Filhas do mundo
8 - Aprendendo a lição: a influência de amigos, namorados, familiares e das drogas
8 - Aprendendo a lição: a influência de
amigos, namorados, familiares e das
drogas
A influência do grupo de amigos sobre um adolescente tem sido importante tema abordado pelas teorias sobre delinqüência juvenil. É no grupo que muitas jovens encontram incentivo e apoio para a saída do lar e passam, em conjunto, a praticar atos infracionais. É o caso de Ivete, que saiu de casa aos 12 anos para morar com uma colega em outra comunidade, passando a se envolver com o tráfico local. A jovem, quando ainda criança, fugia freqüentemente para driblar o controle familiar: “Eu queria andar com as minhas colegas, eles não deixavam, e eu fugia mesmo”. De maneira geral, as mães identificam as más companhias como a causa da mudança do comportamento das filhas:
A Ivete tem um bocado de amizades que não são boas. No meu
ponto de vista, foi isso que levou ela. Toda vez que eu ia atrás
dela tarde da noite, às vezes as colegas dela vinham e
mandavam ela se esconder, que eu tava caçando ela. (...) Só
amiga lá, amizade dali, amizade daqui, amiga pra lá, amiga pra
cá. Sempre se misturou com quem não presta. (Lurdes, mãe de
Ivete).
Assis reconhece o lugar especialmente importante do grupo de amigos exercendo influência sobre os adolescentes infratores do sexo masculino:
Os grupos de amigos citados pela maioria dos jovens infratores
integram o mundo infracional – não necessariamente da própria
comunidade em que vive o adolescente. Poucos infratores
conseguem manter amigos sem qualquer envolvimento com a
vida infracional e participantes de experiências de vida em
comunidade. Percebe-se que, à medida que o jovem vai se
envolvendo em atos infracionais, seu universo de amigos passa
a ser mais restrito. (Assis, 1999:75)
Entre as meninas, nota-se que a força dos amigos se exerce com maior intensidade nos momentos em que os conflitos familiares se exacerbam. Em geral, a adolescente necessita de apoio do grupo para sair do espaço doméstico, diferentemente do menino, que sempre conviveu com os companheiros na rua.
Elena, de apenas 13 anos, descreve com riqueza de detalhes o que precisava fazer para se livrar dos severos castigos da mãe:
Uma vez, ela me botou uma corrente no meu pé, amarrou na
cama, já me trancou dentro de casa e eu saí por um buraco lá
em cima... Eu não consigo ficar sozinha, eu gosto de ficar
conversando com os outros na rua...
A jovem se vangloria das amizades que fez no tráfico em sua comunidade:
Ficava na rua o tempo todo e falava que ia para a escola. Aí eu
ficava na boca com os caras, todo mundo me conhece desde
criança, desde pequena nesse meio, aí depois eu comecei a
usar droga, fumar, cheirar, cheirar cola...
As meninas cultivam amizades para ir a bailes ou passear na comunidade, mas o destaque que dão às amigas e aos amigos é reduzido, se comparado ao percebido entre os rapazes infratores, que muito falam dos companheiros do mundo infracional (Assis, 1999). Uma possível explicação é que, quando estabelecem relações amorosas com os parceiros, as amizades ficam em segundo plano em suas vidas.
A influência dos familiares envolvidos em criminalidade, que já fora evidenciada entre os rapazes infratores (Assis, 1999), ficou comprovada também para as meninas, que agregam à freqüente experiência de criminalidade da mãe a relatada em relação aos pais, padrastos, irmãos e tios. Cinco mães tinham histórias de envolvimento com a criminalidade. Apenas uma foi presa na adolescência. Laura (mãe de Ester) foi apreendida por seu envolvimento com o tráfico de drogas: “Eu estava servindo, servindo pó”. Fala do quanto é arriscada a vida do tráfico, mas critica a filha que rouba: “Brigo com ela por causa disso. Pára com esse negócio! Eu não gosto desse negócio, não!” Diz ter se iniciado nessa vida já adulta, depois que perdeu o marido.
Gina (mãe de Antônia) se envolveu com roubo e tráfico:
Poxa! Eu fiz muita droga: eu roubei, eu trafiquei, era um lado
que eu arrumei para poder comer, me vestir, foi onde eu fui
parar na cadeia. A primeira vez foi por roubo. Fui embora
porque não tinham provas contra mim... Aí em 95 eu rodei de
novo por roubo. Aí fiquei presa dois anos, dez meses e 25
dias... Já fui pega por tráfico, mas só que eu não fiquei em
cana, não, porque eu dei volta nos policiais.
Ela fala da emoção que sentia em seu trabalho no tráfico de drogas: “Pra mim era um barato. Todo dia a gente tinha dinheiro, só começou a ficar chato quando os policiais começou a vir atrás da gente...”
Dos motivos que a levaram a se envolver com a criminalidade, a entrevistada aponta a falta de suporte familiar:
Foi falta de ajuda da própria família, a própria família criticar as
coisas quando a gente não tá fazendo nada: você tá fazendo
isso, tá fazendo aquilo, você não presta, na minha casa você
não pode entrar. Porque antes (de a avó morrer) eu criticava
muito o tóxico. Se uma pessoa fumasse ou cheirasse, pelo
amor de Deus, não chega nem perto de mim, que eu não tô a
fim de ir presa.
Diz não se arrepender das coisas que fez, pois, segundo ela, foram cruciais para sua sobrevivência. Ela fala sobre sua posição atual em relação ao seu envolvimento anterior:
Dos 18 anos pra cá eu já fiz tudo, só nunca matei, mas já fiz
tudo na vida. Mas não me arrependo, porque se eu não fizesse
isso hoje eu tava morta por doença ou por tiro... Eu não penso
em fazer mais nada de errado... Acho que agora eu sou uma
otária, porque antigamente, querida, eu não ficava dura, não.
Tô dura, sem cigarro. E hoje em dia eu tenho medo de roubar,
traficar...
Vanda, mãe de Elisa, ficou presa durante seis anos por furto junto com o companheiro. Apesar de estar há sete anos solta, ainda se emociona ao falar desse período:
Todo mundo foi preso, aí eles se deram bem e eu fiquei. Ele
pegou dois anos e quatro meses e foi embora e eu fiquei. Tirei
seis anos. Eu não estou agüentando, eu não gosto de falar
dessas coisas.
Aponta a relação com esse homem como a causa de sua entrada na vida do crime: “Desde que eu conheci o pai da Elisa, eu conheci todas as coisas ruins. Usei drogas pela primeira vez do lado dele...” A entrevistada chorou compulsivamente ao falar do período em que esteve presa: “Eu perdi todas as minhas oportunidades da minha vida nessa época, inclusive meus filhos”.
Essas mulheres destacam o quanto é difícil a vida na prisão. Apenas Gina (mãe de Antônia) traz uma experiência de aprendizado no meio de tantas atrocidades:
Eu acho que foi ali que eu mais aprendi. Ali tem muitas coisas
boas e muitas coisas ruins. Eu via as colegas umas dando
facadas nas outras e não podia falar nada. Via elas brigarem e
não podia fazer nada. A comida vinha azeda, com perna de
barata, com coisa de vassoura, isso tudo tinha na comida... Pra
mim foi uma experiência que eu tinha de passar por isso para
aprender.
Ela fala das relações homossexuais, comuns dentro da prisão, e de seu relacionamento com outra detenta que fez com que a pena se tornasse mais leve:
O tempo passou mais depressa, eu saí primeiro e fiquei
visitando ela. Toda semana eu ia lá visitar ela, mas a família
dela separou a gente.
Paula iniciou seu envolvimento ainda adolescente, como sua filha Anita:
Já aprontei muito... Mexia com os outros, aí juntava eu e umas
colegas, apanhava bolsa de dinheiro das velhas. Aí fui presa;
não cheguei a ir presa, não, fui na delegacia, mas minha mãe
foi lá e me tirou...
É importante ressaltar que todas as entrevistadas que já estiveram envolvidas com atos infracionais em algum momento da entrevista fizeram menção às filhas, projetando-se nelas. Dizem usar sua experiência no intuito de alertar as filhas para o caminho que estão seguindo. Em alguns casos, por serem filhas de mulheres infratoras, recebem como herança cultural a predisposição a delinqüir. Esse destino é comumente apontado como um risco pelas próprias pessoas responsáveis pela criação da adolescente: “Começava a falar (a tia que a criou) que minha mãe era marginal, que eu ia ser igual a ela...” Quando a mãe quis se responsabilizar pela menina, recebeu como resposta: “Você não vai levar ela daqui, senão ela vai ser igual a você”.
Metade das adolescentes relata ter outros parentes envolvidos no mundo infracional, além das mães. O comprometimento do pai foi narrado por três meninas. Ir mãos, primos, primas e cunhados também são comumente mencionados como envolvidos, facilitando o ingresso das meninas na infração. Notou-se um certo constrangimento por parte das meninas ao relatarem o vício ou o envolvimento dos pais com a vida do crime:
Tava eu e minha tia, aí chegou essa mulher dizendo que era
minha mãe. Aí minha vida acabou. Eu acabei perdendo o
interesse pela vida, comecei a me meter em lugares errados.
Eu não agüento a minha mãe do meu lado usando droga igual
ela. Todo mundo quer uma mãe direitinha, que faz comida,
cuida da casa. Cadê tua mãe? Tá presa. Maior humilhação.
(Antônia)
As histórias de mortes violentas são muito comuns: avó morta por bala perdida; pais, ir mãos, primos, padrastos e namorados assassinados pelo envolvimento com o mundo infracional. Essas vítimas são sempre do sexo masculino, com exceção de duas jovens, irmãs de duas adolescentes entrevistadas. As mortes dos parentes aparecem de forma muito relevante nas falas que expressaram a dor que ainda mobiliza essas jovens.
São freqüentes também as histórias de violência. As entrevistadas trazem relatos não só da família de origem como da família construída – irmão atingido por bala, padrasto com bala alojada na cabeça, cunhado assassinado, irmão, filho e marido assassinados, filha raptada e estuprada –, demonstrando o grau de exposição dessas famílias à violência.
O uso de álcool como problema foi também relatado, especialmente pelas figuras masculinas como pai, tio e avô, com conseqüentes histórias de violência provocadas pela bebida. Dentre as mulheres entrevistadas, esse problema também se mostrou muito relevante.
Amor bandido
Eu comecei a gostar dele de uma tal forma que eu não só me
envolvi com ele como na vida que ele vivia, na vida do tráfico.
(Ingrid)
A figura masculina do parceiro representa na vida das jovens uma relação tão autoritária e hierárquica como a que a jovem tinha em sua família de origem. Por essa razão, a preferência dos parceiros pela vida infracional acaba por levá-las para o mesmo espaço de risco. Todas as adolescentes entrevistadas tiveram pelo menos um companheiro envolvido em tráfico ou roubos. Muitas delas apresentaram uma seqüência de envolvimentos com homens criminosos, fazendo menção à preferência por homens mais fortes, poderosos e capazes de supri-las financeiramente.
A dependência que elas demonstram em relação aos companheiros, importante facilitador da vida infracional, pode ser constatada a seguir, na história de Ingrid.
O pai é mulherengo e separado de Rosália, a mãe de Ingrid. Teve vários casamentos. Obrigava, sob ameaça, Rosália a manter relações sexuais com ele e a agredia. Batia com pau e fio. Também agredia Ingrid, embora fosse a filha mais chegada ao pai. Usava drogas e bebia muito. A mãe demorou a separarse do marido por necessitar dele financeiramente para o sustento dos filhos. Afetivamente, nunca assumiu os filhos e pouco interesse demonstrou pela prisão de Ingrid.
Rosália diz nunca ter sido feliz: “A única felicidade que tenho, mesmo, são meus cinco filhos. Sempre assumi sozinha”. A mãe não queria a gravidez de Ingrid. Sacrificou-se, mas não se separou de nenhum filho. Rosália já esperava a internação da filha. Foi como que o cumprimento de um vaticínio.
O envolvimento de Ingrid com o tráfico é grande. Ela acompanhava todas as atividades da ‘boca’ com o namorado, por quem é muito apaixonada; várias vezes foi ameaçada pelas outras mulheres dele. Ele tem 38 anos e parece assumir a posição de pai: não a deixa usar roupas curtas, receber dinheiro ou presente dos pais, nem sair de casa. Já bateu em Ingrid, mas ela afirma que mereceu, pois estava “totalmente errada”. Rosália crê que Ingrid apanha freqüentemente e que fica com ele por medo (repetindo o destino familiar), não percebendo a paixão que mobiliza a filha.
Às vezes eu fico pensando o que fez eu me apaixonar tanto por
ele, mas eu não sei. Tá com ele me dá uma segurança, mas ao
mesmo tempo eu não tenho sossego, pensando que ele pode
morrer a qualquer momento. (Ingrid)
Ingrid, ao mesmo tempo, parece ainda querê-lo, embora demonstre medo de ser castigada por terminar o namoro. Desculpa o namorado, dizendo que ele sempre buscou protegê-la. Não faz associação entre a relação e o uso da casa de sua família pelo traficante, onde escondia as drogas do ‘movimento’. Era obrigada a aceitar o traficante armado dentro de casa, para sofrimento de Rosália. Ao ser pega pela polícia, Ingrid assumiu toda a droga como sua, sem mencionar o nome do namorado. O amor por ele está bem marcado no seu caderno:
Estou triste, com o coração partido. Ando pensando onde
estará essa pessoa que tanto amo, não recebi mais notícias
estou preocupada. Queria ao menos ter uma oportunidade de
vê-lo novamente, como sofro por esse amor! E nem sei se
ainda sou amada.
Outras meninas também mantêm um tipo de relação similar, com homens mais velhos, que ocupam posição de destaque no tráfico de drogas. Tornam-se ‘donos’ e responsáveis pelas garotas, que em troca da proteção aceitam a submissão e, no caso de algumas, até a agressão física.
Perdas e danos: a influência das drogas
Um dia eu morrerei. Um dia todos morrerão e, quando eu for
morta e sepultada, plantarás um lindo pé de maconha em meu
túmulo. E quando for fumar dessa maconha, provarei a todos
que, mesmo morta, ainda faço sua cabeça. (Eliana)
– E o que a droga significa na sua vida? (Pesquisadora)
– Perdas e danos. (...) Eu vou usar a droga e vou perder cada
nervozinho de minha cabeça, reduzindo a minha cabeça. Cada
vez que eu dou um ‘dois’ na maconha, um nervo vai embora.
Dá esquecimento… Você perde com a droga o controle, sua
sanidade, sua sabedoria, sua compostura. (Antonia)
Apenas três jovens entrevistadas nunca utilizaram drogas ilegais. A quase totalidade relata o uso de algum tipo, seja ela legalizada como álcool, cigarros, comprimidos tranqüilizantes; seja ilegal, especialmente a maconha, a cocaína, o crack, a cola de sapateiro e outras substâncias inalantes fortes como removedores de tinta (‘tini’ e ‘bin’). A maconha é a líder, seguida por cocaína, cola e álcool. Apenas cinco meninas dizem ter conseguido superar a dependência.
O uso de drogas pelos jovens do Rio de Janeiro é muito menor do que o constatado entre as entrevistadas. Minayo et al. (1999) mostram que o álcool é a substância mais utilizada pelos jovens cariocas (32% dentre os da classe média e 37% na classe popular), seguido pela maconha. Dentre as meninas, sobressai o uso de medicamentos. Morris et al. (1995) indicam que jovens presos norte-americanos, de ambos os sexos, revelaram taxas elevadas referentes ao uso de drogas e excesso de bebida. Singer et al. (1995) confirmam esses achados entre 83% das mulheres adultas presas, sendo as principais substâncias a cocaína e o álcool.
As adolescentes que têm vivência na rua relataram início mais precoce do uso de drogas, sendo que por parte de algumas isso se deu aos sete anos de idade. O primeiro contato geralmente é explicado pela curiosidade e pelo incentivo de colegas da escola, do baile ou da rua, de parentes ou do namorado, o que reforça a importância do ambiente e das companhias na formação de hábitos de vida saudáveis. Resistir aos vários convites para o consumo torna-se tarefa difícil, especialmente para a adolescente que deseja ser aceita por seu grupo.
Ficou me chamando para cheirar, falando que eu tinha sido
presa, virado careta… Eu falei que não queria essa vida pra
mim, não. (…) Eu não quero parar mais na boca, só que para ir
para casa de umas amigas eu vou ter que passar por lá… Ele
disse: tu vem a hora que tu quiser, vamos dar um teco aí…
(Ingrid)
As que vivem com a família costumam ter seu envolvimento conhecido pelos parentes. Fabiana (mãe de Elena) fala da luta sua e do companheiro para ajudar a filha: “Eu já peguei umas três vezes ela drogada... Já levei pro médico, já entrou no soro... Muitas vezes eu peguei ela drogada”.
As mães falam da dificuldade em lidar com a adolescente em tais circunstâncias:
Deu pra mim sentir que ela tava se envolvendo com droga. Eu
falava pra ela: ou você muda, você pára essas amizades ou vou
entregar para o Juizado de Menores. Faz quase um ano que eu
percebi isso aí. Eu acho que ela cheirava... (Rosália, mãe de
Ingrid)
O uso de drogas foi mencionado por três mães entrevistadas. Uma delas diz ter se iniciado no vício com o ex-companheiro, que era traficante:
Antigamente era só pó. Agora era aquela mistura. Antigamente
era aquele negócio puro, agora é misturado. Não dá, faz até
mal... Tem gente que fica doente, agressiva. Eu não: eu fico
calma, tranqüila... (Laura, mãe de Ester)
Essa mãe via na droga um ponto de apoio e um meio para refletir sobre sua vida:
Todo dia, toda hora (usava maconha, cocaína). Eu não
conseguia ficar sem; a cocaína nem tanto, mas a maconha...
Muitos criticam, mas para mim foi a nível de desabafo, porque
eu fumava muito e pensava muito na vida. Ali que eu fazia um
arremate da minha vida.
A utilização das drogas provoca sensações diferentes nas jovens. A maconha induz à fome e à tranqüilidade. O uso de cocaína acarreta, na maioria das adolescentes, delírios, agitação, paranóia. Uma delas, após ter cheirado muita cocaína na rua, disse que falou com Deus. Perguntada se achava que o ocorrido estava relacionado ao efeito da droga, assegura que havia acontecido na realidade, mostrando a confusão entre o delírio e a realidade.
A cola também é mencionada por seus efeitos delirantes:
Você vê coisas: mesa voando, vindo atrás de você, pessoa
andando atrás de você, você se vê cheia de sangue…Formiga
gigante, barata gigante... (Antônia)
A maconha é indicada como uma substância que dá fome. Esses efeitos que acompanham o uso das drogas ilegais vêm associados a outros sentimentos positivos – dar sentido, prazer e sensibilidade à vida –, como se pode verificar nas falas de algumas meninas:
Ocupava um espaço grande da minha vida, dava algum
sentido. Pela droga eu tinha por que acordar. Eu acordava pra
conseguir dinheiro pra me drogar. A droga dá um prazer na
vida, dá uma pitadinha de sensibilidade. (Antônia)
Algumas adolescentes revelam consciência das conseqüências do uso das drogas, especialmente dos efeitos de esquecimento e dano cerebral, o que não as impede de consumir.
Aí, pra mim, droga, toda droga é droga. É a opinião que eu dou
é que todo mundo fale não pra droga. (Alessandra)
Será que eu vou conseguir parar? Droga é a desgraça dos
jovens. Come o nosso cérebro e faz a gente só fazer merda. Eu
queria isso. Queria nascer de novo para mudar tudo. (Anita)
Uma única jovem, Elisabete, faz um discurso diferenciado. Diz que cocaína é ‘deprimente’ e que vai parar de usar. Porém, quanto à maconha, assume postura diferente: “Porque eu acho que ela não me prejudica em nada”.
As jovens se dizem viciadas ou não em função da capacidade de ter controle sobre o uso. Ilda, embora inicialmente se diga viciada há vários anos, rejeita essa idéia ao afirmar que sabia se controlar no tráfico e não cheirar a cocaína que não era dela. Ivete também se diferencia, pois “quando não queria fumar, não fumava”. O autocontrole tão almejado é comentado por Antônia:
Não, porque bem dizer hoje eu não sinto mais falta. Bem dizer
eu uso porque eu quero. Como eu parei de usar cocaína, eu
posso parar com a maconha, e a cola eu não paro porque eu
não quero…
Para aquelas adolescentes dependentes da droga, os roubos são motivados pela necessidade física.
Uso todo tipo de droga. Cocaína, maconha, cola e ‘bin’, um
líquido que a gente compra aí, molha na blusa e cheira, aí fica
doidona, chapadona. Nesses dias agora, uma colega minha
morreu de ‘bin’. Ela tava chapadona de ‘bin’, aí ela caiu, a gente
pensou que ela tinha desmaiado, mas ela tava morta... (...) Cola
me deixa chapada. Deixa tonta, faz a gente mexer com os
outros, zoar os outros. (Isabel)
O consumo de álcool é também freqüente. Episódios em que se consumiu elevada quantidade de álcool foram comumente relatados. Poucas garotas, no entanto, são como Ângela, que diz estar se tornando alcoólatra, bebendo todo dia e deixando de comer – para beber. Outras, como Evelin, dizem consumir cerveja socialmente, porém relatam episódios de forte embriaguez ou têm queixas de seus familiares sobre esse consumo. Alda diz beber cerveja esporadicamente; no entanto, em seu prontuário consta que a jovem faz uso diário de álcool e possui edema nos pés, provocado pela ingestão excessiva da bebida.
O uso de álcool foi ainda mais freqüente entre as mães. Oito delas referiram-se a algum tipo de problema. Algumas entrevistadas falaram sobre o uso social do álcool, outras apontaram os malefícios da bebida para suas vidas.
Eu tava separada e já estava me entregando na bebida... O
pouquinho de dinheiro que entrava dentro de casa comprava Esse é o tema abordado a seguir, na Parte II, em que se apresenta uma nova etapa da vida das jovens, quando já se tornam ativamente infratoras, destacando-se as sanções que lhes são impostas pela sociedade.
comida, sim, mas sempre tirava um pouquinho. Vamos supor:
se eu tivesse para comprar uns cinco quilos de arroz, comprava
três, para tirar da cervejinha e do cigarro... Não ficava bêbada,
mas tinha que beber... (Geórgia, mãe de Odete)
Quando eu estou aborrecida, eu bebo... Qualquer coisa que
acontece na minha vida eu começo a beber, mas isso não
resolve... Só piora. (Laura, mãe de Ester)
Fatores que facilitaram a ‘opção’ pela vida
infracional
Como pôde ser observado até aqui, são muitos os fatores que facilitaram o comportamento infracional das adolescentes, oriundos da relação familiar, da influência dos amigos e namorados, da falta de apoio da escola, da comunidade ou da sociedade em geral. A forma como cada jovem vivenciou e captou as difíceis relações e situações pelas quais passou também contribui para se entender por que chegaram à infração. Nessa questão, lembra-se que, em pesquisa anterior com meninos infratores (Assis, 1999), quando foram entrevistados o infrator e um ir mão não infrator, muitas diferenças de personalidade foram encontradas, indicando ser este outro importante aspecto para se compreender a gênese da infração juvenil. Os rapazes em conflito com a lei mostraram maior arrojamento, valentia, rebeldia, espírito aventureiro, visão imediatista e falta de introjeção de limites em relação a seus irmãos.
A socialização dessas meninas, marcada por abandono, negligência, falta de limites e violências de variadas ordens, mostrou-se por um lado bem-sucedida e, por outro, um malogro. No primeiro caso, nota-se que as meninas não conseguiram efetivamente romper com o modelo de subordinação feminino tradicional, embora tenham feito esforços nesse sentido. No segundo caso, o fracasso da mesma socialização se deve, essencialmente, à ruptura que as jovens provocaram ao tomarem o caminho infracional.