Estarás Sempre Comigo
21 Despedida de solteira, um sussurro e uma réstia de esperança
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Despedida de solteira, um sussurro
e uma réstia de esperança
F altavam menos de três meses para o casamento e ia encontrar-me com Anne e Clo para irmos às compras de lingerie de casamento. Anne insistira em apanhar um avião para Dublin para o acontecimento, com receio de que a distância a que vivia a fizesse perder o mínimo pormenor. Sentia-se desesperadamente só e todos viam isso menos o marido. A época a seguir ao Natal fora particularmente difícil para ela, mas, apesar de o sabermos, não deixámos de apanhar um choque ao voltarmos a vê-la. Engordara uns vinte quilos e parecia que alguém usara uma bomba de bicicleta e a enchera de ar. Mal podia acreditar no que vi. Clo manteve-se silenciosa, o que é raro nela. Recompusemo-nos da surpresa e cumprimentámo-la com entusiasmo exagerado, tentando disfarçar.
Ela sentou-se e agarrou na ementa.
– Estou esfomeada – disse, e rezei para que Clo continuasse calada.
Infelizmente, ficou calada, e eu também, durante dois longos minutos.
– Acho que vou pedir o bife com batatas fritas, asas de frango e… posso ver a ementa das sobremesas já? – A Anne continuava como se tudo aquilo fosse normal.
Consegui recuperar a palavra.
– O bife é óptimo – retorqui.
– O quê? – perguntou Clo, com ar ausente, embora ainda concentrada na amiga que engordara.
Repeti que o bife era óptimo.
– Claro – disse ela, olhando-me fixamente.
As coisas não corriam nada bem.
Anne desviou o olhar e chamou um empregado. Clo e eu entreolhámo-nos. Anne não mencionara nunca o aumento de peso e, para nós, era um choque vê-la assim.
Mais tarde fomos à Brown Thomas procurar roupa interior. Anne foi para a secção de sapatos e Clo aproveitou a oportunidade para discutir o peso da nossa amiga comigo.
– Meu Deus, já viste como ela engordou? Reparaste no que ela conseguiu comer?
Anne acabara por devorar o bife com batatas fritas, as asas de frango, uma fatia enorme de bolo de chocolate, um muffin e duas barrinhas de cereais. Concordei que aquilo nem parecia dela, mas achei que não devíamos trazer o assunto à baila.
Clo mostrou-se inflexível.
– Existe obviamente um grande problema. Como amigas dela, é nosso dever descobrir que raio se passa, perceber e pô-la a dieta, de modo a que ela consiga caber no raio do vestido de dama de honor!
– Eu sabia que tínhamos comprado os vestidos cedo de mais – retorqui, abanando a cabeça.
– Estás a brincar comigo! Temos mantido praticamente o mesmo peso durante os últimos cinco anos! – Falava a gesticular e começara a suar.
Era de facto um bom argumento, e concordei que o súbito aumento de peso da nossa amiga era intrigante e inoportuno, mas acrescentei que, se ela quisesse a nossa ajuda, a pediria, e, até àquele momento, a Anne agira como se não existisse problema algum. Poderíamos sempre devolver os vestidos – e talvez ela se sentisse feliz com o seu novo corpo e fosse apenas a mesquinhez alheia a causa da sua infelicidade.
Clo olhou para mim:
– Adoro-te, Em, mas, por vezes, só dizes disparates.
Informei-a então de que se tratava de um facto, pois vira aquilo na Oprah. Ela riu-se e fez um comentário crítico sobre a Oprah.
– Desculpa, Clo – comecei, de mansinho. – A Oprah Winfrey já fez mais pelas mulheres, pelos gordos e pelas minorias na América e no mundo do que a maioria dos políticos, presidentes e gente da realeza desde o início dos tempos. Além disso, acredito que quando ela aborda um assunto se baseia em factos clínicos e documentados, em vez de se encostar à velha ideia de que concordar seja com o que for, fora da nossa experiência, significa dizer disparates.
Clo olhou para mim e sorriu.
– Em, tens razão e talvez a Oprah tenha razão, mas anda a passar-se qualquer coisa e eu vou descobrir o que é.
Pelo menos, consegui que ela concordasse em esperar até voltarmos para casa dela e lembro-me de ter prometido a mim própria que iria embebedar-me.
Voltámos e já era tarde. Tinha os pés inchados; Clo, dores de cabeça; e Anne estava esfomeada, novamente. Abri uma garrafa de vinho e estendi um copo a Clo, pois ela costumava tomar vinho com alguns comprimidos para a dor de cabeça.
E Anne deu-lhe um raspanete por estar a fazer mal ao corpo.
Ai, meu Deus, aí vamos nós!
Clo engoliu os comprimidos com o vinho e sorriu.
– Por falar nisso – começou –, a Em e eu estivemos a falar...
Mal podia acreditar que ela me incluía na sua cruzada.
Comecei a empalidecer enquanto Anne a escutava atentamente.
– Estás com uns quilitos a mais.
Então foi Anne que começou a empalidecer. Clo deve ter reparado, mas prosseguiu.
– E em tão pouco tempo… Há qualquer coisa que não está bem.
Anne mantinha-se calada. Eu estava mortificada.
Clo continuou:
– Não é que sejas como a Oprah ou coisa parecida. Nunca oscilaste mais que três quilos em toda a tua vida.
Eu estava horrorizada por ela ter a audácia de trazer Oprah à baila e numa perspectiva tão negativa.
Anne olhava para mim com uma expressão magoada, por isso decidi falar antes que a versão da bondade de Clo a matasse. Na verdade, nem sabia bem o que dizer. A situação descontrolara-se. Parecia uma espécie de intervenção, e quem diabo éramos nós para intervir? Que sabíamos nós? A rapariga ganhara algum peso. E depois? Interrogava-me sobre o que diria Oprah acerca daquilo.
Então, perguntei-lhe se estava infeliz e a resposta dela foi rebentar em lágrimas. Clo e eu sentámo-nos a seu lado no sofá. Clo deu-lhe um copo com vinho e alguns lenços. Tinha os olhos inchados, vermelhos do choro.
– Detesto viver em Kerry! – lamentou-se. – E agora, ainda por cima, pareço uma porca gorda!
– Pronto, estás gorda, mas nunca serás uma porquinha – respondeu Clo, com doçura, como se dissesse alguma coisa que ajudasse muito.
Anne fitou-a com ar incrédulo. Eu também. Anos e anos a trabalhar em relações públicas haviam obviamente carcomido o cérebro de Clo, pois ela não parecia sequer reparar na nossa estupefacção.
– E, aliás, mesmo com uns quilos a mais, és mais atraente do que algumas magricelas que conheço! – acrescentou Clo, triunfante.
Anne olhou para mim e eu olhei para Anne e Clo olhou para as duas, sorridente como se tivesse agitado uma varinha de condão. Permanecemos assim durante alguns instantes até que, de súbito, Anne desatou às gargalhadas.
– És realmente a pessoa mais superficial que conheço, mas, mesmo assim, adoro-te! – disse ela, dando uma cotovelada a Clo, e esta sorriu-lhe, reconhecendo a sua superficialidade e feliz por ser aceite.
– Vai tudo correr bem – disse eu.
Anne perguntou-se como.
– Vais sentar-te com o Richard e dizer-lhe que morres de saudades de Dublin e depois voltam – disse eu, como se fosse um problema facílimo de resolver.
Viver em Kerry era o sonho de Richard. Gostava de morar num lugar pequeno e bonito rodeado de montanhas e lagos. Deslumbrava-se com a paisagem, gostava do ritmo lento da vida, dos bares excêntricos, da boa comida e do silêncio. Kerry transmitia paz a Richard, mas Anne era uma citadina. Via a beleza na arquitectura dos prédios, nos restaurantes ruidosos, nas luzes da cidade, nos cinemas, nos museus, nos armazéns Brown Thomas e no Clube Futebol de Shelbourne. Apreciava o barulho, a gente nas ruas, as filas e até o trânsito.
– Sabem que não há um único semáforo em toda a vila? – quase gritou. – Como diabo hei-de viver assim?
Ambas concordámos. Parecia uma loucura, de facto. Ela disse ainda que o marido nunca concordaria em deixar Kerry, acrescentando que estava pronta a enforcar-se.
– E porque não um compromisso? – perguntei. – Porque não viverem em Dublin durante o Inverno e em Kerry no Verão?
Anne meditou no assunto.
– Mas o Verão é só três meses por ano.
– Precisamente! – exclamou Clo.
Anne sorriu e acrescentou que Kerry, de facto, era linda no Verão.
– Também não me importava de lá passar o Natal. Aquilo fica tão bonito na época de Natal – observou, com um súbito brilho no olhar.
– Bem, ora aí tens, então – proferi, como se já estivesse tudo decidido.
– Mais vinho? – ofereceu Clo como se para selar um acordo. O sorriso de Anne transformou-se numa expressão preocupada. Não estava tão convencida como nós, mas, lá está, qualquer problema é sempre muito fácil de resolver quando não é nosso.
Então, continuámos a beber. Brindámos à nossa saúde, ao casamento de Clo e à dieta de Anne, e depois bebemos ainda mais porque, para a maioria das pessoas na casa dos vinte, é um crime engordar, mas beber até mais não poder é perfeitamente aceitável. As pessoas são doidas.
Seán foi buscar-me pouco depois das onze da noite. Anne adormecera no sofá com um cobertor a tapá-la e um copo vazio na mão. Clo tentara tirar-lho, mas a nossa amiga não deixou.
Eu e Clo despedimo-nos e Seán acompanhou-me ao carro. Quando chegámos a casa, fez-me um café e preparou-me um banho. Deixei-me ficar na água quente a meditar. Seán voltou a encher a banheira. Sentou-se no chão ao lado da banheira como John costumava fazer. Ofereceu-se para me lavar as costas como John costumava fazer. Cuidou de mim como John costumava fazer e percebi que era feliz. Tinha vinte e oito anos e vivia numa casa alugada. Era professora e ganhava um salário de treta. Tinha um carro que se avariava uma vez por mês e um gato que fazia a Roseanne Barr parecer alguém estável. Porém, quando Seán me secou o cabelo com a toalha, senti-me na mais perfeita paz.
Mais tarde, já deitados, virámo-nos um para o outro e falei-lhe da infelicidade de Anne e do seu aumento de peso.
– Por ti, eu ia viver para a Lua – disse ele.
Ri-me.
– Deduzo que só para a Lua e mais sítio nenhum?
– Claro – respondeu, com um sorriso travesso.
Beijou-me e foi como se fosse a primeira vez. Tínhamos deixado acabar os preservativos, mas fizemos amor na mesma e, a seguir, deixei-me ficar no escuro, a sorrir.
* * *
Anne regressou a Kerry no dia seguinte. Estava de ressaca, mas muito determinada. Richard foi buscá-la ao aeroporto. Apareceu-lhe com um ramo de flores e ela disse-lhe que precisavam de falar. O que se seguiu foi uma discussão violenta, durante qual as flores sofreram graves danos. Anne queria voltar para Dublin. Richard queria ficar em Kerry. Ela dizia que tinha saudades da cidade. Ele argumentava que detestava Dublin. Ele dizia que ela não fizera esforço algum para se adaptar à vida em Kerry. Ele fizera imensos amigos, ela recusava-se a conviver. Defendia que passado um ano haviam construído ali uma nova vida. Sublinhava o que era óbvio: tinham uma casa, andavam a tentar ter filhos e ela concordara em ir viver para o campo. Ela refutava que para ela era mais difícil fazer amigos, mas, quando ele lhe perguntava porquê, não conseguia dar uma razão. Realçou que ainda tinham um apartamento em Dublin e muito dinheiro para comprarem uma casa. Também lhe parecia óbvio a ela que, não haviam tido muito êxito em conseguir engravidar e, além disso, havia muito boas escolas em Dublin. Gritaram e barafustaram. Ele, desapontado por ela desistir tão depressa; ela, desiludida por o marido ser ou completamente cego ao seu sofrimento ou então não se importar. Richard estava habituado a levar a sua avante e Anne habituada a ceder aos caprichos dele, mas já não conseguia continuar a fazer isso.
Às quatro da manhã, fez as malas e meteu-se à estrada rumo a Dublin. Richard acordou no sofá e viu-se sem a mulher e com um bilhete com uma única palavra: «Escolhe.»
* * *
Haviam passado duas semanas desde que Anne deixara Richard em Kerry. Durante esse tempo, perdera peso e reduzira um tamanho na roupa, o que Clo descrevera como o lado positivo. Eu estava preocupada. Ela passara de um estado em que comia de mais para o oposto, mal conseguindo aguentar uma colher de sopa no estômago. Ficava sentada em casa, no apartamento de cobertura em Dublin, muito mais bonito do que a treta da minha casa, mas que não me impedia de pensar se a Anne não se sentiria lá como num casebre. Esperava todos os dias que Richard lhe telefonasse, mas ele não o fazia, e ela estava completamente destroçada. Telefonava-me a soluçar tão alto que era impossível ignorar a sua dor.
– Saí de casa e ele nem se importa!
Eu tentava ser positiva, mas as evidências confirmavam o que ela dizia.
– Ele não passa de um sacana egoísta! – bradava.
Compadecia-me dela, embora tivesse o cuidado de não concordar com aquilo, com receio de que, ao reconciliarem-se, ela usasse aquilo contra mim. As mulheres conseguem ser curiosas a esse ponto.
– Onde anda ele, Emma? – perguntava-me, melancólica.
Boa pergunta.
– Porque não pode ele ceder só em metade?
Pergunta ainda melhor.
– Será que me ama mesmo?
Pergunta assustadora.
Quis que ela ficasse comigo e com Seán, mas ela não queria deixar o apartamento, não fosse ele ligar. Parecia realmente deprimida e assustei-me.
Uma noite, tentei ligar-lhe. Ela não atendeu. Não saíra de casa ao longo de duas semanas e estivera muito em baixo durante o dia. Talvez tivesse saído, mas qualquer coisa em mim dizia-me que não. Voltei a ligar. Nada. Comecei a ficar bastante nervosa. Passava-se algo de errado. Conseguia sentir isso – aquele pavor terrível percorria-me o corpo. Meti-me no carro, mas, claro, não pegou, e Seán tinha saído, por isso chamei um táxi, mas não havia nenhum disponível por mais de uma hora. Era demasiado tempo. Não havia autocarro directo, por isso fui ter com Doreen.
Doreen era enfermeira. Pedi-lhe que levasse a sua mala de primeiros socorros. Chegámos a casa de Anne meia hora depois da primeira chamada não atendida. Ninguém nos abriu a porta do prédio, por isso entrámos com um rapaz que ia entregar pizas. Ele não reparou que o seguimos ou, se reparou, não deu importância. Entrámos no elevador, subimos até ao último andar e toquei à campainha. Nada.
– Emma, isto é ridículo… ela deve estar com os pais – disse Doreen, encostando-se à parede.
Voltei a tocar à campainha e encostei o ouvido à porta.
– Doreen, escuta – disse, ansiosa, certa de ter ouvido qualquer coisa ou alguém lá dentro.
Doreen encostou o ouvido à porta e olhou para mim.
– Será o televisor? – perguntou, enquanto voltava a prestar atenção.
Pusemo-nos ambas à escuta, muito atentas. Passou por nós um homem e parou.
– Precisam de ajuda? – perguntou.
– Não, obrigada – respondi, num tom casual, tentando parecer normal.
– Sou o porteiro, por isso, se houver algum problema…
– Sim, de facto gostaríamos de entrar. Tem a chave?
Doreen perguntou aquilo num tom autoritário como se fosse dona do prédio.
O homem sorriu perante a audácia dela.
– Sim, tenho a chave, mas não lha posso dar sem mais nem menos, como compreende.
Eu voltara a encostar o ouvido à porta.
– Chiu! – pedi, apressadamente. – Estou a ouvir qualquer coisa. É ela. Estou a ouvi-la.
Consegui ouvir a palavra «socorro» pronunciada em voz débil. Doreen quis ouvir também. O homem aproximou-se e tentou arranjar espaço para encostar o ouvido à porta.
Doreen começou a ficar impaciente.
– Ouça, está lá dentro uma jovem e pensamos que precisa de ajuda. Por isso arranje lá a chave e, se nos tivermos enganado, pedimos-lhe desculpa e vamo-nos embora, mas, se estivermos certas, será um herói.
O porteiro ponderou uns instantes.
– Dêem-me uns minutos – disse, e foi buscar a chave.
Quando regressou, estávamos ambas convencidas de que a ouvíamos pedir ajuda e eu gritava que tudo iria correr bem para uma porta de madeira. Ele deixou-nos entrar e veio atrás. Não havia ninguém na sala de estar e o televisor estava ligado.
Na cozinha e no quarto, a mesma coisa. Voltei ao hall e dirigi-me à casa de banho, com Doreen e o porteiro atrás de mim, olhando para todo o lado.
Tentei abrir a porta. Estava fechada.
– Anne! – gritei.
– Em! – respondeu uma voz débil do outro lado.
– Anne, deixa-me entrar!
– Não posso! – gritou.
– Porquê? – inquiri, olhando para as duas pessoas trás de mim.
– Dei um jeito às costas. Não consigo mexer-me.
Empurrei a porta.
– Pára! – gritou ela – Estou nua!
– Deus meu! – murmurou o porteiro.
Imagino que ele pensara ter uma noite sossegada e uma mulher nua e ferida certamente não estava na sua lista de coisas a tratar.
– Tem calma, querida. Está aqui o porteiro. Ele vai tratar da porta – respondeu Doreen, enquanto fazia sinais ao homem.
– Doreen! – choramingou Anne.
– Sim, sou eu, minha linda. Vai tudo correr bem.
– Estou nua – lembrou-nos ela.
– Não faz mal. Vou tapar os olhos do… como se chama? – perguntou, olhando para o porteiro.
– Jim.
– Vou tapar os olhos do Jim quando ele retirar a porta.
Jim parecia nervoso. Ouvi Anne balbuciar qualquer coisa sobre Deus. Jim foi buscar as ferramentas. Doreen e eu fomos mantendo Anne a falar. Parecia que não comera o dia inteiro e que desmaiara no chuveiro. Um momento estava debaixo da água quente do chuveiro e, no seguinte, acordara sobre o chão de mármore sem conseguir mover-se. Tentei acalmá-la, mas ela não conseguia, e eu compreendia-a: já bastava ter um acidente; mas ter um acidente completamente nua era como pôr sal numa ferida.
Doreen mantinha o optimismo.
– Vais ver que isto será algo que contarás aos teus netos! – Sorria-me, certa de que as suas palavras lhe dariam algum consolo, mas não me convencia, e quando Anne começou aos gritos, também ela não se convenceu.
Jim voltou e começou a desaparafusar as dobradiças da porta.
– Porque não a arromba com um pontapé? – perguntei.
– Quer que eu deite abaixo uma sólida porta de mogno? – retorquiu, com um leve tom sarcástico.
– Bem, claro – respondi.
Anne gritou que não queria que ele arrombasse a porta. Não precisava que lhe caísse uma porta em cima, nem um homem em cima de uma porta. Doreen pediu-lhe que se mantivesse calma. Faltava só uma dobradiça, e eu insisti em tomar conta das operações. Ele acedeu, demasiadamente de bom grado, e pensei que talvez fosse gay. Ao retirar a última dobradiça, alertei a minha amiga nua que ia entrar.
– Espera! – berrou.
Ficámos imóveis imediatamente.
– Jim! – chamou Anne.
– Sim? – respondeu ele, hesitante.
– Pode ir-se embora agora. Obrigada pela sua ajuda.
– Muito bem. – Ele sorriu e desapareceu num instante.
Doreen suspirou.
– Homens. Que cambada de inúteis!
Empurrei a porta e deparou-se-me a pobre Anne de rabo para cima e cara para baixo.
– Bem! Podíamos estacionar uma bicicleta aí! – exclamou Doreen.
Tinha razão. Esperara encontrar Anne deitada no chão, e não dobrada sobre os joelhos. Era o raio de uma posição estranha, e interroguei-me como teria ela ficado assim.
– Sim, obrigada, Doreen – observou Anne, nada divertida.
Tapei-a com uma toalha de banho e depois segui as instruções de Doreen e pusemo-la em pé. Continuava dobrada para a frente e Doreen receava que tivesse deslocado uma vértebra.
Chamámos uma ambulância ao percebermos que não conseguiríamos levar Anne a lado nenhum na posição de sentada. Vesti-a ao mesmo tempo que Doreen dava a morada à telefonista. Enquanto esperávamos, Doreen perguntou a Anne qual a causa da queda.
– Muito bem, então sentias-te tonta. Não tinhas comido nada. Quando foi a última vez que comeste?
– Ontem… ou talvez anteontem. – Parecia que iria começar a vomitar, mas talvez fosse por se encontrar dobrada para a frente.
– Deves estar esfomeada – observou Doreen. – Porque não te faço uma sandes para comeres na ambulância?
O olhar de soslaio de Anne disse tudo, mas Doreen afastou com cuidado os cabelos do rosto de Anne e falou com ela com muita doçura.
– Sei que estás nervosa e que andas a passar um mau bocado, minha querida, mas tens de comer… senão acabas assim, nua, no chão.
Anne murmurou qualquer coisa sobre um iogurte no frigorífico. Dei-lho à colher e esperámos pela ambulância. Chegou uma hora depois.
Doreen estava agitada e não se importava de o mostrar.
– Isto é uma desgraça – não parava de balbuciar enquanto os paramédicos erguiam Anne para dentro do carro. – É para isto que pagamos os nossos impostos? – perguntou ao jovem que injectava um relaxante para os músculos nas costas da Anne.
Ele tentou não lhe ligar importância, mas ela repetiu a pergunta até que se viu forçado a responder-lhe.
– Desculpe, minha senhora.
Aquilo pareceu bastar. Agradeci a Doreen e garanti que lhe diria como estavam as coisas de manhã.
– Não há problema, minha querida. Até amanhã, bebemos um cafezinho.
Seguimos para o hospital. A injecção significava que Anne podia ir deitada, mas era óbvio que continuava com dores.
Por fim, lá chegámos ao hospital e fiquei atrás de uma cortina agarrando a mão de Anne. Ela chorava e eu sofria por ela. Pensei em ligar a Richard, mas tive receio de que isso só piorasse as coisas. Quando chegou o médico, tive então algum descanso e liguei a Seán, que me disse que tratava de Richard. Quanto voltei para junto da minha amiga, ela encontrava-se bastante sonolenta.
– Dei-lhe qualquer coisa para a ajudar a dormir – informou o médico, com muita simpatia.
– Obrigada – agradeci automaticamente, apercebendo-me de que também estava com sono. – Ela vai ficar bem? – perguntei quando ele se preparava para sair do quarto.
– Sim, embora pareça ter uma lesão muscular. Está dorida, mas com uma semana de descanso deverá melhorar bastante.
– Uma semana – repeti, para ter a certeza.
– Talvez duas. – Piscou um olho e saiu.
– Para ti é fácil de dizer, pá.
Deixei Anne a dormir num quarto privado. Já passava das duas da manhã quando cheguei a casa. Caí na cama e Seán aninhou-me junto a si.
– Falaste com o Richard? – perguntei.
– Ele não estava. Deixei mensagem.
– Meu Deus!
– Não te preocupes, ele irá lá ter – disse Seán, confiante.
– Tens a certeza?
– Absoluta!
– Ela anda a matar-se à fome – retorqui, com remorsos.
– Ela vai ficar bem.
– Achas que foi por eu e a Clo lhe termos dito que estava gorda?
– Isso talvez não tenha ajudado. – Suspirou. – Mas o verdadeiro problema dela está no casamento.
– Mesmo assim, vou matar a Clo!
Então, adormeci.
* * *
Na manhã seguinte, Doreen cumpriu o prometido e, ao fazê-lo, acordou-me ao romper da madrugada. Bebemos café e ela pareceu ficar contente com o diagnóstico do médico.
– Uma lesão muscular é muito melhor do que uma vértebra deslocada – observou antes de atacar uma torrada.
– Suponho que sim – retorqui, embora não soubesse muito sobre nenhum dos males. – Só espero que tudo volte a ficar bem com a Anne e o Richard.
– Vai sim – disse ela. – Não há como um acidente para recordar às pessoas o que realmente interessa na vida.
Meditei um pouco naquelas palavras e concordei.
– E quanto a ti? – perguntou-me sem mais nem menos. Não tinha a certeza de onde ela pretendia chegar.
– Bem, Menina Médium. Se não tivesses insistido que havia um problema e não tivéssemos lá ido a correr, provavelmente ela ainda estaria deitada no chão de rabo para o ar.
Eu não pensara naquilo.
– Meu Deus!
– Meu Deus, de facto! – concordou ela.
– O que quererá dizer isso? – perguntei.
– Quem sabe? – proferiu, sorrindo para si própria com ar sabedor.
– O John? – inquiri em tom conspirador.
– Talvez.
– Meu Deus!
Ela fez um gesto de assentimento.
– Ele que vá passear! – respondi, melancólica, não muito contente com o meu defunto marido e a sua inclinação para me enviar em missões piedosas.
Doreen riu-se.
– Sim! Entendo bem o que queres dizer.
Ela foi-se embora e enquanto seguia de carro para a escola perguntei-me se John me teria realmente enviado outra mensagem da tumba ou se eu estaria só hipersensível desde que ele morrera. Fosse o que fosse, antes de ele ter morrido nunca me apercebera da minha intuição. Pensei também no facto de andar a passar grande parte do meu tempo a entrar e a sair do maldito hospital. Ao chegar ao parque de estacionamento da escola, estava convencida de que John olhara por nós. Vira que havia problemas e ajudara-nos, e isso não me assustou de modo algum. Pedi-lhe desculpa pelo comentário que proferira. Não queria que ele fosse passear. Fiquei feliz por pensar que talvez ele ainda ali andasse a olhar por nós e, ao estacionar o carro, compreendi que já não tinha medo da vida nem da morte, que ambas faziam parte do plano divino. Sabia que ele continuava a viver, que estavam a cuidar dele, que se encontrava em paz e que o voltaria a ver num outro mundo, numa outra época. Seán estaria lá, e Clo, Anne e Richard, e estaríamos todos bem, e, pela primeira vez, em muito tempo, pensei em Deus e no Seu plano e tive fé. Noel teria gostado.
Depois da escola, dirigi-me ao hospital. Anne parecia muito melhor e, apesar de ainda ter dificuldade em sentar-se, pelo menos estava na horizontal, o que era uma grande melhoria em relação à noite anterior. Inspirava piedade, estava fraca e terrivelmente amedrontada, e senti imensa pena dela.
Clodagh chegou esbaforida, pois saíra a correr de uma reunião para conseguir estar ali na hora da visita. Richard ainda não aparecera, o que era preocupante. Anne pediu desculpa a Clo, com receio de que na sua presente condição não pudesse ser dama de honor. Clo não estava nada preocupada com isso. Estava certa de que Anne recuperaria e, se assim não fosse, Tom tinha uma prima a quem o vestido serviria.
Seán falava com Richard diariamente desde que haviam rompido a relação e sabia que ele, tal como Anne, se sentia a vítima de tudo e que andava deprimido e calado como ela. Seán tentara convencê-lo a dar o primeiro passo, mas de nada servira. Richard era teimoso e estava tão habituado a que ela lhe cedesse aos caprichos que achava que seria apenas uma questão de tempo. Seán tentara contactar com ele e não conseguira. Ele não fazia ideia de como a mulher se encontrava a sofrer e parecia não se importar. Para Richard, fora a mulher quem saíra de casa, por isso, para que se daria ele ao trabalho? Seán tentara explicar-lhe que as relações tinham que ver com dar e receber e que talvez fosse bom ele ceder só daquela vez, pelo menos. Richard chamou-lhe idiota chapado e desligara o telefone. Seán praguejou e culpou-me por ter insistido na sua interferência.
Por fim, onde Seán falhara, Clo triunfara. Estava farta da situação e assim, dois dias depois do acidente de Anne, conseguiu localizá-lo através do seu assistente. Estava em Paris a tratar de uns assuntos. Parece que tivera problemas com os inquilinos de um apartamento que não pagavam a renda e decidira correr com eles pessoalmente. Clo telefonou para o hotel onde estava hospedado e contou-lhe o que se passava como só ela sabia fazer.
– Richard, é a Clo, nem te atrevas a desligar. Richard? Muito bem, é assim. Tu e a Anne estão juntos desde o primeiro ano da faculdade. Ela é tua mulher agora. Tu está longe e infelicíssimo e nós, os teus amigos, estamos verdadeiramente preocupados com ambos. Então, acorda! És um sacana mimado e levaste desde sempre a tua avante, mas estás casado, e isso significa compromissos. A Anne encontra-se no hospital depois de ter desmaiado por se andar a matar à fome… admito que poderei partilhar a responsabilidade por isso, mas o facto é que ela está sem poder mexer-se. Sente-se profundamente infeliz, sofre horrores e tu, em princípio, deverias amá-la. Por isso, levanta-me esse rabo, volta para casa e faz qualquer coisa para salvar tudo isto. Ah, e, mais uma coisa, a partir de agora, passa a ver as mensagens!
Ela calou-se e desejei conseguir ouvir o que ele diria. Após alguns instantes, ela passou-me o telefone.
– Ele quer falar contigo.
Disse-lhe olá e ele perguntou-me se Anne estava bem.
– Ela magoou-se muito e poderia ter sido pior – respondi e acreditava que não estava a exagerar.
Contei-lhe que Anne fizera tudo o que pudera para tentar que ele fosse feliz e estava na altura de ele fazer o mesmo. Recordei-lhe os bons conselhos que me dera, e que esperava que ele aceitasse os meus.
Clo agarrou no telefone e acrescentou:
– Não sejas um filho da mãe toda a tua vida!
Desligou.
– Clodagh! – gritei.
Tudo parecia correr bem até ela lhe chamar filho da mãe.
– Estou farta dele! – observou.
– Mas pelo amor de Deus! Chamar-lhe filho da mãe não ajuda nada.
– Já tentámos tudo e, aliás, não deixa de ser um facto.
– Lindo!
Ela fez um sorriso forçado.
– Preocupas-te demasiado. És tão parecida com a tua mãe!
Atirei-lhe uma almofada.
– Não sou nada! – retorqui, zangada.
Tenho de dizer que não sei por que motivo esta analogia me incomodava, pois, além de amar a minha mãe, também tenho muito orgulho nela.
– Tu… – disse eu.
– Tu… – repetiu.
– Tu… – continuei.
Prosseguimos com aquela argumentação até Seán chegar carregado com compras e um grande envelope castanho. Leonard saltou imediatamente do parapeito da janela e seguiu Seán até à cozinha, desesperado por comida. Seán tratou dele antes de voltar para a sala de estar, acendendo um charuto.
Clo e eu olhámos para ele.
– O que estás a fazer? – perguntei.
– Estou a comemorar.
– Ai sim? – inquiriu Clo.
– Pois.
– A comemorar o quê? – perguntei.
– O meu livro. Vai ser publicado.
Ficámos boquiabertas.
– Não! – exclamou Clodagh.
Levantei-me do sofá.
– Oh, meu Deus!
Senti tal entusiasmo e nervosismo que achei que ia vomitar. Nos últimos tempos tinha imensa vontade de vomitar. Andava com o estômago às voltas. Contudo, sentia-me extremamente feliz, quase delirante. Seán estava aos saltos. Agarrei-me a ele, juntando-me ao seu júbilo.
– Isso é fantástico! – exclamou Clo, com sincera alegria.
– Pode estar nas livrarias pelo Natal – observou ele, orgulhoso, enquanto me apertava contra si.
– Posso tratar das relações públicas! – quase gritou Clodagh
– Adoro fazer lançamentos de livros!
Ri-me. Ela era um ás com os media. Seán dançava e aspirava o fumo do charuto, esquecendo-se de que se tratava de um charuto e não de um cigarro. Cinco minutos depois sentiu-se mal.
Clodagh saiu pouco depois. À porta, interroguei-me em voz alta se teríamos agido bem ao telefonar a Richard. Ela respondeu que sim e suplicou-me que não desperdiçasse a noite preocupada quando tinha tanto para celebrar. Tinha razão.
* * *
O nosso telefonema deu resultado. Passado cinco horas, Richard estava ao lado da cama da Anne com o bilhete em que ela lhe escrevera «Escolhe». A palavra estava sublinhada e, à frente, surgia a palavra «Escolho-te». Foi um autêntico momento cinematográfico, mas, em vez de lhe cair nos braços (afinal, ela não se encontrava em condições para tal), Anne manteve-se (deitada) firme. Teriam de fazer algumas mudanças no casamento, e ou as faziam ou então separavam-se. Pela primeira vez na vida, falaram durante horas. Richard escutou o que a mulher tinha a dizer-lhe. Ela explicou-lhe tudo o que a incomodava, e havia uma longa lista de males a ultrapassar. Ele reconheceu que fora um idiota e acabou por pedir desculpa. Não fora sua intenção agir como um sacana e admitiu que a queda que ela dera o assustara imenso. Ele pensara que, ao manter-se firme, ela voltaria para os seus braços, mas, pela primeira vez na vida, Richard compreendeu que o mundo não girava só à sua volta. Falaram até muito tarde e acabaram por acordar que iriam tentar viver em Dublin durante a maior parte do ano. Richard cedia por fim aos desejos da mulher e ela, apesar do seu desconforto físico, estava exultante. Igualdade, por fim.
22
Azul
A cordei às sete. O despertador não tocara e não era habitual em mim acordar antes de este tocar. Sentia-me inquieta e olhei para Seán, que dormia tranquilamente. Pensei em acordá-lo para falar sobre a despedida de solteira de Clo, prestes a acontecer, mas optei por não o fazer, pois senti que ele não iria ficar lá muito satisfeito. Levantei-me. Ele encontrou-me no banho meia hora depois. Ofereceu-se para fazer o pequeno-almoço, mas, no fundo, não me apetecia comer. Ofereceu-se então para me massajar as costas, pois eu sentia o corpo algo dorido. Levantei-me e senti-me tonta. Ele comentou que eu estava pálida, enquanto me estendia uma toalha. Ajudou-me a sair da banheira e ficou preocupado, mas a água do banho estava quente, por isso prometi-lhe que não era nada de mais. Esforcei-me por comer um bocado de torrada, mas só de a ver senti-me maldisposta.
Por favor, meu Deus, nada de gripes, implorei em silêncio ao entrar no carro. Era a noite de despedida de solteira de Clo e era óbvio que não poderia faltar. Dirigi-me para a escola a rezar que, se fosse gripe, os miúdos também a tivessem apanhado. Mas não.
Raios!, pensei, enquanto me preparava para educar trinta alunos em alvoroço.
* * *
Declan veio ter comigo depois da aula.
– A stora sente-se bem? – perguntou.
– Sim – sorri, sentindo-me um pouco melhor.
– Está doente? – inquiriu.
– Não.
– Hum – retorquiu, baixinho.
– O que quer dizer esse «hum»? – Tentei sorrir novamente.
– A senhora está verde. – Apontou para o meu rosto.
– Estás a pensar entrar para medicina, Declan?
– Não – retorquiu, redondamente. – Vou ser manager de grupos pop, trabalhá-los ao máximo, ganhar rios de dinheiro e reformar-me aos trinta e cinco anos. – Sorriu e inclinou-se para a frente. – Já ouviu a Jackie Lynch do terceiro ano a cantar? – perguntou.
Respondi que não.
– Tem uma vozinha linda e não tem mau visual. Alguns arranjos, a roupa certa, e fica uma brasa. – Sorriu maliciosamente e acrescentou que era uma pena eu não ser dez anos mais nova.
Deixei passar a observação, pois ele sempre me divertira, e, para ser sincera, nos meus tempos mais tristes e antes de Seán, juro que houve dias em que pensei que era uma pena ele não ser dez anos mais velho. Vi-o sair e interroguei-me quanto tempo demoraria até começar a ler sobre ele nas revistas. Ao almoço, senti-me bastante melhor. Comi, o que acabou por ser um erro enorme. Vomitei o dito almoço, mas, pela tardinha, senti-me de novo melhor. Era notório que estava com qualquer indisposição de estômago e rezei para que não me atacasse até ao dia seguinte.
* * *
Seán chegara a casa antes de mim e esperava-me à porta. Sorria e tinha numa mão um monte de balões e uma caixa dos meus chocolates preferidos na outra e agarrava uma rosa com os dentes. Desatei a rir.
– Então…? – inquiri, com ar desconfiado.
Ele teve de atirar a rosa ao chão para conseguir falar.
– Estão a oferecer-me um contrato para dois livros com uma opção para quatro – explicou, de rosto iluminado.
Desatei aos gritos de contente.
– Oh, meu Deus, és fantástico!
– Bem sei! – concordou, gritando também.
Salto para cima dele. Ele largou os balões e os chocolates, para grande alegria de um Leonard magricelas e privado de gulodices, e, enquanto nos íamos despindo à pressa, o gato tentava roer o pacote. Celebrámos com champanhe, na cama, das cinco às oito da noite, e, a seguir, não tinha outro remédio a não ser ir à festa de despedida de solteira de Clo. Ele compreendeu, e, aliás, teríamos todo o fim-de-semana para comemorar. O melhor era que me sentia óptima, repleta de amor e champanhe e pronta para a festa. Clo não confiara em nós os preparativos para a sua despedida, alegando que faríamos tudo mal. Em vez disso, encarregou-se ela própria de tudo, avisando que quem chegasse com algum pirilau mecânico ou de plástico seria forçado a abandonar a festa. Nada de perucas, nada de bolas e correntes, nem coroas nem T-shirts nem nada de comidas fálicas. Seria uma noite de mulheres, para ir a bares, apanhar uma bebedeira e divertirmo-nos. Éramos dez, todas de vestido preto curto, grandes penteados, muita maquilhagem e saltos altos.
Entrámos no primeiro pub, sentámo-nos ao balcão e bebemos uma rodada de shots e a seguir outra. A terceira foi por conta da casa.
Sentámo-nos a uma mesa e bebemos alguns cocktails, falando da Posh Spice, de diamantes, de spas, do sistema fiscal, de férias nas Caraíbas e de homens, de Clinton, de sexo por telefone, do Big Brother , do Kid Rock, da Palestina, de Nostradamus, de bebés, casamentos, de Clo e do seu futuro. Ela estava exuberante, inebriada e a passar um bom bocado. Depois fomos a uma discoteca e dançámos durante horas, enquanto Anne se manteve junto à pista de dança, com dores, mas, mesmo assim, a acenar-nos; a seguir fomos a outra discoteca jogar snooker, sentámo-nos em sofás, fumámos charutos, bebemos mais copos, caímos dos sofás, bebemos ainda mais, esperando que ninguém tivesse notado.
Às quatro da manhã, a gerência chamou táxis para nós. Anne melhorara bastante, andava ainda um pouco rígida, mas, sob o efeito do álcool, soltara-se. Clo ajudou-a a entrar no táxi, receando que a sua despedida de solteira tivesse sido demasiado pesada para a amiga magoada, mas Anne fora inflexível, dizendo que se tratava de uma noite de arromba, e que não queria perder pitada. Richard encontrava-se fora, por isso, ela convidou-nos para sua casa para mais um brinde. Encheu os nossos copos e erguemo-los. Ela continuou em pé, visto que ainda lhe custava sentar-se.
– Desejamos-te tudo de bom e ainda mais coisas boas! – Sorriu e brindámos.
Clo quis fazer um brinde.
– Aos muitos homens a quem dei negas esta noite e aos muitos a quem darei negas durante o resto da minha vida! Boa sorte a todos!
Rimo-nos e Anne ergueu o seu copo.
– A todos! – repetimos.
Eu não fiz nenhum brinde. Estava demasiado ocupada a beber. Anne instalou-se confortavelmente no chão, a sorver a bebida por uma palhinha para não ter de mexer a cabeça. Ficámos ali sentadas até às seis, a falar sobre o passado, os nossos anos da adolescência, da escola e do Verão que passáramos nos Estados Unidos, das pessoas que fôramos conhecendo. Clo recordou-me o casamento que eu sonhara ter com John, com ele de pé, junto ao altar, e George Michael a cantar no copo-d’água. Desatei a rir. Agora, quando sonhava acordada, era com Seán, e George Michael não entrava no sonho. É curioso ver como o mundo funciona, como se perde e se ganha na vida, como nunca conseguimos saber realmente como será o futuro, por mais que planeemos as coisas. Como sobrevivemos e continuamos em frente. Existe uma espécie de tristeza que advém da sobrevivência, mas também mais felicidade. Concordámos que Clo merecera a dela. Ela merecia o melhor, porque para nós ela era a melhor, a mais brilhante, a mais engraçada e verdadeira das amigas e Tom era um bom homem, e, apesar de todas nós, ali sentadas, já termos compreendido havia muito tempo que a vida não era um mar de rosas, e que no céu mais luminoso há sempre uma nuvem negra, sabíamos também que encontraríamos sempre consolo umas nas outras, e, afinal de contas, não é isso que significa a amizade?
* * *
No dia seguinte, sofri horrores. Como nunca. Na verdade, a dor de cabeça que tinha era equivalente a uma bomba a explodir-me nas têmporas. A determinada altura, cheguei a pensar que estaria a ter um aneurisma. Pensei até ter de voltar ao hospital. Porque não? Naquela altura do campeonato, já todos lá sabiam o meu nome. Deixei-me estar deitada na cama com um pano frio sobre os olhos e a gemer, só para ter a certeza de que não perdera a capacidade de falar. Senti-me maldisposta, mas, enfim, também não era de esperar outra coisa. Bebera até mais não poder. Um efeito secundário daquela ressaca em especial era uma invulgar dor nos seios. Também pareciam um pouco maiores do que o normal, e estavam extremamente sensíveis ao toque. Abri o top e vi dois pequenos círculos castanhos em redor dos mamilos.
Curioso.
Seán fora ao escritório, para pôr as coisas em dia, o que habitualmente fazia aos domingos. Encontrava-me sozinha no quarto, com Leonard, que se entretinha a olhar para o gato de Mrs. Jennings, do outro lado da rua. Eram duas quando me levantei. Vomitei e senti-me logo melhor do estômago. No entanto, sentia ainda a cabeça a estalar quando Doreen apareceu para que eu lhe contasse os acontecimentos da noite anterior. Fez chá, enquanto eu só estava com vontade de lhe explicar os pormenores da minha ressaca. Ela não pareceu demasiado preocupada.
– Pois, é bem feito.
– Muito obrigada, Doreen.
– Quantos anos tens? Com franqueza, Emma, por vezes fico parva com a vossa geração.
Comecei a interrogar-me porque haveria de me importar com o que dizia. Fiz uma careta e ela riu-se.
– Não tem piada nenhuma. Eu devia corrigir testes hoje. Não consigo ver bem. Tenho vontade de vomitar. – Depois, por uma razão qualquer, acrescentei: – E o mais estranho é que tenho os seios mais sensíveis.
– Sensíveis, como?
– Sensíveis, só isso, doem-me.
– Como?
– Oh, pelo amor de Deus, doem!
– E que mais? – indagou.
Perguntei-me se deveria mencionar os círculos castanhos nos mamilos e depois ponderei que, se não mencionasse, me arrependeria caso caísse em coma.
– Círculos castanhos à volta dos mamilos.
Aquela declaração foi recebida por um silêncio nada habitual em Doreen.
– Círculos castanhos – repetiu, num tom que reflectia preocupação.
– É um pouco estranho, não é? – perguntei, ponderando se não seriam o resultado de demasiadas horas no solário no princípio dos meus vinte anos.
– Como te tens sentido? – perguntou.
– Bem – respondi, e depois pensei nisso. – Na verdade, não muito bem. Na semana passada, quase jurava que me tinham posto veneno na comida e ainda ontem me senti como se estivesse quase a apanhar uma gripe. Sentia-me tonta.
– Sentes-te tonta… – Ela suspirou.
– Desculpa?
– Emma, é tão óbvio!
Porém, nada era óbvio para mim.
– Quando te veio o período pela última vez?
Começava a entender aonde aquela conversa nos levava, e teria desatado a rir se o riso não me causasse dor.
– Há cerca de dois meses – respondi-lhe, com um sorriso.
– Há dois meses! – quase gritou ela.
– Sei o que estás a pensar, mas não quer dizer nada. Sou tão irregular como os autocarros de Dublin.
Era verdade. Na adolescência, com sorte, tinha seis períodos por ano! Fiquei um pouco mais regular na casa dos vinte, mas, depois, John morrera e muita coisa acontecera comigo desde então.
– Emma, apesar de seres irregular no período, porque não fazes um teste de gravidez? – perguntou, sem ter ficado particularmente convencida com o historial da minha menstruação.
– Não.
– Bem, acho que deves fazer.
Não era nada daquilo que eu precisava de ouvir naquele dia.
– A sério, Doreen, está tudo bem.
– Tenho a certeza de que sim, mas isso não quer dizer que não estejas grávida, minha querida. Os círculos castanhos são um grande indicador.
Disparate.
Doreen tinha de ir assistir ao jogo de futebol do filho e foi-se embora, aconselhando-me a fazer o teste. Deixei-me ficar no sofá, a tentar esquecer a conversa que acabáramos de ter. Pelas quatro da tarde, já não aguentava mais. Meti-me no carro e dirigi-me à farmácia mais próxima, onde comprei comprimidos para a dor de cabeça e um teste de gravidez.
Aqui vamos nós outra vez.
Cheguei a casa e vi que Seán ainda não regressara do escritório. Fui à casa de banho, abri a caixa, lutando com o invólucro de celofane, e fiz chichi no stick.
Três minutos.
De início, tinha a cabeça como que vazia e pensei que era devido a ter matado milhões de células cerebrais na noite anterior.
Dois minutos.
Santo Deus, aquele minuto passara realmente muito depressa.
Pensei em Seán e sorri, porque, apesar de me sentir de rastos de manhã, ele fizera-me rir e não me conseguia lembrar de quê.
Um minuto. Céus, como o tempo voa.
Imaginei a reacção dele se eu estivesse grávida, mas foi um pensamento fugaz e nem cheguei a sentir preocupação.
Estranho.
Olhei para o relógio. Haviam passado três minutos. Não perdi mais tempo. Voltei o stick, que me revelou a linha azul mais grossa que eu vira na vida. Fiquei como que hipnotizada por aquela linha, durante muito tempo.
Estou grávida.
Deixei que a nova informação penetrasse bem em mim. A palavra «uau» talvez descreva melhor como me sentia. Não estava nada preocupada, mas devia sentir medo. Sejamos sinceros, é bastante óbvio que tenho tendência a perder o controlo, mas, naquela situação tão importante na minha vida, mantive-me perfeitamente calma. Sentia-me controlada e feliz e depois lembrei-me de que bebera imenso na noite anterior. Fiquei um pouco perturbada com isso, mas a sensação não durou mais que um minuto. Conhecera uma rapariga na faculdade que só passados seis meses percebera que estava grávida e que bebera como uma perdida durante esses seis meses. O pequenito nascera de perfeita saúde. Uma noite não iria afectar muito e prometi a mim própria que não repetiria a experiência.
Estou grávida.
Telefonei a Doreen e ela chegou quase a seguir a ter pousado o auscultador.
– Bem te disse! – exclamou, abraçando-me. – Sentes-te bem?
Recuou um pouco e afastou os cabelos do meu rosto de modo a eu nada poder esconder.
– À parte uma dor de cabeça horrorosa, sinto-me bem – admiti.
– Oh, isto é tão bom!
Subitamente sorri, porque ela tinha razão. Era maravilhoso.
– Adoro bebés. Gosto do cheirinho deles, dos pezinhos minúsculos, da maneira como os sentimos quando adormecem ao nosso colo. Ah, que saudades tenho dos meus bebés! – lamentou-se.
O meu sorriso manteve-se tanto tempo que me começou a doer a cara. Ia ter um bebé e estava ansiosa por isso. Abraçámo-nos e ela quase me sufocou. Preparou-me qualquer coisa para comer apesar de eu insistir que não estava com fome. Ela nem queria ouvir dizer isso – agora teria de comer por dois. Perguntei-lhe como poderia contar a Seán. Quando me apercebi, por fim, que ainda nada dissera a Seán, senti-me culpada por ser ela a primeira a saber.
– Círculos em redor dos mamilos! – proferiu ela. – Eu soube logo antes de ti, minha grande pateta!
Bem visto. Doreen riu-se.
Que grande pateta sou!
* * *
Já passava das sete quando Seán chegou finalmente a casa. Eu estava deitada no sofá a ver o concurso Blind Date, a torcer pela concorrente número dois. Ele refastelou-se ao meu lado, feliz por eu ter recuperado o bastante para me importar com quem a concorrente vestida de tigreza escolhera sair. Sentia-me um pouco nervosa, mas não tão inquieta como talvez devesse estar. Ele agarrou no comando e mudou de canal.
– Comeste alguma coisa? – perguntei sem pensar.
– Petisquei no caminho para casa.
Concentrei-me na televisão. Madonna estava a cantar sobre sexo.
– Ele levantou-se.
– Queres uma cerveja?
– Não – sorri.
Ele foi à cozinha e perguntei-me quando lhe iria dizer. Não consigo explicar bem, mas todos os sentimentos que eu poderia esperar ter na altura, como choque ou medo, simplesmente não existiram. Claro que me importava com a reacção dele, mas no meu íntimo não me deixava preocupar com isso. O que sentia não tinha nada que ver com as minhas reacções habituais, e isso, por si só, deveria causar-me algum alarme, mas encontrava-me fechada num lugar estranho, um lugar bem-aventurado.
Ele voltou com a cerveja e sentou-se, colocando as minhas pernas sobre o seu colo. Piscou-me um olho e sorri-lhe.
– Hoje fiz um teste.
– Ai sim? – retorquiu, enquanto olhava para a televisão.
Uma jovem apresentadora loura falava animadamente sobre as novidades musicais no top ten.
– Sim – respondi, enquanto admirava em silêncio as botas dela.
– Que género de teste? – perguntou Seán, talvez admirando-lhe as maminhas.
– Um teste de gravidez.
Ele engasgou-se com a cerveja; saiu-lhe a espuma pela boca, que caiu rapidamente pelo queixo abaixo. Virou a cabeça na minha direcção.
– Tenho andado indisposta.
– Eu sei, e? – Não parecia alarmado, nem sequer chocado, apenas curioso como se, possivelmente, aquilo se tratasse de uma coisa boa.
– A Doreen disse-me que eu deveria fazer um teste.
– E? – Ele não estava mesmo para rodeios.
– E tinha razão.
– Ela tinha razão? – inquiriu, e vi o entusiasmo nos seus olhos.
– Estou grávida – anunciei, e não consegui deixar de sorrir porque conhecia o seu rosto, conhecia os seus olhos e sabia que ele estava feliz.
Pousou a cerveja e virou-se para mim.
– Tens a certeza absoluta? – E o medo que senti na sua voz era do bom.
– Estava azul – respondi, e na minha voz surgiu uma emoção súbita. Comecei a chorar, mas eram lágrimas de felicidade.
Ele agarrou-me no rosto.
– Vamos ter um bebé? – perguntou, e pensei por instantes em pôr aquilo por escrito.
– Bem, espero que não sejam dois! – ri-me.
– Vou ser pai! – Então começou a chorar e abraçámo-nos.
– Vou ser pai! – repetiu, e chorámos como dois bebés, o que era uma ironia, visto eu ter um no meu ventre.
Passado um bocado, subimos e fizemos um segundo teste, só para termos a certeza de que dava azul tal como o primeiro; sentámo-nos juntos no chão da casa de banho, a olhar para a linha azul e a sonhar com o que ela significava. Nessa noite, ficámos nos braços um do outro a fazer planos. Iríamos ter de pedir um empréstimo, mas isso não constituiria problema de certeza. Tínhamos empregos estáveis e algumas poupanças. Decidimos nada dizer a ninguém, pelo menos até passarem três meses, e, além disso, Clo ia casar-se e nenhum de nós lhe queria tirar a luz da ribalta. Podíamos confiar em Doreen, desde que a mantivéssemos longe de todos. Havia muita gente que perdia o primeiro bebé, mas nenhum de nós queria sequer pensar nisso. Ambos desejávamos aquele bebé. Não nos havíamos apercebido, mas naquele momento tornava-se claro que era a melhor coisa que poderia ter acontecido. A alegria que sentia encheu-me o coração, antes enfraquecido.
Claro que pensámos em John, como não poderíamos pensar? Falei a Seán do teste que fizera no dia em que John morrera e, pela primeira vez, admiti para mim própria e a Seán como me sentira mal. Mas agora era diferente. Éramos mais velhos e mais sensatos. Nós estávamos mais bem preparados e mais fortes. Não significava que eu não tivesse amado John. Queria dizer somente que nessa altura eu não me encontrava preparada. Senti-me mal por isso, mas Seán apertou-me contra si e toda a culpa se desvaneceu.
– Amo-te – disse-lhe.
– Também te amo, mamã. – Ele sorriu.
– Agora a sério, não me chames mamã! – pedi. – Prefiro mãezinha, mãe ou até mãezita.
Ai, meu Deus, estou tão entusiasmada que preciso de fazer chichi!