Filhas do mundo
4 - Quando faltam limites
Outra característica recorrentemente encontrada nas adolescentes entrevistadas, fundamental para se entender suas atitudes, é a dificuldade em introjetar os limites sociais. Essa capacidade é resultado de um processo de socialização bem-sucedido, no qual a família, em primeiro lugar, e a escola e outras instituições desempenharam o seu papel.
Entende-se por limites intrafamiliares as regras claramente definidas que se aplicam de forma contínua na relação da família entre si e dela com o mundo. Assim, as crianças aprendem quais são os comportamentos aceitos pela sociedade e quais estão interditos. A estabilidade e a consistência demonstradas pelos adultos em suas atitudes são fundamentais para facilitar a internalização dos limites pela criança.
As famílias entrevistadas têm dificuldades em estabelecer regras a serem vivenciadas pelos seus membros devido:
• ao abandono parcial ou temporário das meninas em idade
muito precoce, sem a devida substituição por um provedor
equilibrado;
• ao grau de vitimização experimentado por essas garotas
(discutido nos capítulos seguintes), que as torna reativas à
autoridade, dificultando a sua permanência no lar;
• ao severo padrão moral de algumas famílias, que estabelecem
regras acima da capacidade juvenil de adaptação;
• à total falta de normas em algumas famílias, em que os
próprios pais entregam simbólica ou concretamente seus filhos
para o mundo criar.
A ausência paterna nessas famílias aumenta a necessidade do controle materno sobre a prole. Mas não é o que se verificou em várias famílias. As mães se vêem como impotentes na educação das filhas, continuando a esperar pela autoridade masculina perdida e ainda sendo criticadas pelos parceiros e genitores pela falta de pulso firme.
Uma das meninas de boa condição socioeconômica pode ilustrar a falta de supervisão, a falta de limites apropriados para a idade e a resultante necessidade precoce de autonomia e independência. Alessandra se expressa muito bem e idealiza sua vida com muita facilidade, interpretando a realidade sob a ótica dos seus sonhos, especialmente no que se refere a sua família, a qual considera muito unida e tranqüila. Sua mãe tem problemas psiquiátricos (psicose depressiva), segundo o relato técnico, tendo ficado meses sem reconhecer a própria filha. Alessandra também parece ter problemas, se automedicando e somatizando seus sofrimentos. O pai só a reconheceu como filha aos 12 anos e, mesmo assim, nunca a registrou oficialmente. É casado e tem outra família.
Toda a família mora no Nordeste. Devido aos problemas de saúde da mãe, Alessandra passou períodos em casa de um tio e em internato. Sua vida é marcada por momentos de muita instabilidade. Decidiu vir morar no Rio de Janeiro com uma prima, após desgosto com um namorado. Porém, não conseguiu ficar com ela, pois não queria obedecer às regras de horário para chegar em casa. A mãe não foi capaz de demovê-la da idéia de vir para o Rio, nem de fazê-la voltar quando os problemas começaram, mostrando não ter controle algum sobre as decisões da filha e não saber dos seus problemas. Mandava dinheiro mensalmente para Alessandra se sustentar e pagar a escola.
Alessandra ficou totalmente livre no Rio de Janeiro, procurando manter-se independente. Nesta cidade viveu muitas aventuras, as quais descreve com imagens muitos ricas. Ganhou dinheiro trabalhando em rádio, posou para revistas, conviveu com grupos de funk, até se envolver com o namorado da prima, ligado ao tráfico de drogas. Aceitou levar uma primeira encomenda para ele e foi obrigada a continuar a tarefa, pela qual foi pega pela polícia.
A instabilidade vivida por essa jovem não se distingue substancialmente das anteriormente apresentadas, a despeito da distinta inserção de classe social. Para essa jovem, o sentimento de insegurança em relação à mãe, com sérios problemas mentais, e ao pai que nunca a reconheceu levou-a a fantasiar uma vida totalmente distinta da realidade. Quando Alessandra se pensava livre e solta para viver os seus sonhos, acabou presa à dominação do traficante, que novamente a manteve submissa.
A ausência de limites traz também a reboque a necessidade de desafiar autoridades e perigos, atributos comuns aos adolescentes em geral e exacerbado nas entrevistadas. Ilda, que sempre burlou as normas que sua instável mãe tentava impor, assusta-se ao perceber como seu filho de dois anos está seguindo caminho similar, como se começasse um novo ciclo. O menino, criado pela avó com pouca assistência sua, é muito agitado, já tendo sido expulso de duas creches. Numa visita ao ESD, a criança bateu em Ilda, que se assustou e culpou imediatamente a sua mãe, que o cria. Ilda reagiu batendo no filho e brigou com a mãe, pois o menino “pinta e borda com ela”. Pede que ela o “eduque para não ser um animal, que ele tá virando um animal de tão nervoso”.
Libertando-se de um rigor excessivo
Uma das situações que estimulam a busca de autonomia e independência, mesmo que por meio da saída de casa para o casamento ou para a rua, é um lar em que há muita rigidez moral. Essa fala foi muito comum na geração das mães, que procuraram reagir de maneira oposta quando tiveram suas filhas. Nívea fala assim de sua experiência:
Minha mãe não me deixava ficar conversando com ninguém na
porta de casa. Não podia namorar, não podia sair com as
colegas. Eu sei que ela tinha medo de que a gente se
misturasse, mas era demais. Agora eu converso mais. Eu tinha
muita vergonha da minha mãe. Ela também não falava assim
essas coisas de mãe para filha, não. Tudo era pecado. (Nívea,
mãe de Alba)
Nívea fugiu de casa para casar, pois seus pais não a deixavam sair e não aceitaram seu namoro. Mas a fir meza com que foi criada é lembrada com saudosismo, pois nenhum dos seus irmãos causou problemas como os que Alba, sua filha, têm trazido para a família. O conflito sobre o modelo de educação liberal que adotou e a culpa que sente ficam claros nesta fala: “Eu acho que se eu tivesse agido assim com as minhas filhas, isso tudo não tinha acontecido”.
Uma adolescente que mostra claramente essa mesma dificuldade é Úrsula. Sua mãe a doou para ser criada por uma tia, pois tinha muitos filhos e não dispunha de condições para criar todos. Apenas Úrsula foi doada; todos os demais ficaram com a mãe, a despeito da pobreza absoluta da família.
Úrsula foi criada por tios muito religiosos e carolas. Tudo era pecado. Prendiam-na em casa, limitando a possibilidade de relacionamento com outros adolescentes. Ela tinha tudo que fosse bem material, mas se sentia presa. Hoje, elabora assim o sofrimento que passou com a tia: “Ela tava me maltratando me prendendo daquela maneira. Mas hoje em dia, eu vejo que ela queria o melhor pra mim. Eu estava errada e ela, certa”.
A tia tratava-a como a uma filha, mas dificultava a aproximação dela com a mãe. Úrsula vivia sonhando com o amor da mãe. No início da adolescência, Úrsula começou a namorar escondido e a usar drogas com um primo. Um dia, quando a tia a pegou mentindo, fugiu para a casa de sua mãe. “Passei de cinderela para gata borralheira”. A mãe a aconselhou a voltar para a tia, mas ela não quis mais; quis viver a própria vida.
Na casa da mãe, Úrsula perdeu todo o conforto e bens a que estava acostumada. Paradoxalmente, queixa-se da mãe por ela ser justamente o oposto de sua tia: desorganizada e muito ‘mole’ na disciplina com os filhos pequenos.
Úrsula começou a trabalhar no tráfico para consumo pessoal e conseguir dinheiro para ter sua própria casa, pois odiava a bagunça da casa de sua mãe. Queria o mesmo cuidado que tinha na casa da tia.
Não houve tempo para recuar, nem poderia, pois não conseguiria mais viver com alguém lhe impondo limites. O tempo do crescimento foi encurtado, e a vida adulta não permite mais a dependência materna. Tampouco está suficientemente madura para seguir só. Foram muitas perdas, em muito pouco tempo.
Tinha tudo o que queria eu tinha com a tia, mas sempre faltava
alguma coisa, que era assim atenção dela, e isso não me
comprava. Não me sentia bem só tendo aquelas coisas
materiais. Eu queria outra coisa melhor, atenção, carinho, um
pouco mais de liberdade. Eu queria ter uma vida de
adolescente normal e eles não entendiam isso, tinham tanto
medo deu me misturar que eu acabei me estragando.
A total falta de limites ou o seu excessivo rigor provocaram nas adolescentes entrevistadas uma necessidade premente de enfrentarem o mundo extrafamiliar, estimulando assim a independência e a autonomia precoces. Na geração das mães também se constatou uma reação similar, embora com duas distinções: a comunidade a que as mães se expunham era menos perigosa, sendo menor, portanto, a possibilidade de envolvimento infracional. E após as tentativas de autonomia, a maioria das mães voltou, com o passar dos anos, a uma atitude mais dependente.
A busca da independência
Assumir uma postura independente perante a vida em etapa tão precoce pode trazer sérios danos a uma adolescente. Algumas jovens assim procederam, deixando claro que desejavam romper com um padrão feminino de submissão ao homem. Em geral, primeiro desejavam libertar-se da autoridade da mãe, da tia ou da avó que as criaram e, depois, dos parceiros.
Muitos exemplos poderiam ser dados. Elisa não quis morar com a mãe porque não gostava que ninguém mandasse nela, querendo “ficar na farra”, sem ter que escutar o que a mãe dizia. Sua alternativa foi a rua. Sobre o namorado, do qual está se separando, comenta: “Ele não tem como me mandar, não. Eu não deixo. Nem minha mãe me manda”.
Olga não queria ficar presa dentro de casa, enquanto o homem podia ficar saindo com outras mulheres da rua. Justifica seu posicionamento: “Sempre fui desaforada, só fazendo o que quero. Eu sou dona de mim, então vou fazer o que eu quero”.
Essa mesma fala é repetida por Ilda, que diz “faço o que bem entendo”, mostrando como sempre enfrenta o mundo. Apanhou de um primeiro namorado; quando o segundo tentou lhe bater, ameaçou-o: “Nunca levanta a mão pra mim, porque senão eu posso dar um tiro na sua cara”. Ele prosseguiu a agressão e levou um tiro perto do ouvido, ficando uma semana sem escutar, fato que Ilda conta com orgulho. O namorado nunca mais deixou a arma perto dela nem nunca mais a enfrentou. Ela sente-se uma mulher independente e forte.
Ana e sua mãe valorizaram o tema da independência durante toda a entrevista. Essa mãe disse nunca ter vivido com homem, pois prefere sua liberdade. Ana tentou uma união, mas afastou-se, pois viu que “estava se diminuindo”. Não aceita ser subjugada na relação.
Essas atitudes são tentativas de romper com o lugar da mulher na socialização tradicional? Sob certos aspectos, parece que sim. Contudo, em outras esferas da relação, essas mulheres não conseguem estabelecer o mesmo grau de autonomia feminina, como é o exemplo de Evelin.
Esta jovem de classe média foi internada no ESD por envolvimento em assaltos a banco. Tem escolaridade elevada e trabalha em atividade técnica. Seus pais se separaram quando ela tinha seis anos. A mãe nunca mais se casou, vivendo com os quatro filhos homens e Evelin, a caçula. É próxima da filha, que a considera “um anjo”. Durante longos anos possuiu um comércio, o que a impedia de estar muito presente no lar.
Ela deixa eu tomar as minhas atitudes, mas está sempre ali me
alertando: ‘Olha, não faz isso’. É muito carinhosa. Dialogo muito
com ela. Ela joga abertamente comigo e eu também com ela.
Evelin participa das decisões amorosas da mãe, tendo muita influência sobre seus relacionamentos: “A gente tem um relacionamento, não é de mãe pra filha, e sim de amiga”.
O pai sempre foi totalmente ausente, embora auxilie a família financeiramente, pois é empresário. Evelin mostra como seu pai age:
Ele ajuda, mas não dá muita atenção. Ele dá tudo que a gente
precisa, mas não é um pai presente. Essa relação meio doida
com meu pai, ele é maneiro, supergente boa, mas falta
responsabilidade, ele nem parece pai de família.
Ela o considera mulherengo, irresponsável, adolescente e aventureiro, sempre às voltas com namoradas muito novas. É um eterno jovem aos 55 anos, agindo “como se tivesse vinte”.
É louco varrido. Se chegar pra ele e falar: vamos ficar 15 dias
zoando, viajando, ele nem pensa uma vez. Vamos embora!
Abandona tudo e vai. Os negócios continuam na mesma,
porque tem os gerentes das lojas. Ele não vai nem ver os livros
pra saber como é que está. Não visita as lojas, não esquenta.
Também o acusa de usar o dinheiro que tem para “comprar o sentimento das pessoas”. Entra sempre em atrito com ele. Todavia, parece se identificar muito com o pai, utilizando, ao falar de suas experiências, os mesmos atributos com que o define.
Toda a família parece apreciar aventuras e festas. Há relatos de filha e mãe chegando sob o efeito de bebida e uma história de briga em bar causada por Evelin – que havia bebido muito –, pela qual ela respondeu a um processo judicial. Todos os filhos usam drogas e desde novos participam de trilhas de moto pelo interior (com histórias de acidentes), com a aquiescência dos pais. Evelin dirige sem carteira, mesmo já tendo se ferido. Já ficou perdida por duas semanas na mata numa travessia ecológica e pulou muro de quatro metros para entrar numa festa como penetra. De todos esses momentos, Evelin se recorda com saudade. Diz-se movida pela adrenalina e pelas loucuras que pratica.
Quando iniciou suas relações sexuais, foi levada pela mãe ao ginecologista e elas passaram a trocar impressões sobre os sofrimentos que ambas tinham na vida amorosa. Vivenciou namoros que a fizeram sofrer muito pela traição. Passou períodos em forte depressão, mostrando-se muito temerosa de novos relacionamentos e associando relação sexual a dor. A mãe sempre tentava colocar alguns limites de horário e local, dos quais Evelin escapulia com facilidade.
A busca de independência sempre foi questão fundamental para Evelin, tema reiteradamente enfocado na entrevista.
O envolvimento com adultos criminosos parece ser mais uma dentre as várias aventuras que a jovem sempre buscou. Representa também seu desejo de independência, pois foi aceita por uma “quadrilha de mulheres” que desafiava as leis masculinas. Uma parte da avaliação psicológica da jovem aponta a vulnerabilidade que está escondida sob a independência e a força aparentes.
Caçula de uma família de cinco irmãos homens, busca a
posição de uma pessoa independente, auto-suficiente e que
pode gerir sua vida sozinha. Na figura materna encontra
fragilidade e na paterna, distanciamento. Evelin parece não ter
encontrado apoio necessário nas figuras parentais, o que a
levou a buscar recursos externos para compensar suas
carências internas. A adolescente exige de si força e
determinação, não admitindo perder perante a vida, e diante
desta possibilidade, reage com forte descontrole emocional,
tornando-se agressiva e partindo para ofensas verbais. Tem
fortes traços depressivos, devido a um vazio afetivo que a faz
sentir-se à beira de um abismo, sendo levada a uma dificuldade
de ajustamento às normas, pela insegurança e baixa
capacidade de crítica.