Estarás Sempre Comigo

Anna McPartlin · Capítulo 12 de 26

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Estarás Sempre Comigo

11 Ron, o bonitão

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Ron, o bonitão

 

N os últimos tempos, Seán andava a ficar várias vezes no meu quarto de hóspedes, especialmente desde o Natal.

Anne reparou nisso.

– Então, o que se passa? – perguntou, casualmente, enquanto tomávamos café numa cafetaria cheia de gente.

– Nada – respondi.

Ela não aceitou «nada, acreditando que as visitas de Seán tinham mais que ver comigo do que com dificuldades de transportes. Não me apetecia falar sobre isso.

– Quanto tempo já passou, Em?

Senti-me confusa.

– Do que falas? – perguntei, aborrecida. Só queria beber um café.

– Quanto tempo já passou desde que tiveste sexo? – Ela sussurrou a palavra sexo.

Pensei vou fingir que não a ouvi, mas sabia perfeitamente que ela iria gritar a palavra se tivesse de o fazer.

– Isso importa? – perguntei-lhe.

– Sim – respondeu ela.

Olhei para ela da mesma maneira que olhava para os meus alunos. Ela percebeu, mas não se importou, porque sentia que o assunto devia ser abordado. Já fazia dez meses que John havia partido; portanto, parecia-me que era óbvio que eu não tinha dormido com ninguém em dez meses.

– Desde o John, claro – respondi, irritada por ter de o afirmar. – Dez meses.

– Dez meses, Em?

– E então?

– Em – disse ela seriamente –, fizeste vinte e sete anos em Outubro.

– Prometeste que irias ignorar o meu aniversário – retorqui, em tom lamuriento, tentando mudar de assunto. Tinha passado o meu aniversário praticamente da mesma maneira que passara o Natal, enfiada na cama. Comecei a desejar ainda lá estar.

– E ignorei – disse ela.

– Isso incluía não o mencionares, e, além disso, enviaste-me flores – argumentei.

– Estás a desviar a conversa.

– Então, o que queres dizer? – foi a minha resposta, impaciente.

– Bom, ele não vai voltar.

Ela parecia um pouco triste, como se, dizendo aquilo, tornasse o desaparecimento de John um bocadinho mais real.

– Eu sei.

– Talvez devesses dar uma oportunidade a ti própria.

Ela sorria-me, como se assim o seu conselho fosse mais fácil de ser aceite.

– Pára com isso! Pensas que por estarmos num novo ano devo esquecê-lo? – retorqui, sem conseguir acreditar no que me dizia.

– Não, claro que não – ninguém vai esquecer o que tu e o John tiveram. Mas… e sei que isto poderá parecer desagradável… ele partiu e não vai regressar, e tu tens vinte e sete anos e estás sozinha e nós…

– Nós, quem? – perguntei, irritada.

Ela não respondeu suficientemente depressa.

– Andaram a falar sobre isso nas minhas costas!

O seu sorriso desvaneceu-se. Quase a ouvi pensar «merda!».

– Nós quem, Anne?

Ela pensou durante um minuto antes de responder.

– O Richard, a Clo e o Seán – desabafou de uma assentada.

Fiquei boquiaberta.

– Meu Deus! Tiveram o raio de uma conferência!

Ela tinha dificuldade em falar.

– Não foi esse o caso, e tu sabes que não. Estamos apenas preocupados!

Para mim, era óbvio que eles não tinham preocupações se o grande tema de conversa era a minha vida sexual. Senti-me magoada.

– A minha vida sexual é privada, não vos cabe discutirem-na!

Proferi isto num sussurro quase gritado.

– Olha, não foi planeado. Sabes, é que o Richard conhece um advogado… ele é muito simpático e está solteiro há mais de um ano e…

Nessa altura deixei de a ouvir. Não era possível. Não conseguia acreditar que ela tivesse sequer pensado que era correcto ter aquela conversa comigo, ali, naquela estúpida cafetaria.

– Portanto, assim que a conversa começou e a Clo e eu sentimos realmente que está na altura de seguires com a tua vida.

Eu tinha perdido a frase a meio. Bolas, eles andavam a falar sobre mim nas minhas costas, e isso era de mais. Não podia acreditar que Clo e Anne tivessem estado a discutir a minha vida sexual com Seán e Richard. Era humilhante.

– Bom, na verdade, o Seán esteve muito calado – admitiu ela. – Ele passa muito tempo em tua casa. Existe alguma coisa que devamos saber?

– Não existe nada entre mim e o Seán. Ele era o melhor amigo do John – disse eu, aborrecida com a sua falta de consideração.

– Está bem. – O rosto dela iluminou-se. – Então podes conhecer o Ron.

Olhei para ela e repeti:

– O Ron?

– Sim, Em, o advogado.

Quis pedir-lhe que parasse com aquilo, mas, depois de ter falado durante algum tempo, dei por mim a concordar em conhecer um tipo chamado Ron. Parece que, afinal, me sentia mais sozinha do que pensava.

* * *

Uma semana depois, estava no meu quarto a vestir-me para sair com Ron às oito da noite. O meu primeiro encontro desde os dezasseis anos. Comprara um vestido, mas decidi que não gostava dele. Clo e Anne encontravam-se lá, como ajudantes e espectadoras. Bebiam vodca e discutiam qual seria a melhor cor para eu usar, se o vermelho se o preto. Eu estava uma pilha de nervos, sentia-me como um cordeiro prestes a ser sacrificado.

– E se eu detestar o aspecto dele?

– Não vais detestar – tranquilizou Anne.

– Como sabes?

– Ele é bonito – respondeu ela.

– Ele é bonito? – perguntou Clo.

– Sim – respondeu Anne.

– Então porque nunca marcaste um encontro entre mim e ele? – desafiou Clo. Rimo-nos e ela sorriu. – De qualquer forma, ainda bem, pois desisti dos homens – lembrou-nos.

Sabíamos isso, e perguntávamo-nos quanto tempo iria aquilo durar.

Estava quase na hora de ele ligar. Clo e Anne continuavam entretidas com a vodca e eu à beira de um ataque de nervos.

– Onde está o Richard? – perguntou Clo a Anne.

– Ah, está com o Seán – respondeu ela.

Não mencionara o meu encontro a Seán. Não sabia como iria ele encarar o facto, sendo o melhor amigo de John. Isso pôs-me nervosa.

– O Seán sabe que eu vou ter um encontro? – perguntei, aparentando um ar casual.

– Sim, tenho a certeza de que o Richard lhe falou disso – respondeu Anne, enquanto arranjava o meu cabelo como se eu tivesse dois anos.

– Há algum problema? – perguntou a sempre vigilante Clo.

– Não – respondi, mentindo. – Tudo bem.

A campainha tocou e senti vontade de vomitar.

– Abre a porta – pediu Anne.

– Está bem – concordei. – Vocês ficam na cozinha. Eu saio com o Ron. – Mal conseguia pronunciar o nome Ron. – E depois vão para casa e não estão aqui quando eu regressar.

Ambas concordaram com estes termos e então abri a porta e saudei o desconhecido com quem iria sair.

– Olá, sou a Emma – disse eu.

Ele sorriu.

– Ron Lynch. Desculpa, atrasei-me.

Passava um minuto das oito.

– Não estás atrasado – retorqui, enquanto pegava no meu casaco.

Precisava de o tirar dali rapidamente antes que Clo perdesse a determinação e tentasse fazer-lhe perguntas como a minha mãe tinha feito com John, havia anos.

– Vamos embora.

– Está bem. – Ele sorriu.

Lá saímos e desci o caminho até ao seu carro desportivo pensando, Meu Deus, este Ron é um borracho.

As cortinas de casa mexeram-se ao arrancarmos e eu sabia que Clo estava a chatear Anne porque ela não lhe tinha apresentado o Ron. Seguimos em silêncio, virando-nos ocasionalmente para sorrirmos um ao outro. Ele perguntou-me se eu queria ouvir alguma música.

– Óptimo – disse eu com demasiado entusiasmo.

– Algum pedido? – perguntou ele e achei um pouco parvo visto estarmos num carro.

Que raio de música teria ele? Mas mantive-me cortês.

– Que música tens?

– Que música te apetece ouvir?

Sinceramente, pouco me importava.

– Bruce Springsteen – respondi.

– Que álbum? – continuou ele.

Agora estava a exibir-se.

– Bom, que álbuns tens? – perguntei, sorrindo.

– Todos – respondeu ele.

Desisti.

– Born in the USA – pedi então.

Premiu um botão e segundos depois Bruce Springsteen estava no carro a cantar «I’m on Fire». Era verdadeiramente impressionante. Ele sorriu e eu retribuí com outro sorriso, tentando ficar o mais confortável possível no banco do carro desportivo. Chegámos ao restaurante antes de eu ouvir outra faixa e tomei nota mentalmente para ir comprar o álbum. Recordou-me os tempos em que namorava com John no quarto dele, o que conseguíramos fazer muitas vezes, apesar de a mãe dele nos obrigar a deixar a porta aberta.

– Estás pronta? – perguntou ele.

– Desculpa? – Eu estava a milhas dali.

– Chegámos. – Ele apontou para o restaurante.

– Certo. Óptimo.

Mas quantas vezes iria eu ainda dizer óptimo?, perguntei aos meu botões, enquanto tentava sair do carro e, ainda assim, manter a minha dignidade. Não consegui; entrámos no restaurante. Era claramente pretensioso: paredes forradas a seda, muitos candeeiros, toalhas de linho, um serviço de prata, velas, um pianista num canto, empregados presumidos. Eu detestava comer em sítios onde os empregados demonstram fazer um enorme favor ao deixarem-nos entrar.

Fizemos o pedido a partir de um menu fixo. O empregado, esguio e com ar de soberba, rabiscava enquanto suspirava pesadamente para mostrar o seu desagrado por ter de servir uma pagã que se atrevia a pedir maionese.

– Isto é óptimo – disse eu a sorrir, com o rosto a começar a doer-me.

– Detestas o sítio, bem vejo – observou ele.

Alarmada, retorqui:

– Não – enquanto fingia verificar se a minha saia estava suja.

Ele perguntou-me se eu queria ir a outro lado, mas as entradas já vinham a caminho e, pela primeira vez, comecei a descontrair-me um pouco.

Olhei para ele. Era louro, alto, ombros largos, e até bonito. Não necessariamente o meu tipo, mas era giro e havia um monte de mulheres no local a apreciá-lo. Continuei a captar os seus olhares enquanto o observavam e elas viravam-se e olhavam para os seus encontros desinteressantes.

Ouvi-me suspirar.

– Está bem, tu detestas mesmo isto – notou ele e tinha razão.

Continuei a dizer que estava tudo bem até que, depois de um segundo copo de vinho, quando ele perguntou de novo, acabei por ceder.

– É um bocado presunçoso – observei, algo embaraçada.

– Eu sei – concordou ele. – Estava a tentar impressionar-te.

Esbocei um sorriso sincero.

– Então presumo que o carro não é teu?

Ele riu-se.

– Não, o carro é meu. Não gostas?

– É bom. Prefiro Volvos. São muito seguros.

Ele concordou que realmente eram carros seguros.

Senti-me como uma professora, por isso pedi-lhe desculpa. Ele riu-se e concordámos que os encontros com desconhecidos eram complicados.

Mas acontece que Richard lhe tinha contado tudo sobre mim, enquanto eu não sabia absolutamente nada acerca dele.

– Lamento muito pelo teu namorado.

Quase me engasguei.

– Obrigada – agradeci. Ele ficou embaraçado e percebi que se arrependera de falar no assunto.

Contei-lhe então que tinha passado quase um ano e que eu estava bem. Ele contou-me que fora à festa de herança de Anne e Richard e que me vira entrar com John. Perguntara a Richard quem eu era, mas Richard tinha-lhe explicado que eu estava comprometida.

– Não me lembro de te ter visto.

– Bom, passaste a noite inteira na cozinha – recordou ele.

– Sim, lembro-me disso – retorqui, sorrindo sem entusiasmo, esperando que pudéssemos mudar de assunto rapidamente.

– Lamento mesmo – disse ele de novo.

– Então, isto não é realmente um encontro entre desconhecidos – afirmei, mais do que perguntei. – Quero dizer, para mim, é, mas não para ti.

Ele corou.

– Sim. Eu gostei do que vi.

Porra, pensei, e corei também. Atrapalhada, pedi licença para ir à casa de banho. Regressei e logo depois ele pediu a conta.

– Não temos de fazer isto se não quiseres – disse ele.

– Não – concordei.

– Mas podemos ir a um bar de jazz que conheço – sugeriu, e o rosto iluminou-se-lhe.

– Vamos.

* * *

Dirigimo-nos para o bar e pedi uma rodada de shots enquanto lhe explicava cautelosamente que não era alcoólica. Ele riu-se e disse-me que não era esquisito.

– Isso é reconfortante – respondi, e ele disse-me que eu era engraçada.

Falou-me então sobre a sua infância. Soube que nascera na Alemanha, mas que os pais haviam regressado ao país de origem, a Irlanda, quando tinha dois anos. Eu estava nervosa e um bocadinho bêbeda, por isso, disse uma piada qualquer sobre a raça ariana, imediatamente me arrependendo, mas ele riu-se e eu juntei-me a ele, aliviada. Ambos concordámos que os primeiros encontros eram um pesadelo e eu disse-lhe que não tinha tido um encontro desde os meus dezasseis anos.

– Meu Deus! – admirou-se ele.

– Sim – concordei e bebi outro shot.

Ele contou-me que antes de se ter tornado advogado fora guitarrista numa banda na universidade. Contei-lhe que o John sempre quisera ser um Jimi Hendrix.

– Ele tocava guitarra? – perguntou, interessado.

Ri-me e disse:

– Não.

Perguntei-lhe se ainda tocava e respondeu-me que não, mas que cantava no chuveiro.

– Eu também – admiti.

– Ai sim? O que cantas tu? – perguntou ele.

– James Taylor – respondi, com a língua solta pelo álcool.

Ele riu-se.

– James Taylor!

– Não há nada de errado com James Taylor – argumentei.

– Então, e o que cantas tu?

– Aerosmith – respondeu ele.

Ri-me durante bastante tempo.

– Aerosmith! Que grande lata, a rires-te de mim!

Ele argumentou que os Aerosmith eram os reis do rock’n’ roll.

Observei que o Elvis é que detinha esse título.

– Sim, mas já morreu. – Assim que proferiu isto a sua expressão esmoreceu. – Oh meu Deus, desculpa, não quis dizer…

– Ei, tudo bem… quer dizer, sofri com isso quando era criança, mas sabes, podemos sempre ir a Graceland.

Rimos e apercebi-me de que estava a divertir-me. Embebedámo-nos. Ele deixou o carro na cidade e apanhámos um táxi até minha casa. Pediu ao motorista do táxi que esperasse, para me poder acompanhar à porta. Chovia bastante, por isso sugeri que ele se mantivesse no táxi, sem se molhar, mas não me deu atenção. Acompanhou-me nos três metros até à porta.

– Diverti-me imenso – disse ele.

– Eu também.

– Posso voltar a ver-te? – perguntou.

– Acho que iria gostar muito – respondi, com o estômago às voltas.

Ele inclinou-se e beijou-me e eu correspondi antes de me afastar, consciente de que o motorista do táxi nos observava.

– Eu ligo-te – disse-me ele.

– Está bem.

Fiz-lhe adeus.

O motorista arrancou, e assim que desapareceram de vista parei uns instantes para ponderar no incidente. Eu beijara um homem louro chamado Ron, à porta da casa de John. Olhei para cima na noite chuvosa.

Ainda te amo, John. Um beijo nada muda, nada. Diz aí olá ao Elvis.

Entrei em casa com o rosto molhado pela chuva. Tal como suspeitava, Anne e Clo ainda estavam lá, adormecidas nos cadeirões desconfortáveis da sala. Subi as escadas para o meu quarto, sorrindo. Acabara de beijar um tipo chamado Ron.

* * *

Seán não me telefonava havia três dias. Depois da escola, dirigi-me para a cidade e passei pelo seu escritório. Estava em reunião e eu disse que esperava. Sentei-me na sala, a ler revistas, até que ele apareceu, exausto. Levantei-me, mas ele não reparou em mim. Chamei-o. Pareceu surpreendido ao ver-me.

– Não tenho sabido de ti… pensei que talvez pudéssemos ir beber um copo ou assim.

Ele pareceu prestes a dar uma desculpa, mas acabou por aceitar.

– Está bem, dá-me um minuto.

Foi estranho. Fomos até ao bar e pedimos uma bebida antes de um de nós falar. Seán foi o primeiro.

– Então, como correu o teu encontro?

– Correu bem – respondi.

– A Clo disse-me que o beijaste. – O seu sorriso era forçado, via-se.

– A Clo fala de mais – ri-me e tentei mudar de assunto.

– Estás a trabalhar em quê?

– Num artigo sobre citologias.

Arrependi-me de ter perguntado.

– Certo – retorqui, lembrando-me de que tinha perdido uma consulta com a minha médica de família na clínica.

– Então gostas dele? – pressionou.

– É simpático.

Tomei um gole da minha bebida.

– Simpático – repetiu ele.

Aquilo começava a tornar-se irritante. Ele estava chateado por eu ter saído com um homem, e isso era óbvio, apesar das suas tentativas patéticas para o esconder.

– Tens alguma coisa a dizer, Seán?

– Não – respondeu.

– Então para quê essa atitude? – perguntei, com raiva. – Achas que eu devia ir para a porcaria de um convento?

– Não – repetiu ele –, claro que não.

– Então, o que se passa? Saí com uma pessoa e beijámo-nos. Grande coisa. Já passou quase um ano desde que o John…

Não consegui dizer «morreu», não quando falava de ter beijado outra pessoa.

Seán pediu desculpa e disse que estava a ser estúpido e que se sentia feliz por mim. Respondi que ele ainda não tinha de estar feliz por mim, e relembrei-o que fora apenas um beijo. Ele riu-se, estava a ser sincero. Contou-me que ia sair com uma contabilista naquela noite. Era a minha vez de fingir, mas eu era muito melhor a dissimular os meus verdadeiros sentimentos, então, sorri e disse-lhe que esperava que corresse bem. Ele abraçou-me com tanta força que, nos seus braços, me senti segura, como me sentira com John, e soube, claro, que isso era apenas por ele ser meu amigo.

Saí para a rua. O céu estava cinzento, mas a luz conseguia passar através das nuvens como se fosse uma auto-estrada prateada que levava a um outro mundo além do nosso.

Não significou nada, John. Foi apenas um beijo.

Em segredo, senti-me contente por Seán ter ficado chateado com o beijo e passei o caminho até casa a convencer-me de que estava contente porque aquilo significava que ele pensava em John.

* * *

Duas semanas e três saídas depois de ter conhecido Ron, ele convidou-me para o seu apartamento. Ia cozinhar e eu levava o vinho. O convite significava uma coisa. Sexo. Ele queria ter sexo. Eu não tinha a certeza se desejava o mesmo. Não vou mentir. Estava mais excitada do que um aluno num dia de calor. Passara tanto tempo, mas eu tinha de pensar em John. E quanto a ele? Peguei em quatro conjuntos de roupa e pu-los sobre a cama. Tomei um duche demorado. Sentei-me na banheira, com os pés numa bacia enquanto depilava as pernas.

Pelo sim pelo não.

Regressei ao meu quarto, para descobrir que a minha escolha de roupa estava agora reduzida de quatro para três. Leonard encontrava-se confortavelmente enroscado no meu vestido preto de veludo.

– Bolas!

Experimentei o vestido de seda verde e olhei-me ao espelho. John costumava dizer que o verde realçava os meus olhos e até Seán apreciava aquele vestido. Não que interessasse muito o que ele pensava, mas era um rapaz e tinha bom gosto. O meu cabelo preto caía-me sobre os ombros. Desejei ter ido ao cabeleireiro, mas era demasiado tarde. Maquilhei-me lenta e cuidadosamente. Tinha de ficar bonita.

Pelo sim pelo não.

Vesti o meu Wonderbra, empurrando o peito para cima e para fora. Dei um beijinho ao Leonard, que se esforçou por fugir. Saltou da cama e afastou-se para o caso de ao beijo se seguir um abraço. Parecia que ele não estava com disposição para mimos.

Peguei no vestido de veludo, agora coberto de pêlos de gato, e pu-lo no cesto da roupa suja. O vestido verde era definitivamente uma melhor escolha.

Meu Deus, o que estou eu a fazer?

No táxi, ia a tremer. O motorista não era falador e ainda bem. Ele ligou o aquecimento sem uma palavra. Rezei para não começar a suar. Parámos junto de um prédio de apartamentos de luxo, em Donnybrook.

– São oito libras, minha senhora.

Tirei o dinheiro e dei-lhe uma nota de dez libras.

– Fique com o troco – murmurei, enquanto arrumava a carteira na mala e tentava abrir a porta ao mesmo tempo. Estava estranhamente entusiasmada. Ele acenou quando arrancou. Por momentos, ainda pensei em chamá-lo, mas não o fiz. Em vez disso, vi-o a sair e os portões automáticos fecharam-se atrás dele. Respirei fundo, como um atleta olímpico antes da maratona. Era naquele momento. Sentia que estava a entrar na arena dos leões.

Toquei à campainha do apartamento de Ron.

– Empurra a porta. Estou no terceiro andar. – O seu tom era ligeiro e feliz.

Encostei-me à porta e esta abriu com facilidade. Observei-me a entrar pelo espelho largo que havia ao fundo do corredor. O elevador abriu à minha frente e entrei com cautela. Pressionei o botão «3» e fiquei a ver as portas fecharem-se.

Última hipótese para sair.

À porta dele, senti-me tola. Ele esperava que eu tocasse. Eu aguardava um sinal de John. Nada acontecia. Mordi a língua e levantei a mão. A porta abriu-se antes de eu tocar. Ele tinha um avental com um desenho de um pato e um chapéu de chef. Sorria.

– Olá – sorriu. – Estás linda!

O medo desapareceu. A porta abriu-se e entrei para um beijo meigo. Ron pegou no meu casaco e encaminhou-me para a sala de estar. Os tectos eram altos, paredes brancas, chão de madeira escura e paredes forradas de quadros de cores vibrantes. Um sofá caro de veludo, cor de chocolate, estava no centro da sala, diante de uma lareira. O televisor e aparelhagem ocupavam um canto. Além disso, a sala encontrava-se vazia. Era impressionante. O apartamento era enorme. Até tinha uma sala de jantar separada. Era mais pequena do que a de estar, mas muito impressionante também. Comemos uma refeição que parecia preparada por um chef de topo em vez de por um advogado. Eu sentia-me um pouco embaraçada por o ter deixado ver onde eu vivia. Ele deve ter pensado que eu era uma desarrumada.

– Então, o que te parece? – perguntou ele, sorrindo.

– É impressionante. É como um museu. Um museu muito bonito.

Ele riu-se.

Eu estava ligeiramente perturbada, e não quisera sequer ser engraçada.

– Falava da comida – disse ele, apercebendo-se da minha confusão.

– Okay, sou uma parva – admiti.

– Fico bastante feliz por gostares da casa. – Ele sorriu se e isso tornou-o ainda mais bonito.

Ri-me, sem ter consciência de que o fazia.

Depois da refeição, fomos para a sala de estar e sentámo-nos no sofá a beber o vinho, no qual eu gastara uma fortuna, e ainda bem.

Ron falou-me sobre o seu passado, a escola que frequentara e a razão por ter escolhido a profissão de advogado. Era claro que, tal como o meu amigo Richard, ele vinha de famílias com dinheiro. Contudo, era algo mais do que um playboy: isso percebia-se. Mesmo assim, nessa noite, ele queria brincar comigo e, depois da segunda garrafa de vinho, eu estava pronta. Encontrávamo-nos a falar sobre a Madonna. Não me perguntem porquê. A conversa acabou naturalmente e ambos sentimos um beijo no ar. Simultaneamente, pusemos os copos no chão. Virámo-nos um para o outro. Pôs a mão no meu pescoço e senti o seu calor. Ele puxou-me e inclinei-me para ele. Beijámo-nos. Um beijo suave e prolongado. Desceu a mão pelas minhas costas e quando parou na base da minha coluna eu sentia-me prestes a explodir. Despimo-nos na sala de estar. O sofá sabia bem na minha pele. O corpo dele soube bastante melhor.

Meu Deus, estou a fazer isto. Estou mesmo a fazê-lo!

Fomos para o quarto – mais uma vez, fantástico; velas iluminavam o quarto e tinha uma vista de morrer, mas esqueçam isso. Ele deitou-me na cama, que era macia e convidativa. Era óbvio que tinha uma empregada que lhe tratava da casa e tomei mentalmente nota que teria de comprar lençóis novos. Ele estava em cima de mim e depois dentro de mim e movemo-nos em sincronia. Parei de pensar. Ron era muito querido, atencioso, apaixonado, sensual, e passámos realmente um bom bocado. Não nos conhecíamos três semanas antes e, agora, tínhamos partilhado aquela noite de música, velas, vinho, rosas, e sexo muito bom.

Depois ele adormeceu e sentei-me no mármore frio do chão da casa de banho e chorei pelo rapaz que esperara quase dois anos para ter relações sexuais comigo. Toda a atmosfera de romance que eu apreciara antes desaparecera assim que me viera. Afinal de contas, a magia revelara ser apenas um truque de salão. Senti-me tão desesperadamente triste, aquilo atingiu-me como um camião. Não podia voltar ao quarto, por isso fui-me embora a meio da noite, sentindo-me uma adúltera.

* * *

Ron ligou-me na manhã seguinte, mas a chamada foi parar ao atendedor. Ele esperava que eu estivesse bem. Passara momentos muito bons mesmo e desejava ver-me naquela noite. Tudo o que eu queria era que a terra me engolisse. Telefonei a Clo e disse-lhe que não tinha a certeza de o querer voltar a ver. Ela disse-me que era perfeitamente normal sentir-me tão insegura e assustada, mas que devia dar uma oportunidade ao tipo. Eu não queria ouvir aquilo. Esperava que ela me dissesse para o deixar. Então, depois de desligar, telefonei a Anne. Ela disse-me praticamente a mesma coisa que Clo e, depois, continuou a descrever o quão fantástico Ron era e que nós fazíamos um bonito casal. Eu não queria ouvir aquilo, por isso telefonei a Seán. Ele disse que vinha ter comigo e respondi-lhe que não havia necessidade. Ele veio na mesma e comprou uma garrafa de vinho. Contei-lhe que passara a noite com Ron.

– Continua – disse ele entre dentes, obviamente esperando que eu não fizesse o que as mulheres costumam fazer e lhe contasse algo de demasiado pessoal.

Avancei na conversa com cuidado, consciente dos seus receios. Disse-lhe que gostava mesmo de Ron, que ele era uma pessoa amável, que nos demos muito bem e que ele era óptimo. Ele aparentava estar mais à vontade com o tema da conversa do que eu tinha previsto. Isso era encorajador.

– Continua.

Então, disse-lhe que eu não o queria ver mais.

– Porquê? – perguntou ele, sem sugerir emoção ou juízos de valor.

Os meus outros amigos não haviam perguntado isto e eu não estava preparada para responder. Pensei sobre o assunto.

– Não tenho os sentimentos que devia.

Ele sorriu.

– Bom, então, espera até os teres.

De repente, não me senti tão patética. Só porque não queria algo com Ron não significava que não iria querer uma relação com outra pessoa. Tinha apenas dormido com uma pessoa. Isso era um princípio, mas quem sabe se, da vez seguinte que dormisse com alguém, não pudesse até ficar a noite inteira. Eu tinha possibilidade de escolha; era uma mulher dos anos noventa. Senti desaparecer de mim um peso enorme. Nessa noite, telefonei a Ron e disse-lhe que pensava que era um bocado cedo de mais para andar com alguém. Ele aceitou bem isso, mas a chamada durou pouco tempo.

Anne estava arrasada. Creio que ela tinha o meu futuro inteiramente planeado e aquilo significava que teria de voltar a começar do zero. Clo perguntou-me se não haveria problema se fosse com ele, antes de se desatar a rir – como fazia sempre que achava que tinha piada. Assim, fiquei solteira após três breves semanas. Senti-me de novo com dezasseis anos e isso fez-me sorrir.