Filhas do mundo

Simone Gonçalves de Assis · Capítulo 8 de 26

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Filhas do mundo

2 - Brinquedos de encaixe: a construção social da mulher

2 - Brinquedos de encaixe: a

construção social da mulher

 

Na história da humanidade, a desigualdade entre o homem e a

mulher foi estabelecida pela distinção dos papéis sexuais. O

status da mulher foi definido pelos homens, que delimitaram

sua posição na vida familiar. Ela foi reduzida a um ser inferior e

submisso, aos papéis de esposa, mãe e dona-de-casa.

(Seixas, 1998)

A família ocupa um papel fundamental na manutenção de costumes, rituais, mitos e tabus, na educação e na repressão sexual. É neste espaço que a criança aprende os valores de sua classe social e os sexuais, que costumam se repetir ao longo das gerações, tais como a escolha de parceiros e a forma de lidar com a afetividade e a sexualidade (Seixas, 1998). O modo como pais e mães tratam os filhos é um dos pontos mais significativos nesse processo, pois eles são potencialmente responsáveis pela construção da personalidade infantil e da perpetuação do contraste entre os sexos. Por essa razão, argumenta Seixas sobre a importância materna:

A mãe pode fazer muito bem e muito mal para seus filhos, pois

a maternidade, mais que vocação individual, é função

sociopolítica. E as mães têm sido o maior poder político

conservador do mundo, pois exercem influência

espantosamente densa sobre poucas pessoas durante muito

tempo, a começar pelo período formativo da personalidade.

(Seixas, 1998:183)

A mãe pode constituir o principal agente da ideologia dentro da família. A auto-imagem da criança é elaborada sobre o domínio feminino, e é a mãe que treina as filhas para os papéis femininos e os filhos para os papéis masculinos. Tem importância crucial na individuação. À medida que cresce, o menino efetua uma separação e ruptura da identificação primária com a figura materna. A menina não faz essa ruptura, existindo uma complexa relação entre mãe e filha, seja ela de imitação ou de oposição.

Duque-Arrazola analisa as representações de gênero nas falas de crianças, adolescentes e mães em uma comunidade pobre pernambucana. Mostra que as meninas trabalham como “donas-de-casa, reproduzindo as tarefas femininas de seu mundo doméstico-familiar necessárias à reprodução do grupo doméstico e maternando irmãos(ãs), sobrinhos(as), priminhos(as)” (DuqueArrazola, 1997:360). Mostra, por meio das falas de crianças e adolescentes de ambos os sexos, a situação de subalternidade do feminino, manifestada na aceitação da chamada dupla moral, em que homem pode ‘botar galha’ e a mulher não, pois fica ‘falada’. Relata que o processo de definição do gênero pode ser verificado ainda nos jogos infantis em que as meninas são excluídas pelos garotos e adultos, momento em que surge também o primeiro objeto de resistência, contestação e transgressão infantil das meninas à sua condição feminina (o que muitas vezes acabam ‘fazendo escondido’).

Os jogos preferidos pelos meninos exigem espaços amplos, que não os da casa: bola, bolinha de gude, pião, subir em árvores (desafiando perigos). Os jogos das meninas são símbolo do feminino: boneca, brincar de casinha (ensinando a maternagem e o cuidado com a casa), sendo apropriados a pequenos espaços, como o do lar.

O dia-a-dia da casa marca a nova temporalidade para as meninas e mães, relatada por Duque-Arrazola (1997:368). Desde cinco anos vivenciam a “cotidianidade repetitiva, sem inovações, sustentáculo da ‘imanência’ da mulher”, em oposição à pouca participação dos homens no cuidado familiar. Por essa razão, muitas mães relataram não ter lembrança boa de suas infâncias, preferindo a rua, sentida como trajetória de libertação. O autor observa ainda que o maternar das mães sob “condições de pobreza e privações cria relacionamentos pouco afetivos e até violentos entre mães e filhas biológicas ou de criação, o que leva muitas filhas a expressarem rejeição e desamor pela mãe ou pela figura materna, assim como pelo pai, ou ao contrário, amor a estes” (Duque-Arrazola, 1997:376).

A obtenção da conformidade feminina é o resultado do processo de uma educação alienante, que prepara a mulher para perceber o desejo dos outros e não o seu próprio; que a treina para o casamento, a maternidade e a dependência. Desde cedo a menina aprende que a casa é ‘coisa de mulher’. Esse papel conformado nem sempre é integralmente aceito pelo sexo feminino em geral. Entre as adolescentes e mães entrevistadas, muitas interferências ocorreram nesse processo, que dificultaram, sob alguns aspectos, a restrição feminina ao lar. Não conseguiram, entretanto, excluir a visão subalterna do gênero feminino, independentemente de a identificação da adolescente com sua mãe se dar pela similaridade, pela oposição ou por ambas, alternadamente, como se poderá ver no restante deste capítulo.

 

A história de Isadora: buscando a diferença

A repetição de padrões de interação pode ser feita também

através do antimodelo, de forma rígida e determinante como a

do próprio modelo. (Seixas, 1998:175)

Isadora vivenciou um processo de identificação caracterizado pela rejeição à submissão materna. Teve pouca convivência com sua mãe, Telma, que se separou quando Isadora tinha cerca de oito anos e deixou as filhas com o pai, pois estas não se adaptaram ao novo padrasto. Os pais brigavam muito e Telma era agredida fisicamente pelo marido, que passava longos períodos ausente e tinha várias mulheres. Desde o início da segunda relação, o segundo parceiro de Telma, com o qual ela ainda vive, começou a agredi-la verbalmente e a não aceitar as suas filhas.

A mãe mostra total impotência perante sua vida. A responsabilidade pela sua separação das três filhas é toda atribuída ao ex-marido, o qual, segundo ela, fez tudo para distanciá-las e é a razão pela qual as meninas “estão como estão agora”. Telma fugiu de casa para casar (assim como suas filhas fizeram algumas vezes), pois seu pais eram muito severos com ela, justificando assim a criação liberal que quis dar às filhas.

Eles eram muito rígidos e não deixavam a gente sair de casa.

Eu acho que se eu tivesse agido assim com as minhas filhas,

isso tudo não tinha acontecido.

Ela parece não ter expectativas. Vive com um homem de quem não gosta, que não a deixa trabalhar fora mas não a sustenta, fazendo-a se virar para arrumar dinheiro. Ele diz que não gosta de suas filhas e que, quando morrer, deixará tudo o que tem para a família dele.

Telma, no meio de toda a sua omissão, vê na liberdade e na ousadia de Isadora uma vitória. Satisfaz-se em ver as filhas mais fortes e experientes do que ela.

Elas são tão jovens, mas já passaram por tanta coisa que eu

não teria peito para suportar. Hoje eu acho que, sobre essas

coisas da vida, elas têm muito mais que me ensinar do que eu a

elas.

Sobre o pai, que está sempre ausente, viajando, Isadora

explica:

Ele tentava encobrir o tempo em que ficava fora mimando a

gente. Ele dava de tudo pra gente, principalmente pra mais

velha, que é o xodó dele.

Manifesta independência em todas as suas relações, contrapondo-se ao modelo materno.

Com o novo casamento do pai, com uma mulher pouco mais velha que Isadora, e a chegada de um ir mão, outros problemas de relacionamento surgiram na família, fazendo com que Isadora e suas irmãs fossem jogadas da casa do pai para a da mãe. Quando tinha 13 anos, ganhou uma casa para viver com as irmãs também adolescentes. Define o período em que ali ficou como “a perdição”. Gastavam com drogas e roupas o dinheiro que o pai dava. Faziam festas e passaram a se envolver com o pessoal do tráfico. Ela analisa sua vida aos 13 anos nesta casa, com as irmãs:

Eu queria viver cada dia como se fosse o último, aquela

sensação de liberdade que, se você experimentar, você não

consegue mais dar satisfação pra ninguém.

Passou a usar drogas e a se relacionar com homens bem mais velhos, envolvidos no tráfico.

Isadora fala muito bem da mãe. Com seus 16 anos de experiência, orienta a mãe de 35 em suas decisões. É responsável pelo fato de a mãe ter escolhido voltar a viver com o padrasto, certa vez em que Telma momentaneamente largou o parceiro para tentar morar com as filhas na casa delas, com a intenção de controlá-las. Logo desistiu, pois as meninas “já estavam perdidas” e, se ficasse, “acabaria sem as filhas e sem o marido”. Abandonou-as mais uma vez. Isadora se pronuncia a esse respeito:

Minha mãe é superlegal. Ela chegou a se separar do namorado

para ir morar com a gente, mas a gente não aceitou, não. A

gente achava que ela tinha que viver a vida dela, que ela estava

velha e, se ela perdesse essa oportunidade, ela ia acabar

ficando sozinha, e ela voltou para ele.

O próximo passo da jovem foi se envolver com pornografia e prostituição, indo viver em Copacabana com uma irmã, procurando tudo que é “alegria, liberdade, livre e bonito”. Fez dois abortos, não quer engravidar e perder sua independência, seu bem mais precioso. É muito vaidosa, ostenta valores estéticos machistas muito rigorosos. Associa maternidade à perda de liberdade e ao estrago do corpo. Valoriza muito sua autonomia. Afirma que não precisa de ninguém, pois é totalmente capaz de suprir as necessidades da sua vida.

Todo mundo pergunta se eu me sentia abandonada, mas eu

não me sentia, não. Eu acho que ela [a mãe] agiu certo, porque

a gente ia acabar crescendo, casando e ela ia ficar sozinha. Eu

sempre dei força pra ela ficar com ele.

Isadora teve uma relação conflituosa com um parceiro, separandose e voltando. Oscila entre uma necessidade de independência (ao escolher o homem que deseja e pela força que ostenta no tráfico) e uma visão subalterna da mulher, que precisa ser cuidada e não pode ser só (assim como aconselha sua mãe). Deixa clara sua oposição a desempenhar o papel feminino, do qual inexoravelmente não consegue fugir: “Mulher é muito burra”.

Isadora traz um modelo reativo de identificação feminina. Sua aparente boa relação com a mãe deixa antever uma distância enorme entre ambas. Neste caso, como na maioria das outras famílias estudadas, observa-se que a relação mãe-filha é calcada na distância ou no conflito direto.

A maioria das adolescentes demonstra sentimentos ambivalentes em relação à mãe. Amor e ódio, raiva e ternura, aproximação e afastamento, apoio e abandono se misturam. Há pouco diálogo e as questões não são expostas e discutidas, especialmente as de ordem sexual. A sexualidade ‘recatada’ vai sendo, assim, repassada:

Se a gente perguntasse a ela, ela não falava, ela ficava com

vergonha de falar pra gente. Eles não são desses pais que

explica as coisas, não, e se a gente perguntar, tem vez até que

ele saía fora do assunto. Eles ficava mais conversando da vida

dos outros com a gente. (Alda)

A entrada da menina na adolescência marca um momento de agravamento dessa relação. Os ensaios juvenis para testar as novas capacidades e as tentativas para alcançar conquistas no plano ético, intelectual e afetivo-sexual mobilizam a mãe para uma dolorosa revisão de seus próprios fracassos e realizações. A relação mãe-filha adolescente é, pois, permeada de ambivalências e de mútuas culpas, nesse período de transição entre a rejeição de um esquema de valores e comportamentos antigos e a busca de possibilidade de mudança desse esquema para outro com novas referências.

Os fracassos da menina muitas vezes são experimentados com dupla carga de culpa: por si mesmas e por não cumprirem as expectativas maternas. Se, por um lado, algumas mães se culpam pelo caminho escolhido pelas filhas, por outro, as meninas revelaram em uníssono ressentir-se por fazer a mãe sofrer.

Eu sempre fui muito teimosa e não ouvia nunca o que a minha

mãe falava. Ela mandava eu chegar num horário e eu nunca

chegava. Aprontava mesmo, parecia que eu gostava de deixar

ela nervosa e ela até que não perdia a paciência. Eu espero

que a minha filha não puxe a mim. (Ângela)

Nesse depoimento, verifica-se o temor de Ângela de que sua própria filha, na adolescência, venha a reagir à sua autoridade, saindo de casa para vivenciar o mundo, assim como ela se habituara a fazer com sua mãe. Por sua vez, as mães se recordam do próprio passado, quando precisavam lutar contra os pais para alcançar um pouco de liberdade.

Os conflitos entre mãe biológica ou adotiva e as adolescentes mostram que são decorrentes de tentativas das meninas de se insurgirem contra a rigidez da socialização feminina, muito comum nos estratos populares. Destaca-se a tentativa de controlar as roupas provocantes e as saídas ‘perigosas’ para namoros, relatadas especialmente em famílias evangélicas como a de Úrsula: “Tudo era pecado: usar batom, short, ir ao baile”. Outro momento de profundo conflito é quando as jovens buscam fugir da enorme responsabilidade doméstica exigida pelas mães. O destino que as garotas encontram para escapar dessa servidão é a rua ou a constituição de suas próprias casas, nos moldes da materna.

Minha mãe, quando vai sair pro hospital assim, ela manda eu

arrumar a casa pra ela, eu arrumo. Às vezes ela manda eu

arrumar a casa, eu sento na escada, tiro o chinelo, desço a

escada rapidinho e vou pra rua, e não volto mais. Eu não gosto

de fazer essas coisas de casa, não. (Anita, 13 anos)

Ela em casa não sabe lavar uma louça, ela não sabe fazer

comida, não dá conta dos afazeres domésticos. Não sabe,

porque quando eu fui pro hospital ganhar aquela ali, eu deixei

ela tomando conta daquele, a comida que ela fazia era só

miojo, não sabe?! Não sabe fazer nada, nada, nada. (Paula,

mãe de Anita)

Deve-se ressaltar que vários irmãos mais novos foram cuidados pelas adolescentes, mesmo que por períodos curtos de tempo. A recusa em assumir o papel provedor da mãe para os irmãos ficou muito clara, a despeito do desejo materno de mantê-las em casa para ajudar nos cuidados com os filhos pequenos. Essas crianças, entretanto, geralmente despertam nas adolescentes o sentimento maternal, trazendo-lhes emoções positivas.

Agrega-se ainda, como motivo para os conflitos, a experiência de vários problemas de saúde ligados ao sistema nervoso, como depressão, epilepsia, ‘nervosismo’, esquizofrenia e dependência de drogas, relatados por mãe e filha, frutos concretos da internalização de sentimentos provocada pela repressiva socialização feminina.

Dado o rigor da domesticação, o preço da transgressão feminina, do rompimento com o papel tradicionalmente esperado da mulher, é alto. Ângela expõe em sua fala o quanto é indesejável a existência de mulheres na família causando problemas: “Meu irmão, que era homem, nunca deu esse trabalho que eu tava dando agora pra minha mãe”.

Pode-se constatar que as jovens entrevistadas procuraram, com maior ou menor intensidade, libertar-se de alguma forma do peso da socialização à qual estavam sendo submetidas. Entretanto, por não terem respaldo no meio social nem na dinâmica familiar que lhes possibilitasse esse salto, sem saída nem opção, elas acabam por incorporar o papel feminino: adotam os antigos valores e limites, o trabalho, a submissão, introjetam uma baixa autoestima e vivem os conflitos psicológicos típicos do gênero. A mulher que cada uma desejaria ser apenas se configura no âmbito da idealização, assim como é retratada quando se referem à mãe.

Isso pode ser observado nos infindáveis trechos que escrevem em seus diários, nos quais idealizam por alguns momentos a mãe socialmente construída que nunca tiveram.

A senhora é divinal

Uma santidade divinal

Que Deus fez para nós

Com muito carinho e amor

Mãezinha tu és para mim

Como uma bela flor

Que precisa ser cultivada

No mais belo jardim. (Inês)

A história da maioria das mães das adolescentes não é muito diferente da de suas avós, vivendo em situações de pobreza, convivendo com a realidade do desemprego ou subemprego, muitas vezes arcando com a chefia da família solitariamente e criando seus filhos da forma como aprenderam. A luta dessas mulheres pela sobrevivência se deu de forma tão intensa que elas sequer tiveram tempo para se olharem, cuidarem da saúde e estabelecerem o tão importante diálogo com os filhos, queixa muito comum das filhas adolescentes.

São mães que nasceram e cresceram em meio a uma exclusão social perversa e segregadora, sem reconhecer o direito de freqüentar escolas, ter atendimento médico digno, creche para os filhos e se divertir. Sofreram uma socialização mais rígida, com valores morais de autoridade e hierarquia masculina fortemente presentes, pela maior proximidade que tiveram com a figura paterna e parceiros mais duradouros. Cresceram e criaram seus filhos reproduzindo esse modelo, tendência que algumas jovens parecem estar começando a recriar.

A culpa da transgressão da filha recai sobre elas, que disso são acusadas por parceiros, pais e demais familiares, os quais se isentam totalmente da sua parcela de responsabilidade.

Poderá ser observado, ao longo do texto, que mães e filhas quase não se falam e pouco se conhecem. Duque-Arrazola revela quadro similar nas famílias de estratos populares que estudou:

Entre pais-filhos-filhas, mãe-filhos-filhas dá-se o mesmo tipo de

relação que entre o pai-marido e a mãe-mulher : elas não são

mediadas pela comunicação, o mesmo se repetindo entre

irmãos e irmãs. Se no grupo doméstico se estabelecem

relações de autoridade e poder entre marido e mulher, estas

também se estabelecem entre paisfilhos-filhas e entre mães-

filhos-filhas, tanto em termos geracionais quanto pelas relações

de gênero que as implicam. O mesmo acontece entre irmãos e

irmãs. (Duque-Arrazola, 1997:385)

 

A sombra do vazio: a ausência do pai

Não obstante a ausência do pai-marido nos grupos matrifocais,

não se anula a referência à figura paterna, pois o patriarcalismo

do grupo doméstico está inscrito no plano superior da

sociedade global. (Duque-Arrazola, 1997:356)

No caso de mães solteiras ou separadas, embora suas

unidades domésticas possam ser definidas como matrifocais,

não necessariamente se altera o padrão de autoridade,

consubstanciada na figura masculina, que pode ser transferida

para um parente consangüíneo, pai, irmão ou filho. (Ribeiro &

Ribeiro, 1995:137)

A ausência do pai na vida das adolescentes é muito evidente. Entretanto, a figura de autoridade masculina não saiu do universo simbólico dessas famílias. Não se trata da mera ausência do pai nas famílias, mas da qualidade do relacionamento estabelecido entre pais e filhos, denominado por Muza (1998:146) de “a sombra do vazio”.

Em seus trabalhos, Freud sustenta que o superego, ou instância moral, repetia a severidade do pai. Em estudos posteriores, pode-se comprovar que a falta de normas, a fraqueza do pai, sua ausência real ou psicológica traziam como resultado uma severidade doentia do superego. A falta de limites, característica da conduta do pai laissez-faire, não gera uma imagem boa do pai, mas, pelo contrário, uma imagem de abandono e solidão, que traz como conseqüência uma exigência interna paralisante e atormentadora, como se um menino continuasse procurando dentro de si os limites que o pai não soube determinar.

Vários autores atestam que crianças que não desfrutam da presença do pai acabam por enfrentar problemas de identificação sexual, dificuldades de reconhecimento de limites e apreensão de regras de convivência social. Enfim, a criança terá dificuldades de internalização de um pai simbólico capaz de representar a instância moral. A falta vai se manifestar tanto na dificuldade de exercer a autoridade na relação com o outro como na de respeitá-la. Ocasiona, por sua vez, obstáculos no enfrentamento e na superação de conflitos, na ausência de rigor nas escolhas, com conseqüente possibilidade de envolvimento em diversas situações de risco, como delinqüência, prostituição, consumo abusivo de substâncias psicoativas, alcoolismo e gravidez desprotegida (Muza, 1998; Muzio, 1998).

Mesmo quando presente fisicamente, o pai mostra-se muitas vezes incapaz de promover uma relação respeitosa com os filhos. Não são poucos os pais que mostram uma enorme dificuldade em reconhecer e compreender as características da criança e do adolescente e transformam seus filhos em pequenos adultos, passando a exigir deles tarefas e responsabilidades que não estão aptos a cumprir.

Muzio sustenta que a privação paterna constitui para a criança uma ameaça tão grande quanto a privação materna, mas com efeitos diferenciados. A autora, embasada em Erich Fromm, “propõe que o pai, se bem que não represente o mundo natural, significa o outro pólo da existência humana, o mundo do pensamento, das coisas feitas pelo homem, da lei e da ordem, da disciplina, das viagens e da aventura. O pai é o que ensina a criança, o que mostra o caminho para o mundo” (Muzio, 1998:168).

A ausência de uma figura tão forte na família traz uma sobrecarga muito grande para a mãe, que passa a ser a única responsável pelo provimento material e emocional:

Com a ausência do pai, pode não haver uma transferência de

identificação da mãe para o pai, e a criança poderá permanecer

prisioneira de uma identificação com a mãe. A ausência do pai,

nesses casos, corresponde a um aumento da influência da

mãe, sobrecarregada, então, por uma responsabilidade pesada

demais para seus ombros. Por tudo isso, destaca-se a

importância do pai como fonte de identificação desde os

primeiros momentos do desenvolvimento do indivíduo e torna-

se possível compreender que um pai ausente ou um pai

psicologicamente fraco ou incapaz de assumir a paternidade

provoca na criança um sério déficit em sua identidade genital.

(Muza, 1998:145)

Essa mulher que assume o papel de provedora dos recursos econômicos da família não perde automaticamente a identificação simbólica que tem do homem como figura de autoridade. Ribeiro & Ribeiro (1995) afirmam que a autoridade masculina só é abalada quando o homem não garante o teto e o alimento da família, perdendo o papel de provedor. Nesses casos, a mulher opta por procurar a autoridade masculina perdida em outras figuras masculinas da rede familiar (mesmo filhos mais novos) ou nos novos parceiros.

Uma em cada cinco meninas entrevistadas nunca conviveu com o pai, seja por sua morte, seja porque foi vítima de abandono ou por sequer ter sabido quem é ele. Dentre as que conviveram por algum tempo com a figura paterna, a distância é tão grande que todas as lembranças se referem aos contratempos conjugais que os pais tinham com as esposas, sintetizados nos seguintes termos pelas jovens: mulherengo, irresponsável, galinha, brigão, agressivo, violento, louco varrido, chato. Enfocando aspectos positivos, duas meninas falaram do pai como maravilhoso, maneiro e eterno jovem.

Novas relações se formaram com a ruptura da organização familiar original, e metade das adolescentes relata a existência de padrastos convivendo no mesmo domicílio. Quando o padrasto assume a adolescente ainda pequenina, a aceitação de parte a parte parece se dar com maior facilidade. “Eu fui registrada pelo pai do meu irmão, então eu considero o pai do meu irmão como meu pai” (Ana). Cerca de 40% das entrevistadas têm também madrastas, com as quais convivem esporadicamente, nas novas casas onde vivem o pai e sua nova família.

A referência aos padrastos é muito mais extensa. As adolescentes dividem-se entre as que relatam bom e mau convívio. O que influencia positivamente essa relação é o bom tratamento dispensado a sua mãe e a seus irmãos, além da ajuda financeira no sustento da casa e o fato de o padrasto não se ‘meter na vida’ da adolescente. Assim, em alguns casos o padrasto é apontado como a figura que ocupa o lugar do pai.

Era bom, ele era uma ótima pessoa. Era como um pai pra mim.

Era, não: é. (Elisa)

O meu padrasto me adora. Me adora mesmo. Me adora de

graça. (Isabel) Me dou superbem. Adoro ele. Foi uma pessoa

que me apoiou muito nas horas difíceis. Não tenho nada que

reclamar dele. Gosto muito dele. (Eloísa)

Várias outras demonstram desafeto pelo padrasto, havendo experiências de agressões verbais e físicas entre ambos, o que freqüentemente leva ao afastamento da jovem do núcleo familiar.

Não gostava dele, não. Ele não gostava de mim, a gente só

vivia discutindo, discutia muito... Eu não dava muito papo para

ele, não. Quando ele falava comigo, era só para agredir. Falava

que eu ia acabar sendo traficante e acabou dando nisso. (Alba)

Eu não me dava muito bem com meu padrasto. Ele pegou um

pedaço de pau, foi e imprensou minha mãe. Teve um dia que eu

falei pra ele que eu ia na delegacia. Ele falou: se eu fosse, ele

ia me matar. Eu queria fazer trabalho dentro de casa, ele não

deixava. Eu queria alguma coisa pra fazer comida, ele não

deixava. Eu saía de casa por causa dele, que ele me batia. Me

colocava num caroço de milho, onde eu não gostava. Aí eu saía

de casa. (Inês)

A experiência negativa de muitas adolescentes com os pais e padrastos pode ser observada não apenas pela falta de limites, mas principalmente pela imagem deteriorada da figura masculina, que perpassa as novas relações estabelecidas com seus parceiros; pela maior apreciação das relações sexuais com mulheres durante a internação no ESD; e pela reafirmação da dependência e da subalternidade feminina (pois é o homem quem define e valora o comportamento feminino), como mostra Ester: “Meu pai não dava valor pra minha mãe. Não respeitava ela, tinha mulher na rua. O meu cunhado não dá valor pra minha irmã, bate muito nela. Agora ela casou com outro que dá valor”.

Observa-se no conjunto das histórias dessas meninas que, em geral, depois da separação, a relação do pai com a mãe e os filhos se distancia. Um fator que agrava a relação é a briga judicial pela pensão dos filhos, com a maioria dos pais recusando-se a ajudar nas despesas da antiga família. A entrada da menina na vida infracional é um fator a mais de desavenças, pois o pai responsabiliza a mãe pelo envolvimento da filha, e a acusação da mãe se dá na direção inversa.

As mães entrevistadas também tiveram problemas com a figura paterna, fechando assim as dificuldades e os conflitos no ciclo familiar. Pelo contato mais próximo que tiveram com os pais, detalham ainda mais a relação. Nos casos em que a mãe fracassou totalmente na relação com a filha, a lembrança do pai parece ser mais positiva, carregando um elevado peso de idealização. Gina, mãe de Antônia, constitui um desses exemplos. O pai começou outro relacionamento quando ela tinha cinco anos e nunca mais apoiou a família. Assim ela fala sobre ele:

Acho que foi o melhor pai do mundo! Era o homem que ia lá em

casa todo dia, levava bolsa de compras, levava dinheiro. Ele foi

lá para registrar eu e meu irmão. Minha mãe não deixou,

expulsou ele de lá. Aí ele nunca mais voltou, arrumou outra

mulher, arrumou outros filhos.

Glória, mãe de Isabel, dá outro exemplo:

Minha mãe não foi uma boa mãe, não, mas o meu pai foi um

bom pai. O meu pai sempre respeitou a minha mãe.

As piores lembranças relatadas são as que registram apenas as aventuras extraconjugais, a agressividade e o alcoolismo paternos. Daniela, mãe de Úrsula, conheceu o pai aos dez anos numa experiência pouco agradável:

Era assim muito carrasco. Na época que eu conheci ele, um

colega dele da polícia falou assim: – é tua filha? Porque todo

mundo falava que eu parecia muito com ele. Aí ele falou: – diz a

mãe dela. Aí aquilo me ofendeu, aí eu falei um monte de coisa

pra ele, e ele falou um monte de coisa de mim e da minha

mãe... Quer dizer: aquilo me magoou.

A figura do pai autoritário se fez presente apenas na fala das mães. Não ocorreu entre as adolescentes.

Meu pai só era durão, ele não deixava a gente pintar unha,

cortar cabelo, não gostava que minhas irmãs namoravam.

(Fabiana, mãe de Elena)

Ele era durão, não tinha corpo mole com ele, não. A gente

reclamava do agrotóxico e ele falava que a gente ia acostumar. Quando tinha uns sete anos, Alba foi raptada e desapareceu por vários dias. Não se lembra de ter sofrido agressão sexual, mas sim física e psicológica. A mãe deixa em suspenso a possibilidade de abuso sexual, embora Alba se mantivesse virgem. A mãe associa esse evento à transformação do comportamento de Alba. Desde então, esta diz que nunca teve nada com homem: “Acho até que sou virgem. (...) Só tive experiências ruins com homem, parece que os homens que entraram na minha vida foi só para infernizar ela”.

Ele falava e a gente abaixava a cabeça, ninguém respondia.

(Norma, mãe de Alda)

Os motivos apontados para a separação dos pais são: infidelidade do homem (também da mulher, em casos excepcionais), irresponsabilidade do pai, não cumprindo o seu papel de provedor financeiro, e a difícil convivência conjugal, provocada por discussões, brigas e consumo de drogas.

A experiência com padrastos também foi vivenciada pelas mães das adolescentes. Surgiram queixas de abuso sexual e dificuldades de relacionamento com as mães, que preferiam agradar o parceiro a tomar o partido das filhas. As mesmas queixas foram feitas pelas adolescentes ao falarem sobre a relação das mães com os padrastos, mostrando a recorrência desse tipo de comportamento.

 

Tornando-se o homem da casa: a vida de Alba

Não, não sou dessa praia, não. De sair de casa e deixar minha

mãe, minha mãe sofre muito por mim. Não vou deixar ela

sozinha. (Alba)

A vida de Alba traz um exemplo não muito freqüente de identificação da menina com a figura masculina. Como se verá mais adiante, grande parte das jovens entrevistadas mantém relações com os parceiros que reproduzem, em grande escala, o lugar secundário da mulher. Alba buscou um caminho diferente.

Aos 16 anos, já é totalmente responsável por sua família, composta por mãe e irmãos menores. Assumiu toda a autoridade masculina, a ponto de ser completamente masculinizada, tanto em suas vestimentas como nos gestos, na opção sexual e na inserção ocupacional. O pai se separou da mãe quando ela ainda era pequena, não ajudando a família. Alba é sua filha predileta, e trabalha com ele diariamente na feira. Ele sempre quis um menino, para ser seu companheiro de futebol. Alba cumpre esse desejo inconscientemente.

Nunca se deu bem com o segundo companheiro da mãe: “Era de sair na porrada. Rolava tudo: copo, faca... Ele era ruim pra caramba. Eu não gostava dele, não”. Ele bebia e se drogava. Nívea, sua mãe, não se separava por medo, temia por ela e pelos filhos.

Nívea sofreu abuso sexual intrafamiliar durante anos. Seus pais eram muito religiosos e rígidos, cheios de proibições, e praticavam violência contra ela. Procurou ser para os filhos o oposto do que seus pais tinham sido com ela: “Tudo que eu não tive da minha mãe tento passar pra eles. Às vezes perco a cabeça com tanta coisa, porque sou sozinha pra cuidar de tudo, e é muita gente”. Mostra-se completamente frágil e dependente do segundo marido, que, após impingir-lhe muitas agressões e fraturas, a esfaqueou. Alba assumiu, mais de uma vez, o papel de homem da casa, ao caçar o padrasto nessa ocasião em que a mãe quase morreu.

Alba sustenta a mãe e os irmãos. Parou de estudar e ganha o sustento familiar no tráfico de drogas, em que é considerada de igual para igual com os homens, e chamada por um nome masculino. É o esteio no qual a mãe e a família repousam.

Faz-se de homem em bailes e perante a polícia – o que é bom, pois a impede de sofrer agressão sexual. Satisfaz-se com isso. Entretanto, a qualidade que aprecia na relação sexual com mulheres é o carinho e a meiguice. Deixa nas entrelinhas sua capacidade de bater nas parceiras, assumindo um comportamento masculino de uso de força. No entanto, Alba mescla atributos masculinos com alma feminina. Na relação que estabelece com suas parceiras, torna-se a figura forte paterna e as domina, colocando-as no lugar simbólico da mãe. Ela reproduz, assim, um modelo de socialização hierarquizado e subalternizado, mesmo que tenha optado por não se relacionar com homens.

 

Mas eu era ainda uma criança...

Dorme tensa e pequena

sozinha como que suspensa no céu vira mulher sem saber

sem brinco, sem pulseira, sem anel

sem espelho, sem conselho, laço de papel, bambolê

sem mãe perto,

sem pai certo

sem cama certa,

sem coberta,

vira mulher com medo,

vira mulher sempre cedo.

(Elisa Lucinda, 1995)

É muito tenra a idade com que as protagonistas dessas histórias, as adolescentes e suas mães, começaram a vida sexual. Com freqüência, o fizeram escondido de suas famílias. A imaturidade física e emocional, a violência e a ausência de informações dificultaram ainda mais o início das atividades sexuais, tão idealizadas e valorizadas pelas meninas.

Estudo da Sociedade Civil de Bem-Estar no Brasil (Benfam, 1999) mostra que, em 1996, a idade média com que as mulheres brasileiras iniciaram relações sexuais pré-maritais foi de 16,4 anos. Analisando a década anterior, esse documento também afirma que aumentou o número de jovens que mantiveram sua primeira relação antes dos 15 anos de idade (23% do total em 1996), em sua maioria decorrentes dos contatos com namorados. Para as adolescentes entrevistadas nesta pesquisa, a primeira experiência foi mais precoce. Todas elas mantêm vida sexual ativa. Os namoros começaram cedo, em geral entre 10 e 12 anos de idade. Esse início costuma coincidir com o primeiro encontro com um namorado. Algumas relatam experiência sexual dois anos antes da menarca.

O tempo decorrido entre a ‘paquera’ e a relação sexual é breve, assim como é escasso o conhecimento entre os parceiros. A primeira relação dá-se muito mais pela necessidade de a garota se mostrar mulher, madura, omitindo, até de si mesma, as inseguranças e as fragilidades infantis ainda presentes. Esse momento é narrado como carregado de emoções ambíguas, em que se confrontam o desejo e o temor.

Ilda é uma dessas meninas: aos 13 anos de idade, passeando pela comunidade com sua irmã, foi vista e viu um grupo de rapazes que faziam segurança do gerente da boca, também presente. Logo a seguir, foi abordada por um deles, dizendo que um amigo queria conversar com ela, num lugar com menos movimento. Ilda deixou a irmã esperando e acompanhou o segurança até a casa do traficante. Em sua fala, relata sua primeira impressão do local: “O homem me levou numa casa bonita, a casa dele. Nossa! O quarto todo espelhado, o guarda-roupa todo espelhado”. A conversa a seguir entabulada abordou algumas questões. Para o rapaz, interessava a idade de Ilda e sua virgindade. Ao saber que ela tinha apenas 13 anos (“Vou fazer 14!”, afirmou a menina, pontuando seu amadurecimento), ele enfatizou a beleza de seu corpo, levantando a possibilidade de ficarem juntos e terem um filho. Ilda reagiu ao elogio, mostrando-se segura de si (“é a vida que faz a gente”), e fragilmente mencionou a impossibilidade de manter uma relação com ele, diante da fama do traficante de ter muitas mulheres e filhos. Deixou logo claro que “não é por ele ser dessa vida”. O encontro foi selado com um beijo.

Na semana seguinte, foi novamente chamada à casa dele e, na terceira visita, o namoro já estava firme e havia chegado o momento da transformação de Ilda em mulher, desistindo assim de “fazer os 15 anos direitinho”, conforme sua mãe sonhava. As músicas românticas, o lanche e o escuro criaram o clima do momento. A infantil observação de Ilda sobre essa situação exibe os sentimentos desta menina-mulher: “Ele até mandou comprar uma pizza. Tomamos refrigerante, comemos Danoninho. Tinha tanta coisa na geladeira, mas tanto Danoninho...”

Essa primeira relação foi relatada tanto por Ilda quanto pelas demais meninas como difícil e dolorosa, na qual se mesclam as fantasias e os medos de serem machucadas. A fala masculina de que ‘se fizer direitinho não dói’ não parece encontrar eco nas jovens, que manifestam dores durante o intercurso sexual e não obtêm prazer nesse ato. As garotas manifestam o conflito: “Eu queria, mas ao mesmo tempo não queria”, justificando, em última instância, a posição viril do macho que as desvirginou sem o uso da força física, pois haviam dado seu aceite, mas também sem a devida sensibilidade e cuidado necessários em uma primeira relação sexual com jovens de tão baixa idade. Esses conflitos podem ser percebidos nas falas das jovens.

Eu fui subindo assim. Quando eu não estava agüentando, eu

empurrava ele: não, não. Não quero! Mas não era à força, que

eu não queria mas ao mesmo tempo queria. (Ilda)

Foi legal, mas eu era muito nova. Eu vim a me realizar mesmo

com o outro, que era mais maduro. (Ingrid)

Foi bom, mas eu era ainda uma criança [12 anos]. Eu só lembro

que senti muita dor. Ele já tinha 17 anos. Pra transar a segunda

vez, eu fiquei com medo. (Úrsula)

Sei lá. Eu acho que eu tava muito nova [10 anos]. Me arrependi.

(Elen)

Tal qual essas adolescentes, a maioria das mães iniciou a vida sexual antes dos 15 anos de idade. Algumas delas ainda mais precocemente, como Helga, a mãe de Inês, que começou a sua atividade sexual aos nove anos:

Eu que me dei mesmo, eu não sei nem por quê, o que me fez.

Hoje, se me perguntar isso, eu não sei responder... Mas não foi

nada forçado, nada com violência, foi porque eu quis, mesmo.

Para muitas dessas mães, o início da vida sexual foi com os homens que se tornaram seus parceiros, com os quais se juntavam, muitas vezes tendo de fugir da família para alcançar tal intento.

Conforme enfatiza Duque-Arrazola (1997:380),

‘perder-se’ ou perder a virgindade significa, para a grande

maioria das moças e das mães, mais que uma questão

estritamente sexual; implica fortes alterações no padrão de

sociabilidade do cotidiano. Perde-se o direito à convivência e

proteção do grupo doméstico e, se esse ‘perder-se’ não resulta

na formação de um novo núcleo familiar, ocorre facilmente a

fuga do lar.

Essa reação foi constatada entre as entrevistadas, que sofreram as conseqüências da perda da virgindade (por opção ou decorrente de abuso sexual).

Acabou que eu me perdi com ele, mas eu não queria isso, não.

O meu sonho era casar de véu e grinalda, sabe? Eu era tão

criança [12 anos]! Eu queria que fosse mais velha... A gente

tava drogado, pra falar a verdade eu nem lembro direito como

foi a primeira vez. Mas quando eu sair daqui, eu quero fingir

que ainda sou virgem e arrumar um garoto só pra namorar.

Transar, só quando eu estiver bem mais velha. (Andréa)

 

Acaso, sonho ou projeto de vida? a gravidez e o

aborto

Depois menstrua e muda de medo

o de ser engravidada, emprenhada,

na noite do mesmo Aterro.

Tem medo do pai desse filho ser preso,

tem medo, medo

Ela que nunca pode ser ela direito,

ela que nem ensaiou o jeito com a boneca

vai ter que ser mãe depressa na calçada

ter filho sem pensar, ter filho por azar

ser mãe e vítima

ter filho pra doer,

pra bater,

pra abandonar.

(Elisa Lucinda, 1995)

A principal razão direta ou indiretamente alegada pela sociedade para a menina ficar restrita ao lar é resguardá-la de usufruir sua sexualidade, enquanto não estiver amadurecida o suficiente ou não encontrar o par ideal. Nos casos tratados adiante, todas as garotas já vivenciaram a perda da inocência feminina e se dizem ‘prontas’ a assumirem o comportamento adulto e aptas a decidirem por ter ou não os filhos que esperam.

O aumento da gravidez entre adolescentes tem sido comprovado tanto no país como no exterior, suscitando um questionamento sobre esse fenômeno representar ou não um risco à saúde. Há autores que a consideram um fator de risco biológico, psicológico e social, e a Organização Mundial da Saúde adverte para o fato de que a maturidade fisiológica e o crescimento linear da adolescente se completa, em geral, quatro anos após a menarca. Durante esse período, mãe grávida e seu filho podem competir pelos nutrientes, prejudicando a saúde de ambos. Logo, quanto menos idade tiver uma jovem, mais frágil é sua situação. Outros fatores, como baixa estatura e peso pré-gravídico denunciando desnutrição ou sobrepeso, são alguns dos fatores fisiológicos que podem interferir, aumentando a possibilidade de uma intercorrência na gravidez. A falta de acesso a informações e serviços, as relações sexuais desprotegidas, a ausência de pré-natal, a evasão escolar e as dificuldades familiares são problemas tipicamente associados à gestação nessa fase, servindo como entraves para o futuro desenvolvimento social da jovem. Muitas dessas assertivas apontam na direção de gravidezes indesejadas.

Dentre aqueles que não vêem a gestação na adolescência como uma questão de risco, o argumento mais forte é o de que uma assistência médica e social adequada pode suprir todas as dificuldades que, porventura, ocorreriam durante a gravidez. Questionam também a noção do filho ‘não desejado’, considerando que uma adolescente tem capacidade de querer e planejar sua prole.

Essa questão do desejo de ter um filho ainda na adolescência é de complexa compreensão. Destacam-se três comportamentos usualmente observados em relação a ela: o primeiro deles é a despreocupação e a desinformação a respeito, aliada a uma sensação de invencibilidade típica dos jovens, como se nada pudesse atingi-los nessa etapa da vida. As adolescentes chegam a engravidar por mero ‘acaso’.

Um segundo tipo de atitude é o de algumas que sonham ter filhos, como se esse evento tão carregado de conseqüências vitais fosse uma continuidade do tempo em que brincavam com suas bonecas ou com os irmãos menores. O sonho, elemento essencial para o amadurecimento e o crescimento, “não conhece barreiras e limites e nem mesmo aquele que sonha tem o poder de controlá-lo” (Costa, 1999a:32). Não há raízes que mantenham a jovem firme no solo quando a realidade se apresenta.

O terceiro comportamento é o da adolescente que quer ter uma criança como parte de seu projeto de vida. Costa o define como o caminho para a realização de um sonho. “É um sonho com degraus”, pois tem-se que “saber exatamente em que degrau está, quantas etapas galgou e quantas faltam para chegar lá”, além de medir o custo em esforço, dedicação e investimento. Logo, “o sonho nasce do inconsciente, o projeto nasce da consciência, do pensamento, da razão” (Costa, 1999b:35).

Essas atitudes foram, em diferentes intensidades e de forma interligada, observadas entre as jovens entrevistadas. A ocorrência de gravidez e abortos deu-se muitas vezes pelo mero acaso. O início da atividade sexual não veio acompanhado dos cuidados necessários à prevenção de gravidez, de doenças sexualmente transmissíveis e Aids, questões que não ocupam muito tempo do pensamento das jovens até que essas situações desabem sobre suas vidas. O uso de preservativo por parte dos namorados e o de anticoncepcional pelas meninas foi relatado por poucas. Dados nacionais também mostram essa realidade: apenas um terço das adolescentes brasileiras utiliza algum método de anticoncepção na experiência sexual pré-marital. A principal justificativa dada para esse comportamento foi “não se importar com isso” (Benfam, 1999).

No Brasil, 18% das adolescentes entre 15 e 19 anos já ficaram grávidas alguma vez (Benfam, 1999). Para as jovens infratoras, o ‘descuido’ no uso de medidas protetoras é responsável pelo fato de que cerca de metade das 27 entrevistadas já tenha engravidado, embora apenas seis delas tenham efetivamente tido seus filhos ou estivessem grávidas no momento da pesquisa. Esse diferencial esconde um elevado número de experiências de abortos espontâneos e induzidos.

Entre as alternativas mais utilizadas para a efetivação do aborto está a ingestão de remédios, chá de maconha e a prática excessiva de exercício físico. Há relatos de abortos que foram tentados por garotas muito jovens, o que não surpreende diante do precoce início da atividade sexual. Isadora, envolvida em prostituição, relata um aborto que teve êxito, ao mesmo tempo que o da sua irmã, também grávida e adolescente:

Eu tava com três meses e ela com dois, aí eu pegava minha

irmã no colo pra fazer força, ela me pegava, a gente levantava

bujão de gás, botava bujão de gás nas costas, bebia o chá.

Bebe o chá em jejum, não podia comer nada pra deixar o feto

desnutrido. Era amargo, quente e tinha que beber pegando

fogo. Era flor de cravo-de-defunto, cravo, canela, folha de

mangueira, uma porrada de coisa. E eu pensando: não vai sair

nunca. Engravidei duas vezes, mas uma eu perdi sem querer.

Apenas duas jovens planejaram a gravidez. Ambas poderiam ser colocadas dentre aquelas que a concebem mais como um sonho de vida. Ilda, mãe aos 15 anos, queria um filho que a ligaria ao namorado, gerente do tráfico local. Essa gravidez lhe possibilitou ter sua própria casa, obter destaque no movimento e dentre as demais esposas do marido, já que ela era “doida pra ter um filho”. Após meses com seu primeiro namorado, 20 anos mais velho, quis concretizar seu sonho e engravidou, porque ambos assim o desejavam. Antes do nascimento da criança o pai foi preso, mas colaborou com o sustento de mãe e filho até que fugiu da Delegacia Policial onde estava detido. Ilda delegou à mãe (que também a abandonara aos cuidados de parentes) a criação de seu filho e foi viver sua própria vida com outros rapazes envolvidos no tráfico.

Outra jovem, Eliana, engravidou, pois seu namorado lhe exigia um filho. Passou também a desejar procriar, como forma de provar sua feminilidade e manter seu parceiro. Relata como sua situação conjugal estava ameaçada:

Toda vez que a menstruação vinha eu ganhava uma surra,

porque ele queria de qualquer jeito ter um filho. Não é surra

mesmo, não, mas às vezes ele me dava uns tapas. Eu tinha até

medo quando a menstruação descia. Ele falava: tu é uma

pateta na vida, mesmo, nem um filho tu tem.

O desejo do marido de ser pai se contrapunha a um conflito interno da adolescente:

Eu queria ter, pra ele poder ver que eu podia ter, mas não é

aquele querer! Pra ele não ficar mais me perturbando. Mas eu

queria ter um filho mesmo, e dele mesmo.

Durante toda a gravidez, Eliana esteve interna na instituição. Não contou com apoio familiar algum, tendo recebido apenas duas visitas maternas enquanto esteve na unidade. Mesmo tendo sido doada por sua mãe ao nascer, Eliana sonhava ter o filho na casa da mãe, buscando assim reconstruir uma relação mãe-filha que nunca houve. Tanto a menina quanto as técnicas do ESD investiram meses nessa meta. Todos desistiram, ante o distanciamento da mãe em relação à filha e ao neto. Eliana foi ter o filho num abrigo público, não se sabendo o desenrolar dessa relação.

A única adolescente que assumiu a criação do filho ilustra o terceiro comportamento, o filho como um projeto de vida. Não que Eloísa tivesse inicialmente concebido a criança como o seu objetivo, mas a possibilidade desse acontecimento lhe permitiu redefinir suas metas. A jovem sentia uma paixão avassaladora pelo parceiro, que, em contrapartida, era muito ciumento e com freqüência a agredia fisicamente. Temeu por sua reação ao ficar grávida, por volta dos 14 anos. Entretanto, ele recebeu a notícia com muita felicidade e ambos optaram por mudar de vida: “A gente pára com a vida errada e vamos começar no caminho certo”, sugeriu o parceiro. Com dinheiro ‘limpo’, compraram as coisas para o filho e se abstiveram das drogas e de roubar durante toda a gravidez e enquanto a criança viveu. Aos cinco meses de idade, o menino foi hospitalizado com meningite e ficou quatro meses desenganado pelos médicos, sobrevivendo às custas de aparelhos que, certa noite, Eloísa e o marido desligaram. Com esse gesto, voltaram ao desatino e à vida infracional. Os sonhos e projetos calcados naquela criança foram dissipados.

Costa (1999a) alerta para a pressão que os adultos impõem aos jovens para terem um projeto de vida, lembrando que, para que este se efetive, o adolescente precisa de outros componentes, como auto-estima, autoconfiança e visão destemida do futuro. Exigir de um jovem um projeto de vida sem a aquisição anterior desses atributos é como “começar uma casa pelo teto”. É importante ter-se em mente esta concepção ao rever a vida das entrevistadas, em que as bases saudáveis que solidificariam a personalidade inexistem. Poucas garotas chegaram ao mesmo estágio em que Eloísa, que foi capaz de elaborar uma nova proposta de vida e por ela se modificar, medir os esforços e redimensionar sua vida em prol do amor ao filho. Mesmo assim, sucumbiu perante a enorme perda. Meses depois, já interna, essa jovem reavalia novamente seu futuro, tentando retomar a própria vida e seu amor próprio: “Hoje eu falo eu me amo mais do que eu te amo”, referindo-se ao sentimento que nutria por seu parceiro. Mostra sinais de que algumas paredes de sua própria casa começam a se solidificar.

As vidas das mães dessas jovens também merecem ser pensadas à luz dessa questão. São geralmente as escolhidas pelas filhas para cuidar dos netos recém-nascidos, apesar de terem abandonado seus vários filhos. As justificativas para esse ato de entrega nem sempre são muito claras. Em um caso específico, a própria avó pegou a criança no hospital e levou-a para sua casa, vaticinando que a filha adolescente não teria competência para educar uma criança, o que foi, aparentemente, aceito sem nenhuma queixa. Outras adolescentes alegaram preferir que a mãe ficasse com o recém-nascido por ser mais seguro, afastando-o assim do meio infracional e, por conseguinte, também da convivência com elas próprias.

A relação entre a mãe e a adolescente (agora também mãe!) parece se complicar ainda mais, pois surgem ciúmes da mãe, que outrora preferia os irmãos e agora gosta mais do neto, deixando a jovem mais uma vez abandonada. As cobranças maternas sobre a adolescente também aumentam, passando a requerer dela mais responsabilidade e auxílio financeiro.

Esses problemas recentes originados pelas gravidezes e pela chegada de novos membros para famílias já tão vilipendiadas vêm complicar ainda mais a vida das mães adultas. A ausência de projetos de vida entre as adolescentes é, na verdade, um prolongamento das mesmas ‘opções’ feitas por suas mães. Tiveram seus primeiros filhos muito jovens, entre 13 e 17 anos de idade, da mesma forma que suas filhas vêm fazendo.

Os comportamentos assumidos no decorrer de suas vidas refletem, essencialmente, os dois primeiros modelos aqui relatados com referência às adolescentes: deixar o acaso decidir o rumo de suas vidas ou optar pela criança como um sonho, uma idealização. Dentre as mães com muitos filhos, o habitual foi ouvi-las dizer que queriam ter o primeiro filho, pois “era um sonho que estava sendo realizado”. Os filhos seguintes “aconteciam”, mostrando uma total falta de planejamento: “deixa vir”; “onde come um, comem dois ou três”. Os filhos que vêm ao mundo sem ter sido sonhados multiplicam os sofrimentos maternos, como relata a mãe de Ingrid sobre seus cinco filhos:

Eu não queria outras gravidezes por causa do sofrimento. As

dificuldades são muitas. Não é porque eu não amava meus

filhos, não. Deus me livre! É porque eu sofria muito e não queria

isso pra eles.

A mãe de Úrsula também mostra a mesma reação ao falar dos seus, apontando a barriga onde carrega o oitavo:

Ter eles eu quis, mas não desse jeito. Igual a esse aqui agora,

eu não esperava ter esse.

Essa falta de planejamento tem sido considerada como um grave problema para a saúde pública do país. Estudo recente (Benfam, 1999) pontua que metade das crianças nascidas de mulheres entre 15 e 24 anos no país não foi planejada. Essa percentagem está diretamente associada à ordem de nascimento, isto é, 73% das mães com quatro ou mais filhos não programaram a gravidez.

A impossibilidade de tomar anticoncepcionais, a interrupção do remédio por enjôos, o desinteresse ou o desconhecimento em relação a qualquer método contraceptivo foram nomeados como os fatores que possibilitaram as gravidezes das mães entrevistadas. Nenhuma outra estratégia de contracepção foi citada, além do uso esporádico da pílula anticoncepcional. Apenas uma mãe diz que conseguiu operar, após o quinto filho, tomando dinheiro emprestado com vizinhos. A falta de uma política pública de saúde eficiente e capilarizada até esses segmentos da população pode ser constatada nas vidas das entrevistadas. Muitas engravidavam sucessivamente e não encontraram apoio educativo nem estratégico que as orientasse em outra direção. Passaram, incólumes, pelos ambulatórios e serviços de pré-natal.

Pesquisas recentes mostram que 100% dos jovens brasileiros conhecem algum tipo de método contraceptivo. As mulheres adultas informaram, em média, sete métodos. A pílula, a camisinha e a esterilização foram as estratégias mais mencionadas. As duas primeiras são compradas em farmácias, indicando a necessidade de suporte financeiro contínuo para uma prevenção eficaz. A esterilização é realizada em hospitais públicos, quando indicada. Os motivos mais alegados para a interrupção da utilização dos métodos foram os efeitos colaterais, o desejo de engravidar e o surgimento de uma gravidez durante o uso, indicando a má utilização da técnica (Benfam, 1999).

O resultado da falta de controle das mães entrevistadas sobre os seus próprios desejos e seu organismo fica evidente na fala de algumas que associam o nascimento de um filho não desejado (por vezes a própria infratora) com uma gravidez conturbada e problemas de depressão e nervosismo, culpabilizando até mesmo a criança nascida em tais condições. As tentativas de aborto surgem freqüentemente nas falas das mães:

Hoje em dia, eu agradeço de ter a Antônia, mas eu já fiz de

tudo para tirar, porque ela é ruim mesmo e não saiu, entendeu?

E tá aí, hoje em dia. Todas as duas eu queria tirar. Tomei um

monte de remédio, só que elas não saíram mesmo. Eu não

queria porque eu não tinha cabeça, eu era muito jovem, eu

queria viver a minha vida, só que Deus não quis. Ele quis que

elas ficassem aí e estão aí. (Gina, mãe de Antônia)

Outras tentativas de aborto foram feitas com vários filhos. Os critérios para tal decisão foram: as dificuldades financeiras; não ser a criança desejada pelo novo parceiro; o cansaço excessivo de cuidar de casa e de uma prole grande e a falta de desejo (ou de confiança para tanto) de ser mãe. Os recursos utilizados são variados, incluindo injeções, comprimidos e alternativas caseiras.

Ilda, a caçula de quatro filhos, conta como sua mãe sofreu ao engravidar dela:

Ela tomava remédio, já caiu da escada, já pegou muito peso.

Fazia aquelas coisas tipo assim, pra tirar a criança. E eu não

saí de jeito nenhum. Aí eu nasci. Mas ela não queria que eu

viesse.

Uma situação única foi a da mãe de Elisabete, obrigada pelo pai da criança a efetuar o aborto. Chegou a se deitar na mesa da clínica e começou a chorar, a ponto de o médico interromper o aborto. Apesar do desejo materno, ao nascer Elisabete teve o mesmo destino de seus irmãos: foi doada e recolhida sucessivamente pela mãe, “pela vida afora”. Outras situações de aborto foram narradas como decorrentes de violência física.

Em relação aos direitos sexuais reprodutivos, observamos, no

país, um aumento significativo de gravidezes precoces e de

abortos inseguros, índices alarmantes de doenças sexualmente

transmissíveis entre os jovens, alta vulnerabilidade à Aids e

elevada exposição a situações de abuso sexual e de

prostituição infantil. Acrescentando-se a esses graves

problemas os crescentes níveis de uso de drogas, temos um

quadro impactante e assustador da juventude brasileira.

(Benfam, 1999:7)

 

A gente era fanático um pelo outro: a repetição

do padrão

As adolescentes entrevistadas mostram alguma forma de rejeição ao padrão feminino socialmente esperado, representando um movimento de tentativa de libertação do que lhes foi oferecido como herança: a falta de saída, a submissão e o conformismo com o estilo de vida das mães. No entanto, esses modelos estão tão introjetados em suas vidas que elas tendem a repeti-lo, em intensidades variadas, em suas relações amorosas. Eloísa é um exemplo do estabelecimento de uma relação de total dependência à autoridade masculina.

Saiu de casa para viver com o namorado, com o qual ficou dois anos e dois meses. Ele era viciado em drogas e roubava táxis e lojas para obter dinheiro para o vício. Esporadicamente, envolvia-se com tráfico. Eloísa participava de tudo por causa do intenso amor e também do medo que sentia dele, não lhe recusando nenhum pedido. Era freqüentemente agredida fisicamente de forma severa, sendo obrigada a deixar sua casa toda machucada, refugiando-se em casa de colegas ou de sua mãe. Porém, sempre voltava, pois ele se arrependia e se mostrava culpado. Em suas palavras, era um “amor louco”, se entendiam sexualmente muito bem e sempre se procuravam: “Eu brigava muito com a minha mãe por causa dele. Eu acho que eu briguei com o mundo por causa dele. A gente era fanático um pelo outro”. Ele tinha profundos ciúmes de Eloísa. Não era mulherengo, pois estavam sempre juntos. Até nos roubos só queria Eloísa por perto, obrigando-a a acompanhá-lo. Eloísa manteve-se leal a ele até a sua morte – ele foi assassinado enquanto ela estava presa. Por várias vezes, quase morreram juntos.

Teve muito medo de ser maltratada pelo rapaz ao ficar grávida, mas ele recebeu bem a notícia. Como já relatado aqui, a criança morreu e o casal voltou à vida infracional. Eloísa diz que, após a primeira prisão, o marido saiu mais agressivo e descontrolado. Ele a impedia de contatar a família, que até hoje não sabe do nascimento e da morte da criança. Solange, a mãe de Eloísa, não visitava a filha para não causar problemas com o rapaz. É considerada culpada por Eloísa ser do jeito que é, tanto pelo primeiro marido (pai de Eloísa) quanto pelo atual padrasto. Acusam-na de não ter controlado a filha, deixando-a muito solta. Solange reage dizendo que também foi solta, mas nem por isso se perdeu.

A vida de Solange foi muito difícil. Muito cedo seu pais se separaram. Ficou um tempo com o pai até que a mãe mandou raptá-la. Sofreu abuso do padrasto por toda a sua adolescência, com o conhecimento materno. Denunciou-o à polícia, sob os protestos da mãe, que lhe pedia para mentir, dizendo que inventara tudo. Voltou então a morar com o pai, mas rapidamente se casou, buscando ter sua própria casa. Logo se separou do primeiro marido, voltando para a casa da mãe e do padrasto abusador. Reatou esse casamento por diversas vezes, deixando com o primeiro marido a filha mais velha (diferentemente de Eloísa, “muito ajuizada”), por temer o comportamento do padrasto.

Para distanciar-se do padrasto, arrumou um segundo marido, o pai de Eloísa, que a deixou bem de vida, mas era excessivamente ciumento. Na separação, perdeu tudo o que tinha. Casou-se com o terceiro companheiro, de quem Eloísa gosta mais do que do pai. Teve um filho com ele, além de criar mais dois dele. Solange assinala que nenhum desses homens bateu nela.

A relação mãe-filha é boa, mas distante. Eloísa conta:

Eu tenho uma mãe muito liberal. Não fazia tudo que queria,

mas essas coisas que ela via sem importância, ela não

esquentava, não. Minha mãe era muito minha amiga, sabe?

Qualquer coisinha eu chegava pra ela e contava.

Na história de ambas existe ciúme do parceiro, o pouco carinho do pai e a necessidade da figura paterna, além de brigas e reconciliações. Eloísa teve dois modelos femininos na família: o amor incondicional da avó por seu marido abusador (padrasto de Solange), com o qual ainda vive; e a falta de compromisso de sua mãe, que ao menor problema desiste do companheiro ou de cuidar dos filhos. A identificação de gênero como sinônimo de sofrimento parece aproximar mãe e filha.

Tanto na vida das jovens quanto na de suas mães, percebe-se uma relação pautada pela cultura machista. As adolescentes procuram homens que, em sua grande maioria, exercem atividades ilícitas e são jovens – excetuando-se casos em que o envolvimento é com gerente e dono de pontos de droga de idade mais avançada. Os namorados logo se sentem seus donos e, como tal, consideram-se detentores de vários direitos sobre elas: “bem ou mal é [dono], porque ele tá contigo, te sustenta, você depende dele” (Ingrid). Trazem consigo a certeza histórica de que as mulheres devem ser submissas aos desejos e às ordens do macho, pois foi dessa forma que se constituiu a vida de suas mães. Elas reproduzem o que há de pior na dominação milenar: a definição do homem como senhor e da mulher como serva e o conseqüente papel de cada um.

Os namorados não abrem mão de usufruir de seus ‘direitos masculinos’, nem quando batem nas namoradas, tampouco quando não se privam de viver as relações que desejarem ou lhes convierem. A constatação de que seus companheiros têm outras mulheres é assumida como fato consumado, tornando-se um motivo secundário para as desavenças entre o casal, como podemos perceber na fala de Ilda, que morava com um gerente-geral do tráfico, de 32 anos:

Não adianta a gente brigar, porque bandido não tem uma

mulher só. Mas o que ele mais importa é aquela que tá ali em

casa, que faz as coisas pra ele e que tá ali todo dia. As outras,

não... É pra comer e jogar fora.

Logo os homens são perdoados, pois “faz parte da sua natureza”, e a culpa recai sobre as outras mulheres, “que perdem a linha por causa de pó”. A internalização da ‘dupla moral’ foi eficientemente realizada no processo de amadurecimento dessas jovens.

Tem o lance das minas que ficam dando em cima direto, por

causa de pó, do dinheiro ou mesmo para dizer que está com

alguém poderoso do tráfico. (...) Ele falava que era verdade [as

traições]. Ele assumia que era homem e tinha que comer.

A fala feminina condena a violência dos pais sobre as mães, evidenciando revolta e disposição para uma possível denúncia. Essa mesma fala justifica a relação semelhante que elas estabelecem com os parceiros. A agressividade no relacionamento conjugal surge como algo naturalizado pela cultura, fazendo parte da realidade cotidiana desse grupo. Por isso não desenvolvem raiva pelo companheiro, ao contrário: muitas vezes dão a eles razão por seu comportamento violento e consideram que fizeram por merecer. É verdadeiro também o fato de que nem todas as jovens aceitam sofrer violência dos parceiros, reagindo firmemente e desejando fugir do padrão feminino de vitimização que aprenderam. Inês é uma das que reagem a esse padrão de dependência. Não admite violência física:

Um homem vem me bater, vem dar na minha cara, não deixo,

não. Tem muito homem que gosta de dar na cara de mulher.

Não deixo, não. Fico uns dois, três dias com ele e largo.

Algumas obtêm êxito, mas geralmente depois de passarem por um primeiro episódio violento. Chegam a ameaçar o companheiro se o evento se repetir. Apesar disso, mesmo essas meninas mais arrojadas sentem-se, em outras áreas de sua vida, dependentes e frágeis, submetendo-se a outros tipos de subalternidade.

Conscientes de que não têm poder sobre os homens e alimentam sonhos que dificilmente se realizarão, essas meninas investem na relação e sonham com uma história de amor idílico. Várias selam esse sonho ao tatuar no corpo o nome do namorado próximo ao seu, ao lado do desenho de uma flor, mesmo que para isso tenham de sofrer: “É uma tatuagem verdadeira, feita de agulha. Já tenho três anos com ele. Doeu à beça”.

Torna-se claro que, apesar das numerosas experiências amorosas negativas que acumularam em suas vidas, a esperança de encontrar alguém que seja ‘para sempre’ não se dissipa. Essa visão idealizada e romântica sobre o amor, própria das meninas adolescentes, está presente em todos as partes dos diários.

Quem ama sofre, quem sofre sente, quem sente luta e quem

luta vence. (Elena)

Para a palavra amor não existe tradução, só quem pode

traduzi-la é o nosso coração. (Antônia)

O amor é cego, o destino é cruel, mas jamais infiel. Às vezes

acontecem coisas que nem podemos explicar, passam barreiras

e lutas que nem queremos aceitar, mas o destino aparece do

nada e invade nosso caminho e enche nossas vidas de

problemas e espinhos. Mas, quando queremos um amor e por

ele lutamos, pisamos sobre esses espinhos e quando por fim

esses problemas estão resolvidos, ganhamos a vitória de um

grande sorriso, o amor. (Úrsula)

Os trechos que se referem aos namorados também são muitos, demonstrando a profunda saudade que sentem dos companheiros, muitos deles presos, como elas.

Olha gato, estou muito triste por você estar preso aí no Padre

Severino. Sei que é um inferno. Também estou presa e estou

morrendo de saudade dos seus beijos, dos seus carinhos e do

seu jeito de amar. (Elena)

Estou triste, com o coração partido. Ando pensando onde

estará essa pessoa que tanto amo, não recebi mais notícias

estou preocupada. Queria ao menos ter uma oportunidade de

vê-lo novamente, como sofro por esse amor! Meu amor, queria

poder estar ao teu lado para esquentar o meu corpo no seu,

embriagar-me em seus beijos, molhar sua pele com o suor do

meu rosto, acariciar todo o seu corpo, enfim queria realizar

todos os meus desejos. Você me faz falta neste lugar, pois você

se tornou pra mim muito especial e inesquecível. Nunca se

esqueça que o meu objetivo aqui dentro é você, por isso nunca

estrague esta luta. A última coisa que eu queria neste momento

era que você me abandonasse. (Ingrid)

Tu me fizeste te amar, precisar de você. Sentir falta dos seus

braços, sonhar com seus carinhos, lembrar dos nossos bons

momentos. E de repente, sem eu imaginar já não quer mais me

ver. Hoje sou apenas a prisioneira que você desconhece, mas

amanhã aquela que te ama e que jamais te esquece. (Úrsula).

Nas mães, não se percebe mais essa imagem idealizada do romance e dos homens, substituída pelo provedor material para os muitos filhos que precisam alimentar. Elas têm uma visão muito sofrida e pouco romântica do futuro. São mulheres ainda jovens, que desistiram de sonhar e apenas se preocupam em cuidar da casa, das próprias crianças e dos netos que começam a chegar.

A socialização feminina tradicional, marcada pelo poder e pelo domínio patriarcal, se perfeitamente realizada, manteria a mulher no terreno do lar e da família. Nos relatos das entrevistadas, pode-se perceber que várias falhas ocorreram, permitindo algumas variantes em relação ao modelo tradicional. A frase de um técnico do ESD que se referiu às meninas como ‘brinquedos de encaixe’ sintetiza as duas idéias básicas sobre a construção social da mulher: a noção de objetos que são utilizados para trazer o prazer daquele que os manipula e a eterna necessidade de complemento, como se precisassem sempre do encaixe, para se sentirem inteiras. Nesse sentido, a socialização feminina das jovens e das mães entrevistadas foi muito bem-sucedida.