Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 8 de 26

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Estarás Sempre Comigo

7 O guarda-costas e o cemitério

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O guarda-costas e o cemitério

 

J ohn morrera havia seis semanas. Tinha prometido a Clo que visitaria Seán, mas andara a adiar a visita. Estava a pensar nele enquanto conduzia para casa no regresso da escola. Declan ia sentado ao meu lado no carro a ver as minhas cassetes e a criticar os meus gostos. Eu tentava concentrar-me, mas não consegui quando ele tirou a de Meatloaf e a levantou.

– Está a gozar? Meatloaf? Ele é um vómito.

Não o consegui negar, mas, é claro, tentei.

– Ele é óptimo. É um grande álbum, cheio de canções que… – Não tinha por onde ir e era óbvio. Desisti. – Muito bem, ele é um vómito – e tentei explicar que aquilo era uma fase.

– A sério? – perguntou Declan, ainda a segurar na cassete. – Que fase era essa? A fase do vómito?

Ri-me, mas parei de repente quando ele pegou na banda sonora de O Guarda-Costas.

Declan abanou a cabeça e eu fiz um gesto de assentimento, embaraçada. Nada foi dito porque ambos sabíamos que não havia contestação. Deixei-o à porta da casa onde vivia. Ele saiu do carro.

– Ei, stora, amanhã vou mostrar-lhe o que é música a sério.

Pôs-se a caminho e tomei mentalmente nota de ir comprar paracetamol.

* * *

Encontrava-me em casa, sozinha. Clo saíra com Mark, o cliente que insistia em enviar-lhe flores. Anne e Richard andavam numa cerimónia de recolha de fundos e eu sentia-me aborrecida. Agarrei nas chaves que estavam na mesinha e brinquei com elas alguns minutos antes de pegar no casaco e dirigir-me para a saída. Quando cheguei ao pé da porta, a campainha tocou. Abri-a instantaneamente. Era Seán.

– Olá – disse ele, e depois apercebeu-se de que eu tinha o casaco na mão. – Vais sair. Desculpa. Devia ter telefonado.

Senti-me muito feliz ao vê-lo. Sorri e disse-lhe que ia sair para o visitar. O seu olhar iluminou-se e entrou. Fiz café e ele sentou-se junto à bancada. Estava pouco à vontade e pediu desculpa pelo seu distanciamento. Respondi que não havia problema, que compreendia.

– Telefonei algumas vezes, mas quando…

– Eu sei – interrompi e pus a chávena de café à frente dele, tentando não o entornar, mas a minha mão tremia ligeiramente. Sentei-me diante dele e prossegui. – Eu só precisava de algum tempo. Foi egoísta da minha parte…

– Não, isso não é verdade!

Porém, eu estava determinada a fazer bem as coisas.

– Tu também o perdeste…

Quis continuar e desculpar-me, mas ele pegou-me na mão e apertou-a.

– Tive receio de ter perdido ambos – disse ele.

– Também eu – balbuciei.

Nenhum de nós falou sobre o beijo acidental daquela noite. Era demasiado complicado, demasiado embaraçoso, demasiado triste e demasiado patético. Nenhum de nós falou sobre a culpa que sentíamos, mas era impossível ignorá-la visto que esta se reflectia no nosso rosto.

Se eu não tivesse voltado atrás por causa do isqueiro. Se eu não me tivesse inclinado para o beijar. Se ele não me tivesse dito que eu era bonita. Se eu não me tivesse demorado, demasiado embaraçada para me mexer. Os nossos lábios tocaram-se e o John morrera.

Estarmos ali sentados era algo estranho, pouco familiar. Tudo o que acontecera antes estava morto e enterrado com John. Teríamos de encontrar outra maneira de comunicar. Já não era a namorada do melhor amigo de Seán. Era apenas eu, e era óbvio que tínhamos uma ligação, do género da que é construída ao longo do tempo. Partilháramos muita coisa durante a faculdade e, agora, também na nossa vida de adultos, mas não tenho a certeza se algum de nós saberia se seria o suficiente para continuar. Teríamos de começar de novo um com o outro, encontrar novo campo de jogo. O nosso namoriscar seguro e confortável ficara para trás, a ligação que tínhamos desaparecera.

Fiz chá e sentámo-nos em silêncio.

– Eu estava bêbedo – disse ele, passado imenso tempo.

Oh Meu Deus, ele está a falar sobre aquilo.

– Estávamos todos – retorqui, algum tempo depois.

– Não devia ter-te demorado – murmurou.

– Não consigo falar sobre isso.

– Desculpa – disse ele.

– A culpa não é tua. É minha.

Ele estava a começar a chorar. Eu não conseguia aguentar aquilo. Não suportava vê-lo destroçado. Queria abraçá-lo, mas não podia.

O que pensaria John?

– Ouvi uma boa anedota um dia destes – disse eu, com a esperança de que aquilo desanuviasse o ambiente.

Ele limpou as lágrimas e olhou para mim de uma forma estranha.

– Sim? – inquiriu.

– Sim – disse, esperando saber contá-la bem.

– Então diz lá – encorajou-me.

– Uma rapariga está deitada no hospital das freiras. Uma delas aproxima-se e pergunta qual é nome do pai do recém-nascido. A rapariga diz que não sabe. A freira fica confundida e pergunta-lhe porquê e a rapariga responde: «Ouça, irmã, se comer uma lata de feijões consegue saber qual lhe provocou gases?»

Seán riu-se. Eu sorri. Tivera mais piada quando fora Declan a contar.

– Quem te contou essa? – perguntou ele.

– Um aluno meu… ias gostar dele. Ele lembra-me … – Não terminei.

Ele sorriu.

Parecia cansado. As olheiras à volta dos olhos castanhos tornavam-nos excepcionalmente tristes. A pele parecia seca e ferida, escondida sob uma barba de três dias. Tinha perdido peso, tanto que as roupas pareciam demasiado grandes para ele. Coçou, distraído, a barba por fazer.

– Queres ir ver a campa dele? – perguntou.

– Não posso. Ainda não.

Depois da quarta chávena de café, o vazio começava a desaparecer.

Conseguíramos encontrar um terreno neutro. Falámos sobre um filme que ia estrear-se e o actor que fora apanhado com o órgão sexual na boca de uma prostituta. De alguma maneira isto acabou por levar a uma conversa sobre os chatos que ele apanhara alguns anos antes.

– Pensei que a pila me ia cair – confessou ele.

Imaginar aquilo fez-me sorrir.

– Contaste ao John?

– Sim.

– Ele nunca me disse nada.

– Fi-lo prometer – disse ele.

– Então onde os apanhaste? – perguntei, encantada com a mudança de assunto.

– Com a Candyapple.

– Brian! – exclamei.

– Sim, Brian – riu-se ele.

Ficou até depois das nove. Vimos juntos um episódio de The Bill. Era agradável ver televisão com alguém. Quando ele se foi embora pedi-lhe que tratasse de si e parasse de afogar as mágoas na bebida e nas drogas, e que comesse. Retorquiu que já estava a caminho da recuperação. Eu não tinha assim tanta certeza. Abraçámo-nos e não foi estranho. Concordámos olhar um pelo outro porque éramos amigos.

Eu mentira. Estava pronta para ir ver a campa de John. Na verdade, pensara ir ao cemitério na tarde seguinte e precisava de estar sozinha. Comprara um pequeno ramo de rosas para plantar. John não era particularmente apreciador de rosas, mas pareceram-me muito bonitas na florista. Foi Doreen quem me deu a ideia. Disse-me que por vezes ajudava ter qualquer coisa para fazer. Pensei que seria uma boa ideia e, mesmo que o não pensasse, ela pôs-me no carro a caminho da florista antes que me pudesse arrepender.

– Quando não souberes o que fazer, escava um buraco – disse-me, enquanto Elton John cantava a música «Rocket Man» na rádio. – Vi o Seán em Grafton Street no outro dia. Estava com um aspecto horrível.

– Ele está bem.

– Oh, não sei. Bebeu bastante durante o funeral. Creio que é melhor olhares por ele.

Eu estava preocupada, mas não lhe disse que Clo tinha os mesmos receios.

– Tenho a certeza de que ele está bem, Dor. Todos temos a nossa maneira de lidar com as coisas.

– Ficar fechado não é lidar com as coisas, querida.

– Ele disse que se estava a tratar.

– Espero que sim – retorquiu, dando-me uma palmadinha no joelho.

– Eu também – murmurei.

* * *

Estava novamente a chover. Eu andava em círculos a tentar encontrar a campa de John. Dei por mim a atravessar campas de desconhecidos para encurtar caminho. Só me apercebi do que fazia quando tropecei numa coroa de flores sobre a campa de uma senhora chamada Mary Moore. Saltei por cima.

– Desculpe, Mary, não foi por mal.

Continuei a andar pelo caminho cheio de musgo, que certamente seria o meu fim. Ainda escorrego e parto o pescoço Repreendi-me por ter ido de saltos altos. Como se John fosse reparar nisso…

Por fim, depois de verificar quase todas as lápides na secção D, encontrei a campa dele. Era estranho. De repente, encontrava-me sozinha frente a um monte de terra encharcada que cobria uma caixa, e nessa caixa estava John, com o seu cabelo louro ainda com o gel da maneira que ele gostava. Os seus olhos fechados, o seu lindo rosto em paz, a boca fechada numa linha fina. Não sabia o que fazer. Era como uma entrevista de trabalho em que o entrevistador se recusa a falar. Permaneci à chuva durante muito tempo. Sentia as calças a colarem-se-me às pernas. Os dedos dos pés dentro das minhas botas de couro de salto alto começavam a gelar.

Raios, adoro estas botas! Não devo pensar em botas. Estou aqui com o John. Concentra-te.

Doreen tinha razão: a árvore era uma ideia fantástica. A chuva havia amolecido o solo. Tirei a pequena pá de jardim que levava na mala e comecei a cavar um buraco e, enquanto o fazia, achei a conversa mais fácil. Já não fingi que ele continuava ali. Conversei como deveria com uma pessoa morta. Conseguira sair da fase da negação. Já quase deixara de sentir raiva e algum do desamparo.

– A Doreen está preocupada com o Seán. E a Clo também. Penso que a Anne também… Ela falou sobre ele duas vezes ontem ao telefone. Ele tem bebido bastante e fumado. Disse à Dor que ele iria ficar bem, mas não tenho a certeza. – Estava com dificuldades, encontrara uma pedra. – A Clo está bem. Conheceu uma pessoa… chama-se Mark. Trabalha numa garagem. Parece que é muito atraente. Ainda não o vi. Acho que é simpático. Espero que resulte.

Parei de falar um momento para me concentrar em arrancar a pedra do confortável lugar a que se agarrava.

– Apanhei-te! – Estava a falar com a pedra. Enfiei a roseira no buraco que cavara. Encaixou perfeitamente. Agora tudo o que tinha a fazer era tapar o buraco e, pronto, eis uma linda roseira.

– A Anne julgou que estava grávida. Não estava. Disse-me que está contente. Mas eu acho que ficou perturbada. – Senti uma pontada de culpa. Não me sentira preparada, mas tudo isso ficara para trás.

A planta desequilibrou-se de repente.

– Que treta! – Tentei endireitá-la, e piquei-me num espinho

– Ai! Roseira estúpida! – Comecei a remover alguma da terra enquanto empurrava a planta com cuidado. – O Noel anda muito calado. Está um pouco distante. Penso que se sente culpado, tendo-se Deus afinal revelado um grande sacana. – Conseguia ouvir John a rir-se no meu pensamento. – Ele está diferente desde que partiste, mas suponho que acontece o mesmo com todos.

A roseira começou a endireitar-se. Segurei-a enquanto punha terra à volta, certificando-me de que ficaria firme.

– Eu estou bem. Mas não quer dizer que não sinta a tua falta. Sinto a tua falta a toda a hora. Não havia uma música chamada «Without You I’m Nothing»? Ou talvez seja um livro ou um filme. Não me lembro. De qualquer maneira, sem ti nada sou. Embora esteja bem. Mas não faço ideia de para onde vou nem do que ando a fazer. Meu Deus, nem tenho a certeza de saber quem sou. Mas não interessa. Estou bem.

A terra parecia firme à volta da roseira. Levantei-me para apreciar o meu trabalho.

– Parece bem. Aposto que vai estar linda no Verão. Estou a pensar meter uma vedação à volta da tua campa. Não irias acreditar na quantidade de pessoas que andam por cima das campas por aqui.

Fui-me embora pouco depois. Não chorei. Nem sequer gemi – bom, não foi bem assim. Fora forte. Era uma boa coisa para se fazer. Era uma sobrevivente tal como o meu pai me dissera que seria. Fui para o carro com a pá na mão.

Estou apavorada.