Filhas do mundo
5 - A vitimização emocional
A vitimização emocional é outro fator crucial para a compreensão do encaminhamento das jovens para o universo infracional. Costuma ocorrer acompanhada do abandono, mas tem dinâmica própria. Embora todo ser humano esteja sujeito a vivenciá-la, as mulheres se encontram em posição de grande vulnerabilidade a ela. Como afirma Garbarino,
rapazes externalizam seu comportamento através da agressão,
garotas são ensinadas a falar sobre o que sentem. Rapazes
são ensinados a punir outras pessoas, enquanto garotas são
ensinadas a manter suas dores dentro de si. (Garbarino,
1999:52)
Certamente, o custo dessa internalização é elevado.
Uma das formas mais comuns de abuso emocional é a rejeição. A rejeição da criança pelo adulto ocorre quando este, consciente ou inconscientemente, se recusa a reconhecer a importância da criança e a legitimidade das suas necessidades. Freqüentemente, não é percebida por quem a pratica, que se respalda em várias racionalizações que justificam as atitudes para com a criança ou adolescente vítima. A forma como a criança percebe e significa uma vivência de rejeição é responsável pelas conseqüências.
A rejeição é considerada como um ‘câncer psicológico’, pois vai se desenvolvendo paulatinamente e interferindo no desenvolvimento da auto-estima da criança, na sua competência social e na sua capacidade de estabelecer relacionamentos interpessoais íntimos, positivos e saudáveis. Crianças que sobrevivem a severa rejeição na infância podem sofrer de retardo emocional, no qual o embotamento afetivo dificulta a relação entre indivíduos adultos (Garbarino, 1999).
Um estudo antropológico sobre rejeição (Rohner, apud Garbarino, 1999), realizado em mais de uma centena de culturas, mostra que, embora cada cultura tenha uma forma particular de expressá-la, em todas elas as crianças rejeitadas têm maior risco de problemas psicológicos, que incluem baixa auto-estima, problemas no desenvolvimento moral e dificuldades em lidar com a agressividade e a sexualidade.
Essa forma de abuso emocional costuma se associar a outras em que o adulto isola a criança, separando-a de experiências sociais normais, impedindoa de fazer amizades e afastando-a de todos; aterroriza-a, agredindo-a verbalmente, criando um clima de medo, ameaçando-a e amedrontando-a; ignora-a, privando-a de estimulação essencial e reação, reprimindo o seu desenvolvimento emocional e intelectual; corrompe-a, conduzindo negativamente a socialização da criança, estimulando-a a se engajar em comportamento anti-social destrutivo, reforçando este desvio e tornando a criança inadequada para a experiência normal (Garbarino, Guttman & Seeley, 1986).
Jogadas na lata de lixo
Uma das mais evidentes formas de rejeição materna às adolescentes entrevistadas pode ser constatada pelas expressões que elas usavam para descrever as filhas. Colocando lado a lado os adjetivos positivos e negativos, surpreende a maior dimensão do segundo grupo. Vale ressaltar que esse rótulo negativo geralmente ocorre ao comparar a menina entrevistada com outro irmão ou outra irmã.
A descrição da maioria das mães mostra que as meninas são: desobedientes, desaforadas, implicantes, preguiçosas, agressivas, violentas, ciumentas, descuidadas, chantagistas, egoístas, inseguras, teimosas, sem limites, influenciáveis, gananciosas, atiradas, incompetentes, agitadas, rebeldes, petulantes, malcriadas, levadas, interesseiras, impossíveis, irresponsáveis, deprimidas, moles, safadas, desavergonhadas, atrevidas, respondonas, avançadinhas, masculinizadas e nervosas. Estes adjetivos tanto podem significar formas inconscientes de rejeição como a existência de atributos de personalidade mais fortes, com os quais as mães têm maior dificuldade de lidar.
As adolescentes não parecem perceber explicitamente essa desvalorização. Contudo, o impacto emocional ficou mais evidente quando mencionavam ser filhas indesejadas pelos pais, seja pelas tentativas de aborto ou pelas constantes críticas que lhes fazem. Algumas dessas meninas carregam o fantasma da rejeição mesmo antes de nascer.
Antônia é uma delas. Sua mãe, Gina, também passou pela mesma situação, pois não era querida pela mãe, que preferia o filho homem. Na família, corria a história de que Gina fora achada na lata de lixo. A relação de Gina com sua mãe foi sempre difícil, pois apanhava violentamente e sofria recriminações cotidianas, como se nota em sua fala:
Minha mãe me batia muito. Eu apanhei muito. Eu tinha que
dormir no canto da cama, meu irmão tinha que dormir perto
dela. Ela dizia: ‘Sai pra lá, você não presta. Não sei pra que eu
fui ter você, achei você na lata do lixo e peguei você’. No meu
aniversário de 18 anos eu joguei isso na cara dela. Eu gostava
dela, mas amar, amar com sinceridade, eu nunca amei, não.
Quando engravidou das duas filhas, Gina tentou abortá-las sem sucesso. Drogava-se muito nessa época, o que a fez abandonar ambas desde pequenas. Inicialmente, Antônia ficou com a avó, depois com uma ‘madrinha de santo’, com uma tia, em abrigos e na rua. Vê-se como enjeitada pelos pais desde sua concepção:
Minha mãe fala que meu pai foi muito ruim, que não quis me
criar. A minha mãe também não quis me assumir. Tem um
monte de história que me colocaram num saco de lixo, num
caminhão de lixo, lá. Aí eu fui crescendo, crescendo, sem
conhecer a minha mãe.
As histórias de rejeição se repetem na família.
Gina faz distinção entre Antônia e a outra filha que deu de ‘papel passado’, com quem pouco convive. Vê em Antônia um retrato seu: negra, infratora, rebelde. Sobre a outra filha, diz que ”é clarinha, tem cabelo liso e é linda!”, deixando antever sua falta de apreço pelas características estéticas da sua raça e a rejeição de si mesma por possuir tais atributos.
A vida de Antônia na casa da tia também foi marcada por conflitos, frutos da má relação de sua mãe com essa parente. Embora tenha sido afetivamente ligada a essa tia, distanciou-se pelas críticas que ela fazia à sua mãe por tê-la abandonado e pela insistente comparação entre as duas, levando Antônia a acreditar em sua veracidade: “Eu e minha mãe somos as ovelhas negras”. Gina atribui toda a responsabilidade pelo que aconteceu a Antônia à tia que a criou e dificultava sua a proximação, sem a menor crítica sobre seu distanciamento, durante longos anos.
Boa parte do período em que Gina se ausentou, esteve presa por envolvimentos com roubos e tráfico de drogas. Na prisão, assumiu comportamento homossexual, que mantém em suas recentes relações.
Antônia passou parte de sua adolescência na rua, ganhando dinheiro com prostituição, vendendo drogas e roubando. Sofreu um estupro e praticou dois abortos. Tentou em vão, por várias vezes, conviver com a mãe nos inter valos em que estava em liberdade. O intenso consumo de drogas e a preferência da mãe pelas parceiras sexuais não deixaram espaço para a constr ução de um relacionamento entre mãe e filha. Apesar disso, Antônia sempre buscou o amor de sua mãe, aceitando o pouco que esta podia lhe dar, como se pode notar no relato que faz de uma de suas visitas enquanto esteve internada:
Meu diário, queria te contar que ontem fiquei muito feliz porque
a minha mãe veio me ver. Como eu há muito tempo não via ela,
fiquei meio triste e alegre. Encontrei um sentimento de amor Embora pareça estar havendo certa aproximação entre mãe e filha, não se apagou o sofrimento originado pelo abandono e pela rejeição na vida de ambas. A incapacidade de Gina em ver as necessidades físicas e emocionais de Antônia e a sua rejeição ao papel de mãe são pontos fundamentais na explicação das dificuldades vivenciadas. Mostra-se mais como uma amiga do que como mãe, atitude muito comum em várias genitoras entrevistadas.
dela por mim, acho que ela gosta de mim. Realmente eu
pensava que ela se preocupava só com a ex-mulher dela, mas
depois eu vi que estava errada, porque ela também se
preocupa comigo. Mãe, eu te adoro!
A incerteza sobre o amor da mãe a persegue, a ponto de afirmar: “Se acontecer alguma coisa comigo na rua, eu acho que ninguém vai ligar, minha família não vai ligar, minha mãe não vai ligar”. Antônia sabe, intimamente, que está só em sua luta pela sobrevivência.
A relação que Gina vem tentando estabelecer com Antônia na instituição é um fato inédito na vida de ambas. Gina trata-a não como uma adolescente de 15 anos, mas como uma mulher adulta de 15 anos, que tem de ser responsável por si mesma e pela família que vier a constituir com uma mulher. Acredita que a filha não vai mudar de vida. Parece ver em seu trajeto o próprio caminho. E não está muito errada em sua percepção.
A identificação física e comportamental entre ambas é cada dia maior: a cada novo comportamento masculino de Antônia, aumenta a aprovação materna, situação que teve seu ápice quando esta decidiu adotar a mesma opção sexual da mãe. Gina afirma a esse respeito:
Eu curti, eu achei o maior barato. Eu não posso criticar ela
jamais. Eu jamais vou criticar ela. Eu queria que minha tia visse
porque ela ia falar: tal mãe, tal filha.
Outras situações vividas por ambas se assemelham: Antônia também foi presa por roubo e se envolveu com tráfico; ambas usam drogas pesadamente, consomem bebida, têm muito ciúme e batem nas amantes, são agressivas, estão ameaçadas de morte, dependem de ritos da macumba e dos santos para pensar e decidir sobre a vida, tiveram relações sexuais com homens e não gostaram, viveram na rua e gostariam de ter nascido homens. Ambas criticam muito suas mães.
Filhos preferidos
Um caminho que facilmente leva muitas mães a provocar o sentimento de rejeição na prole é a preferência por determinado filho que concentre características avaliadas como positivas. Analisando a fala das mães, fica evidente o que para as adolescentes é apenas uma suposição: a preferência por outro filho, em geral homem, ou então por uma filha que tenha o típico perfil feminino e doméstico, assuma o cuidado da casa e dos ir mãos e auxilie na difícil tarefa de controle familiar. É importante apontar que muitas das críticas feitas às filhas ‘rebeldes’ relacionam-se a conflitos típicos da adolescência, como, por exemplo, responder aos pais e manifestar desejo de independência.
Ao falarem sobre as filhas envolvidas em infrações, lembram várias características negativas. A mãe de Inês ressalta seus problemas ‘de nervos’ e a dificuldade para dormir, enquanto do filho homem só fala coisas boas, “sempre foi mais tranqüilo”. A mãe de Ingrid fala assim da filha, apelidada de ‘Preta’ (que se sente, por essa razão, diminuída):
Ela não é obediente, ela responde, tira todo mundo do sério, é
desaforada, preguiçosa, ciumenta demais, chantagista, egoísta,
agressiva e atirada com os homens.
Da outra filha, a quem chama de ‘Branca’ e a quem se diz mais apegada, só atribui características positivas: “Ela era mais tranqüila, mais calma. Pedia pra ir me ajudar no trabalho”.
A mãe de Isadora também a compara com as outras:
Ela sempre foi muito danada. Sempre foi uma garota muito
petulante, muito malcriada, desde pequenininha. Ninguém
conseguia pôr limites nela, ela que mandava na gente, se
bobeasse. Tinha um temperamento totalmente diferente das
outras. Temperamento muito forte, sabe? Não gosta de
obedecer ordens. Ela sempre foi mais levada. As outras sempre
foram mais calmas. A mais velha sempre foi a mais sensata.
(Telma)
Essa preferência materna por algum filho agrava o convívio entre irmãos, já deteriorado pela pouca intimidade existente entre eles, que cresceram em diferentes núcleos familiares.
Eu sou a caçula e não quero outro irmão depois de mim, não.
Já chega meus irmãos antes de mim, que é uma guerra danada
por causa de ciúmes. Eu acho que a minha mãe dá mais
atenção a eles do que pra mim. (Ilda)
A situação se complica ainda mais quando a adolescente tem seu filho criado pela mãe, nova pessoa a dividir o afeto materno. Ilda continua a falar de seus ciúmes: ”Ainda tem o neto. Agora tudo é o neto!”
Os ciúmes entre irmãos são difíceis de serem administrados pelas mães. Por um lado, há os parcos recursos econômicos para distribuir entre tantos filhos; por outro, dificuldades emocionais delas próprias também contribuem para as complicadas relações que mantêm com os filhos. Tendem a reproduzir os mesmos mecanismos de comunicação que tiveram com seus irmãos na família de origem, dos quais a maioria se encontra isolada.
Constrangendo pelo medo e pela ameaça
Outra forma de vitimização psicológica decorre de agressões verbais que instauram o clima de medo e ameaças e aterrorizam uma criança, trazendo dificuldades para estabelecer relacionamentos futuros baseados em confiança. Venguer et al. (1998) revelam a importância dessa forma de violência sobre a mulher, que pode incluir gritos, ameaças de dano, isolamento social e físico, ciúmes e possessividade extrema, degradação, humilhação, insultos, críticas constantes, acusações sem fundamentação e atribuição de culpa por tudo de errado que acontece, dentre outras formas de intimidação.
Essa situação foi vivida por Alda, que aos 13 anos de idade foi presa por acompanhar o namorado num homicídio. Vive com o pai, a mãe e uma ir mã em zona rural do Rio de Janeiro. Desde os dois anos de idade ia trabalhar na lavoura, prática que se recusa a continuar desde que começou a se sentir mal devido a envenenamento por agrotóxicos e foi operada no estômag o.
Para compensar sua deserção da atividade responsável pela sobrevivência familiar, Alda assumiu todo o serviço doméstico, fazendo-o bem feito, segundo a própria informação de sua mãe. Também já tinha feito faxina em outras casas, contribuindo para o sustento da família. Contudo, essas tarefas não são valorizadas pela família, que se ressente da redução da força de trabalho na roça:
Eles ficavam me jogando coisas na cara, que eu era feia, que
era pra mim sair de casa. Que eu não merecia aquele prato de
comida, que eu não trabalhava pra merecer. (...) A mãe me
jogava na cara que se soubesse que eu ia ser assim, tinha me
deixado morrer quando eu era criança.
Outro ponto de discórdia entre Alda e seus pais é a questão moral. Eles nunca aceitaram seus namoros, e questionavam sua forma de se vestir, considerada muito avançada para o meio em que viviam. A situação se agravou quando Alda começou a fugir de casa, devido ao seu envolvimento com um adolescente que já tinha um filho e era infrator. Nessas fugas, passou pelo Conselho Tutelar duas vezes, que a devolveu à família sem sequer se aperceber dos problemas vivenciados pela menina, ouvindo apenas a versão dos pais. O abuso emocional sequer foi imaginado pelos conselheiros, pois não se preocuparam em realizar um acompanhamento familiar para dirimir a fonte dos problemas. Restringiram-se a questionar a fuga de casa e a devolver a adolescente ao núcleo familiar.
A suposição de que Alda teria perdido a virgindade provocou uma forte reação dos pais, da irmã e da comunidade religiosa à qual pertencem, que tornaram o cotidiano da menina ainda mais insuportável:
Você é a vergonha daqui de casa. Se eu pudesse, te botava
fora daqui de casa. Só não boto porque senão vai ser ruim pra
mim, porque você é de menor ainda. (Pai)
Se você tiver grávida eu juro que eu te mato, pra matar a
criança que está dentro de você. Se não, quando você ganhar
eu dou pros outros. (Mãe)
Mãe, manda esta piranha sair de casa, ela estava lá com
homem. Pelo menos assim, o dinheiro que você vai dar pra
comprar as coisas pra ela fica pra mim. (Irmã)
O início das relações sexuais marcou Alda como ‘perdida’, não sendo mais admissível a seu pai ficar “sustentando mulher desavergonhada em casa”, já que “com o trabalho ela não queria nada” e ficava “colocando mau exemplo pra irmã, que é quietinha”.
O sentimento de rejeição vivenciado por Alda é associado a dois motivos: seus pais preferirem a irmã e o fato de ela não se encaixar no único modelo familiar aceito pela comunidade. No entanto, o que mais lhe causou sofrimento foram as constantes ameaças – que iam de agressões físicas até a perda de direitos básicos, como a alimentação – e as agressões verbais que a humilhavam. Impressionou muito as pesquisadoras a retração afetiva dessa família, especialmente da mãe, extremamente rígida. Alda, embora manifeste grande emoção ao falar do namorado e da dor que sente pelos maus-tratos a que sua família a submete, denotou total ausência de afeto ao falar da vítima de homicídio, de cuja cumplicidade na morte é acusada. É como se o abuso emocional arraigado nessa família tivesse secado qualquer fonte de afeto ali existente.
Induzindo à infração
Eliana teve sua mãe presa, tal como Ester, Anita, Elisa e Antônia. Todavia, para Eliana a situação foi diferente, pois encontrou na figura materna o aprendizado, passo a passo, sobre como cometer infrações. Essa indução a comportamentos ilegais tem sido chamada como abuso emocional do tipo corrupção (Garbarino, Guttman & Seeley, 1986). Ocorre quando a necessidade de identificação da jovem com a figura envolvida em comportamentos criminais é estimulada e reforçada pelo adulto. Na prática, seria muito mais freqüentemente caracterizada entre as entrevistadas se fossem considerados outros parentes mais afastados, como tios e primos.
Jovem de 17 anos, Eliana foi entregue a pais adotivos desde os dois meses de idade, pois os pais naturais não tinham condição de criá-la. Seus pais substitutos, bem mais velhos, deram-lhe muito carinho, a ponto de provocar ciúmes nas próprias filhas naturais, sendo por elas acusados de não imporem limites à adolescente. Entretanto, Eliana sempre ouviu de seus familiares adotivos críticas severas a sua mãe, por roubo, prostituição e assassinato, e era comparada a ela por mentir e ter problemas na escola. O rótulo surtiu efeito após uma severa agressão sexual por quatro desconhecidos. Essa violência marcou sua vida. Aos 15 anos, deixou os pais que sempre a protegeram e procurou a mãe, até então “uma estranha” para a adolescente.
Valdete, a mãe de Eliana, vive com novo companheiro e quatro filhos, tendo abandonado apenas Eliana. Tentou inicialmente devolvê-la aos tios; depois passou a ensinar-lhe a profissão da qual a jovem fala com muito orgulho:
Aí a minha mãe é uma profissional em roubo. Se ela conversar
contigo, se você estiver com a sua bolsa, ela abre a sua bolsa,
pega a sua carteira e você não vê ela tirando a carteira do teu
bolso. Ela é profissional! Aí ela foi me ensinando. Roubando,
morando, tudo junto.
Os vários golpes ensinados por sua mãe deixam antever a interseção do roubo com a prostituição. Eliana passou a participar ativamente dos roubos, mas inicialmente se mostrou angustiada em relação à prática de prostituição, pois ainda era recente a sua experiência de estupro.
Com o passar do tempo, tornou-se tão profissional quanto a mãe. Começaram a agir separadamente, pois as duas ‘estranhas’ não conseguiram manter qualquer relacionamento amigável. Os conflitos aumentaram quando Valdete não aceitou o comportamento da filha com o namorado. Também ladrão, a ele Eliana obedecia cegamente, até que foi assassinado. Diz que hoje a mãe se culpa por ter-lhe ensinado a roubar.
De todo o período em que conviveram, ficou a sensação de estranhamento, como se constata na fala de Eliana:
Antes eu só via minha mãe de vez em quando. Era como uma
estranha para mim. Eu também não entendia muito bem porque
ela não ficava comigo. Depois eu vi que a minha vida estava
muito igual à dela e eu achei que nessa vida ela podia me
ajudar.
Valdete nunca visitou Eliana na instituição, abandonando-a mais uma vez. Eliana conta as várias perdas de sua curta vida: o pai e o namorado assassinados, os pais adotivos, aos quais tanto fez sofrer até que desistissem dela, além da mãe, a quem realmente nunca teve.
O preço da falta de convivência Uma das conseqüências do abandono e do abuso emocional que muitas das mulheres entrevistadas vivenciaram é a sensação de estranhamento, ao se reencontrarem, já na adolescência da filha. A distância que se estabeleceu entre elas as assusta quando são obrigadas a viver, pela primeira vez, juntas. Ana registra em seu diário a dificuldade de manifestar sentimentos em relação à mãe:
Queria poder dizer para minha mãe as coisas que nunca tive
coragem de dizer quando estava em casa. Queria dizer para ela
que não existe nada mais importante na minha vida do que ela,
dizer que a experiência que tô tendo tá me ensinando a viver.
Meu coração está sofrendo, porque minha mãe está me
abandonando no momento que eu mais preciso dela. Cada dia
que passa, a dor da solidão me machuca mais.
Ana foi abandonada pela mãe, sendo criada até os cinco anos de idade pela avó materna, quando esta faleceu. Foi então viver com uma tia, muito rígida, que não a deixava sair de casa. Nesse ínterim, sua mãe a visitava pouco. Passou ainda um tempo com o padrasto, que a criou e registrou, a quem considera seu pai. Sua opinião sobre a supervisão materna durante os anos de seu crescimento demonstra o distanciamento entre ambas:
Minha mãe sumia assim, um ano, e aparecia de vez em
quando. Aí trazia aquele mundaréu de presente. Minha mãe
sempre foi destrambelhada. (...) Ela não servia pra ter filho,
não, achava que filho era só pra ver. Ela via: ‘Oi, tudo bem?’
Sumia e nem ligava.
Ana tem uma visão muito crítica e dura de sua mãe, Tânia, que a considera mais maluca que ela própria. Critica o comportamento materno, por envolvimento com prostituição de luxo em Copacabana. A incapacidade de diálogo é uma queixa freqüente:
Minha mãe é legal. A gente nunca teve contato uma com a
outra. Eu não tenho coragem de chegar pra minha mãe e dizer
o que eu sinto, e ela também não tem coragem de chegar pra
mim e dizer o que ela sente. A gente nunca conversa.
Ela explica assim esse distanciamento:
Com a minha tia a gente conversava, ela conversava comigo. A
maioria das minhas primeiras vezes eu passei lá na minha tia.
(...) A minha primeira menstruação, o meu primeiro namorado, o
meu primeiro cigarro, tudo.
A situação se tornou crítica para Tânia quando teve de levar Ana para morar com ela, no início da adolescência da menina. Ninguém mais queria assumir o cuidado de Ana, que a todos desafiava, fugindo de casa para ir a bailes, usando drogas e parando de freqüentar a escola.
Essa mãe apresenta uma versão de sua relação com os filhos muito diferente da de Ana. Justifica a dificuldade para criar os filhos com o fato de trabalhar em casa de família. Segundo ela, essa é a razão pela qual os deixou com o ex-marido (padrasto de Tânia) e sua nova esposa. Eles teriam melhores condições para cuidar deles. Afirma enfaticamente nunca ter abandonado os filhos. No entanto, vê em Ana apenas qualidades negativas; chama-a de ‘cara de paraíba’, associando-a ao pai biológico, que por sua vez nunca acreditou ser o pai da menina. Atribui à filha de 15 anos toda a culpa pela infelicidade de sua vida, eximindo-se de qualquer responsabilidade.
Vivendo juntas, os episódios de agressão física e verbal se tornaram constantes entre as duas, e o atrito maior decorreu exatamente da semelhança de caráter: ambas apresentam enorme necessidade de independência e nenhuma tolerância. A socialização pela violência foi a prática adotada na relação. Tânia diz ter obrigado Ana a engolir muitos cigarros, quando a viu fumando pela primeira vez, e os esfregou em sua cara. Ana tomou exatamente a mesma atitude quando viu o irmão fumando maconha, hábito que ela própria tinha. Ela o fez engolir tudo e quebrou-lhe a boca. Também ameaçou o irmão de queimar sua mão, tal qual a avó fazia com sua mãe.
A mãe não manifestava afeto algum pela adolescente, apenas muita rigidez e intolerância. Mandava a empregada prender Ana em casa, pois temia que estivesse usando drogas. Quando confirmou suas suspeitas, quase a “arrebentou e matou”. Denunciou a filha à polícia, pois “antes chorar agora do que mais tarde”.
A adolescente apresenta mais de uma internação, tendo sido apreendida vendendo ‘baseado’ na Praia de Copacabana. Já teve vários empregos de babá, arranjados pela mãe. Num deles, sofreu assédio sexual e agressão física do dono da casa.
Desistindo de trabalhar, Ana voltou para casa, onde as agressões entre mãe e filha continuaram, a ponto de, numa noite, quando Ana estava em semiliberdade, ter quebrado todo o apartamento sob o efeito de drogas. Tânia levou a filha de volta para a instituição, onde teve sua medida agravada. Pouco tempo depois, essa mãe ocupava outro apartamento muito bem equipado em Copacabana, no qual recebeu a pesquisadora para dar a entrevista. Reafirma sustentar-se com trabalho em seguradora e com a ajuda do namorado suíço. Divide o apartamento com mais duas amigas, o que apresenta como argumento para não querer receber mais a filha nesse local, após sua liberação da unidade de internamento.
Pouco visitou a menina na instituição durante todo o período de internação. A relação se deteriorou ainda mais depois do episódio da destruição do apartamento, quando Ana a chamou de “vagabunda e vários outros nomes”. O desabafo dessa menina-mulher está registrado em várias páginas do seu diário, em que revela sonhar com uma mãe como era sua avó. Esta sim, lhe dera carinho e a criara quando pequenina, até que a morte a levou, deixando para trás mais uma experiência de abandono. Continua a sonhar com uma mãe que seja presente em sua vida: “Completei 15 anos aqui. Esse dia foi o pior dia da infância. Esperava ansiosa a chegada da minha mãe, mas ela não compareceu”.
Nenhuma das jovens entrevistadas que cresceram sem a mãe por perto conseguiu superar o estranhamento causado pela convivência com a progenitora, quando iniciada apenas na adolescência. O distanciamento, os hábitos, costumes e valores diferentes revelaram seqüelas difíceis de serem superadas, especialmente no plano afetivo. Isabel deixa isso claro:
Ela vem me dar um beijo, eu sinto vergonha. Não tenho mais
aquele carinho assim. É muito difícil eu abraçar ela. Não sei, eu
não me apego.
A solução encontrada pelas jovens foi a separação da mãe, optando pela rua, por morar com novos parceiros ou mesmo construindo o próprio lar, sozinha. Apesar disso, há sempre a figura da mãe presente, seja pela sua negação ou em sonhos.
Assumindo a culpa pelo fracasso
Com grande freqüência, é a adolescente em conflito com a lei que assume a responsabilidade pelo fracasso da relação mãe–filha. Mesmo existindo muita crítica em relação à mãe, a culpa impera na vida dessas garotas por causa do sofrimento que sua vida infracional tem levado à família. Antônia fala de seu sentimento:
Acho que a culpa é minha mesmo, mas minha mãe também
tem culpa. Se ela não fosse assim, se ela fosse uma mãe
normal, eu não estaria na vida.
A vida de Elen também exemplifica essa situação. Sua mãe, Dora, a deixou pequena com um casal do interior, em outro estado. Considerava não ter condições de criá-la. Ficou com o filho mais velho e posteriormente teve outro, os quais criou. Voltou para o Rio com a família, casou-se de novo e passou a viver em melhor condição socioeconômica do que a família com quem deixou Elen. Nunca se interessou por trazê-la de volta.
Na sua família adotiva, a menina sentia-se rejeitada, e era tratada com intensa violência. Mesmo assim, justifica as atitudes dos pais substitutos:
Eles compravam as coisas pra minha irmã e não compravam
pra mim. Às vezes eles gostavam mais dos filhos deles do que
de mim. Claro, porque eram filhos deles. Por isso que eu queria
ir embora.
Aos dez anos Elen começou a se envolver com rapazes, perdendo o interesse pela escola. Os pais adotivos, em tais circunstâncias, chamaram sua mãe, que já vivia no Rio, com a intenção de devolvê-la. Elen voltou com a mãe, para uma situação ainda mais difícil do que a que passava com a família adotiva. Sentia-se uma estranha numa família que não conhecia, pois não se lembrava do irmão mais velho, não conhecia o mais novo nem sabia da existência do padrasto. Tinha dificuldade de se relacionar com sua mãe. Trancava-se no quarto, ficava solitária. Constata desapontada: “Eu não sinto ela como mãe”. Também não se relacionou bem com o padrasto.
Comparava-se aos irmãos, que estudaram e nunca deram trabalho à mãe. Culpava-se por não ter ouvido as sugestões deles e por isso estar internada, “no sofrimento, sem amor, carinho e compreensão”. Vê apenas sua incompetência por não ter tido capacidade de ser para a mãe o que eles conseguem ser.
Dora também relata muito sofrimento com a aproximação de Elen. Tentou inicialmente fazer todas as vontades da filha, buscando compensá-la pelo que não fizera nos anos em que Elen crescia. Não percebeu – ou fingiu que não percebeu – a tentativa de abuso sexual que a filha sofreu do padrasto, presenciada pelo filho caçula.
Quando Dora constatou que não conseguia lidar com Elen, decidiu colocá-la em colégio interno, tendo-a em casa somente nos fins de semana. Como a tentativa fracassou, Elen foi encaminhada para a casa do pai e depois de tias. Na casa paterna, a angústia de Elen se exacerbou, pois o envolvimento com álcool e rituais de macumba a assustava. Soube também da existência de uma irmã, por parte de pai, que havia morrido esfaqueada. Esse período com a nova família serviu para que Elen buscasse se diferenciar dele e da irmã morta, aos quais vinha sendo comparada por sua mãe. Finalmente, Elen passou por abrigos e períodos na rua, quando todas as expectativas familiares sucumbiram.
A falta de carinho da mãe é flagrante na fala dessa menina, bem como a necessidade que Elen tem de afeto. Conta que apenas uma vez Dora deitou-a no colo e a acariciou, pois não tinha tempo, por causa de sua dupla jornada de trabalho. Lembra com tristeza uma fala de sua mãe:
Eu não posso perder tempo pra ficar fazendo carinho em você,
não, porque eu não faço em nenhum dos três. Eu não posso
fazer só em você, porque eu trabalho muito e chego tarde em
casa.
Ninguém visita Elen na instituição. Dora alega estar com problemas de saúde. As tentativas de contato entre mãe e filha partem sempre das técnicas da instituição.
Em momento algum Elen consegue criticar sua mãe. Desculpa-a e culpa-se por todo o fracasso, inclusive pela doença que ela tem, fruto do sofrimento que lhe causou ao não ouvir seus conselhos.
Mesmo não encontrando na mãe o apoio que tanto busca, Elen continua esperando o carinho de Dora, tema que se faz presente em todo o seu diário:
Meu Deus, eu estou muito triste sem visita, sem ninguém perto
de mim. Não sei o que fazer na minha vida sem a minha mãe
ao meu lado agora. Mas não tem problema, um dia a gente se
entende. Mas vai ser pra valer. Se um dia eu estiver com um
problema, com certeza ela vai me ajudar... Será que um dia eu
vou conseguir o que eu quero mais, não há ninguém que possa
me segurar e separar da minha amada mãe.