. Continuei a fechar os olhos, mas desejavam abrir-se. Frustrada, sentei-me e quis realmente chorar, mas os meus olhos permaneceram secos. Depois de muitas tentativas, desisti e arrastei-me para fora da cama. Sentei-me na banheira sozinha, a brincar com as torneiras com os pés, mas rapidamente me aborreci. Fiquei ali a recordar-me dos braços de John à minha volta. Recordei o nosso primeiro beijo no muro da minha casa, o seu olhar de puro deleite no dia em que lhe mostrei uma caixa de preservativos no pátio da escola, o nosso tempo na América, na nossa casa, os nossos sonhos, o seu rosto, o seu sorriso, o seu coração, e, ainda assim, nada de lágrimas.

Que raio…?

Senti-me mal. Quis chorar por ele porque chorar era tudo o que me restava e, naquele momento, parecia que até isso me fora levado. Não era justo.

– Merda para isto! – gritei para a cortina do duche. – Merda para tudo isto! – berrei. – Merda para Ti, Deus! – gritei para o tecto.

Não contente com mandar Deus à merda, ataquei o resto da Sua família.

– Jesus, Maria e José, sacanas de merda!

Depois passei a Alá e a Buda, pelo sim pelo não, e, por fim, até Judas foi mencionado.

– Porquê? Porque o levaste, meu Deus, seu sacana ganancioso? Porque não o deixaste viver?

Claro que não obtive resposta, mas assim que saí da casa de banho escorreguei e, num fugaz segundo, pensei que era castigo, pelo que fiz um manguito para o tecto e murmurei:

– Terás de fazer melhor do que isso!

Depois, comecei a arranjar-me e inspeccionei todos os electrodomésticos antes de os usar.

* * *

Era a última aula do dia e os meus alunos tinham-se comportado o melhor possível desde o meu regresso. Quando entrei na sala, em vez do caos habitual, deparou-se-me silêncio. Os espertalhões do costume não estavam a armar-se em idiotas, os tagarelas mantiveram-se calados e os marrões hesitavam em levantar a mão para partilharem o seu conhecimento. Sentia-me fraca, frágil. A minha dor transparecia e teve um efeito em cadeia em todos os que a testemunharam, incluindo os meus alunos, e senti-me mal por eles. A tristeza enchia cada sala em que eu entrava como um nevoeiro que só levantava quando eu saísse. Ensinava História aos primeiros anos e estávamos a concentrar-nos na época da Reforma. Pedi a Jackie Connor que lesse um parágrafo sobre a Igreja Luterana e alheei-me de tudo. Olhei pela janela, para dois pombos às cabeçadas no telhado da escola, quando ouvi Rory McGuire a chamar-me.

– Stora? Stora? Sente-se bem?

Saí da neblina em que mergulhara e sorri.

– Estou bem, Rory. Porque perguntas?

Ele olhou em volta para os colegas, que tinham os olhos pregados ao chão. Aclarou a garganta.

– Bom, stora, é que a Jackie terminou o parágrafo há cinco minutos.

Senti lágrimas a caírem-me dos olhos e olhei para o tecto e para Deus.

Que bom, esta manhã implorei-Te que me deixasses chorar, e nada. Agora, em frente de vinte e cinco adolescentes, Seu…

Não terminei o pensamento. Em vez disso tentei recompor-me.

– Alguém tem dúvidas? – perguntei, num tom animado. A turma continuou silenciosa.

– Certo. Muito bem.

Procurei na minha secretária o livro, mas não o encontrei. Devo ter aparentado estar em pânico porque Jane Griffin, na primeira fila, emprestou-me o dela.

– Aqui está, stora, estamos a meio da página.

Sorri-lhe, embaraçada.

– Obrigada, Jane.

Olhei para o livro, mas ler era complicado. Insisti em dizer a mim própria faltam apenas dez minutos para o toque, mas o meu coração começou a acelerar e senti as palmas das mãos a suar. Perguntei-me se não estaria a ter um ataque de pânico.

Recompõe-te, disse a mim própria de novo. Tentei concentrar-me, mas acabei por desistir e pedi a David Morris que lesse o parágrafo seguinte e, enquanto o rapaz lia, rezei para que a leitura durasse até ao toque. Quando este soou, a turma inteira suspirou e quase saiu a correr da sala. Fiquei à secretária de olhos fechados e com a cabeça entre as mãos, refugiando-me na escuridão. Não me dera conta de que Declan Morgan continuava na sua carteira. Ouvi alguém dizer stora e olhei para cima.

– Declan, desculpa, não tinha percebido que ainda estavas aqui. Em que te posso ajudar? – perguntei, sem o olhar nos olhos.

Declan estava a olhar directamente para mim.

– Só queria dizer que lamento pelo seu companheiro. Foi uma coisa terrível o que lhe aconteceu.

A sua bondade tocou-me. Estava emocionada e quis desesperadamente chorar de novo.

– Obrigada – respondi.

Ele levantou-se para sair e depois parou.

– Stora?

– Sim, Declan?

– Posso contar-lhe uma anedota?

Sorri-lhe, apesar do meu estado.

Ele largou a mochila no chão e veio ter comigo.

– Um urso e um coelho estavam a cagar na floresta. O urso virou-se para o coelho e perguntou: «Oh coelho, a merda cola-se ao teu pêlo?» O coelho respondeu: «Não», e então o urso limpou o rabo com o coelho. – Ele sorriu como se quisesse perguntar: «Percebeu?»

Devia tê-lo repreendido pela linguagem, mas, em vez disso, ri-me e quando ele me viu a rir, riu-se também.

– É uma boa anedota – comentei.

– Eu sei. – Ele sorriu e recordou-me John quando era adolescente. Virou-se para sair.

– Declan! – chamei involuntariamente.

Ele parou.

– Vives na minha rua, não é? – perguntei.

– Sim.

– Queres boleia até casa?

Ele sorriu.

– Só se me deixar conduzir.

Ri-me enquanto lhe dizia que não havia hipótese. Ele esperou que eu arrumasse as minhas coisas e, durante alguns minutos, estava tudo normal. Declan abriu-me a porta.

– Obrigada – agradeci-lhe, e ambos sabíamos que o dissera com sinceridade.

* * *

Nessa noite, Clodagh chegou com outro estufado feito pela mãe.

– Durante quanto tempo mais vai ela continuar a fazer-me estufados? – perguntei.

– Não muito. Mais uns seis meses ou coisa parecida – respondeu ela, sorrindo.

Pu-lo no congelador em cima do estufado e da lasanha que me preparara na semana anterior.

Clo sentou-se no canto e continuou.

– Ela só quer ajudar, Em.

Concordei com um gesto de cabeça e desejei poder sentir-me de novo normal. Virei-me para ela, sorrindo.

– Um dos meus alunos contou-me hoje uma anedota… era muito engraçada.

Ela pareceu surpreendida.

– Conta-me.

– Bem – comecei e interrompi-me, apercebendo-me de que não me conseguia lembrar da anedota. – Era sobre um urso a cagar num coelho ou qualquer coisa assim. Era mesmo engraçada…

– Um urso a cagar num coelho? Parece hilariante. – Ela sorriu. – Meu Deus, Em, precisamos mesmo de te animar.

Rimo-nos e foi a primeira vez que gostámos de estar juntas desde o acidente. O nevoeiro que me envolvia começava a dissipar-se e agradeci a Declan, em pensamento, uma vez mais. Mais tarde, sentámo-nos na sala a beber café e perguntei-lhe como estava Seán. Não o tinha visto muito desde o funeral. Ele batera-me à porta algumas vezes, mas fingi não estar e escondi-me por trás das cortinas, vendo-o ir-se embora rua abaixo. Não o conseguia encarar e, agora, parecia que era ele que não era capaz de me enfrentar.

– Ele está bem – respondeu ela, mas mentia muito mal.

– Que se passa? – perguntei.

– Nada.

Zanguei-me.

– Gostava que falasses comigo!

– O que queres dizer com isso? – perguntou, magoada.

– Pára de me tratar assim. É o John que está morto, não eu. Porque não podes falar comigo como costumavas?

Senti lágrimas queimarem-me os olhos pela quarta vez naquele dia, o que era consideravelmente menos do que no dia anterior.

Ela olhou para mim, com os olhos marejados.

– Sinto imenso a falta dele, Em! – Desatou a chorar. – Sinto-me mal o tempo todo e não sei o que dizer. Devia ter alguma compreensão ou conhecimento destas coisas, por causa do meu pai, ou talvez seja por causa da sua morte que sei que nada posso fazer para melhorar a situação. Quem me dera poder pronunciar umas palavras mágicas. Eu bem queria, mas não as sei.

Senti-me tão aliviada... Sentei-me no sofá ao lado dela. Disse-lhe que iria ficar tudo bem e abraçámo-nos.

De repente, estávamos a ter a nossa primeira grande conversa pós-John. Ela falou-me de um cliente abastado que insistia em mandar-lhe flores. Falou sobre Seán, de como se tornara arredio, e que receava que ele andasse a fumar demasiado haxixe. Ele prometera-lhe que iria parar, mas ela não tinha a certeza se o nosso amigo estaria a dizer isso só para o deixar em paz.

Contou-me que duas semanas antes Anne não tivera o período e que fizera um teste de gravidez, no café Bewleys, mas que dera negativo. Eu não podia acreditar que Anne não me tivesse contado.

– Bom – disse ela –, com tudo o que tens passado… – Parou e pensou por instantes, depois continuou: – Mas vamos todos deixar de o fazer.

Ambas sorrimos. Ela instalou-se confortavelmente na cadeira.

– Em, neste espírito de abertura, há apenas mais uma coisa que te quero pedir.

– O quê?

– Por favor, deixa de usar o desodorizante do John. Em ti, cheira mal e é esquisito.

– Percebido – concordei, triste, mas aliviada. – Para dizer a verdade, faz-me alergia.

Ficámos em silêncio a ouvir música, e, passado um bocado, perguntei-lhe se ainda pensava no pai. Ela pensou durante um minuto antes de responder.

– De vez em quando – respondeu, antes de me dizer que, embora ele tivesse morrido havia muito tempo e ela não o tivesse realmente conhecido, por vezes via alguém a andar pela rua ou encontrava um retrato dele ou revia um programa que a mãe lhe dissera que ele gostava e que, quando isso acontecia, ela sorria. Não era muito, mas parecia o suficiente. Contou-me que a mãe lhe dissera que a dor desaparece com o tempo. Lembrei-me vagamente de uma recordação que tinha dela, a chorar, com as pantufas em forma de coelho e de o médico levar a mãe aos berros para o andar de cima todos aqueles anos antes. Não conseguia ainda imaginar que a dor no meu peito poderia diminuir, e, algures, no fundo, não queria que isso acontecesse. Ela tinha razão, não possuía as palavras mágicas, mas o que me disse ajudou imenso.