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15 Futebol, betazóides e a saída
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Futebol, betazóides e a saída
S eán lá conseguira encontrar a inspiração de que precisava para voltar a escrever o livro. Concentrou-se em terminar o seu primeiro romance, algo que dizia que iria fazer desde o dia em que nos conhecemos. Trabalhava nos seus artigos, depois punha-os de parte e perdia-se no livro durante horas e horas seguidas. Não dava conta do tempo a passar, nem se importava, o que era especialmente frustrante se combinara encontrar-se com alguém para almoçar.
Noel começou a aceitar outros trabalhos. Tinha um clube ou grupo social a que dar atenção quase todas as noites.
Eu realmente nada tinha por onde me perder. Limitava-me ao ensino dos meus alunos, vinha para casa, corrigia alguns testes de vez em quando, e resumia-se a isto. Sentia-me aborrecida e agora que o meu irmão andava tão ocupado fui forçada a ir ao confessionário para o ver de novo.
– Olá! – sorri quando Noel puxou a portinhola.
Ele suspirou.
– Então estás de volta.
– Bom, tu não tens aparecido. Só queria encontrar-me contigo.
– Sabes onde eu vivo – disse ele, sorrindo, porque ambos sabíamos que não havia maneira de eu alguma vez ir falar com o padre Rafferty.
– Mas nunca estás lá – retorqui, evitando o assunto do seu idoso companheiro.
Sentiu-se vencido e rendeu-se às evidências.
– Então e que tal falarmos sobre isto lá fora? – propôs-me, antes de acrescentar: – Tenho o rabo dormente.
Aparentemente existia todo um vasto leque de formas de sofrer por Deus, e um rabo dormente era de certeza uma delas.
Entrámos num café. Era já noite e o lugar estava cheio de estudantes. Olhei à volta e sorri-lhes, as recordações dos meus dias de universidade parecendo distantes. Noel reparou na minha contemplação.
– A passagem do tempo é uma coisa engraçada. Às vezes, desejava, por apenas um instante, conseguir parar o tempo, só durante um bocadinho – disse ele.
Sorri.
– Sei exactamente que momento é que gostaria de parar.
Ele suspirou, parecendo de súbito triste.
– Eu também – disse ele.
– Estás bem? – perguntei.
– Estou. – Sorriu de novo. – Na verdade, estou feliz por me teres vindo ver… isso poupa-me uma viagem.
– Ai sim?
– Estava a pensar em sair daqui por uns tempos – explicou.
Entrei em pânico.
– Para onde? – perguntei, rezando para que ele me mencionasse Bray em vez de Bali.
– Estou a pensar em tirar um ano sabático para viajar, ver um pouco do mundo que Deus criou. Farto-me de falar nele… é altura de o experimentar.
Comecei mesmo a entrar em pânico. Não o podia perder também.
– Tu queres viajar ou fugir? – perguntei, destroçada por ele me ir abandonar.
– Touché! – exclamou, bem-humorado. – E a resposta é não sei. Mas tenho de mudar a minha vida. Não posso continuar a ser como sou, sem o meu coração estar envolvido. Preciso de encontrar o que perdi.
Quis explicar-lhe que ele estava a dizer disparates e que não devia ir, que podia resolver os seus problemas cá, que eu o ajudaria, mas sabia que não o podia e que ele precisava de sair dali e encontrar a paz de que andava à procura.
– E se não encontrares o que perdeste?
– Então seguirei a minha vida – respondeu.
Ele estava correcto. Eu sabia-o, mas aquilo fazia-me sofrer.
– Acho que és corajoso. Vou sentir muito a tua falta. – Sorria, mas as lágrimas caíam-me pelas faces.
Ele enxugou-as e segurou o meu rosto nas suas mãos.
– Amo-te, Emma – disse ele.
– Eu também te amo, Noel – respondi.
Abraçámo-nos e, por sobre o seu ombro, vi os estudantes a rir e a sussurrar sobre o padre e a sua namorada. Se ao menos compreendessem a sua situação, talvez a sua dor não representasse para eles uma piada tão grande.
* * *
Clo achou que não estávamos a passar tanto tempo juntos como antes. Então organizou uma saída à noite.
– Vamos jantar, ver um filme, beber uns copos – disse ela.
– Um filme – repeti. – Não queres dizer uma película? – perguntei, sarcasticamente.
– Em, actualiza-te. Hoje em dia, toda a gente chama filmes às películas. Céus, és mesmo uma avozinha!
Ri-me.
– Tenho vinte e sete anos – observei.
– É esse o problema. Então, alinhas?
Perguntei quem iria.
– Tu, eu, o Tom, o seu amigo Mick e o Seán.
Eu não estava lá muito convencida.
– O Seán disse que ia?
– Disse – respondeu ela firmemente.
– Está bem, então isto não és tu e o Tom a tentar arranjar-me um encontro com o seu amigo?
Ela abanou a cabeça.
– Oh, Em, sempre tão desconfiada! Ninguém está a tentar tramar-te. É apenas uma saída à noite.
Telefonei a Seán. Ele confirmou que iria, então também concordei em sair.
Tínhamos combinado encontrar-nos numa pizaria às seis e meia, mesmo a tempo para o menu dos madrugadores, tal como Mick insistiu em lembrar-nos. Seán estava atrasado. Começava a pensar que ele não viria, e isso preocupou-me porque Clo e Tom estavam ainda na fase dos elogios mútuos e Mick começava a aborrecer-me de morte.
– Sabes qual é o grande trunfo da série Gerações? – perguntou.
Não fazia ideia do que ele estava a falar.
– Não.
– Diversidade cultural – afirmou, e bateu com a mão sobre a mesa enquanto falava para enfatizar a importância do tema.
– A sério?
Sorri, enquanto tentava captar a atenção de Clo. Aquilo era difícil. Tom sussurrava-lhe junto ao pescoço – ela estava a milhas dali. Senti-me encurralada. Olhei para a porta. Não se abria.
– Sabes, na série Star Trek, a tripulação tinha um vulcano, e apenas isso. Os restantes eram humanos. Em Gerações, têm um klingon, um betazóide, um andróide e o Colm Meaney, que é tão porreiro. Após Os Commitments, ele foi à luta e fez algo de si próprio. Quero dizer, onde estão os outros parvalhões?
– Boa pergunta – respondi, enquanto espreitava de novo para o meu relógio e planeava dar um murro na cara de Seán. Passado meia hora e catorze enredos de Star Trek e do Gerações, ele chegou.
– Desculpem, peço imensa desculpa, fiquei preso no trânsito – disse, enquanto se punha ao meu lado, para grande irritação do Mick.
– Este é o Mick. – Sorri para ele.
Deram um aperto de mão.
– O Mick estava a contar-me tudo sobre o Star Trek, Gerações – expliquei, sorrindo.
Antes de Seán ter uma oportunidade para comentar, Mick perguntou-lhe se gostava da série Star Trek.
– Não, acho que aquilo é um monte de treta – disse ele, sorrindo.
Felizmente, Mick ficou bastante calado depois disso.
Fomos ver uma reposição de O Silêncio dos Inocentes. Sentei-me entre Seán e Mick. Mick começou a sussurrar-me ao ouvido – era um falador. Eu detestava faladores. Quero dizer, qual é a razão de ir ver um filme se se fala o tempo todo? Aquilo estava a deixar-me maluca e por isso pontapeei Seán. Mick começou a sussurrar de novo, falando-me de uma treta qualquer sobre os assassinos em série.
Seán inclinou-se sobre mim.
– O quê? Tens de falar mais alto. Não consigo ouvir-te.
Mick sentou-se para trás, incomodado.
– Nada.
– Bolas, desculpa, pensei que estivesses a dizer qualquer coisa.
Seán sorriu-me enquanto eu tentava esconder o meu sorriso. Mick não sussurrou mais nada depois disso.
Fomos beber um copo, insistindo que seria uma coisa rápida. Mick estava cansado e foi para casa. Suspirei de alívio. Quando chegámos ao bar, após o rescaldo do filme, Clodagh e Tom anunciaram que iam viver juntos. Não podia acreditar, tinha sido tudo tão rápido, mas estava feliz por eles.
– Porque não? Podemos estar todos mortos amanhã.
Seán e eu felicitámo-los e ficámos mais um pouco para celebrar as novidades. Eles saíram os dois e nós partilhámos um táxi até casa.
– É um bocado rápido de mais – pensou ele em voz alta.
– Quando se sabe, sabe-se – respondi-lhe.
Ele olhou pela janela.
– Como é que se sabe, Emma?
– Sabe-se apenas – respondi.
– Quando?
Eu estava confusa.
– O que queres dizer com isso?
– Quando é que se sabe?
– Sabe-se e pronto.
Ele permaneceu calado durante o resto da viagem. Olhei para as luzes na rua e imaginei que era Clarice Starling a dar cabo de Hannibal Lecter, enquanto Seán continuava calado a olhar para a frente. Obviamente, eu não fazia ideia do que falava.
* * *
Um mês depois, os meus pais organizaram uma festa de despedida para o meu irmão. Puseram uma faixa na sala de jantar que dizia «Bon Voyage, Noel».
Havia canapés, salsichas e sandes por todo o lado, tornando difícil encontrar um lugar onde nos sentarmos. Seán, Clo e Tom vieram. Anne e Richard estavam para vir, mas ele apanhara gripe e Anne ficara a fazer de enfermeira. Olhei à volta, para os meus pais e os amigos de Noel, para a faixa e para a comida. Lembrou-me a festa de herança e pensei em John, talvez pela primeira vez naquele mês. O sentimento de culpa fez-me sentir um bocado indisposta. Precisava de apanhar ar. Fui até ao jardim.
Seán foi ter comigo.
– Já estás a sentir a falta dele? – perguntou.
– Do Noel? Não, ele vai voltar – respondi, sem me virar para ele.
Ele avançou até mim.
– Já estou quase a acabar o livro.
Perguntei-lhe pela quinta vez nessa semana se o podia ler.
– Por enquanto não. Mas vais ser a primeira – garantiu-me.
Não fiquei conformada e implorei-lhe que mo deixasse ler, alegando que ele tinha quase terminado. Estava em pulgas para ver o que o mantinha fechado durante horas sem fim. Ele pensou sobre isso durante um instante.
– Não vais gostar muito. Passa-se à volta de uma equipa de futebol…
Oh, meu Deus, vou ter de ler um livro sobre futebol!
Devo ter-me afastado dali em espírito durante alguns instantes porque, embora a sua boca se movesse, eu não estava de todo a registar as palavras que ele proferia.
Não acredito que não pense no John há tanto tempo.
– Não ouviste uma única palavra do que eu disse – desafiou ele.
– Futebol? Uma equipa de futebol numa aldeia pequena – continuei, tentando disfarçar o meu alheamento.
Ele sorriu.
– Não te preocupes… não tens de ser o Alex Ferguson para gostares da história.
– Certo, óptimo, mal posso esperar.
Mas quem é o Alex Ferguson?
* * *
Todos se foram embora e lá ficámos nós, a família, uns em frente dos outros, a questionar-nos sobre quem iria chorar primeiro. O voo de Noel era às dez horas. Eram sete, e as horas estavam em contagem decrescente demasiado depressa para a minha pobre mãe. Ela mantinha-se atarefada a limpar pratos enquanto eu varria o chão. O meu pai e Noel foram para o escritório. Ficaram lá algum tempo. A minha mãe fazia os possíveis para não chorar.
– Ele vai ficar bem – tentei eu tranquilizar-nos.
– Ele vai para a maldita selva – disse ela, com uma lágrima a escapar dos olhos marejados.
– Cuba não é bem uma selva.
– Malditos comunistas.
– Mãe! – exclamei, angustiada.
– É um lugar incivilizado.
– Credo! Tu não sabes nada sobre Cuba – retorqui, aborrecida.
– E tu sabes – observou, sarcasticamente.
Ela tinha razão. Eu não fazia ideia, mas não estava com disposição para deixar o seu racismo prevalecer.
– Tem umas praias bonitas – murmurei, a tentar lembrar-me de algum programa do Travel Show.
– Boa. Ele pode morrer numa praia bonita.
– Agora estás apenas a ser uma tonta.
– Estou? – perguntou ela, de forma estridente.
– Vai tudo correr bem com ele – disse-lhe, arrependida de ter aberto a boca.
– É só o que podemos esperar. Ele apenas esteve em Espanha connosco e, mesmo assim, teve diarreia a semana inteira. Porque não pode simplesmente ficar na Europa, como toda a gente?
Suspirei e abanei a cabeça, tal como fazia quando a turma que tinha me desapontava.
– Sabes que tenho razão – disse ela. Sentou-se à mesa da cozinha. – Mas porque não pode ele ser um homem normal e engravidar uma mulher e ter de se casar com ela, como aconteceu ao filho da Mary Matthews? Ele agora tem três filhos e trabalha no banco.
Chorava, de forma que a palavra banco soou «baaa… anco».
– Ele tem de fazer o que acha que é correcto – insisti, sem acreditar nisso, porque, tal com a minha mãe, também queria que ele fosse como o filho de Mary Matthews.
– Achas que ele alguma vez vai regressar para nós?
– Claro que vai.
Pousei a vassoura e sentei-me ao seu lado, colocando um braço à volta dela.
– Só queria que a vida não fosse tão difícil – desabafou ela, em voz baixa.
– Eu também, mãe – respondi, abraçando-a. – Todos nós queríamos.
* * *
O aeroporto estava um pesadelo. A minha mãe chorou muito. Eu tentava aguentar as coisas, mas era demasiado difícil. O meu irmão ia deixar-me. Quem iria entretanto ouvir os meus desabafos idiotas? Quem teria as respostas, mesmo que eu não gostasse delas? Já sentia a sua falta e ele ainda se encontrava à minha frente, tentando desesperadamente sorrir. Sabia que estava entusiasmado com a viagem, mas também conseguia sentir o seu medo. Só me apetecia embrulhá-lo e levá-lo para casa. Não conseguia imaginar o quão difícil aquilo estava a ser para a minha mãe.
O pai mantinha-se estóico. Apertou a mão do filho e afagou-lhe o ombro.
– Estou orgulhoso de ti, filho.
Noel sorriu para o pai e abraçou-o com força.
– Também tenho muito orgulho em ti, pai.
O meu pai assentiu como os homens costumam assentir. Noel puxou a mãe para os seus braços. Não tinha notado o quão forte ele parecia até a abraçar.
– Adoro-te, mãe. Virei a casa pelo Natal.
– Prometes?
Ela chorava enquanto ajeitava a gola do casaco do filho. Os velhos hábitos são difíceis de largar.
– Prometo.
Vimo-lo a passar através das portas de vidro que o iriam levar para Cuba e para longe de nós. Acenámos uma última vez. O meu pai sorriu-lhe e depois ele desapareceu. Então virei-me e deparou-se-me o meu pai lavado em lágrimas. Estas caíam-lhe pelo rosto e ele fazia um barulho que nunca tinha ouvido. Pôs as mãos no rosto e as lágrimas passaram através delas. A minha mãe pôs os seus braços à volta dele e ficaram abraçados.
– Vamos vê-lo no Natal – disse, tentando consolá-lo.
O meu pai anuiu com a cabeça como se fosse um rapazinho. Eu fiquei imóvel, com o coração despedaçado. Fomos todos para o carro e saímos do aeroporto em silêncio.
Cheguei a casa e deparou-se-me Leonard a comer um saco de plástico. Tentei tirar-lho da boca. O gatito saiu do quarto, aborrecido por eu ter interrompido a sua ideia de um perfeito petisco. As luzes estavam apagadas. Deixei-as apagadas e liguei o televisor. Lembrei-me de como Noel me tinha visitado mais vezes quando Anne e Richard haviam partido para Kerry. Ele queria saber se eu estava bem. Agora, partira ele e não havia ninguém para me ligar.
Another one bites the dust. Mais um que perde a batalha.
Ele adorava os Queen. Sorri.
O meu irmão poderia ter dado um grande homossexual.