Estarás Sempre Comigo
16 A varicela
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A varicela
A nne telefonou-me. Richard e ela andavam a tentar ter um bebé. Havia apenas um problema: tentavam havia meses e nada acontecia.
– Achas que deva ir fazer um exame? – perguntou.
Lembrei-me de Noreen, a professora de Biologia na minha escola que andara a tentar engravidar durante dois anos antes de ter a filha.
– Não. Ainda é muito cedo. Vocês precisam apenas de algum tempo – tranquilizei-a, confiante.
– Não sei… estamos a fazer todos os possíveis.
Argumentei que os resultados viriam com o tempo. Além disso, sentia que, se houvesse algum exame a fazer, este deveria ser feito aos dois.
– O quê? Achas que pode haver algum problema com Richard? – perguntou ela na defensiva.
– Não. Não disse isso. Não acho que exista algum problema com qualquer de vós, mas se vais fazer testes, de que serve fazerem apenas a um? – respondi, em pânico. Não estava com disposição para discussões.
Ela pensou um pouco.
Achas que tem alguma coisa que ver com a pílula?
Fiquei confusa.
– O quê? Ainda tomas a pílula? – perguntei, espantada.
– Emma, não sejas parva! – Ela soltou uma gargalhada. – Eu estava a falar de ter tomado a pílula durante vários anos.
Pensei por uns instantes.
– Bem, diz alguma coisa sobre isso na caixa?
– Não – respondeu. – Talvez tentemos então ainda por mais tempo.
– Boa ideia – concordei.
O resto da conversa centrou-se no facto de ela ter de conduzir mais de quarenta quilómetros para encontrar um centro comercial decente. Eu estava cansada e doía-me a cabeça. Não dormira muito bem nessa noite e sentia-me febril.
– Tenho de desligar – disse. Não conseguia mesmo falar.
– Está bem, mas não te esqueças de que amanhã estou em Dublin, por isso vejo-te ao jantar.
Disse que não me ia esquecer e desliguei o telefone. Tomei dois analgésicos, arrastei-me pelas escadas acima e fui para a cama.
Acordei passado umas horas e senti-me ainda pior. Arrastei-me até ao espelho e vi umas grandes pintas vermelhas a aparecer em todo o meu tronco.
– Meu Deus! – bradei.
Aproximei-me mais do espelho e tirei o roupão para examinar melhor o corpo. Descobri então desagradáveis pintas vermelhas a aparecer por toda a parte.
– Que maravilha! – suspirei. – Estou com varicela.
Lembrei-me de que os meus pais tinham ido para Edimburgo, e apeteceu-me chorar. O médico chegou uma hora depois e confirmou que eu apanhara varicela. Prescreveu-me uma semana de quarentena e todo o creme de calamina a que conseguisse deitar a mão. Quando o médico se foi embora, olhei para o espelho à espera que surgissem também pintas no meu rosto e a rezar para que não. Telefonei a Clo e ela riu-se.
– Não tem piada! – choraminguei. – Se coçar, posso ficar com cicatrizes.
– Então, não coces – aconselhou ela, ainda a rir.
– É muito fácil para ti dizeres isso – observei. – Estou cheia de comichão. Sinto-me como o Indiana Jones no Templo Perdido.
Ela permaneceu calada por uns segundos.
– Não percebo o que queres dizer.
– O quê?
– A coisa do Templo Perdido – disse ela.
– Sabes, as aranhas – expliquei-lhe.
Ela não sabia.
– Quando as aranhas estavam a cair para cima do Indiana Jones e da namorada.
– Acho que isso foi no primeiro filme – retorquiu.
– Bem, como se chamava o primeiro filme? – perguntei então.
– Não me lembro – respondeu, após um momento de reflexão.
Meditei naquilo durante um minuto.
– Eu também não – admiti.
Clo nunca tivera varicela, por isso não me podia visitar.
Anne estava a tentar engravidar, de modo que eu era a última pessoa da Terra com quem ela quereria jantar. Richard não era um candidato, pelos mesmos motivos. Os meus pais e Noel estavam longe, por isso encontrava-me sozinha e tinha mesmo, mesmo, uma enorme vontade de me coçar.
Sentei-me a ver os programas diurnos de televisão, o que me deixou deprimida e aborrecida. O tédio incentivava a vontade de coçar. Fiz qualquer coisa para comer, mas a comida ficava-me presa na garganta. Após o primeiro choque, deitei-me no sofá e queixei-me a mim mesma sobre o ter de trabalhar com adolescentes. Um deles levara a bactéria da varicela para a minha aula. Sacanas.
* * *
Acordei com o som da campainha. Fiquei em pânico porque qualquer pessoa poderia ficar infectada.
Mantive-me atrás da porta e gritei:
– Quem é?
– É o Seán – foi a resposta – Deixa-me entrar!
– Não posso. Estou com varicela.
Ele riu-se.
– A Clo contou-me. Deixa-me entrar.
– Não posso. É muito contagioso.
– Eu já tive!
– Mas pode causar-te herpes – murmurei ainda.
– Emma, abre a porcaria da porta, por favor!
Abri a porta. A luz feriu-me os olhos. Seán entrou. Olhei para ele.
– Está bem, mas não me culpes se ficares com herpes. O teu cérebro incha e depois morres.
Ele riu-se, apreciando o meu talento para o drama.
– Onde ouviste isso?
Apontei para as brochuras que o médico me deixara. Ele pegou-lhes e leu-as. Então sorriu.
– Acho que estás um pouco histérica.
– Não me digas – retorqui. – Bem, se estivesses com varicela também ficavas histérico.
Ele riu-se e apercebi-me de que, apesar do seu tom condescendente, eu estava realmente muito feliz por ele ter vindo.
– Olha, trouxe filmes, gelado e uma loção de calamina extra.
O meu herói!
Preparámo-nos então para um filme. Ele fez-me calçar luvas; comer o gelado era um desafio, mas esforcei-me, porque era a primeira comida que não me dava vontade de vomitar. Uma parte do gelado acabou na minha cara, que limpei às luvas.
– Muito sensual – riu-se Seán.
– Ah! Ah! – foi a minha única resposta.
Não me encontrava capaz de muito mais; a minha doença tornava qualquer pensamento um verdadeiro desafio.
– Não, a sério, estás aí sentada com um pijama de flanela, coberta por pequenas pintas vermelhas furiosas, de luvas e com gelado espalhado por toda a cara. Estou seriamente excitado.
Riu-se, encantado com a sua gracinha.
– Parvalhão! – Sentia-me demasiado doente para competir com as suas gracinhas. – Vai-te lixar!
– Bom regresso… importas-te que eu tome notas? – respondeu ele irritantemente.
Atirei-lhe uma almofada.
– Estou doente. Estou com varicela. Posso morrer – lamuriei-me, procurando inspirar pena.
Ele desatou às gargalhadas.
– Podes morrer!
Soou um pouco histérico na boca dele. Tentei redimir-me.
– Está escrito num panfleto – informei. – Os adultos podem apanhar herpes, que, em casos raros, pode resultar num inchaço do cérebro e, consequentemente, na morte.
Ele ainda se ria.
– Tens varicela. Vais sentir-te doente e com comichão durante alguns dias, mas, depois, vais ficar bem.
– Está bem – concordei. – Talvez não morra, mas estou muito frágil, por isso pára com as provocações.
– Não estava a provocar-te! – Riu-se. – Estás deslumbrante.
Tentei manter uma expressão séria, mas, quando reparei na grande nódoa de gelado no meu pijama, acabei por desistir e ri-me. Eu estava suja e doente, e ele parecia o rei da comédia, e tenho a certeza de que seria tão atraente com varicela como sem ela. Secretamente, esperei que ele a apanhasse para podermos testar a sua teoria. Ele pôs-me loção de calamina nas costas e fez-me chá. Vimos o filme juntos e, quando precisei de ir à casa de banho, ele ajudou-me a descalçar as luvas. Às dez horas levou-me para a cama, assegurando-se de que a minha medicação estava em cima da mesa-de-cabeceira.
– Porque estás ainda solteiro? – pensei alto, enquanto ele ajeitava a minha almofada. – Davas um óptimo namorado. – Aconcheguei-me.
Pela primeira vez, vi-o corar. Fiquei imediatamente ciente do embaraço, que pairou denso no ar, tal como um gás solto num elevador cheio de estranhos. Fingi estar com sono, sem ter bem a certeza do que havia causado a mudança súbita de atmosfera. Ele saiu do quarto.
– Boa noite – disse-me.
Fechei os olhos, mas senti-o a olhar para mim durante alguns segundos antes de fechar a porta.
O que se passa com ele?
Seán dormiu lá em casa e fez-me o pequeno-almoço. Entrei na cozinha enquanto ele me preparava um tabuleiro com comida. Ficou desapontado com a minha aparição repentina.
– Ia levar-te o pequeno almoço à cama – disse.
Sorri.
– Estou a sentir-me um pouco melhor.
Agradeci-lhe por ter vindo. Ele disse-me que me sentasse e deu-me uma torrada e chá. Sentei-me enquanto ele torrava mais pão.
– O John morreu há um ano, quatro meses e dois dias – disse eu, sem mais nem menos.
Ele virou-se para mim.
– Não me digas – disse ele.
– Sim. Costumava saber de cor, mas ultimamente tenho de fazer contas – admiti.
Ele permaneceu em silêncio.
– Achas que ele nos consegue ver? – perguntei.
– O quê?
Perguntei de novo. Ele respondeu que achava que não.
– Porquê? Não pensas que pode haver uma possibilidade de ele nos ver? – desafiei.
– Não. Em, não quero pensar nisso. Quero acreditar que ele está algures, num local melhor do que este.
Pareceu triste e questionei-me porquê. Talvez fosse uma pergunta estúpida. Eu estava apenas cansada. Não o queria aborrecer.
– Desculpa. Tens razão. Provavelmente, ele está num sítio melhor. Por que razão iria ficar por aqui? – disse eu, tentando animá-lo.
Ele voltou-se para a sua torrada.
– Um dia vais deixá-lo partir, Emma. Espero que não seja demasiado tarde – disse ele, endireitando-se na cadeira.
Comecei a brincar com a minha torrada.
– Eu também – respondi-lhe, quando ele virou costas.
Seán foi-se embora logo a seguir. A sua disposição mudara e fiquei contente por ele ter saído porque me sentia triste e um bocado idiota. É claro que ele não queria ouvir falar sobre John logo pela manhã. Era deprimente. Sentia falta do amigo... Era por isso que agia de forma tão estranha. Ele seguira a sua vida – era por isso que queria que eu seguisse a minha. Tudo fazia sentido.
Só que não fazia.
* * *
Dez dias mais tarde, e sentindo-me muito melhor, decidi visitar a campa de John. Não ia lá havia bastante tempo. Era altura de ver como estaria a minha roseira e pôr a conversa em dia. Estava um dia seco e fresco de fim de Primavera. As árvores encontravam-se carregadas de botões e flores e o ar parecia parado. Eu ia andando com cuidado para não pisar nenhuma campa, em vez de ir pelo caminho que me conduziria à pequena roseira que havia plantado meses antes. Florescia. Três rosas vermelhas e dois lindos botões a desabrochar sobre a nova lápide na qual o nome de John estava escrito.
Em memória de
John Redmond
1972-1998
A dormir com os anjos
Era agradável. Devia ter sido a mãe de John a escolhê-la.
Quem me dera que ele estivesse a dormir comigo.
Sentei-me na terra seca.
– Olá, desconhecido.
Nada.
– Desculpa, não vinha cá há algum tempo.
Nada.
– Mas tenho tantas saudades tuas.
Nada.
– O Seán tem tomado conta de mim. Tive varicela. Já passou, quase. Ele tem sido muito bom para mim. Não podia ter um amigo melhor. Tu tens amigos?
Que pergunta mais estúpida.
Olhei para o céu.
– Quem me dera poder ouvir-te apenas uma vez, só uma vez, para saber que estás bem. Deixei de sonhar contigo, desapareceste, agora. Costumavas vir todas as noites. Não te vejo há meses. Pergunto se algum dia te irei ver de novo?
Fiquei a olhar para a campa a aguardar uma resposta. Nada veio, e, depois, percebi. Não conseguia lembrar-me do som da sua voz.
Oh meu Deus!
As lágrimas começaram a cair, grossas e barulhentas como uma torneira a pingar. Vasculhei a memória, mas estava silenciosa.
Oh meu Deus!
Fugi da campa, sem me preocupar se estaria a correr por cima de alguém que fora amado. Cheguei ao carro sem fôlego.
Não me lembro. Não me lembro!
Liguei o motor e conduzi o mais depressa que pude. Sentia-me tão envergonhada…
Como pude esquecer tão cedo? O que se passa comigo?
Cheguei a casa mais depressa do que devia. Depois procurei na sala de estar, na cozinha, e no meu quarto, até encontrar a cassete do atendedor de chamadas, no fundo da minha gaveta, exactamente onde a guardara havia alguns meses. Tirei a cassete actual da máquina e voltei a colocar esta, tão depressa quanto os meus dedos permitiram. Carreguei no play.
– Olá, ligou para o seis, quatro, zero, cinco, dois, seis, um. Estamos num lugar exótico, por isso, deixe uma mensagem e, se gostarmos de si, ligaremos de volta.
E lá estava ele. Senti-me aliviada. Ainda tinha a cassete: mesmo que não conseguisse manter a sua voz na minha cabeça, podia mantê-la ali, gravada. Agradeci a Deus pelos atendedores de chamadas. Disse a mim mesma que iria ficar tudo bem, mas não ia. Como era possível? Sentia-me um farrapo.
Porque não me consigo acalmar?