Estarás Sempre Comigo
5 Os cinco estádios
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Os cinco estádios
A dor consome-nos bastante. A dor isola. A dor é egoísta. Os conselheiros da dor dir-nos-ão que existem cinco estádios no processo da dor: negação, raiva, desamparo, depressão, e, por fim, aceitação. Penso que existem seis: negação, raiva, desamparo, depressão, culpa, e, finalmente, aceitação.
Negação
Eu não pensava em mais ninguém. Não pensava. Vivia no passado. Trancada no meu espírito, relembrando a minha vida até ali. Foram-me dadas quatro semanas de licença de nojo. Quatro semanas para lamentar a vida inteira. Fiquei quase sempre no meu quarto, escondida debaixo do edredão, a ouvir o tiquetaque do antigo relógio de pêndulo. Dormi, dormi, dormi e, quando os meus olhos me forçavam a acordar, abraçava a minha almofada e falava com John.
– Lembras-te quando dissemos aos meus pais que íamos viver juntos? Lembras-te como ficaram doidos com a ideia? Até o Noel levou uma reprimenda. Lembras-te? A minha mãe disse céus! Noel zombou e ela irritou-se com ele. Mas tu acalmaste-a. Até o meu pai estava contra e, normalmente, ele nunca se opõe a nada. Foste brilhante. Eu gritava como uma miúda de catorze anos, mas resolveste tudo. Foste sempre bom a convencer as pessoas. Podias ter sido advogado se quisesses.
Ouvi o granizo a cair, lá fora. As pedras de gelo a bater contra a janela não me fizeram mexer. Foi um gato a miar na janela que acabou por me fazer levantar. Arrastei-me até à cortina e corri-a bruscamente, aborrecida porque a realidade me estava a interromper uma conversa agradável. Olhei lá para fora e contemplei as pedras de granizo a bater no chão de cimento do quintal. A porta da cabana oscilava de forma descontrolada, as dobradiças como que gritavam por socorro. Os vasos das plantas rolavam pelo chão, derramando o seu conteúdo a cada reviravolta. Só alguns segundos depois me lembrei do som que me atraíra à janela. O gato miava desesperadamente para o meu olhar lunático. Se os gatos falassem, creio que diria: Deixa-me entrar, sua parva! Abri a janela, chocada com a visão de um gatinho tão pequeno a tremer no parapeito da janela com as garras muito pequeninas ainda. Peguei naquela criaturinha ensopada, que no fundo não passava de um par de olhos petrificados rodeados por pêlo, e levei-o cuidadosamente para dentro. Conseguia sentir o pequenino coração a bater descontrolado nas minhas mãos. Corri para a casa de banho e embrulhei-o numa toalha. Sentei-me no lado da banheira e sequei-o.
– És apenas um bebé. Olha para isto, John! Um gatinho. Olhei para o focinhito. Via-se logo que era macho. Tinha mesmo focinho de gato, olhos pretos ovais, pêlo preto, que continuava espetado apesar de molhado e uma pequena mancha branca debaixo do queixo. De facto, quanto mais olhava para ele mais me lembrava do colega de terceiro ano de John, Leonard Foley. Leonard tinha os olhos ovais negros e um cabelo muito preto que desafiava a gravidade. Não tinha a mancha branca nem o pêlo, mas em tudo o resto era prática e assustadoramente a mesma coisa. Leonard fizera várias tentativas para amansar a sua juba, porém, a única opção de o fazer sem o rapar e parecer um skinhead foi colocar gel e moldá-lo com um moicano. Parecia um extraterrestre, mas era um grande fã do Star Trek e achava que assemelhar-se a um alienígena era fixe, e, por ser o guitarrista principal da única banda na escola, concordámos todos que realmente era fixe. Penteei o pêlo do gatinho de modo a lembrar um moicano. Ele olhou para mim cautelosamente enquanto esfregava o rabito na toalha. Naquele momento parecia-se ainda mais com o Leonard.
– Olá, Leonard? Como vão as coisas com a música? Já tens algum contrato?
O gatinho não estava muito interessado na minha conversa. Depois de seco, miou com fome. Levei-o para baixo, para a cozinha, sentando-o no balcão enquanto procurava uma taça apropriada. Uma vez fora do meu alcance, começou a andar, embora parasse pouco depois na borda do lava-loiça. Olhou para o chão muito abaixo e recuou para a janela. Foi só então que caí em mim.
– Como raio é que um pequenino como tu conseguiu subir para o parapeito de uma janela no segundo andar?
Ele não respondeu.
– Isso é impossível!
Leonard não parecia muito interessado em revelar segredos. Estava ocupado a andar aos círculos. Vi-o a comer atum já com dois dias.
– De onde vieste? Foste tu que o enviaste, John? Enviaste-o para me tirares da cama? Nunca gostaste quando eu dormia muito. Um dia desperdiçado, dizias.
Leonard acabou de comer. Quis dormir depois do seu calvário. Não podia censurá-lo. Afinal de contas, o seu encontro com a fúria da natureza no parapeito da minha janela fora semelhante a um de nós ter sobrevivido a um terramoto. Encontrei uma caixa de sapatos e forrei-a com uma toalha limpa. Quando o meti lá dentro, aconchegou-se imediatamente e fechou os olhos. Pu-lo na cama ao meu lado. Voltei para baixo do edredão e observei-o a dormir.
– John, lembras-te da estátua que se movia? Milhares de pessoas fizeram uma peregrinação para rezar aos pés de uma estátua de Maria, num celeiro qualquer, em North Kerry. Lembras-te de o Leonard ter tirado a estátua da Virgem com o Menino do escritório do director? Escondeu-a na casa de banho das raparigas e deixou uma nota no pódio a dizer «fui almoçar!»
– Ri-me. – O director ficou maluco e chamou-lhe blasfemador. Estátuas que se movem! Que grande piada!
Leonard abriu um olho para ver onde estava a piada. Já não me ria.
Adormecemos pouco depois.
Fúria
Clo ligava-me uma vez por dia.
– Estás bem?
– Sim.
– Precisas de alguma coisa?
– Não.
– Queres que vá ter contigo?
– Não.
A chamada terminava e ficávamos ambas aliviadas. Ela não tivera quatro semanas de licença de nojo. Apenas perdera um amigo, o John não era da família dela. A sua dor não era tão grande. Voltou ao trabalho no dia após o funeral. Entrou no escritório para ser recebida por setenta e-mails que exigiam atenção urgente, três comunicados à imprensa, uma sessão fotográfica para uma revista a propósito da semana da fruta e dos legumes e um cliente muito desapontado. Lidou com os e-mails metodicamente. Acalmou o cliente em poucos minutos. Depois conseguiu escrever três comunicados à imprensa numa hora, cumprindo o prazo com tempo de sobra.
A sessão fotográfica, por outro lado, foi um pesadelo. Duas modelos subnutridas, uma vestida de couve, a outra de maçã, com frio e irritadiças à espera do homem da fruta para entregar o cenário para as fotografias. O homem ficara preso no trânsito na M50. As raparigas defendiam-se dos comentários de adolescentes sobre a sua roupa de fruta, enquanto o fotógrafo reclamava quanto às horas. Clo manteve-se profissional do princípio ao fim.
Não chegou a casa antes das sete. Entrou no apartamento vazio, arrasada. Tirou o café da prateleira alta. Escorregou-lhe das mãos e ela conseguiu ouvir o frasco de vidro grosso a bater-lhe na cabeça antes de o sentir. O frasco de café continuou a cair em direcção ao chão. Quase o apanhou, mas a mão decepcionou-a uma vez mais. O recipiente estilhaçou-se nos ladrilhos brancos, os grãos de café a saltar da sua prisão de vidro numa ânsia de liberdade.
– Basta!
Sentia-se arder por dentro. As lágrimas que irromperam queimaram-lhe olhos.
– Eu só queria a porcaria de um café! É pedir assim tanto? Que se lixe, não vou limpar isto! Porra, não consigo lidar com isto!
Gritou. Começou a pegar em copos e a atirá-los pelo aposento, vendo-os bater, partir-se e depois escorrer pelas paredes da cozinha. Fez pontaria com uma chávena a um quadro com um barco a navegar. Atirou-a com a concentração e profissionalismo de um jogador de basebol. O vidro partiu-se com o impacte, deixando a imagem rasgada e pendurada na moldura lascada.
Gritou, chorou e dançou com café e vidro partido debaixo dos pés. Então parou, o coração a bater descontroladamente, ameaçando sair-lhe do peito, as mãos trémulas e os pensamentos num torvelinho.
Basta.
Estava sentada no chão da cozinha, a gemer e a tentar varrer sem entusiasmo os frutos da sua destruição para uma pá quando a campainha tocou.
– Deixem-me em paz! – rugiu, sabendo que seria impossível para qualquer potencial visitante ouvi-la quatro andares abaixo numa rua movimentada.
Respondeu ao quinto toque. Era a mãe.
– Clodagh, deixa-me entrar!
– Quero estar sozinha.
– Deixa-me entrar, pelo amor de Deus!
– Deixa-me em paz!
Abriu a porta da rua à mãe. Examinou os estragos na cozinha enquanto a mãe subia no elevador.
– Deixa-me em paz! – gritou ela à bancada antes de partir o prato que estava indefeso no lava-loiça. Abriu a porta um minuto depois.
– Oh, querida! Anda cá, tens ranho na cara. – A mãe tirou um lenço do bolso e limpou-lhe o nariz. – Sopra!
Ela soprou com força e a mãe amparou-a enquanto chorava e praguejava. A mãe também começou a chorar.
Mais tarde, exausta, Clodagh pediu à mãe que falasse sobre o pai que ela perdera tão nova sem o conhecer.
– Ele gostava muito dos Boomtown Rats. Amava a sua inquietação, a sua raiva. Era um político. Queria mudança. A velha Irlanda desapareceu, dizia ele. Era apaixonadamente opinativo.
Ela sorria. Clo viu-a acalmar-se enquanto ia recordando cada memória.
– Quando ele se ria, a sala ria-se com ele – disse, ainda a sorrir. – Era muito teimoso, tal como tu.
Clo sorriu, sem se ofender.
– Tinha sempre razão mesmo quando não a tinha. Gostava imenso de praia e tinha uma paixão por barcos.
Clo tomou mentalmente nota de repor o quadro do barco.
– Ele era um lutador… tinha sempre na manga um esquema para fazer dinheiro. Conseguia deixar-me maluca.
– Como eu – disse Clo, tentando um sorriso.
– Como tu – admitiu a mãe, acariciando-lhe o cabelo.
O momento ternurento passou rapidamente e Clo sentiu o calor a invadi-la
– Não é justo. Sinto uma fúria tão grande!.
– Eu sei que sentes – concordou a mãe. – A cozinha é prova disso.
Clo não conseguiu impedir-se de rir. Achava que a mãe não se apercebera do estado da sala.
– Sabes, quando o teu pai morreu, tinhas apenas cinco anos, mas no dia do funeral partiste todas as canecas e pires do teu conjunto de brinquedos, e eram de plástico. Percebi que compreenderas que o teu pai não ia voltar. É assim a tua maneira de ser. As coisas não mudaram.
Clodagh estava destroçada.
– Como? – perguntou ela.
– Bem, continuas a partir coisas – respondeu a mãe.
Clo chorou, pela mãe, pelo amigo, por mim, por ela própria. Durante todo o tempo, a mãe abraçou-a, certa de que ela sobreviveria ao desastre.
Desamparo
Noel visitava-me todos os dias. Ficava o tempo que era preciso para saber que eu estava bem. Depois ia-se embora. Passava a maior parte do tempo a rezar. Ele e John tinham sido amigos… não, eram mais próximos do que isso. Haviam crescido juntos. Noel tinha dois anos a mais do que John, mas davam-se muito bem. John admirava todas as características que eu achara inicialmente menos boas. Gostava do facto de Noel não seguir a maioria – gostava de falar com ele sobre algo diferente do futebol, dos carros e das raparigas que dominavam o seu universo. John conseguia fazer rir Noel a bandeiras despregadas. Iria sentir falta disso. Iria sentir falta dos debates religiosos que tinham; Deus em oposição à ciência era um dos velhos temas favoritos a que voltavam vezes sem conta.
Meu Deus, por favor, não me deixes esquecer! Se tiveste de o levar, por favor, deixa-me ouvir a sua gargalhada!
O meu irmão gostaria de poder dizer-me que John estava agora em paz e que a sua morte significava a sua ressurreição no Céu e que devíamos estar felizes por ele, que devíamos celebrar o seu regresso ao Pai de todos nós. Não conseguia. O seu coração estava ausente. Sentia demasiado a falta do amigo.
Por favor, meu Deus, faz-me compreender.
Tentava recuperar da dor da única maneira que sabia. Dizia a missa; visitava o lar, o hospital; deu uma palestra na escola. No final de cada dia, ia para a casa que partilhava com o padre Rafferty, um homem de Cork, nos seus sessenta anos. O padre Rafferty via as notícias enquanto Noel cozinhava o jantar deles. Noel comia em silêncio, acenando de forma intermitente ao padre Rafferty, sempre preocupado com o estado doente do mundo. Quando Noel conseguia escapar finalmente para o quarto, punha Nina Simone a tocar no seu leitor de CD e ouvi-a cantar sobre a tristeza enquanto se ajoelhava junto da cama de mãos unidas em oração.
Por favor, meu Deus, dediquei-Te a minha vida, afasta de mim esta dor. Prostro-me diante de Ti. Leva esta solidão para longe.
* * *
Como soube muito mais tarde, Noel conheceu Laura numa venda de bolos. Ela já tinha feito mais de quatrocentos bolos para apoiar o combate ao cancro da mama. Perdera a mãe devido à doença, e sentia que trabalhar numa recolha de fundos era o mínimo que poderia fazer. Era uma pessoa calorosa e conversadora. Existem muitas pessoas que não conseguem falar com padres, pelo menos não muito à vontade. Noel sentiu-se desarmado. Gostou do seu à-vontade e da sua abertura. Ela não tinha medo de dizer o que lhe ia na cabeça, nem de escutar. Foram a um café e ela falou sobre a mãe enquanto sorria e ria com velhas anedotas. A rapariga contou-lhe a sua triste história com humor, livre de culpa, e ele sentiu-se bem na presença dela. Descobriu que também conseguia falar sobre si próprio. Isso era novidade para ele e um prazer inesperado. Encontraram-se de novo, umas vezes acidentalmente, outras nem por isso. Nunca tinham sido íntimos, nem ele sequer o considerara, mas estava a sentir-se culpado pela sua nova amizade. Isto foi antes de John ter morrido e, agora, a solidão que sentia há tanto tempo ia-se tornando cada vez mais insuportável.
Senhor, ajoelho-me perante Ti. Por favor, imploro-te, faz com que esta solidão desapareça.
* * *
Pegou no casaco e sem uma palavra ao padre Rafferty, que passava a sua jaqueta a ferro, fechou a porta atrás de si e foi para a rua, preparando-se para apanhar o primeiro táxi que visse.
Chegou sem avisar. Laura abriu a porta e sorriu, feliz. Levou-o para dentro, para a sua sala de estar aquecida. Ele afundou-se no sofá. Por cima da lareira ardiam velas. Estava escuro na sala e a única luz provinha de um candeeiro junto de uma cadeira de leitura onde havia um livro aberto. Ele tinha-a interrompido, não havia razão para ali permanecer. O seu embaraço apanhou-o de surpresa.
– Ficarias mais confortável se eu acendesse a luz do tecto? – perguntou ela, dando-se conta do seu desconforto.
– Não. Desculpa, não devia ter vindo. – Baixou a cabeça para evitar o seu olhar.
– Acho que era exactamente disso que precisavas. – Sorriu.
– Deixa-me fazer um chá e já falamos.
Ele fez um gesto de assentimento.
Mais tarde, ela sentou-se na sua cadeira de leitura e Noel falou-lhe do amigo que morrera num acidente. Contou-lhe sobre a sua raiva e vergonha. Desabafou com ela a sua dor, os seus remorsos e até mencionou alguns receios.
Ela então abraçou-o. Apertou-o contra si e ele chorou no seu ombro enquanto ela lhe afagava as costas e lhe dizia que tudo iria correr bem. Ele sentiu a sua respiração no pescoço e o rosto dela contra o seu. Cheirou o perfume dela e sentiu-lhe os seios encostados à sua túnica. Afastou-se, assustado com a tensão nas calças.
– É melhor ir-me embora.
– Se precisares de alguma coisa...
Noel assentiu com a cabeça.
Ela acompanhou-o à porta e ele abraçou-a, sem se conter.
– Obrigado – disse-lhe.
– Quando precisares, aqui estou – retorquiu ela com tristeza.
Viu-o descer até ao portão. Ele não olhou para trás. Ela fechou a porta.
Noel foi a pé para casa. Demorou mais de uma hora, mas pareceram-lhe minutos. Doía-lhe a cabeça.
Eu desejei-a. Oh, meu Deus, ajuda-me, estou tão confuso. Por favor, meu Deus, sou Teu, dá-me forças!
Depressão
Seán saiu do funeral e foi direito ao pub. Sentou-se sozinho a um canto, esvaziou os bolsos de todo o dinheiro que tinha, colocou-o em cima do balcão à sua frente e pediu um uísque, depois outro e mais outro. Continuou a beber enquanto tinha dinheiro para pagar. Não falou com ninguém; não estava lá para conviver ou engatar, o que provavelmente surpreendeu alguns dos clientes habituais. Quando caiu do banco, o barman deixou de o servir. Não discutiu nem partiu nada – apenas pegou no dinheiro, arrumou-o no bolso e saiu a cambalear do estabelecimento, tão silencioso como entrara. Comprou umas quantas garrafas na loja de bebidas na porta ao lado, pagando com o Visa quando se apercebeu de que os trocos que tinha não chegavam nem para um kebab. Precisou de ajuda para sair; a mistura de doze uísques e ar fresco atingira-o com força e as pernas tornavam-se instáveis. Não se lembrava de como tinha chegado a casa. Não se lembrava de qual fora o meio de transporte nem como conseguira enfiar a chave na fechadura. Deu por si no seu cadeirão preferido, um velho traste que engolia quem nele se sentava. Clo costumava chamar-lhe Lótus.
Não se levantou dele nessa noite. Ficou no escuro a beber da garrafa, sem se preocupar com qualquer possível estrago que pudesse estar fazer ao seu corpo cansado.
Qual é o objectivo?
Tirou uma semana de férias e continuou enterrado no velho cadeirão, na pequena sala de estar do apartamento rodeado pelos livros que cobriam as suas paredes. Não iria ler por uns tempos – os olhos doíam-lhe demasiado. O leitor de CD ao canto permaneceu silencioso. O som magoava-lhe os ouvidos. A televisão ficou desligada. Comida era um conceito estranho; esquecera-se de como ingerir coisas sólidas sem se engasgar. Não conseguiu dormir. Bebeu até não haver mais.
Ignorou o telefone e a porta. Não estava em condições e, passado pouco tempo, já nem os ouvia. Adormecia, mas o turbilhão na sua mente acordava-o depressa. A cabeça pendia para um lado, mas depois caía ligeiramente; endireitava-a, com olhos fechados. Isto acontecia um número considerável de vezes antes de cair por fim num sono profundo.
John estava lá e por um momento tudo ficava bem. Sentava-se no Lótus, ao lado da cama de John, no hospital. John virava-se para ele e dizia:
– Porra, meu, estás um farrapo!
Seán assentia com a cabeça, sorrindo.
– Pregaste-nos um susto – dizia ele e John sentava-se, sorridente.
– Gosto muito de protagonismo.
– Não tem piada. Pensámos que tinhas morrido.
Seán deslocava-se para a janela, fascinado pelo sol brilhante que parecia dançar no ar como um balão cor de laranja. Conseguia ouvir John a rir-se atrás dele.
– Ninguém morre… vamos todos para outro sítio, é tudo.
Seán tentava virar-se da janela, mas os seus olhos permaneciam concentrados no sol.
– Sim. Bem, estou contente por teres ficado – dizia, esforçando-se por virar o rosto para John.
– Não fiquei.
De algum modo libertado, virava-se, mas era demasiado tarde: deparava-se-lhe uma cama vazia, e então acordava, assustado com o próprio choro. O sonho era quase sempre o mesmo. Mudava um ou outro pormenor; em vez de sol, havia uma lua amarela ou uma nuvem branca. Uma vez foi um chocolate M&M.
Bebia havia cinco dias quando a chave rodou na sua porta. Jackie, uma rapariga com quem andava, entrou, ainda a bater na porta.
– Olá? Está alguém em casa?
Incapaz de responder, continuou sentado, bêbedo, exausto, assombrado e intoxicado em álcool. Ela aproximou-se, observando os estragos que ele fizera nos últimos cinco dias: as garrafas vazias espalhadas pelo chão, um cinzeiro cheio de beatas, o cheiro a bebida que quase a impediu de respirar. Ele tinha os olhos vermelhos. Estava imundo, sem ter mudado de roupa durante dias. Os dedos, amarelos, tremiam. Suava bastante.
– Meu Deus! Mas o que fizeste a ti próprio?
Ele ficou sentado a olhar para o vazio, puxando uma baforada profunda do cigarro, e Jackie não percebeu se ele estava meramente a ignorá-la ou se tinha sequer percebido que ela entrara. Foi à casa de banho procurar uma toalha de rosto. Escorregou em vomitado e sentiu-se indisposta.
– Tornaste-te o Shane McGowan!
Limpou o sapato o melhor que pôde e fechou a porta quando saiu da casa de banho. Aproximou-se dele lentamente, receosa de fazer quaisquer movimentos bruscos. Quando chegou ao pé dele, Seán nem se mexeu. Ajoelhou-se a uma distância segura à sua frente, com medo de estender a mão e, lentamente, tentou estabelecer contacto.
– Seán… Seán… Seán…
Nada.
– Sou eu, a Jackie – disse ela, acenando e apontando para a sua cara.
– Eu sei quem tu és. Não sou cego – respondeu, concentrado no chão.
– Então olha para mim – desafiou ela.
Ele não queria. Não se lembrava sequer de lhe ter dado as chaves e estava irritado consigo mesmo. Nem sequer a conhecia bem.
– Vai-te embora.
– Sei que perdeste o teu amigo, mas isto é ridículo.
Ela apontava para a sala com um movimento circular e aquilo deixou-o tonto.
– Então vai-te embora – pediu ele, antes de se afundar mais ainda no Lótus.
– Vou-me embora quando tomares um duche, mudares de roupa e deitares fora estas malditas garrafas.
A sua intervenção não foi bem-vinda.
– Vai-te embora – suplicou ele.
– Não posso.
– Sai daqui – gemeu.
Ela não se mexeu. Ele usou toda a força que conseguiu reunir para ser tão ameaçador quanto possível.
– Sai já da minha casa! Não te quero! Não tenho nada para te dizer. Nem sequer gosto de ti.
Pegou numa garrafa e engoliu os resíduos.
– Estás apenas chateado – disse ela calmamente, enquanto se levantava para recuperar algum poder. – Estás só bêbedo.
Ele fitou-a com um olhar vidrado, furioso com aquela desconhecida, que nem parecia assim tão atraente. Se ela não queria sair, ele iria fazer com que quisesse.
– Eu estou bêbedo e tu és uma puta. – Acendeu outro cigarro, certo de que ela se iria embora em breve.
– Parvalhão – observou ela. – Tu é que és um cabrão. Tu é que és o gajo que não consegue fazer com que uma relação resulte, por isso não ponhas as culpas em mim.
Ele não se deu ao trabalho de lhe responder.
Corriam-lhe lágrimas dos olhos.
– Eu queria que isto resultasse, mas são precisos dois. – Dirigiu-se para a porta.
– Não te esqueceste de nada? – perguntou ele, fechando os olhos, aliviado.
Ela voltou-se e olhou em volta, confusa.
– As minhas chaves.
Ela atirou-as para a mesa de vidro, tombando uma lata cheia de beatas encharcadas. Ele não olhou mais para ela. A rapariga saiu, batendo com a porta. Ele abriu os olhos e as lágrimas que se tinham recusado a vir durante tanto tempo correram livremente.
Aceitação
Anne e Richard sofreram tal como nós. Sentiram descrença, raiva, depressão e culpa, mas também se tinham um ao outro, e, unidos, mantiveram a segurança e a esperança que nós havíamos perdido. Quando Richard se sentia deprimido, Anne estava mesmo ao seu lado. Quando Anne achava a dor insuportável, Richard abraçava-a com força. Sentiam a falta do amigo, mas agradeciam a Deus por estarem juntos.
Uma semana após a festa de herança, sentaram-se no sofá e abraçaram-se, vendo um filme que tinham de John a fazer o seu discurso de padrinho do noivo no casamento deles. Repuxava a gravata e sorria enquanto as suas mãos baralhavam involuntariamente telegramas.
– Não vou tomar muito do vosso tempo… – Uma pausa. Sorriu. – Ao contrário da mãe de Anne.
Os convidados reunidos riram-se logo. O operador de câmara focou a mãe de Anne a rir-se e a fingir constrangimento enquanto balbuciava:
– Oh, pára com isso!
O operador de câmara voltou ao orador.
– Vou apenas ler algumas saudações de pessoas que não deram importância suficiente a isto para virem.
Os convidados riram de novo. Anne, no seu vestido de noiva, tinha um enorme sorriso. Richard enxugava os olhos e sorria à mulher.
Quatro anos depois, Anne estava a ver o amigo morto no ecrã e a chorar nos braços do marido. Abraçaram-se, vendo John enquanto ele se punha na fila para beijar a noiva, a rir e a fazer estalar os lábios. Acenou-lhes, abraçou-os e rodou com eles, radiante com a felicidade dos amigos. Choraram mas também riram. Não conseguiram evitá-lo; ele era muito engraçado sempre que queria. Contaram histórias de quando ele fora esperto e de quando fora estúpido. Falaram sobre os seus maus hábitos e os seus provérbios preferidos. Recordaram os bons tempos e alguns maus. Relembraram-no bem, e, ao fazerem-no, aceitaram a sua morte.