Filhas do mundo

Simone Gonçalves de Assis · Capítulo 7 de 26

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Filhas do mundo

1 - Apresentando as 'filhas do mundo'

 

A avaliação psicológica dos desenhos feitos por Ester mostra um pouco do seu sofrido mundo interno, parte dele também revelado durante a entrevista. Ester mostra, no abandono de si mesma, nas marcas no corpo, nas unhas sujas, nos cabelos despenteados e nos dentes nunca escovados, o abandono ao qual lhe submeteram durante a vida. Fugiu de casa pela primeira vez aos oito anos de idade, indo para a rua, da qual nunca mais saiu. Entre idas e vindas, seu pai, usuário de álcool e drogas, foi assassinado por envolvimento com tráfico, o que deteriorou a situação econômica familiar. A mãe, também usuária de álcool e drogas, foi presa duas vezes por tráfico, ausentando-se por seis anos da supervisão familiar. Os cinco filhos se espalharam por vários locais. Dois deles passaram por outras unidades de internamento para adolescentes infratores. Ester tem várias entradas por roubo e tráfico, a primeira delas aos 12 anos de idade.

Foi estuprada aos nove anos, quando dormia na rua, sendo desvirginada por vários homens, que a machucaram muito. A partir desse instante, revela o medo que sente de dormir na rua, ficando sempre em grupo de conhecidos, para se proteger. Mesmo assim, sofreu outra tentativa de estupro, da qual foi salva por pessoas próximas.

Não aceita limite algum. Não vive em casa desde que o pai morreu, evitando os padrastos que o seguiram. Não fica nos diversos abrigos públicos pelos quais já passou e brigou, pois não gosta de regras. Ao primeiro conflito com os colegas ou com funcionários, evadiu-se das unidades onde compriu medida de semiliberdade, o que ocorreu várias vezes. Tentou se enforcar no último abrigo pelo qual passou e vem cortando os braços no ESD. Não consegur tolerar frustrações, reagindo agressivamente.

A vida de Laura, mãe de Ester, pode ser sintetizada em uma só palavra: impotência. Foi criada por mãe e padrasto e depois por uma tia. Nunca se deu bem com o padrasto, e deixou seu lar. Não se relaciona mais com ninguém da família de origem, repetindo esse mesmo padrão no distanciamento que há entre ela e seus filhos. Trabalhou desde cedo como doméstica e faxineira. Bebe e usa drogas quando tem problemas que não consegue enfrentar, mostrando sua incapacidade de enfrentar dificuldades de qualquer ordem. Sofre muito pela falta de dinheiro, por “ter que andar que nem mendiga” e não poder dar comida para as crianças.

Ao sair da prisão, descobriu que sua casa fora roubada e estava totalmente vazia. Por essa razão, vive atualmente na rua catando latas ou papelão, passando seguir, as percepções e a visão de mundo de todas as 27 adolescentes e as 20 mães que foram entrevistadas, espinha dorsal deste texto. Suas palavras, dirigidas às pesquisadoras, registradas nos diários juvenis ou interpretadas por meio das marcas deixadas nos desenhos das adolescentes, dispõem de vida própria.

As adolescentes entrevistadas têm, em média, 15 anos de idade

(Quadro 1). Apenas 19% das jovens sempre viveram juntas com suas genitoras. Um terço delas conviveu apenas episodicamente com suas mães. Isto significa que elas passaram a maior parte de suas vidas em outras casas, em geral buscando uma aproximação no início da adolescência, tentativa freqüentemente frustrante para ambas. Nos demais casos, as garotas chegaram a ser criadas por suas mães, mas também conviveram por determinados períodos com outros núcleos familiares. Apenas uma jovem nunca viu nem sabe quem foi sua mãe ou seu pai.

Quadro 1 – Dados sobre as adolescentes entrevistadas e suas

mães

 

ADOLESCENTES MÃES ENTREVISTADAS ENTREVISTADAS

 

Ester, 15 anos, 2ª série do 1º Laura, 47 anos, 2ª grau. Deixou de ser criada pela série do 1º grau, mãe precocemente, pois esta sete filhos. Foi ficou presa por seis anos. A criada por mãe e família se desfez. Passou por padrasto e depois vários abrigos. por tia. Passou por

abrigos, casa de

colegas e rua.

 

Eva, 18 anos, 8ªsérie do 1º grau. Mãe desconhecida. Abandonada em orfanato desde

recém-nascida. Passou por uma

série de instituições.

 

Eliana, 17 anos, 1ª série do 1º Não entrevistada. grau. Entregue a pais adotivos

desde recém-nascida até os 15

anos de idade, quando voltou a

morar com a mãe, sem sucesso.

Vive em abrigos e com colegas.

 

Elisa, 17 anos, 2ª série do 1º Vanda, 35 anos, grau. Criada por uma tia, pouco sete filhos, estudou vendo a mãe, considerada a até o 1º grau. ovelha negra da família por ter Criada por tios, ficado seis anos presa. Passou com os quais não por vários abrigos.

vivia bem. Fugiu de

casa.

 

Inês, 14 anos, 2ª série do 1º grau. Helga, 38 anos, 4ª Criada pela mãe (com problemas série do 1º grau, mentais) e padrasto. Vive na rua, dois filhos. Criada em abrigos e com amigos. pelos pais. A mãe

tinha problemas

mentais.

 

Isabel, 14 anos, 4ª série do 1º Glória, 33 anos, 4

grau. Abandonada pela mãe com filhos. Criada pelos vários familiares, com os quais pais até a passava períodos de tempo. adolescência. Fugia de casa, vivendo na rua. Quando se

separaram,

distribuíram os

filhos. A mãe

abandonava os

filhos por meses.

 

Andréa, 13 anos, 4ª série do 1º Beatriz, 43 anos, 5ª

grau. Pais separados desde série do 1º grau,

pequena. Adora o pai e detesta a dois filhos. madrasta, que tenta afastá-los. A Abandonada pelos mãe é casada com um padrasto pais na casa dos

que não a aceita bem. Sempre avós. Voltou aos

viveu com a mãe. seis anos, não

sendo aceita pelos

pais. Ficou com

familiares e em

colégio interno, de

onde fugia.

Isadora, 16 anos, 6ª série do Telma, 35 anos, 3ª 1ºgrau. Pais se separaram série do 2º grau,

quando ela tinha oito anos. três filhas. Fugiu de

Ambos se casaram novamente. casa para se casar,

Não se dá bem com a madrasta. pois os pais eram Mãe vive mal com padrasto. extremamente Passou a viver sozinha com as rígidos. irmãs no início da adolescência.

Atualmente vive só.

 

Evelin, 17 anos, 8ª série do 1º Não entrevistada.

grau. Criada pela mãe. Os pais

se separaram quando ela era

ainda criança. Pai se casou

novamente, pouco participa da

vida dos filhos.

 

Ivone, 18 anos, 6ª série do Lorena, 49 anos,

1ºgrau. Foi criada pelos pais, até sete filhos, nunca que se decidiu por viver com um foi à escola. Foi companheiro, contra a vontade criada pelos pais,

dos pais. até que decidiu

viver com um

companheiro,

contra a vontade

dos pais.

 

Antônia, 15 anos, 3ª série do 1º Gina, 32 anos, 5ª grau. Nunca conheceu o pai. Foi série do 1º grau, abandonada pela mãe desde duas filhas. Criada

cedo, ficando tempos com avó, pela mãe, que não

madrinha, tia, em abrigos e na permitiu ao pai rua. Mãe ficou anos presa. registrar as filhas,

motivo de graves

conflitos.

 

Ângela, 17 anos, 4ª série do 1º Vera, 33 anos, dois grau. Criada pela mãe, com filhos. Criada pelos

amparo da família ampliada. O pais. Saiu de casa

pai foi embora quando ela tinha para se casar. dois anos, não dando nenhum

apoio.

 

Eloísa, 16 anos, 5ªsérie do Solange, 39 anos,

1ºgrau. Criada pela mãe, que 7ª série do 1º grau,

cedo se separou do pai. Pouco três filhos. Pais se

viveu com o pai, que ajuda separaram muito

financeiramente, mas não se cedo. Viveu com o

envolve emocionalmente. pai até a mãe Cresceu com padrasto. mandar raptá-la.

Teve problemas na

casa da mãe e do

padrasto, fugindo

para se casar.

 

Olga, 15 anos, 5ª série do 1º Não entrevistada.

grau. Criada parcialmente pelo

pai, que expulsou a mãe de casa.

Esta optou por deixar os filhos

com o marido, como castigo. O

pai se casou com uma garota

adolescente, trazendo conflitos

familiares

 

Anita, 13 anos, 2ª série do 1º Paula, 37 anos, 1ª grau. Vive na rua desde muito série do 1º grau,

pequena, junto com irmãos. nove filhos.

Passou por abrigos. O pai nunca Abandonada pela a registrou. Foi assassinado. Mãe mãe desde se casou novamente. pequena, sendo

criada pelo pai.

Fugia

freqüentemente de

casa.

 

Elena, 13 anos, 4ª série do 1º Fabiana, 35 anos,

grau. O verdadeiro pai não tinha 8ª série do 1º grau,

certeza da paternidade e não a três filhos. Foi assumiu. Foi criada por um criada por parentes.

padrasto, que considera como Não teve vínculo

pai. Mãe está em novo com família. Cedo

casamento. foi morar com

colegas.

 

Elen, 13 anos, 3ª série do 1º Não entrevistada.

grau. Deixada ainda criança com

um casal, com quem teve muitos

problemas. Na adolescência

voltou para a casa da mãe,

vivendo com ela, o padrasto e

dois irmãos. Não deu certo.

Passou pela casa do pai, de tias,

por colégio interno e abrigos, de

onde fugia.

 

Úrsula, 16 anos, 8ª série do 1º Daniela, 29 anos,

grau. Entregue a uma tia muito 8ª série do 1º grau,

rígida, quando ainda era criança. sete filhos. Criada Voltou para a casa da mãe na pela mãe, mas o

adolescência, não se adaptando pai sempre ajudou, ao convívio. a despeito de

duvidar da

paternidade.

 

Odete, 13 anos, 2ª série do 1º Geórgia, 45 anos,

grau. Mãe morreu quando tinha 2ª série do 2º grau,

um ano de idade. O pai já era três filhos. Pais viúvo e vivia com sua primeira viveram juntos, mas

família. Passou a ficar na rua, a mãe mantinha as

com o pai bêbado, que ameaçava aparências para vendê-la ou dá-la. A filha mais manter o marido

velha da primeira união do pai em casa, apesar da

resolveu criá-la como filha. Fugia bebida, das brigas de casa. Vive na rua, na casa dos e das mulheres que outros, em abrigos. ele tinha.

 

Ana, 15 anos, 5ª série do 1º grau. Tânia, 36 anos, 5ª Abandonada pela mãe com a série do 1º grau,

avó, que a criou até os cinco três filhos. Pai anos de idade. Viveu com a tia, morreu quando era

muito rígida, e com o pai (o criança. Criada pela

padrasto que a criou e registrou). mãe. Apenas na adolescência ficou

com a mãe. Morou em casa de

patrões.

 

Alba, 16 anos, 3ªsérie do 1ºgrau. Nívea, 36 anos, 4ª Criada pela mãe. O pai saiu de série do 1º grau,

casa quando ainda era pequena, cinco filhos. Criada não ajudando em casa mas pelos pais, sendo afetivamente ligado. Mãe extremamente se casou de novo, sofrendo muito rígidos. com esta nova união.

 

Ingrid, 17 anos, 7ª série do 1º Rosália, 45 anos,

grau. Criada pela mãe. O pai saiu 2ª série do 1º grau, de casa, tendo se casado várias cinco filhos. Criada

vezes. Não ajuda pelos pais, com substancialmente. É ausente outros 15 irmãos.

afetivamente. Abandonou a

família para se

casar com o pai de

Ingrid, que nunca a

valorizou.

 

Alessandra, 16 anos, 1ª série do Não entrevistada. 2º grau. Mãe com problemas

psiquiátricos severos. Pai nunca

assumiu a paternidade. Foi criada

pela mãe e por outros familiares,

com quem ficava quando a mãe

era internada.

 

Elisabete, 16 anos, 4ª série do 1º Marília, 38 anos, 7ª grau. Viveu parte da vida com a série do 1º grau,

avó. Sua mãe separou-se cedo quatro filhos. do pai, que morreu assassinado Criada pelos pais,

quando Elisabete tinha dois anos. muito rígidos. Fugiu A mãe uniu-se novamente a outro de casa aos homem, largando-a

freqüentemente com parentes. 15 anos, para se

casar com o com o

pai de Elisabete,

com quem teve

muitos problemas.

 

Ilda, 17 anos, 5ª série do 1º grau. Não entrevistada. Criada por tios (irmão por parte

de pai e sua esposa) desde os

três anos. Voltou a morar com a

mãe e os irmãos na

adolescência. Logo saiu de casa

para viver com namorado.

 

Ivete, 15 anos, Classe de Lurdes, 37 anos, 4ª alfabetização. Foi cuidada pela série do 1º grau, avó dos dois aos 11 anos de sete filhos. Perdeu idade. Voltou para a casa dos os pais muito nova, pais, mas pouco ficou, indo para sendo criada por a rua e a casa de colegas. uma tia até os 15

anos, quando

voltou para a casa

dos irmãos. Logo

se casou com o pai

dos seus filhos.

 

Alda, 13 anos, 5ª série do 1º Norma, 38 anos, grau. Criada até o presente por três filhas, nunca foi ambos os pais, extremamente à escola. Criada rígidos, em área rural do estado. pelos pais, Trabalha na lavoura desde realizando pequena. atividades na

lavoura desde a

primeira infância.

 

Essas adolescentes foram internadas em instituição para cumprimento de medida socioeducativa por terem cometido os seguintes delitos: dez tiveram envolvimento com o tráfico de drogas (artigo 12), três foram apreendidas por uso de drogas (artigo 16), 12 por roubos (artigo 157 do Código Penal) e duas por homicídio (artigo 121 do Código Penal).

A maioria delas está atrasada no calendário escolar. Estavam afastadas do processo educativo antes de cometer o ato infracional. Apenas uma delas estudava no momento da apreensão. Para a maioria das garotas, o afastamento da escola se deu pelo menos dois anos antes da internação – muitas delas, nos primeiros quatro anos do curso fundamental. O fato de já terem freqüentado a escola não significa que sejam alfabetizadas, como é o caso de Anita, que freqüentou até a 2a série: “Eu não sabia escrever o meu nome. Agora eu aprendi a escrever o meu nome, escrever o meu nome todo. Aprendi tudo aqui dentro [na ESD]”.

Entre as adolescentes entrevistadas, apenas três adolescentes terminaram o primeiro grau e uma chegou a se matricular no segundo grau, sem prosseguir. Três destas jovens conviveram com famílias mais estabilizadas e com um certo equilíbrio econômico; talvez por isso apresentem uma fala diferenciada na instituição, distinguindo-se das demais garotas e reproduzindo um discurso típico da classe média. As jovens com vivência de rua abandonaram a escola ainda mais precocemente e têm um comportamento sem limites e agressivo, invadindo o espaço do outro e abolindo regras sociais convencionais. Na rua, espaço de ‘liberdade’, aprendem da vida o que deveria ter sido oferecido pela família e pela escola.

Os motivos para a evasão escolar são variados. A saída de casa é a explicação mais usualmente dada pelas garotas que cometeram roubos, denotando a dificuldade de conciliar os estudos com a vida na rua e com o uso de drogas. O interesse no aprendizado decai à medida que se eleva esse consumo e a inserção nas atividades ilegais:

Eu parei, parei para ficar me divertindo na rua. Porque senão

não ia dar. Estudar e ficar nessa vida ali. Porque eu mudei

muito. (Elisa)

Outra importante causa para o afastamento tem a ver com o próprio desenvolvimento da sexualidade feminina. Sonhar com os grandes amores torna-se prioridade para algumas dessas garotas, que depositam na relação afetiva o ideal de suas vidas, ratificando assim uma ausência de planos de progressão intelectual, já sinalizada pelas constantes repetências e pelos afastamentos escolares. A gravidez e o nascimento do filho também impedem a jovem de conviver com os antigos colegas de escola. Fica assim sacralizada a concomitância da perda da virgindade e a entrada no mundo adulto, o que, para essas garotas, não mais se coaduna com a idéia de aprendizado formal, como exemplifica Ângela: “ficava com vergonha, as pessoas cochichavam e o uniforme ficava feio”.

As provas físicas da maturidade sexual se voltam contra a imagem de inocência e pureza que, paradoxalmente, elas ainda gostariam de possuir. Episódios de violência sexual também inviabilizam a continuidade dos estudos, como diz Eliana:

Acho muito importante [estudar]. É porque agora eu não tenho

mais jeito para estudar, porque eu já passei por muita coisa, e

eu achava que o meu tempo de escola era aquele mesmo,

agora não pode ser o meu tempo de escola mais não...

As demais razões para o afastamento escolar são fruto das transferências de núcleos familiares – e, por conseqüência, de bairros e de escolas –, da responsabilidade de cuidar dos irmãos menores e das dificuldades originadas na própria escola. Esta última facilitou a exclusão de algumas dessas jovens. Ivete foi expulsa por ter xingado a diretora, que não aceitou um bilhete justificando sua falta devido a um problema de saúde. Reações como essa, típicas de jovens que desconhecem limites e não sabem lidar com autoridades, são tratadas a ferro e fogo, contribuindo para o agravamento da situação e a decisão final pelo afastamento dos estudos. Episódios de violência no ambiente escolar também contribuíram para ocasionar o afastamento da menina.

Eu brigava muito na escola. Teve um dia que a menina ficou

muito implicando comigo, falava que eu não era de nada. Eu

peguei a cabeça dela e soquei na parede. (Inês)

Sempre fui atentada... Eu parei de estudar porque eu meti a

porrada em um garoto lá e os irmãos deles queriam me bater.

Aí eu não ia para a aula. (Elena)

Apenas uma jovem teve seus estudos interrompidos pela necessidade de trabalhar, pois, em sua família, somente os valores do trabalho rural são valorizados, e sua casa era muito distante da escola.

As mães entrevistadas têm, em média, 38 anos de idade (Quadro

1). São, portanto, também jovens, considerando-se o aumento da expectativa de vida feminina para além dos 70 anos, na entrada do século XXI. Apesar da idade cronológica, aparentam ser mais velhas. A maioria tem sulcos no rosto e usa trajes senhoris, frutos dos sofrimentos pelos quais passam. Várias compareceram à entrevista com um ou dois filhos, algumas grávidas, mostrando a dificuldade de obterem apoio doméstico ou comunitário para a criação das crianças pequenas. É interessante notar a precocidade com que as mulheres dessas famílias têm seus filhos. Indagando-se a idade que hoje teriam suas mães, se fossem vivas, percebe-se que estariam por volta dos 55 anos.

Essas mães têm, em média, quatro filhos, originados de diferentes relacionamentos. São famílias amplas, com até nove filhos espalhados por vários locais. O grande número de filhos de diferentes idades é um importante motivo para a falta de supervisão das filhas adolescentes, já que os mais novos acabam por requerer mais atenção.

A escolaridade das mães também é precária. Duas delas eram analfabetas e várias tinham apenas o 1º grau incompleto. Somente duas mães têm escolaridade em âmbito de 2º grau ou superior. A baixa escolaridade também foi relatada com referência a irmãos e pais das famílias de classe popular, à qual pertence a maioria das participantes da pesquisa.

O grau de carência dessas famílias não chega a afetar as necessidades básicas, exceto para três que viviam em maior escassez, com a despensa vazia e falta de carne nas refeições: “Tinha-se que comer arroz puro” (Isabel). Para as demais, a pobreza da família não se mensura pelo suprimento básico de alimentos ou moradia, mas especialmente pela impossibilidade de terem acesso ao consumo dos bens almejados pelas adolescentes: roupas para festas e dinheiro para passear. As jovens exigem esses bens de suas mães de forma imediata. Querem roupas novas para as festas, de forma a não repeti-las seguidamente. Alguns pais se desdobram para lhes dar o que desejam, tendo de dividir o pouco que têm com as diversas demandas dos muitos filhos. Cotidianamente, esses conflitos causam atritos e sofrimentos para mãe e filha.

O problema do aluguel da casa em que moram é questão crucial para muitas famílias, consumindo a maior parte da renda familiar. As casas costumam ser pequenas para o número de pessoas que nelas vive. Oscilam entre as consideradas grandes (com dois quartos, sala, cozinha e banheiro) até as muito pequenas, de apenas quarto, sala e banheiro.

A ocupação da maioria das mães é compatível com atividades de baixa remuneração: domésticas, funcionárias de limpeza, camelô, lavradora, funcionária de supermercado e creche, comerciante, costureira, cozinheira, auxiliar de enfermagem. Os pais apresentam as seguintes ocupações: lavrador, caminhoneiro, oficial do exército, biscateiro, pedreiro, feirante, marceneiro, traficante, funcionário público, funcionário de limpeza, empresário e técnico em eletricidade.

As adolescentes também já tiveram experiência de trabalho, excetuandose uma delas, que verbalizou que o seu destino é a criminalidade. Todas as demais já exerceram atividades, especialmente de empregada doméstica, babá e no comércio. Pelo menos seis adolescentes começaram a trabalhar ainda crianças para ajudar as mães, vendendo balas e doces nos sinais de trânsito, expostas à violência das ruas. Para essas adolescentes, o tempo da mendicância se mistura com o dos furtos que ali aprendem a fazer.

Eu sou mais acostumada a pedir, eu pedia. Tinha vez que eu

levantava cedinho, aí eu ia para a rua pedir. Se a gente pedir,

vocês acham que tá errado. Tô roubando, piorou! (Isabel)

As adolescentes inseridas no tráfico descrevem esta atividade ilegal como um tipo de trabalho que executam. Úrsula apresenta esta questão:

Se você deixa de trabalhar, você não ganha. Mas é sujo, é um

trabalho sujo. Mas trabalho, porque era cansativo, sabe,

acordava cedo. Oito horas tinha que estar na ‘boca’, ver aquela

coisa, aquela atividade, corre pra lá, corre pra cá e passa por

isso, se machuca. Chega no final do dia você está exausta, às

vezes machucada, às vezes você roda, apanha. E quando a

gente é presa, a gente fala que foi acidente de trabalho. Às

vezes, quando a gente pergunta: ‘cadê fulano?’, e ele está

preso, a gente fala que está de licença.

Outros trabalhos mencionados pelas jovens, em menor escala, foram o de costureira, modelo e dançarina. Uma jovem se diferencia das demais por ser proveniente de classe média e trabalhar em uma clínica como técnica de fisioterapia.

Quis ser independente. Um pouco para tirar esse mito de

Patricinha, sabe? Eu sempre quis correr atrás das minhas

coisas, batalhar, para dar valor ao meu dinheiro. Porque

enquanto a gente não trabalha e tem tudo o que quer, a gente

nunca dá valor. A gente só dá valor quando luta por aquilo que

a gente quer. (Evelin)

A carga de trabalho era excessiva para a idade que as jovens tinham quando as exerciam. Isabel, aos nove anos, já trabalhava em casa de família, assumindo os cuidados da casa e das crianças ali presentes. Começava a trabalhar às 6 horas da manhã e ia ocupada até o final do dia, deixando de lado atividades escolares e lúdicas, necessárias ao seu próprio crescimento. Para Isabel e outras garotas, o tempo da infância e da adolescência foi totalmente esquecido.

A relação com os empregadores é, muitas vezes, difícil e pouco amistosa. Ana sofreu assédio sexual do patrão e ameaçou contar o fato à esposa dele. Enfrentou um episódio de agressão física severa: “Aí ele começou a me bater, bater, me bateu muito, até eu chegar a desmaiar. Eu fiquei uma semana sem comer, porque o meu maxilar destroncou”.

O descontentamento da jovem em relação aos patrões acaba por suscitar reações agressivas nessas meninas sem tolerância a frustrações:

Chegou um tempo que a mulher falou que não ia me pagar, aí

eu fiquei louca. Arrumei maior tumulto lá com ela, aí ela pagou

tudinho, por causa de que eu peguei uma faca grandona e falei

que ia matar ela. Os vizinhos todos se meteram... Deu 500

reais. Aí eu vim embora para o Rio. E nunca mais quis saber de

casa de família. (Antônia)

Embora todos os integrantes das famílias em estudo tenham tido inserção ocupacional, o sustento das casas é responsabilidade fundamental da mãe. O pai contribui em apenas seis domicílios. Os padrastos também ajudam no período em que permanecem na família. Apenas uma menina contribui sistematicamente, assumindo, na prática, a manutenção de sua família.

Nos momentos de maior crise familiar, quando a situação financeira se torna muito difícil, os avós e os tios das adolescentes ajudam no sustento da casa.

Metade das adolescentes entrevistadas tem a cor da pele parda ou negra. Um levantamento das fichas de todas as 59 internas no ESD no dia 1º de setembro de 1999 mostrou que 51% eram negras, 24% estavam registradas como de cor parda e apenas uma em quatro era branca. O perfil das jovens infratoras reflete também a discriminação racial e econômica existente no país, pois a maior parcela dos que constituem essa raça encontra-se nos estratos sociais mais pobres. Conseqüentemente, a maioria dos presos é de origem negra. É preciso ter em mente mais esse dado ao analisar as histórias de vida das mulheres-alvo do estudo, pois grande parte é ou descende de raça negra e pertence aos estratos populares. Portanto, com poucas exceções, que serão trabalhadas à parte, as mulheres entrevistadas estão sujeitas a três tipos de discriminação em relação aos eixos estruturadores da vida social: gênero, raça e classe social (Saffioti, 1997). Ser mulher, pobre e descendente da raça negra, no contexto de discriminação vigente no país, certamente limita as possibilidades de crescimento e desenvolvimento juvenil, como também restringe e facilita algumas ‘opções’ tomadas. São, portanto, importantes conceitos para se entender a forma como as crianças do sexo feminino se tornam mulheres adultas, socialmente construídas.