Filhas do mundo

Simone Gonçalves de Assis · Capítulo 20 de 26

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Filhas do mundo

13 - Livrando-se da vigilância: os alojamentos

13 - Livrando-se da vigilância: os

alojamentos

 

Eu queria falar da minha vida, do que eu estou sentindo, até

chorar sem ninguém ficar encarnando. Às vezes eu fico

acordada à noite só para chorar. É a única hora que você tem

paz.

(Úrsula)

Às vezes fico acordada, enquanto todos estão dormindo. Fico

com insônia, acordada, perambulando por esse quarto, que à

noite, quando todos dormem, torna-se macabro. Às vezes, me

sobe um arrepio, é muito esquisito, e então começo a pensar

em minha vida.

(Ingrid)

Esses trechos dos diários de duas meninas revelam o significado da solidão noturna num local onde a individualidade está massacrada e os sonhos e temores podem fluir livremente. Os alojamentos são os locais em que as adolescentes são menos vigiadas e, portanto, têm mais liberdade. Ficam ali trancadas por cerca de 12 horas. Ali se distanciam dos adultos e das regras impostas pelo grupo. Para as que mantêm relacionamentos afetivos sexuais, é onde se torna possível, ainda que com dificuldades, concretizar seus sonhos. Para os técnicos e funcionários, é o espaço temido das relações homossexuais, com as quais eles não sabem como lidar.

Existem três alojamentos na unidade, com 12 camas em cada um, chamados alojamentos 1, 2 e 3. A distribuição das adolescentes nesses locais se dá de forma aleatória, mas já houve tentativas dos técnicos de separá-las por idade, por comprometimento infracional e até mesmo por opção sexual. No alojamento 3 foram colocadas, certa vez, apenas as jovens homossexuais. Essas iniciativas não foram à frente, e atualmente encontram-se em um mesmo alojamento primárias e reincidentes, as ditas homossexuais e as heterossexuais, meninas perto de completar 18 anos e as mais novas.

As camas são distribuídas em duas fileiras de seis, com um corredor comprido que leva aos três banheiros, que dispõem de sanitário, pia e um cano no lugar do chuveiro. As jovens fazem de suas camas suas próprias casas: objetos pessoais como agenda, produtos de beleza e bichos de pelúcia dividem o espaço com retratos da família, do namorado e trabalhos feitos na própria instituição. Retratos de artistas afixados na parede próxima à cama ampliam o domínio territorial que elas são capazes de obter em espaço tão despersonalizante. As camas caracterizam, ainda, os distintos graus de exclusão experimentados pelas jovens: as mais enfeitadas revelam os presentes que suas proprietárias recebem de seus familiares. Quanto mais objetos de limpeza e beleza ali existirem, maiores o status da jovem e a inveja das demais. Essa situação tem gerado vários conflitos na instituição. Embora a maioria das garotas tenha muito cuidado com suas camas, algumas são deixadas totalmente desfeitas e com aparência suja.

As paredes são totalmente pichadas com os seus próprios nomes, os de seus namorados da rua, os de casos assumidos na instituição e ainda alguns palavrões. A limpeza do alojamento e dos banheiros é razoável. Algumas adolescentes cooperam, varrendo o alojamento. Saem dele logo que acordam. Retornam só na hora do banho e depois, à noite, para dormir. Nesses intervalos o espaço fica fechado, e as jovens só têm acesso a ele com a autorização do agente. Em dias de chuva, impossibilitadas de ficar na área descoberta, permanecem maior tempo em seus dormitórios. Essa estratégia é justificada pela direção pela necessidade de fazer com que as meninas participem das outras atividades da instituição, e não fiquem o dia todo deitadas na cama.

 

O homossexualismo no ESD

Kitsuse, citado por Lemgruber, analisa a forma pela qual as mulheres são rotuladas como homossexuais em um presídio feminino no Rio de Janeiro na década de 70. Afirma que

somente quando indivíduos são definidos e identificados por

outros como homossexuais, e recebem tratamento considerado

‘apropriado’ para aqueles assim definidos, é que surge uma

‘população’ homossexual para investigação sociológica.

(Lemgruber, 1999:117)

Como se poderá verificar na instituição adulta e também no ESD, a partir do incômodo gerado pelos relacionamentos afetivos estabelecidos entre as internas iniciou-se um processo em que as mulheres passaram a ser rotuladas pelo comportamento sexual e a se aceitarem como tal. Lemgruber explicita:

A análise do homossexualismo numa prisão feminina envolve

uma gama de problemas diversos, como a própria dificuldade

de conceituar homossexualismo. Para o corpo de guardas e

para a administração, basta que duas internas estejam sempre

juntas para levantar suspeitas. Quanto às presas, a prática

homossexual implica comportamento marcadamente ‘sexual’,

desde beijos na boca à relação sexual propriamente dita.

(Lemgruber, 1999:117):

No pátio se iniciam as cantadas e as insinuações de namoro, mas é no dormitório que as relações amorosas se concretizam em atividade sexual, longe do olhar da instituição. Apesar de todas as entrevistadas já terem tido relacionamento sexual com homem, metade delas também tinha experiência homossexual, principalmente dentro do ESD. Essas relações costumam ser intensas e pouco duradouras. As adolescentes se relacionam com várias meninas em um pequeno espaço de tempo. Há apenas uma exceção, Úrsula, que nutriu um sentimento muito forte e único por uma só adolescente durante toda a sua internação.

Esse comportamento é oposto ao relatado por vários autores. Silva (1989) obser vou entre as meninas do ESD, no final da década de 80, relacionamentos homossexuais mais estáveis, reproduzindo o modelo familiar com papéis distintos de pai, mãe e filhos. Citando um estudo feito na Febem por Junqueira, Silva (1989) reafirma esse achado: a menina que entra pela primeira vez na triagem vai desempenhar o papel de filha em função da sua inexperiência. Algumas assumem o papel de pai e a grande maioria, o papel de mãe, numa tentativa de reproduzir o núcleo familiar. Os casais são formados, e aquelas que assumem o papel masculino se tornam tão opressoras quanto qualquer funcionário. As que assumem o papel feminino são obrigadas a todo tipo de serviço.

Não se percebeu nenhuma organização das garotas no que se refere à reprodução desse tipo de relação familiar. Lemgruber (1983) sinalizou uma mudança de padrão ocorrida entre as mulheres adultas na década de 70: passaram de ‘casais sérios’ a namoros, por motivos como repressão e também como estratégia de evitar o rótulo. A elevada f luidez com que esses relacionamentos se dão e os papéis desempenhados pelas garotas ficarão evidentes no decorrer deste capítulo.

Três diferentes tipos de compor tamentos homossexuais foram observados. O primeiro deles é o mais freqüente, quando a garota mantém esse tipo de relação apenas na instituição. O segundo é quando ela inicia essa prática na unidade e a continua ao sair, como é o caso de Elisabete:

Antes eu tinha vergonha de alguém descobrir. (...) Agora, não.

Para mim é normal, todo mundo faz, me acostumei. Quando saí

daqui da outra vez, eu colei com uma mulher lá fora, ela era

carinhosa.

O terceiro tipo de comportamento foi verificado por uma adolescente que assumiu integralmente o comportamento homossexual para sua vida, independentemente da institucionalização. Este é o caso de Alba, que nunca se relacionou heterossexualmente, a não ser num possível abuso sexual sofrido na infância. Essa menina assumiu comportamento homossexual logo após a violência sofrida:

Eu sou um homem num corpo de mulher. E eu tento esconder

de todo jeito esse meu lado de menina. Só tive experiências

ruins com homem. Parece que os homens que entraram na

minha vida foi só para infernizar ela.

É considerada o ‘dedo de ouro’ da instituição, e desejada por muitas garotas.

 

A fase da paquera

Você será para mim tudo e nada. Tudo que me faça feliz ao seu

lado e nada que me faça sofrer por você, meu amor.

O ambiente do internato propicia um profundo envolvimento emocional entre as adolescentes, semelhante ao que tinham com os namorados quando estavam livres. O espaço dedicado às amizades e aos namoros com meninas do ESD ocupa muito mais páginas do que aquele onde os rapazes são lembrados, com raras exceções. O ideal romântico do amor eterno, internalizado nas mulheres, mostra-se exacerbado pela própria adolescência, como se pode ver nessas declarações.

Gata, eu estou numa fase de aprender o que é o amor de

verdade e só você que pode ser a minha professora. Quero

construir um mundo só para nós duas e mais ninguém. (Elisa)

Querida, sempre te amei e sempre te amarei. Você para mim é

inesquecível, jamais vou tirar o seu lindo nome do meu

pensamento. Iludi várias mulheres, mas nunca vou te iludir,

porque pessoa como você, não merece ser iludida. (Odete)

Você é um fruto que jamais vi nesse mundo, e por esse fruto

ser tão delicado que na mesma hora em que te vi me apaixonei.

Essa louca paixão foi profunda e que aos poucos me tortura.

Como pude me envolver nessa louca paixão, que não tem fim

nem solução? (Ester)

Essas emoções ocupam a mente e os corações das meninas e se expressam fisicamente em atitudes de nervosismo, falta de desejo de se alimentar e tendências depressivas, que resultam na busca de atendimento clínico e psiquiátrico.

São quase 4h da tarde, fui até a porta do alojamento e bati de

frente com ela, quase dei um troço, o coração bateu forte e as

pernas ficaram bambas, mas agora estou muito feliz, pois só

assim poderei voltar a me alimentar novamente. Eu acho que

estou é ficando doente.

Esses dias têm sido os piores da minha vida. Eu não sei viver

sem ela. Eu cheguei a ficar dois dias sem comer. Eu perdi a

linha quando ela foi embora. Ninguém entendeu nada. (Úrsula)

As surpresas das relações são cotidianas. Vivem das informações que umas passam às outras, num leva-e-traz que causa sofrimento pela falsidade e traição ou felicidade pela certeza de que se é desejada por alguém, suprindo minimamente a carência afetiva a que estão submetidas.

Hoje eu soube de um segredo que fiquei surpresa. Uma

sapatão se revelou pra mim, que guardava um sentimento há

muito tempo com ela... Sentia algo muito forte por mim e disse

mais, que eu seria a única garota com quem ela ficaria sério e

daria um grande valor. Sinceramente estou surpresa, pois

jamais pensei isso dela até porque nunca tive maldade com ela

e nem pretendo ter. (Úrsula)

Lemgruber (1999:122) explica a especificidade do homossexualismo em instituições fechadas:

As razões que levam à prática homossexual em situações como

a prisão, em que não há a opção heterossexual, são

necessariamente de caráter diverso daquelas que orientam o

indivíduo para o homossexualismo na sociedade abrangente.

(...) Entretanto, apenas a impossibilidade de manter relações

heterossexuais não explica as razões que levam a presa à

prática do homossexualismo.

Essa autora lembra outros fatores etiológicos importantes, como o hábito da prática homossexual fora dos muros prisionais (rua, abrigos); a falta de contato com o sexo masculino, seja ele sexual ou não; a tentativa de encontrar um meio ‘que ajude o tempo a passar’; a necessidade de carinho e afeto; e ainda o preenchimento de uma série de necessidades, principalmente de auto-afirmação, de relações afetivas significativas e de reforço da feminilidade, pois grande parte dessas mulheres não mantém qualquer laço afetivo com pessoas fora dos muros. Ela completa:

Parece não haver dúvidas de que esse tipo de relação supre

uma série de necessidades, levando-se em conta as

circunstâncias da vida prisional, que são de extrema pobreza

afetiva e inexistência de alternativas viáveis para a expressão

sexual. A quase totalidade das internas envolvidas com

homossexualismo optaria pela relação heterossexual se lhes

fossem oferecidas alternativas. (Lemgruber, 1999:126)

Eliana explica as razões que a levaram a iniciar seus namoros:

Acaba fazendo o tempo passar mais rápido, a gente se sente

muito sozinha aqui. As coisas aqui se confundem, porque você

está sozinha, tem uma colega, você acaba pensando que tá a

fim dela, porque você tá carente.

Um funcionário do ESD, com sensibilidade, tenta compreender a especificidade do comportamento feminino:

As meninas institucionalizadas procuram muito mais o ato

sexual que os meninos na mesma situação. As mulheres

precisam de alguém e o menino não, precisa se masturbar. As

meninas parecem, assim, brinquedos de encaixe. Entrou uma

pegou, quer dizer, tem que arranjar um casal, tem que arranjar

um par. É uma necessitando da outra. Eu acho que o

comportamento delas não é de homossexuais, o Os silêncios que envolvem essa prática violenta na unidade não se repetem quando elas falam sobre o relacionamento sexual que desejam. A pressão inicial para a prática sexual é tamanha que algumas meninas cedem na segunda ou na terceira internação, após conviverem com chacotas de colegas que as acusam de ‘cuspir para o alto’, antevendo o momento de mudança no comportamento sexual. Elen é uma garota de 13 anos que explica suas dificuldades iniciais:

comportamento delas é a carência. A menina já é a parte

sensível, mesmo. A sensibilidade, o romantismo, aquela parte

fragilizada, mesmo.

Sobre o tema, comenta Pellegrino (1983:104): “a homossexualidade pode significar o exercício da vontade, do humano”, contrapondo-se à tentativa institucional de abolir as diferenças. Ganharia assim uma dimensão política de resistência à tentativa de reduzir os indivíduos “ao nível da necessidade, perdendose a capacidade de pensar e sonhar” (Pellegrino, 1983:114).

 

Concretizando sexualmente a relação afetiva

A iniciação nessas práticas sexuais é difícil para muitas garotas. Embora Lemgruber (1983) diga que no presídio adulto feminino estudado não havia violência sexual, observou-se esse problema nas unidades do Sistema. Aparece em dois casos no ESD, que merecem ser comentados. Isadora, que se envolvera em prostituição, foi vítima de agressão na unidade, talvez sofrendo na pele o estigma de prostituta. Todas as adolescentes negaram peremptoriamente essa atividade, mesmo quando os relatos técnicos assim o afirmavam. Odete, também com história pregressa de prostituição, foi acusada de abusar sexualmente de uma jovem, negando veementemente sua participação. O preconceito em relação à prostituição foi um fato comum entre as jovens infratoras, tendo também sido mencionado anteriormente por Pereira (1993), que ressalta a condenação e o rótulo que as prostitutas enfrentavam no ESD.

A existência de violência sexual é reconhecida pela direção:

Não gosto quando elas derrubam as meninas na cama para

fazer coisa. Isso eu realmente eu chamo, vejo o que está

acontecendo. Do contrário, eu acho que isso é da situação do

presídio. Tem umas que fazem forçadas, a gente sabe disso.

Têm pavor e não querem.

As meninas todas falaram: ‘Você vai ter que roçar!’ Aí eu

comecei a chorar, porque eu comecei a ficar com medo. As

meninas me chamaram para brincar de salada mista. A primeira

pessoa que eu beijei foi a Ana, e ela quis ficar comigo. Falei:

‘Não vou ficar com você, não, porque eu não gosto de mulher’.

E ela: ‘Não cospe pro alto, não’. Aí foi passando até que eu

fiquei com a Vera. Às vezes eu me sentia bem, mas às vezes

eu achava aquilo muito errado.

Essa prática acaba por ser naturalizada no decorrer da vivência na unidade. Mesmo aquelas que se recusam não criticam a atitude das colegas e a justificam pela carência emocional: “Deve ser porque tá todo mundo sozinha” (Elen).

Para conviver com a sensação de vergonha que muitas tinham inicialmente, argumentam como Elisabete, que discrimina sua vida em dois mundos distintos:

Lá fora eu não gosto de ficar muito com mulher, não. É assim

uma coisa muito estranha. Lá fora eu tenho vergonha, às vezes

tenho vontade, mas tenho vergonha. Aqui não, é normal.

O relacionamento costuma se iniciar por meio de mensagens escritas e beijos, como algo intensamente desejado pelas garotas.

Quero saber qual será o dia que você vai se entregar para mim.

Eu espero que esse dia chega logo, pois estou ansiosa demais.

Você me levou na disciplina, mas tá maneiro, eu sei aguardar

na disciplina. Um beijo bem gostoso na sua boca. Quem sabe

que com esse beijo você caia na real. (Ana)

Mesmo não estando contigo, todas as noites, todas as

madrugadas, toda hora, toda tarde, todo minuto e todo segundo

fico imaginando sua boca beijando a minha, seu corpo rolando

com o meu, e eu sentindo você inteira. (Elena)

Durante as entrevistas, algumas meninas relataram com detalhes as táticas de abordagem e os sentimentos que as garotas lhes despertavam. Pouco se detinham sobre a concretização das atividades sexuais, mesmo quando indagadas, demonstrando certa dificuldade em se abrirem sobre esse tema, considerado ‘pouco apropriado’ para o sexo feminino. Em seus diários o detalhamento é grande, mostrando o quanto precisam do carinho e do afeto resultante da atividade sexual, entendida desde as preliminares (beijos, toques) até a relação sexual propriamente dita. O ritual da aproximação é relatado por Úrsula:

Hoje foi um dia maravilhoso, pois a tarde foi melhor ainda,

porque eu namorei tanto que quase perdi a linha. Fiquei muito

louca, pois ela me excitou demais, estava desesperada, não

sabia mais o que fazer, pois fiquei perdida com ela. Pena que

foi só excitação, pois infelizmente não deu para passar disso,

mas tá tranqüilo, o meu dia chegará e aí eu vou poder matar

todos meus desejos com ela. Essa garota está me deixando

cada vez mais apaixonada, perdida na ilusão. Apaixonado.

As descrições sobre as fortes emoções que sentem não se distinguem em nada do relacionamento que tinham com os homens.

É muito bonito quando ela me chama, me olha nos olhos e diz

que me ama, me abraça tão forte. Só pra provocar um beijo

gostoso antes dela deitar. E quando ela deita me quer por

inteiro, rolando na cama, cai um travesseiro. Seu jeito bonito e

feroz de me amar. Eu peço descanso, ela não quer parar. Assim

deve ser um casal bem casado, na dor e no amor, sempre do

mesmo lado. (Elena)

Gostaria muito de reencontrar o meu grande amor, pois só em

ver ela eu iria ficar louca de amor, que eu pudesse tocar no

corpo dela, beijá-la, sentir o suor dela no meu, acariciar ela

totalmente e sussurrar no ouvido dela. (Eliane)

A rotatividade de relacionamentos pode ser observada nos sucessivos trechos escritos por Antônia, assumidamente homossexual na unidade, e disputada pelas garotas com características mais femininas:

Eu queria beijá-la mais. Quando foi embora, então chegou uma

garota nova. Então, desgostei dela mais rápido do que pensei.

Então, ficamos em amizade, então fiquei querendo comê-la de

novo. Quando voltamos dei os íntimos beijos, fomos dormir.

Quando acordei matou a minha vontade, dei vários beijos.

Quando jantamos eu soube que ela ia embora, fiquei muito

triste.

Quando conheci a Vera, foi uma atração física que senti. Eu

queria comer ela, mas como no primeiro dia que fiquei com ela,

ela me deu. Eu comi então. Eu comecei a gostar dela, então ela

me largou. Comecei a desgostar dela. Comecei a beijar sua

boca Rose, acariciar sua boca e seu corpo, então foi a melhor

coisa que aconteceu.

Com a Rita eu me sinto frio. Com a Célia é diferente, eu fico

quente, fervendo. Ela é uma garota muito inteligente, faz o meu

tipo, perdida nos seus braços me encontrei. Ainda vou colocar a

aliança no seu dedo, que se case comigo aqui dentro.

Apesar da clareza das expressões reveladas nos diários, há um limite entre imaginação e realidade. Elas encontram dificuldades de concretização devido à vigilância do pátio e à presença de muitas garotas no dormitório. Vêse, pela fala seguinte, que a efetivação da relação não é tão fácil e freqüente quanto as adolescentes desejariam.

Hoje foi um dia maravilhoso, pois aconteceu a minha primeira

relação com uma mulher e depois de seis meses na seca.

Sabe, foi bom demais, porque eu adorei, até porque foi com a

pessoa que eu mais desejava e amo. Mas agora estou meia

grilada, pois eu não sei se ela gostou assim como eu gostei e

eu tenho vergonha de perguntar isso a ela. Mas tá tranqüilo,

pois mesmo assim eu adorei e estou aguardando a próxima,

pois pretendo fazer melhor. (Úrsula)

As opiniões sobre a qualidade das relações sexuais entre mulheres parecem apontar para um saldo positivo. Elisabete está entre aquelas que gostam igualmente das relações homo e heterossexuais: “Não tem diferença de uma relação com homem. Os dois são carinhosos”.

Eva, vítima de estupro em ocasião anterior, prefere a relação com mulher: “Foi muito diferente. A mulher é mais delicada, mais meiga, aí é muito bom”.

Ester também pensa dessa forma. Prefere ficar com mulher, pois “o homem não dá valor pra gente. Mulher dá mais valor”.

Elen reage diferente. Teve algumas dificuldades para sentir prazer na relação sexual com mulheres, mas relativiza essa situação, pois “com o meu namorado eu também não sinto muito por causa daquela coisa do meu padrasto, eu fiquei meio assim com homem”.

Úrsula se expressa assim:

Eu nem sei como isso aconteceu. Mas ela me cantou e eu não

resisti. E todo mundo briga por ela. Mas foi muito bom, eu

nunca me senti com nenhum homem como eu me senti com

ela. Eu queria colar com ela lá fora. Assumir para todo mundo o

quanto eu gosto dela. A minha mãe já sabe e aceitou. Mas ela é

muito mulherenga, já deve estar cheia de mulher na rua. Ela é

muito doce, muito meiga, é bem diferente de homem. Agora eu

entendo melhor as sapatão. Eu sempre achei ridículo, mas

agora eu vi que é com muito mais carinho. (...) A relação com o

homem sempre você sente alguma dor; com a mulher, não. Ela

é o grande amor da minha vida.

Apenas duas meninas que mantiveram atividades sexuais com outras colegas disseram preferir as relações com homens.

As que não admitem relação homossexual de forma alguma procuram não se mostrar contra nem a favor de tal prática. Resistem às ‘cantadas’ iniciais, argumentando que só gostam de homens. Compreendem e justificam o comportamento homossexual como uma forma de as adolescentes se sentirem protegidas, seguras e menos sozinhas na instituição. Apenas uma a rejeita totalmente, dizendo “não ser de Deus”.

Segundo as adolescentes, os pontos altos da relação homossexual são o carinho, a delicadeza, a fragilidade da mulher e a impossibilidade de engravidar. Parecem assim se redimir de toda a imagem negativa que trazem das figuras masculinas de suas vidas e das violências por eles cometidas. Contudo, fazem uma distinção fundamental entre ser mulher e ser ‘sapatão’, conforme diz Elisabete: “Eu não me considero sapatão, não, porque eu faço a mulher da relação”.

Essa visão tem sido recorrente em outras pesquisas feitas no universo prisional feminino (Lemgruber, 1999; Silva, 1989). A ex-diretora também define as meninas pelo comportamento feminino esperado, lembrando exceções que não se encaixam nessa regra. “Elas nunca são as ativas. Elas são as passivas, porque elas estão acostumadas a ter um relacionamento lá fora”.

Apenas uma garota se assume ‘sapatão’: tem comportamento totalmente masculinizado, comanda as relações com as mulheres, manda nelas e é mais ativa no ato sexual. Três outras manifestam um comportamento exterior muito masculinizado, embora não assumam uma identidade homossexual. Uma delas ainda vive profundo conflito.

Tenho dois meses de sapatão, porque estou pensando me

tornar de vez. Por que quero? Porque acho que vida de sapatão

é muito mais simples e eu que tenho que bancar mulheres. Mas

isso é o principal: pra ser sapatão tem que ter disposição. Isso

eu tenho de sobra. Vou virar realmente sapatão a partir de hoje.

Virei sapatão pra sempre. Nunca mais vou sair com homem,

palavra de sujeito sapatão, pra nunca mais sair de homem.

Quando eu crescer, o nome do meu filho vai ser Jorge.

(Antônia)

Silva fala sobre o peso que se esconde por trás daquelas que assim se assumem: “Esse termo ‘sapatão’ é caracterizado pelos valores masculinos, o que faz com que a ‘menor’ se considere um homem” (Silva, 1989:27).

O desfecho inevitável dessas relações acaba se assemelhando ao que elas vivenciaram nas uniões dos pais e nas suas próprias: traição, rejeição e abandono.

Em toda a minha vida, nunca pensei que pudesse me apaixonar

por essa mina com tanta intensidade e a perder de forma tão

cruel e amarga. Fico totalmente enlouquecida quando penso

que, diante dos fatos, não terei você nunca mais. Amo-te.

(Eliana)

Eu não quero que ela fique comigo por pena, pois eu quero

amar e ser amada e não amar e ser rejeitada. (Alba)

Queria viver a minha vida inteira com a pessoa que eu amo,

mas ela nem quer saber de mim. Pra ela sou um cachorro. Já

não tem mais razão, tudo pra mim acabou, já não tenho mais

vontade de viver. Queria morrer, assim eu não ia sentir mais a

dor desse amor mal correspondido. Mas mesmo assim te amo.

(Elena)

 

O homossexualismo e a ambigüidade

institucional

A condição do quarto é pra isso acontecer. Apaga a luz, bota

homossexual com heterossexual, como é que fica? Não sei

como seria resolvido isso. A coisa vai sendo empurrada com a

barriga e fica assim. Eu acho que a instituição facilita. Por que

não bota uma luz? Não abre uma cortininha? Aí vem outro e

pergunta: ‘E a privacidade?’. (Técnico)

Essa opinião técnica mostra a insegurança da equipe dirigente diante desse tema, a exemplo do que foi assinalado por Silva sobre a postura de uma antiga direção do ESD. Ele disse que essa questão é, “até certo ponto, omitida, pois há uma grande dificuldade de abordá-la na prática, e talvez por isso sua exigência seja negligenciada” (Silva, 1989:29).

Não há normas vigentes no sistema de atendimento, o encaminhamento dos casos que vêm à tona fica a cargo dos funcionários da unidade. Por isso mesmo os encaminhamentos são vulneráveis às concepções morais dos dirigentes. O dilema entre o respeito à privacidade e a necessidade de a vigilância aparece explícito nas atitudes de uma ex-diretora:

Eu nunca tive a pretensão de dizer que não existia. A gente

procurava evitar ao máximo, e até eu mesma conversando com

elas. Eu dizia pra elas que o corpo era delas, mas que a opção

sexual era uma coisa que eu não tinha que intervir fora da

unidade, mas dentro da unidade elas tinham que respeitar o

corpo de cada uma. Agora, se você está a fim de dar o seu

corpo pra uma brincadeira, se é uma opção sua e você não tem

o direito de agredir ninguém, e que se fizesse no sapatinho,

tudo bem, eu não ia saber, mas se eu flagrasse eu ia punir. Mas

é muito difícil a gente segurar isso. Eu já tive até a pretensão de

botar todas as que se diziam homossexuais dentro de um

dormitório só, mas aquilo me incomodou de tal forma que

passou uma semana: eu não posso, porque eu estou

discriminando, não é por aí. Elas vão ter que segurar a onda,

respeitando as pessoas. E aí a gente fez uma reunião e elas

escolheram qual o dormitório que elas queriam ir. Olha, se

faziam no sapatinho eu posso dizer que faziam, mas que eu

tenha flagrado ou o plantão flagrado... (...) Eu não sei nem se

está certo ou está errado. O que eu fazia era puramente por

instinto, e instinto maternal.

Uma ex-diretora também se refere à impossibilidade de controlar a situação:

Aqui dentro tá muito difícil, mesmo. Você tenta respeitar, mas

ao mesmo tempo você não pode aceitar. Porque você está

numa instituição de adolescente feminina e a

homossexualidade, hoje em dia, você não pode, como eu vou

dizer, criticar. Ao mesmo tempo você não pode afastar aquela

pessoa, discriminar. Você tenta aceitar, mas aqui dentro eu não

posso incentivar isso. Eu não gosto de incentivar e também não

tiro por completo o que ela gosta. (...) Nós repreendemos

assim, nós não deixamos que aconteça. Eu, por exemplo,

passo sempre pros meus agentes que não gosto que eles

deixem elas abraçadas, se beijando. Dentro dos quartos que

não haja, não quero que haja isso. Realmente a gente

repreende aqui dentro. A coisa visível realmente a gente

repreende, mas elas escrevem carta de amor uma pra outra

que a gente não pode repreender. Desde que a carta seja uma

coisa de amor mesmo, não uma coisa mais íntima, a gente

também não deixa. Mas a gente evita de deixar abraçar, beijar,

essas coisas assim, mas o convívio entre elas de andar de mão

dada, isso não tem quem consiga tirar, de ficarem o tempo todo

juntas. Até porque o próprio convívio delas em alojamentos

juntos, são duas meninas, na hora do banho, na hora de dormir.

E nós estamos ali próximo olhando tudo.

Esse ideal de vigilância não se verifica na prática, o que leva a equipe a viver em permanente ambigüidade. Além do medo da discriminação sexual, funcionários costumam fazer ‘vista grossas’ pela impotência que sentem e porque usufruem do estado de satisfação oriundo dos únicos momentos de felicidade que as adolescentes vivenciam na internação. Portanto, permitir esse tipo de contato é útil para o controle da unidade, pois “fazer sexo acalma” (Silva, 1989:30).

É evidente que a falta de clareza dos técnicos e agentes é notada pelas internas: “Aqui todo mundo tem caso com todo mundo e os tios até já aceitam, porque não têm como controlar” (Eliana).

Embora haja re pressão, esta é eminentemente dirigida aos comportamentos públicos, que ofenderiam os padrões morais vigentes.

Praticamente, os educadores não discutem for mas de encarar as dificuldades suscitadas por esse comportamento. A única fala que antevia uma possibilidade de mudança pela transformação da mentalidade institucional vigente foi a de um técnico, que se furtou a analisar o homossexualismo como uma questão isolada:

Falta o que fazer, falta de uma boa conversa. Já está na hora

da escola providenciar esses diálogos. Você tem que dar

trabalho, tem que exercitar uma forma mais criativa, mais

educativa para que as ociosidades não aconteçam, para que

não ocorra este tipo de relações libidinosas. Ninguém valoriza

este comportamento. (Técnico)

Por vezes são sugeridas fórmulas simplistas e inócuas para se resolver a questão, como a que procura reduzir a masculinização das meninas à mudança de suas vestes. Heindensohn (1995), ao abordar os presídios femininos ingleses, fala da tentativa de reduzir o número de homossexuais pela reabilitação do uso do uniforme, evitando assim que elas se vestissem como homens. No ESD, apesar de o uniforme ser único, ele é pouco feminino, o que favorece a adoção de um comportamento masculinizado. As homossexuais buscam os mais largos e compridos.

Chegou um momento de alguém chegar de cueca, aí eu falei:

‘Negativo, é uma instituição de meninas, e como é uma escola

de menina, vai todo mundo usar calcinhas. Você não tem nada

pra segurar nessa cueca aí, pelo contrário. Quando tiver que

segurar o absorvente, a cueca não vai segurar, então vamos

trocar. Cueca na minha mão e toma calcinha’. (Diretora)

Em síntese, a direção e os funcionários da unidade não vêem o homossexualismo como uma definição sexual das jovens de que eles cuidam. Consideram-no apenas fruto das carências pelas quais passam quando estão internadas. Para algumas meninas, pela experiência e porque vivem numa situação específica, trata-se de uma forma de relacionamento duradouro, que certamente será posto à prova ao deixarem a unidade. Nesse sentido, fazem coro os funcionários que afirmam com segurança que a maioria delas voltará aos relacionamentos heterossexuais e terá filhos, cumprindo o destino tradicional da mulher. Essa tendência foi observada em estudo com presidiárias adultas (Lemgruber, 1999).