Filhas do mundo
3 - 'Feito bolinhas de pingue-pongue': os efeitos do abandono
3 - 'Feito bolinhas de pingue-pongue':
os efeitos do abandono
Se eu tivesse sido criada pela minha mãe desde pequena, isso
não teria acontecido... Não ia ter tanta confusão na minha vida,
de passar na mão de um e de outro como bolinha de pingue-
pongue.
(Elen)
As histórias de Elisa e de sua mãe Vanda mostram uma seqüência de desencontros e afastamentos, marca constante na vida de várias entrevistadas. Elisa está desde os 12 anos pela rua, mendigando e usando drogas, tendo passado por abrigos. Neles, brigou e causou danos físicos, atitude que mantém na atual internação, participando de rebeliões e agressões.
Vanda ficou presa durante seis anos, período no qual seus muitos filhos foram doados para várias pessoas. Essa situação até hoje a mobiliza, chorando ao comentar: “Perdi todas as oportunidades da minha vida nessa época, inclusive meus filhos”. Essas crianças foram criadas por outras mulheres, não tiveram por elas “aquele amor”. Todos a reconhecem como mãe biológica. Elisa, única mulher dentre sete filhos homens, ficou inicialmente uns tempos com uma senhora ligada ao tráfico, depois com uma tia, voltando para a mãe aos nove anos, quando esta foi liberta. Não mais se adaptou à vida com ela e os sucessivos padrastos, fazendo da rua e dos abrigos sua moradia.
A vida de Vanda foi muito difícil. O pai era bruto, bebia, batia na mulher e socava a cabeça dos filhos na parede. A mãe também era violenta com os filhos, que mesmo assim a defendiam diante do pai. Ficava presa na corrente e apanhava freqüentemente. Fugia de casa e “aprontava na rua”, tal qual Elisa age hoje. A relação com parentes é muito distante, e ela suspeita de que seus dois irmãos tenham sido mortos pelos próprios familiares.
Seus relacionamentos amorosos foram uma sucessão de malogros. O pai de Elisa foi o primeiro descaminho de sua vida: vivia na rua, bebia, roubava, batia nela e nos filhos. Freqüentava hospital psiquiátrico. Seu segundo parceiro inaugurou o pior período de sua vida, agredindo-a muito. Os dois filhos desse relacionamento foram doados. Descreve o terceiro companheiro como “galinha”, alegando que “não existe homem diferente”.
Vanda compara Elisa ao pai “sem vida” e às suas próprias atitudes quando jovem: “Aprontei muito na idade de Elisa. Ela tem a quem puxar”. Afirma que Elisa não poderia ser diferente do que é, com o pai e a mãe que tem. Por essa razão, ela é a “filha do mundo”.
Como ocorreu enquanto esteve presa, essa mãe continua abandonando a filha. Na primeira ocasião em que, após cinco meses de ausência, visitou Elisa no ESD, os registros técnicos mostram que esta “ficou estática e imóvel, mantendo uma distância afetiva muito grande”. Justifica esse afastamento alegando a necessidade de cuidar dos filhos menores e atribuindo toda a responsabilidade pela situação a Elisa, que prefere ficar na rua, não atendendo aos conselhos maternos.
Elisa, por sua vez, sente profunda falta de sua mãe, considerando-se totalmente responsável pelo sofrimento que a faz passar: “Ela é uma mãe ótima... Só que eu faço ela sofrer. Ela gosta muito de mim”.
Mãe e filha se assemelham: usam drogas e álcool, irritam-se, ficam nervosas e brigam facilmente, tiveram envolvimento infracional e vida institucional, além de várias marcas corporais, fruto de violências sofridas. A mãe ostenta tatuagem de folha de maconha, cicatrizes de um chute na barriga e de um tiro que levou. Elisa apresenta múltiplas pequenas marcas, resultado dos cortes que se inflige cada vez que se frustra.
Na história dessas duas mulheres, de alguma forma abandonadas pelos pais ou companheiros, tem-se a possibilidade de estudar os efeitos do abandono na formação da personalidade feminina; não existem, infelizmente, estudos específicos sobre o tema que adotem o enfoque de gênero.
O abandono
Os efeitos do abandono sobre uma criança – danos físicos, quando a criança perde o adulto que a protege, e prejuízos ao desenvolvimento afetivo – têm sido suficientemente relatados na literatura científica. Garbarino (1999) lembra que, quanto mais prematura a experiência de abandono, maior a influência negativa sobre a criança e piores as suas conseqüências. O psiquiatra inglês John Bowlby (1981) foi um dos primeiros a estudar a importância da ausência da mãe para o desenvolvimento infantil. O abandono pode se dar pela total ausência da mãe (ou outro cuidador que a substitua) ou pela descontinuidade da relação (quando a criança é privada de sua companhia posteriormente). Ambas são formas de interação insuficiente na relação entre mãe e filho e trazem efeitos duradouros para a criança.
Outro tipo de abandono é aquele em que a criança se sente insegura na relação, não encontrando na figura materna o equilíbrio emocional de que tanto necessita, em função de freqüentes separações e do distanciamento afetivo.
Farinatti, Biazus & Leite (1993:164) ilustram a necessidade que a criança tem do cuidado materno relatando uma experiência com macacos. Bebês macacos foram separados de suas mães logo ao nascer e colocados com dois tipos de mães falsas: uma de arame, que possuía uma mamadeira, e outra de pelúcia, desprovida de alimento. “Os bebês macacos permaneciam o tempo todo com a mãe de pelúcia, não se afastando dela nem para a procura de alimento. Essa experiência ensina a precedência do contato físico com relação ao alimento”.
O carinho e o afeto são cruciais para o desenvolvimento infantil. Garbarino (1999) salienta que crianças que não conseguem estabelecer vínculos afetivos terão problemas emocionais, enfrentando dificuldades em lidar com os próprios sentimentos e com os sentimentos dos outros, faltando-lhes base emocional para se tornarem adultos com desempenho social normal. Terão ainda problemas em estabelecer empatia, simpatia e cuidado.
Bowlby (1981) e Winnicott (1990) foram os primeiros psiquiatras a associar a carência afetiva da criança com posterior delinqüência. Para o primeiro autor, se a ruptura do vínculo familiar se desse muito precocemente, as conseqüências incidiriam sobre a capacidade intelectual e afetiva; se depois da estruturação da personalidade, a delinqüência seria o caminho. Os efeitos da privação afetiva total seriam a completa incapacidade de estabelecer relacionamento com outras pessoas; quando parcial, os resultados seriam angústia, carência de amor, sentimento de vingança, culpa e depressão.
Além da dificuldade de estabelecer relacionamentos afetivos, Farinatti, Biazus & Leite (1993) ressaltam outros efeitos da carência de cuidados maternos, verificados em crianças pequenas hospitalizadas: impulsos agressivos voltados contra si mesmas e automutilações, arrancando os próprios pêlos do corpo.
O abandono é vivido distintamente por cada criança. Assis (1999), estudando adolescentes infratores do sexo masculino e seus irmãos, mostra como a morte de uma mãe por Aids teve impacto totalmente diferenciado para os dois jovens que criara. Um deles tomou o drama como um motivo para buscar o sucesso na vida, seguindo os passos da mãe; o outro fez do ato trágico o símbolo para sua revolta e opção infracional.
Esse relato leva a duas ponderações. De um lado, verifica-se que a percepção do abandono depende do temperamento da criança e de sua experiência acumulada, pois os comportamentos não são totalmente predeterminados pela carga genética, nem apenas pelo resultado das influências sociais. De outro, tem-se que o sentimento de perda é parte da vida de qualquer criança. Pais ou parentes se separam ou morrem, animais domésticos fogem ou falecem, brinquedos amados são perdidos ou tomados por outros.
O que pode minimizar o impacto de uma situação de perda ou de abandono sofridos por uma criança é algum outro familiar ou adulto cuidador perceber sua fragilidade e buscar supri-la afetivamente. O que potencializa os efeitos do abandono é o laço afetivo se tornar quase inexistente, não havendo mais parente ou substituto que cumpra o papel identificador nas relações primárias. Entregue aos riscos da vida na rua e nos abrigos sociais, fica gravado na mente e no coração da criança que ninguém mais se preocupa com sua vida ou a valoriza.
Seqüência de abandonos
As meninas entrevistadas aprenderam ainda pequenas o significado de uma perda afetiva. A maioria delas teve seus pais separados antes dos cinco anos de idade, o que impossibilitou, a várias, recordações dos pais vivendo juntos. Apenas duas meninas chegaram à adolescência com pai e mãe ainda convivendo no mesmo domicílio. As jovens cujos pais se separaram não conviveram também com todos os irmãos (em média quatro por família). Tendo sido deles separados precocemente, cresceram espalhados por vários núcleos familiares, que mesclam irmãos oriundos dos muitos casamentos dos vários pais. Situações como a de Antônia são rotina nessas famílias: “É bem dizer eu não conheço ela [a única irmã]. Eu só vi ela uma vez na vida. E eu era muito pequena”. Vinte meninas têm irmãos menores que elas, o que implica a cobrança materna de ajudarem no seu cuidado, solicitação comumente rejeitada pelas adolescentes.
A vivência familiar das mães em suas famílias de origem mostrou-se tenuamente distinta. Cerca de metade delas viveu sempre em famílias com ambos os pais e número muito elevado de irmãos, geralmente entre cinco e dez. Os episódios de separação dos pais e os novos casamentos tiveram menor impacto, pois havia maior responsabilidade pela prole. Entretanto, essas mães saíam cedo de casa ou eram expulsas pelas rígidas normas familiares ou pela violência doméstica.
Devido às diferenças entre as gerações, a ausência paterna se mostra mais grave para as jovens, refletindo uma tendência de deterioração da família nuclear. Após a separação dos pais, as meninas costumam ficar com a mãe ou os avós, especialmente do lado materno. O distanciamento do pai é progressivo. A morte do progenitor foi relatada por sete adolescentes. Uma entrevistada adolescente simboliza o total abandono social. Foi deixada no orfanato ainda bebê e registrada apenas com o nome da mãe, a quem nunca conheceu. A dinâmica familiar acaba por resultar em jovens que passam boa parte de suas vidas em vários núcleos familiares:
Morei alguns tempos com minha mãe. Aí morava, ficava um
bom tempo longe dela. Ficava meses, quase anos sem ver. Aí
depois eu voltava de novo, mas eu fiquei um bom tempo sem
falar com a minha mãe. (Inês)
Aí eu fui passar uma temporada na casa da minha mãe, não
achei legal e voltei para a casa da minha tia. (Antônia)
Na geração materna, também constatou-se que metade delas não viveu sempre com os progenitores, por causa da separação conjugal, da morte de um dos pais e do fato de terem ido morar com algum parente.
As mudanças familiares na vida dessas mulheres se deram abruptamente, denotando uma total falta de estabilidade no cuidado com as crianças. Desta forma, a ruptura da estrutura familiar se torna um potente fator na composição do quadro de sofrimento em que vivem pela falta de “referências, de ordem e de continuidade para a criança seguir o seu roteiro em direção à vida adulta” (Farinatti, Biazus & Leite, 1993:31). Cria um problema não pela falta da estrutura em si, mas por sua repercussão na qualidade e na estabilidade do afeto por parte dos provedores.
Instabilidade dos cuidados iniciais
A alternância de ambientes pelos quais passaram resultou, certamente, em sérios impactos na vida dessas jovens. A estabilidade nos cuidados durante a infância está relacionada à atenção constante, especialmente nas fases iniciais do desenvolvimento, por parte de pelo menos um provedor. Esse adulto deve propiciar continuidade de proteção e segurança na infância. O pior cenário para uma criança é aquele em que ela muda de provedor para provedor, ou é enviada para abrigos ou asilos (Rutter, 1989).
Apenas cinco adolescentes ressaltaram a presença constante da mãe nos primeiros anos de sua vida, período fundamental na formação do ser humano. Com orgulho, disseram que a mãe cuidava constantemente, aproveitando para trabalhar enquanto as crianças estavam na creche ou na escola, ou mesmo levando-as consigo para o trabalho. Quando precisavam ficar sem a mãe, uma parente ou amiga fixa e responsável assumia o cuidado. “Ela sempre deixava a gente com a G. Ela é muito legal! Um amor de pessoa!... Ela considera eu e minha irmãs filhas dela” (Ivone).
Assim, a maioria das adolescentes entrevistadas morou com a mãe ou o pai apenas durante alguns períodos de sua vida, tendo seus cuidados alternados de uma casa para a outra, da família para amigos ou conhecidos e mesmo de casa para a rua. Isabel, com apenas 14 anos, ser ve como exemplo dessas trajetórias:
Entregaram eu e minha mãe pra minha avó. Depois de um
tempo, meu pai me buscou e me levou pra São Paulo. Eu fico
nessa, fico morando na casa de uma, na casa de outra. Pra
mim não ficar na mão de um, na mão de outro, eu prefiro ficar
na rua. Na casa da minha mãe, na casa da minha avó, na casa
das minhas tias, na casa da minha madrinha, na casa do meu
padrinho...
Os motivos apresentados pelas adolescentes para a falta de convivência com seus pais são: a separação dos progenitores, a dificuldade econômica familiar, a necessidade de cuidar dos demais filhos, a difícil relação com o padrasto e a madrasta, o envio para pais de criação ou parentes, a não aceitação do comportamento da mãe ou do pai, a fuga de casa, a vivência na rua e a escolha por morar com o namorado.
Infelizmente, para essas jovens, os laços parentais com a família ampliada também são frágeis. Poucas meninas mantêm uma relação positiva com a família materna e paterna, especialmente avó/avô, tios/tias, madrinha/padrinho, a quem poderiam recorrer para serem compreendidas e protegidas nos momentos difíceis da vida. Assim, obser va-se que em muitos casos há uma quebra na continuidade das relações significativas, quando o único apoio que conseguem lhes falha. Também essas adolescentes, em geral, não têm sucesso em estabelecer um padrão de relacionamento satisfatório com outras pessoas que pudessem substituir o frágil ou inexistente vínculo familiar (Ribeiro & Ribeiro, 1995).
A tendência a não se envolver com a família ampliada parece perseguir as mulheres entrevistadas. Na geração das mães os relatos são similares, excetuando-se os casos em que elas tenham sido criadas por um dos familiares ou vivido com ele.
Vivência de rua
Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.
(Elisa Lucinda, 1995)
A falta de outras opções de inclusão na estrutura familiar satisfatória fez com que mais da metade das adolescentes tivessem vivência de rua, denotando o grau de abandono em suas vivências. A experiência na rua para muitas começou precocemente, entre os 5 e os 12 anos de idade.
Em várias famílias observou-se que os filhos tinham o mesmo destino, fazendo com que irmãos compartilhassem o espaço da rua. Embora algumas adolescentes tenham relatado vender mercadorias fora de casa quando muito pequenas, a fuga do lar foi uma estratégia para se livrar de uma série de problemas. Os motivos alegados são sempre: a violência intrafamiliar (física, sexual ou psicológica); não querer ficar só em casa; a não aceitação do comportamento da mãe e das normas familiares; o mau relacionamento com madrasta e padrasto; sentir-se explorada pelos pais; os conflitos com os pais decorrentes de namoros e brigas com irmãos.
Uma questão mostrou-se relevante como fator de fuga da família: o excesso de rigor dos pais ou responsáveis, que tentam impedi-las de sair para namorar ou de se divertir em bailes. Algumas das famílias exigem um padrão de comportamento sexual e religioso muito mais rígido do que o que elas são capazes de apresentar. Nesse momento, a influência dos amigos da comunidade se faz presente, se eles portam modelos de liberdade que incitam a jovem à ruptura familiar.
A rua parece atrair essas jovens pela liberdade que proporciona e pelo distanciamento familiar que possibilita. Entretanto, por mais intensa que seja a vida na rua, de vez em quando a menina visita a família, tentando inutilmente recuperar o vínculo afetivo. Freqüenta ainda, mesmo que esporadicamente, outros núcleos da família ampliada ou então a casa de amigos, buscando um descanso da insegurança que sente na rua. Circula pelos numerosos abrigos existentes na cidade do Rio de Janeiro, não conseguindo neles permanecer por causa de conflitos internos com as outras garotas ou por não se adequar às normas existentes. Muitas acabam por produzir danos ao patrimônio público. Todas as tentativas de obter segurança se mostram fluidas, com pouca perseverança diante dos inevitáveis conflitos do cotidiano.
O espaço da rua é vivenciado em pequenos grupos. O medo da noite, fundamentado na experiência da violência sexual que efetivamente sofrem, transmite-se por todos os indivíduos que se unem para dirimir as ameaças ali existentes. A convivência grupal é variada, marcada pela mobilidade dos indivíduos que vivem nas ruas. Em geral, são grupos mistos e fugazes, que servem tanto para apoio durante os roubos quanto para a proteção noturna. A baixa tolerância a frustrações, assim como a agressividade que as condições adversas levam essa população a desenvolver, põe rápido fim a essas uniões.
Eva: uma história de extremo abandono
Eu fico triste. Porque eu me acho um pouco diferente, por não
ter tido pai, nem mãe. (Eva)
Eva é uma jovem de 18 anos que ilustra o mais elevado grau de abandono que uma criança pode vivenciar. É órfã desde recém-nascida, tendo sido abandonada por sua mãe ainda bebê. Nada sabe de sua família. Tem como único referencial relacional os vários orfanatos pelos quais passou até o início da adolescência, quando sofreu abuso sexual por um funcionário. Após a violência, reagiu agredindo-o, dando-lhe estocadas com caneta, e fugiu, achando que talvez o tenha matado. Essa lembrança até hoje a fragiliza, levando-a a dizer, emocionada, “bati com um monstro”.
Pegou várias caronas para o Rio, toda suja de sangue. Alguns homens a quiseram assediar, mas protegia-se contando o drama que lhe havia sucedido, dizendo: “Tem um homem que acaba de estragar a minha vida”. Chegando ao Rio, foi para Copacabana, onde conviveu com prostitutas e travestis. Nesta passagem de seu relato, sugere ter ganhado dinheiro com práticas sexuais. Envolveu-se com homossexualismo e drogas. Comprava no morro e vendia na praia. Nesse submundo, diz que “roubava de dia, traficava de noite”.
As conseqüências do abandono total que Eva sofreu são evidentes. Encontrou como forma de sobrevivência a venda do seu corpo e as atividades infracionais. Mas é no seu universo emocional que mais se notam os efeitos deletérios. Ela vive querendo esquecer a vida que teve, procurando fugir dos seus problemas.
Eu precisava fazer alguma coisa para esquecer o meu passado
e o meu presente, que era tão duro. Eu estava mais sozinha do
que nunca. Eu precisava esquecer pra não enlouquecer.
Essa angústia existencial, aliada a episódios de crise epiléptica recorrentes, fez com que provocasse várias brigas com as colegas da instituição, praticasse depredações na unidade e tivesse tentado o suicídio várias vezes. Numa delas, quase teve êxito. Por conta dessas atitudes, já foi encaminhada para hospital psiquiátrico. “Está sempre beirando a desestruturação”, diz o relato técnico sobre ela.
Eva se debate entre dois sentimentos opostos: ressente-se dos pais por ser o que é e por sua vida infeliz, não querendo mais saber deles. Sente falta do cuidado materno, que continua buscando em seus sonhos, quando a mãe lhe acena, dizendo: “Vem filha, me dá a mão”. Eva nunca consegue alcançar a mão de sua mãe. Em seu sonho, na frente do juiz, a mãe acaba negando-lhe a maternidade. Logo a seguir sente frio, acorda e chora.
Essa jovem traz à tona o abandono, a desesperança, a revolta, o sentimento de rejeição e o estigma que carrega desde seu nascimento. Eva não vê possibilidade de dar outro rumo a sua vida. O fato de ser órfã de pai e mãe automaticamente a fez uma ladra, aos olhos da sociedade. Sente-se incapaz de mudar seu destino.
Mesmo você não fazendo, você sempre vai ser mal vista pela
sociedade.
Eu acho que está escrito na minha cara tudo que eu passei,
tudo que eu faço de errado.
Mais uma vez vou perder alguém que gosto. É meu destino.
Seu descrédito em relação aos adultos e ao mundo fica explícito no texto que escreveu enquanto cumpria medida de internamento, em que expressa toda a solidão que é sua vida.
Dramas de um adolescente
Na porta do quarto de uma adolescente perdida, estendem-se pôsteres com dizeres perdidos, a fim de escandalizar os velhos impedindo-os de entrar naquele mundo escuro e misterioso. Misterioso pois todos tinham em mente a idéia de ficar longe daquele quarto escuro, pois o mistério os levava à curiosidade. Mas havia o medo de ao abrir a porta se desandar diante de uma vida sem solução. Problemas, traumas, insegurança, desamor a levavam para o seu inferninho, como era chamado seu quarto, seu ódio, seu consolo. Tudo se resumia num cigarro com grande quantidade de maconha. Ela não era mais ela, o efeito da maconha a passou para outro mundo, onde eram permitidos sonhos coloridos e falsas horas passava esquecida, largada, presa entre quatro paredes e luz muito fraca, iluminando seu rosto pálido e quase sem vida.