Filhas do mundo

Simone Gonçalves de Assis · Capítulo 13 de 26

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Filhas do mundo

7 - A vitimização sexual

 

A experiência de abuso sexual aconteceu muito cedo na vida dessas mulheres. Dez entre as 27 adolescentes entrevistadas sofreram estupro e seis vivenciaram episódios de assédio sexual, todas com menos de 15 anos. Na geração das mães, seis, das vinte entrevistadas, se disseram vítimas de alguma forma de abuso sexual. Para muitas dessas mulheres, a experiência sexual violenta foi o marco de entrada no mundo adulto.

O abuso sexual contra crianças e adolescentes é compreendido como qualquer contato, ato ou jogo sexual, envolvendo relação hetero ou homossexual, em que o agressor esteja em estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado que a criança ou adolescente. O agressor pode se impor pela força, por ameaça ou indução da vontade da vítima; esta pode ser estimulada sexualmente ou servir de estímulo sexual para o agressor. Pode variar desde abusos sem contato sexual (voyeurismo, exibicionismo, pornografia, indução à prostituição) até atos sem penetração (sexo oral, intercurso interfemural) ou com penetração (digital, com objetos, intercurso genital ou anal). As principais categorias de abuso sexual são o incesto (união sexual de parentes próximos consangüíneos, como pais e irmãos), a pedofilia e a pederastia (relação sexual do adulto com a criança pré-púbere e púbere, respectivamente), o exibicionismo, o molestamento, o estupro, a prostituição infantil e a pornografia envolvendo crianças (Assis, 1994).

São várias as conseqüências de abuso sexual. Distúrbios psicossexuais são alguns dos resultados mais relatados dessa violência, especialmente a incapacidade de atingir o orgasmo, o desprazer ou a aversão sexual, a redução de desejo sexual e a dispareunia (dor ou incômodo da penetração), a depressão, as condutas automutiladoras e auto-aniquiladoras, a baixa auto-estima e a tendência suicida (Farinatti, Biazus & Leite, 1993; Charan, 1997).

Juhu & Gazan, apud Azevedo (1989), indicam ainda problemas nas relações interpessoais. As interferências decorrentes do abuso podem se dar em três níveis: recusa de estabelecer relacionamento com homens (medo da intimidade); dificuldade em manter parceiros, tendo apenas relações transitórias; e a tendência a supersexualizar relações com homens.

Nessa linha de pensamento, Gomes (1994) lembra a prostituição como outra possível conseqüência, fruto do rótulo decorrente da perda da virgindade. Grundlach (apud Charan, 1997) indica como provável resultado a homossexualidade feminina, devido à recusa da vítima a se aproximar de homens, social ou sexualmente.

Muram et al. (1995) investigaram a ocorrência de abuso sexual em adolescentes e adultas. Observaram que as adolescentes normalmente são os alvos de agressões sexuais, embora se tenha verificado uma tendência, nos dois grupos, de essas ocorrerem mais de uma vez. Isso pode refletir comportamentos de risco das vítimas ou fatores relacionados ao ambiente, os quais contribuem para aumentar a vulnerabilidade dessas pessoas quando associados a uso de álcool, área residencial desprotegida, trabalho no turno da noite. Os comportamentos femininos considerados de risco, recorrentemente relacionados por muitos autores, na verdade revelam as atitudes que a sociedade define como inadequadas para as mulheres, como andar só, ficar na rua até tarde da noite e utilizar quaisquer tipos de drogas.

Estudos feitos com mulheres presas comprovam a freqüência mais elevada da violência sexual nesta população. Singer et al. (1995) revelaram que 81% delas, quando entrevistadas, relataram ter sofrido esse tipo de abuso em algum momento de suas vidas – na infância, na adolescência ou na vida adulta.

 

Quando o abuso acontece na família Quando o agressor sexual é uma pessoa da família, o problema criado para a menina é muito grave, porque a atinge no seu núcleo fundamental de proteção, de confiança, de afeto e de relação de dependência. No caso do incesto entre pai e filha, Farinatti, Biazus & Leite observam que

é uma história de paixão e de violência, onde não há lugar para

a ternura e as solicitudes reais, mas sim para a fusão dos

corpos e a difusão dos papéis familiares. As gerações não

existem, todos são contemporâneos. (Farinati, Biazus & Leite,

1993:98)

É visto como um segredo, às vezes carregado pela vida toda como uma “marca de culpa e pecado” (Eisenstein & Souza, 1993). Farinatti, Biazus & Leite (1993) apontam como provável conseqüência do incesto as relações sexuais precoces fora de casa e a saída do lar.

Três jovens passaram por esse tipo de problema. Elen é uma delas. Em sua história, já apresentada aqui, viram-se os recorrentes abandonos que sofreu por parte da mãe. Ela pouco se recorda do abuso de que foi vítima, e sobre isso nada consta no seu relatório. O fato não chegou ao conhecimento da equipe técnica da instituição. O abuso ocorreu entre o período em que veio morar com sua mãe, por volta dos dez anos de idade, e as suas várias tentativas de morar com pais, tios, no internato, na rua e no abrigo. Essa menina ficou pouco tempo em casa de sua mãe e seu padrasto. A dificuldade em falar sobre o tema foi flagrante. Um longo silêncio precedeu a narrativa. A primeira justificativa de Elen foi dizer que sua mãe não tinha conhecimento de que seu padrasto a havia molestado. Descreveu assim o ocorrido:

Eu estava deitada, isso eram três horas da tarde e meu irmão

de seis anos que viu. Aí eu falei com a minha mãe. Ela

começou a falar com ele. O meu irmão falou que ele estava

deitado em cima de mim. Quando acordei, o meu irmão falou

isso pra mim. Mas eu estava dormindo.

Elen foi então indagada se havia sentido alguma coisa e responde imediatamente que não. No entanto, logo complementa:

Mas eu fiquei com nojo dele. Acho que eu vi e quis esquecer

mesmo. Mas eu não lembro. Eu lembro às vezes do peso dele.

Eu não gosto de ninguém em cima de mim mais. Fiquei

traumatizada, eu acho.

Um dos impactos que essa experiência causou em Elen, com apenas 13 anos de idade, é a dificuldade em manter relações sexuais. Ao abordar as experiências sexuais que mantinha com outras garotas internadas na instituição, afirma:

Tinha vezes que eu nem sentia prazer. Mas com meu namorado

eu também não sinto muito por causa daquela coisa do meu

padrasto. Eu fiquei meio assim com homem.

A segunda menina que relatou abuso sexual por familiares foi Inês. O grau de sigilo sobre o tema foi tamanho que nada surgiu nas várias entrevistas com essa adolescente e sua mãe, Helga. Apenas pelo relato técnico soube-se que

aos seis anos de idade Inês vivenciou abuso sexual do

padrasto, sendo encaminhada ao Juizado da Primeira Vara da

Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, para obter

acompanhamento técnico. A medida judicial foi o afastamento

de Inês do lar. A jovem não soube informar onde ficou quando

foi afastada de casa. Afirma que desde os nove anos freqüenta

a rua.

Inês passou muito tempo em casa de conhecidos e abrigos. Há vários meses não tem contato com a mãe, que pouco a visita na instituição. Sua vontade de vê-la é imensa, tema presente em seu diário, no qual desenha sua genitora como um coração sorrindo e ela como um coração chorando.

Mãe do meu coração, mãezinha querida da minha vida e da

minha paz, gosto muito de você. Você é uma pessoa importante

para mim e meu irmão e para a minha família. Você é como

uma rosa no campo, você é importante para mim. Você é a

minha esperança, você é o meu jardim. Você é esperança.

Você é paz. Você é o amor da minha vida.

A falta de visão crítica a respeito da mãe é total. Helga tem comprometimento mental evidente, já tendo sido internada em clínica psiquiátrica na juventude. Dificilmente coordena suas idéias. Entende que supervisiona eficazmente os filhos e não considera haver abandonado seus dois filhos. A culpa por Inês ter se desencaminhado ela a coloca toda em uma mulher com quem a filha conviveu. Todos os seus problemas os descreve como oriundos do fato de ter sido abandonada recentemente pelo parceiro (o mesmo padrasto que abusou de Inês). Este, com apoio de sua mãe, expulsou Helga de casa após impingir-lhe oito anos de uma convivência marcada por agressões físicas. Ao perder o seu bem mais precioso, sua casa, Helga ali deixou o filho mais velho, para guardar seu lugar.

Inês queixa-se do padrasto, defendendo sua mãe:

Ele deu na cabeça da minha mãe. Quando eu estou lá fora,

ninguém faz isso. Se eu estivesse lá fora, ia bater na minha

mãe o quê! Eu dava uma coça nele bem dada. Eu dou.

Conta que apanhava muito dele, além de ficar horas ajoelhada em caroço de milho. Informa que ele usava drogas e bebia, o que tornava a convivência em casa mais problemática.

Elen e Inês receberam de suas mães a mesma solução para o abuso: ambas se omitiram na hora de agir em defesa da filha. Fingiram não existir o problema e procuraram afastar a jovem do meio familiar. Conseguiram, assim, manter o padrasto abusador em sua posição habitual de provedor financeiro e moral da família. Toda essa reação se deu de forma tão sigilosa e perversa que levou as adolescentes a se culparem por todas as mazelas familiares, e, principalmente, por todos os sofrimentos de sua mãe. A dominação masculina está tão internalizada como natural que as meninas ao menos se questionam, ou às suas mães, a legitimidade ou ilegalidade das ações desses homens e sobre a escolha feita por elas.

A terceira e última jovem com relato de abuso sexual é Isabel, que, embora confirmando a violência, respondeu que não gostaria de conversar sobre o assunto. Perguntou: “É difícil para mim falar, posso não falar?” Diz que não chegou a ser violentada, mas o abuso fora cometido por uma pessoa da própria família. É interessante notar que o relato de Isabel é idêntico ao de sua mãe, Glória, uma das seis genitoras que foram vítimas de algum tipo de abuso sexual.

Glória sofreu assédio sexual do tio materno e do avô paterno, que faziam ‘brincadeiras’ com ela. Nunca comentou nada com ninguém: “Sabia que não podia, né? Um era avô e o outro era tio”. A lição de sigilo e internalização dos sentimentos foi eficientemente aprendida pela filha.

A outra mãe que sofreu abuso ainda na infância foi Solange (mãe de Eloísa). Era assediada sexualmente pelo padrasto. Emociona-se muito ao contar esse episódio, mesmo depois de tantos anos. Chegou a denunciar o agressor à polícia, indo contra a sua própria mãe:

Era terrível! Eu chorava, procurava casa de colegas pra mim

dormir, com medo. Colocava uma porção de roupa. Era uma

coisa muito horrível mesmo... Ele nunca chegou a ter nada

comigo, ele só ficava falando as besteiras dele...

A mãe, em lugar de proteger, solicitou a Solange que dissesse à polícia que inventara toda a história. Preferiu inocentar o companheiro, com o qual vive até hoje, afirmando que ele é louco devido a um tiro na cabeça. Justificou e sacralizou o abuso na família. Esse padrasto também abusou da irmã de Solange e de uma cunhada. Questionada sobre sua relação com a mãe, Solange responde: “É boa. Mas eu sinto mágoa”.

Três outras mães sofreram violência sexual dos companheiros, já na vida adulta.

Nívea era obrigada a praticar sexo oral com dois tios durante toda a adolescência. Quando se casou, essa prática continuou com o marido, o que lhe despertava muito nojo. A repulsa dessa mãe à atividade sexual a leva a compreender a opção homossexual de sua filha Alba e a entender “por que ela não gosta de sexo”. As conseqüências do abuso a longo prazo ficam evidentes, se não em sua vida, na da própria filha.

Outra que sofria agressão física e sexual constantemente do marido era Rosália, situação que deixou profundas marcas na filha Ingrid:

A minha mãe já não queria mais se deitar com ele porque sabia

dos casos dele. Ele ameaçava com arma e tudo, obrigando ela

a transar com ele. A minha mãe corria pro nosso quarto. Ele

vinha e puxava minha mãe pelos cabelos.

Vera (mãe de Ângela) diz já ter sido violentada pelo marido. Mas o fato de ser seu esposo a leva a descaracterizar o ato como um estupro:

Só uma vez. O meu próprio marido, mas eu não posso

considerar estupro, né? É meu marido! Ele chegou em casa

bêbado depois das farras dele e começou a me agarrar todo

fedendo de cachaça, me apertava e eu falando que não queria,

para ele me largar, e ele fez assim mesmo. Chegou a me

machucar. Eu fiquei com nojo dele.

Seja a agressão sexual sofrida na infância, seja na vida adulta, o sofrimento evidenciado por essas mulheres continua afetando a capacidade relacional com homens e com os filhos. O sigilo não acaba com o sofrimento dessas mulheres, pelo contrário: exacerba as experiências, tornando-as um acervo familiar, evidenciado especialmente no trato com as filhas mulheres, prováveis e potenciais vítimas da mesma agressão.

Quando o abuso é praticado por pessoas

desconhecidas

Nove adolescentes e uma das mães contaram episódios de abuso sexual praticados por pessoas de fora da família, com as quais não mantinham relacionamento. A história de Odete é muito distinta das demais. Foi morar com um homem idoso por vários meses, aos 11 anos de idade, sua primeira fuga de casa. Esse homem utilizava Odete para fazer sexo oral e anal e para a mendicância. Dava-lhe muitos presentes. Quando descobriram onde viviam, Odete voltou para casa, mas, segundo a mãe, continuava a procurá-lo porque “estava viciada nele”. Odete ganha dinheiro com drogas e com prostituição. Sobre o assunto, comentou apenas: “Eu já morei com um coroa que eu fazia essas coisas [sexo oral]. Eu tinha 11 anos. Mas não gosto de falar nisso, não”.

Ana foi assediada sexualmente pelo patrão da casa onde era babá; ao deixar a casa, levou uma surra.

Alba foi raptada aos seis anos de idade, quando estava ajudando seu pai, na feira. Um homem a chamou para dar “não sei o quê” e a levou para o mato. Ela ficou quase uma semana desaparecida. Reage assim ao fato:

Eu não me lembro direito [se houve abuso sexual]. Eu só sei

que quando eu penso nisso eu sinto nojo. Será que ele fez

alguma coisa e eu não me lembro? Só me lembro dele me

batendo e falava umas coisas... que eu nunca mais ia ver minha

família... e eu chorava muito, muito. Fiquei um bom tempo com

nojo de sexo depois do que aconteceu.

A mãe de Alba conta que o comportamento da filha mudou após o episódio:

Ela mudou de comportamento, pediu depois de um tempo para

raspar a cabeça dela, só queria se vestir de roupa de homem,

andar no meio de menino. Até que ela falou para mim que

queria namorar com uma mulher, mas eu já tinha percebido que

ela tinha virado sapatão. O que eu podia fazer?

Eliana acompanhou um rapaz que se dizia da igreja dos pais e lhe prometia um emprego. No meio da caminho, três outros homens se agregaram e a levaram para um matagal. Eles a ameaçaram com arma e a estupraram das 5 às 10 horas da noite.

Foi uma coisa muito ruim. Bateram muito, aqui tem até uma

facada, porque eu ia morrer. Eles falavam assim: aproveita,

porque essa vai ser a primeira e a última. Aí eu começava a

chorar.

Foi salva por policiais que passaram pelo local. Um dos homens foi preso, e a adolescente encaminhada para exame de corpo de delito.

Essa agressão marcou uma ruptura nos sonhos da adolescente, significando “o fim de uma vida e o início de outra, o fim de um sonho de ser uma menina normal, da igreja e o início de uma vida perdida”. Deixou a igreja dos pais, pois sentia-se profundamente envergonhada, achando que ninguém mais ia respeitá-la. Então decidiu:

Eu precisava fazer alguma coisa para ser respeitada de algum

jeito. Eu ter entrado para essa vida tem muito a ver com essa

história toda. A minha vida tomou outro rumo. Acho que, de

alguma forma, roubando eu voltei a ser respeitada.

Eliana confunde o respeito que julga ter perdido com o temor que sente nas vítimas dos roubos que praticara. Outra conseqüência da agressão é o nojo que sente por homens, mencionado em diversos momentos da entrevista.

Vera contou um episódio de estupro que sua filha Ângela sofreu quando voltava da escola, aos oito anos de idade. O avô percebeu que a menina estava demorando muito a voltar a casa e saiu para procurá-la. Encontrou-a deitada num campo no meio do mato, toda coberta de sangue. A única vez em que Ângela falou sobre o episódio foi com o avô, no momento em que ele a localizou. Essa mãe pede sigilo, pois o assunto nunca mais foi abordado. Segundo Vera, a psicóloga que atendeu a menina logo após o ocorrido disse que ela tinha criado uma barreira e que era melhor não falar mais sobre o assunto. Ângela negou, na entrevista, ter passado por qualquer tipo de violência sexual.

Elisabete é outra vítima que não falou nada na entrevista sobre o abuso que sofrera, mas o fato encontra-se no seu prontuário e foi abordado pela mãe. Tinha sete anos de idade e só contou a história para a mãe quando já fizera nove anos. Ao narrar sua versão do fato, a mãe lembra que Elisabete chegava perto dela, chorando, dizendo que estava machucada. Mas não falava como se havia ferido. A mãe ficava muito preocupada, pois “ela era muito nova para estar sangrando”. O tempo se passou e a menina parou de ir bem na escola. Anos depois, Elisabete contou que um rapaz a chamou, dizendo que ia dar doce e presentes. Colocou-a na garupa da bicicleta, levou-a para a casa dele e deu-lhe remédio. Disse não se lembrar do ocorrido. A mãe mudou-se do bairro sem saber quem era o agressor, descoberto só muitos anos depois, por reiterados estupros de crianças.

Úrsula sofreu abuso por parte de um gerente do tráfico, com quem trabalhava, já na adolescência. No dia seguinte, ele lhe pediu desculpas. Sobre o assunto, comenta: “Relação com homem sempre você sente alguma dor; com mulher, não”, referindo-se às relações sexuais que vem mantendo com meninas da instituição.

Três meninas que viviam na rua foram vítimas de violência sexual nesse espaço de grande perigo para mulheres. Ester vivia na rua desde os oito anos e relata o medo de aí ser agarrada, mostrando como os fantasmas do abuso sexual per meiam o imaginário feminino. Foi violentada aos nove anos.

Os caras lá tiraram a minha virgindade. Eles me pegaram à

força. Eram dois. Me machucaram toda. Não fico nem mais

sozinha na rua. Fico sempre com outras pessoas.

A experiência de Antônia foi similar. Já estava há bastante tempo na rua quando conheceu um garoto, que a levou para um lugar afastado.

Quando eu cheguei lá, tinha mais dez pessoas me esperando.

Começaram a me bater, me bater, me bater, a me violentar.

Tiraram a minha roupa, me machucaram toda.

Após um longo intervalo de tempo, continua: “O único estupro que teve foi esse”.

Anita também freqüentava muito a rua, mas se livrou de uma tentativa de estupro, pois os acompanhantes a ajudaram. Entretanto, certa vez, quando tinha cerca de 11 anos de idade, “ainda era moça”, sofreu estupro ao voltar para casa à noite:

Quando desci do ônibus, dois caras me agarraram para um

canto escuro e me esculacharam. Eu não tinha nem força para

gritar. Essa é a pior lembrança que eu levo. Eu tento esquecer

mas não consigo. Acho que isso me revoltou ainda mais. Eu

fiquei mais nervosa. Mas ninguém sabe disso.

A reação de Anita ao relato foi imediata, chorando e pedindo para nunca falar a ninguém o que acabara de contar. Paula, a mãe de Anita, foi a única que contou ter sofrido abuso por desconhecidos, tal qual sua filha. Paula foi agarrada na adolescência por vários homens, ao andar com uma amiga pela rua à noite. Foi levada para o cemitério e abusada das 11 horas da noite até as 4 da manhã. Sente-se vingada, pois ‘encomendou’ a morte dos estupradores aos bandidos locais. Mostra toda a sua revolta: “Eu tava junto. Tanto ódio que eu fui junto, ainda cuspi na cara dele lá morto”. A despeito de ter passado pela mesma experiência, fez o seguinte comentário sobre o abuso da filha: “Eu cansei de falar. Ela deu mole”.

Os relatos dessas experiências sexuais violentas mostram o quanto a idéia do direito masculino ao corpo da mulher continua arraigada, gerando e alimentando a dificuldade em mencionar o assunto. Esse silêncio contribui para manter a impunidade. Os maus momentos vividos também acarretam conflitos nas relações sexuais posteriores. A mais direta e facilmente observável é o nojo, o medo de novos intercursos e a preferência da relação sexual com mulheres no espaço institucional. Mas os resultados da violência afetam toda a história de vida dessas mulheres.

 

Quando o abuso é praticado por agentes da lei

Eva é uma exceção nesse grupo, pois vivenciou a agressão por parte de um funcionário do internato onde vivia. Conta assim o episódio que marcou tão negativamente sua vida, levando-a a fugir e viver na rua:

Foi horrível. Eu lembrava do monstro que me estuprou, eu me

senti suja, queria que acabasse logo. Quando eu fui estuprada

eu era virgem, nunca tinha nem beijado homem.

Após a agressão, Eva tem-se tornado fisicamente muito masculinizada, preferindo manter relações sexuais com mulheres, pois “com homem dói”. Teve um namorado porque se sentia emocionalmente carente. Sobre essa relação, destaca que a fez lembrar do acontecimento terrível que sofreu. Vive hoje envolvida em prostituição.

As demais seis jovens relatam assédio e violência sexual por parte de policiais, com os quais passaram a conviver em função da inserção infracional.

As histórias são muito similares. Além da agressão física comumente empregada por esses agentes contra todos os infratores, independentemente de sexo, as meninas são solicitadas a prestar favores sexuais para não serem presas. A maioria conta o assédio sexual, mas nega orgulhosamente ter cedido às ameaças, preferindo assumir as conseqüências. Assim fez Elisabete:

Quando eu vim pra cá pela primeira vez eu estava com pó,

assim dentro da calcinha, sabe? E ele já tinha achado comigo.

Ele foi e pediu pra mim tirar minha roupa. Falou que senão ia

me matar. Eu, com medo, que eu era novinha, 14 anos,

bobinha, nunca tinha levado uma dura de um policial. Ele

mandou eu abaixar as calças. Eu fui, abaixei. Ele foi, passou a

mão, assim, sabe? Mas só isso.

Ângela passou por fato similar:

Ele ia pagar minha fiança. Pra você dormir na minha casa, ele

falou. Um passou a mão no meu peito, outro queria beijar minha

boca. Ele falou: você vai fazer com ele e vai fazer comigo,

também. Eu falei: eu não vou fazer nada.

Muitos comentários surgem sobre as amigas que cedem às ameaças. Eliana lembra o caso de uma delas, “que os policiais comeram e ainda falaram que iam matar. Ela foi obrigada a entregar [delatar]. Quase que mataram ela”. Elisabete complementa: “Tenho várias colegas que transaram com os vermes para ter liberdade”.

Três possibilidades surgem na negociação com os policiais. A primeira delas é decidir entre praticar algum tipo de ato sexual (transar, ‘dar uma mãozinha’ ou ‘fazer um boquete’) ou ser presa. Outra possibilidade é optar entre praticar algum tipo de ato sexual ou morrer. Por último, a alternativa é trocar favores sexuais por dinheiro, relógio ou outros objetos. A reação de repulsa e indignação das adolescentes a quaisquer das três opções é unívoca.

Odete é a única exceção, pois assumiu ter praticado sexo oral com um policial para não ser presa: “Já apanhei muito de polícia, já me fez chupar ele, um polícia, uma vez. Ele me prendeu e falou que eu tinha que mamar ele. Eu fiz”.

Todas as demais argumentaram que prefeririam morrer, ir presas ou pagar a serem estupradas por policiais. Ana diz que prefere morrer a transar com policiais, pois tem nojo. Assistiu a uma colega sua que transou “com quatro policiais. Eles falaram que se ela transasse com os quatro, eles não iam matar a gente”. Nessas horas, as garotas com aparência masculina se eximem desse perigo e podem até apanhar mais: “Mas também por um lado é bom: eles não tentam me estuprar” (Alba).

As jovens manifestam rejeição não apenas aos policiais como também às colegas que a eles cedem. Falam dessas garotas sempre na terceira pessoa. Percebe-se ser uma norma do grupo distanciar-se de qualquer envolvimento com policial, regra rigidamente estabelecida nesse meio, chegando a constituirse numa questão moral. Entretanto, lê-se nas entrelinhas que, por vezes, a autoridade e a força empregada pelos agentes da lei podem se sobrepor à força e às regras estabelecidas no mundo infracional.