Filhas do mundo

Simone Gonçalves de Assis · Capítulo 12 de 26

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Filhas do mundo

6 - A vitimização física

 

Embora a violência contra a mulher na família seja uma prática milenar, apenas no século XX começou a se transformar em um tema social da maior importância, e hoje é vista como questão prioritária na luta pelos direitos humanos de meninas e mulheres. Esse problema tem sido objeto de declarações internacionais de direitos humanos e várias conferências internacionais. Começa a ser dada prioridade ao enfoque do problema sob a ótica de gênero.

Os direitos humanos da mulher e da menina são inalienáveis e

constituem parte integrante e indivisível dos direitos humanos

universais. A plena participação das mulheres, em condições de

igualdade, na vida política, civil, econômica, social e cultural nos

níveis nacional, regional e internacional e a erradicação de

todas as formas de discriminação, com base no sexo, são

objetivos prioritários da comunidade internacional. Conferência

Mundial de Direitos Humanos. Viena, 1993 (Nações

Unidas/MJ/SNDH, 1998:12)

Embora no âmbito legal muitas mudanças venham ocorrendo, na prática a situação de subjugação feminina na família ainda se mantém presente, como vem sendo relatado em numerosos trabalhos e novamente constatado nas famílias entrevistadas. Quatro fatores são apontados por Carrillo (1997) para justificar a elevada prevalência da violência contra a mulher: a desigualdade econômica entre homens e mulheres; o padrão de violência física para resolver conflitos; a autoridade masculina; o controle da tomada de decisões e de restrições para as mulheres no que se refere a sair de casa.

A violência física serve como forma de controle do homem sobre a mulher na esfera doméstica. Heise (1994) diz que o específico na violência contra a mulher, em relação às outras formas de violência, é a força ou coerção alimentada e tolerada socialmente. Nem sempre essa força será diretamente utilizada para aumentar o poder masculino. Porém, há casos em que, mesmo sem haver essa intenção, o resultado final é o aumento da subordinação feminina.

Dentre as mulheres presas, vários estudos têm demonstrado a elevadíssima proporção de violência física. Singer et al. (1995), ao pesquisarem o comportamento de presas norte-americanas, constataram que 75,1% haviam sofrido ameaças de violência física no decorrer do último ano e que 69% sofreram de fato tal violência. Molidor (1996) ressalta a vitimização intrafamiliar e a ocorrida na vivência das jovens entrevistadas nas gangues de que fazem parte.

Essa relação de dominação pode ser verificada em todas as esferas da vida das mulheres entrevistadas: como violência do pai contra a mãe; como violência física dos pais sobre as filhas, durante o processo de socialização; nas relações que estabelecem com os parceiros afetivos e colegas e no contato com os policiais, com os quais se confrontam na vida infracional.

 

Violência física entre os pais

A relação conjugal dos pais da maioria das adolescentes é marcada por brigas, discussões e agressões físicas. Apenas seis meninas consideram que seus pais se relacionavam bem, mesmo após a separação. A memória sobre a relação conjugal dos pais traz sentimentos desagradáveis. As agressões são corriqueiras e contadas como situações naturais, corroborando o que se chama de ‘banalização da violência’, achado comum nas diferentes culturas e classes sociais, quando se trata de violência intrafamiliar.

Em um primeiro momento, quando se conversa com elas sobre as relações familiares, as jovens falam sobre “discussõezinhas, uma vez ou outra, que é normal de todo casal” (Ivone) ou sobre as “discussões de sempre” (Evelin). Em seguida, detêm-se nas brigas que envolvem agressões físicas, em que a mãe se torna a vítima principal, pela fragilidade e subalternidade com que se coloca na relação conjugal. O principal fator motivador das brigas é o ciúme da mãe, motivado pelo comportamento infiel do pai.

Eles brigavam toda hora. Sempre tinha briga, porrada, porque a

minha mãe tinha ciúme do meu pai, porque ele não era fácil.

(Elena)

Eles se dava bem. Só brigava lá por causa de mulher, que ele

gostava de noitada, sabe, e minha mãe ficava furiosa com ele.

(Odete)

Anita diz que ficava protegendo sua irmãzinha na hora em que a mãe e o padrasto se agrediam, um batendo com a garrafa na cabeça do outro. Desistiu de tentar protegê-la, pois “quem ficava mal era eu mesma; depois eles dois se falavam”.

No caso de Alba, o grau de violência do segundo companheiro de sua mãe foi tão extremo que quase ocasionou a morte de sua genitora, que ficou entre a vida e a morte no CTI.

A mãe de Elisa é outra que tem trágicas lembranças. Mesmo passados tantos anos da convivência com os pais, chora ao se lembrar dos momentos em que eles entravam em conflito:

Tinha tantas brigas... Brigas de tirar sangue, e eu ficava muito

nervosa, começava a gritar. Essa violência total lá dentro.

Interessante constatar que houve poucas menções de agressão física entre os pais das mães entrevistadas, os avós das adolescentes infratoras. Como já foi assinalado, na geração desses avós havia maior percentual de casais vivendo juntos e, mesmo em caso de separação, constatou-se uma certa manutenção do vínculo entre o homem e sua ex-mulher e filhos. Parte desse comportamento pode ser entendido pelas normas tradicionais de conformismo e submissão dessas mulheres a seus esposos, diante da mesma situação de traição, bem como pela manutenção do compromisso masculino de prover o lar.

A experiência de Marília (mãe de Elisabete) mostra a capacidade que sua mãe tinha de aceitar as traições do companheiro. Ela sempre ressaltou a importância e o respeito que atribuía ao homem que provia financeiramente sua família:

O meu pai era muito bom. Tinha loja, tinha comércio, tinha tudo,

até antes da gente vir para o Rio, porque o meu pai era muito

mulherengo, e as mulheres tomaram tudo que ele tinha. Nessa

parte o meu pai não admitia, mas a gente via, até colegas

minhas andavam com o meu pai. Mas o meu pai nunca brigou

com a minha mãe.

Telma, a mãe de Isadora, tem recordações positivas de seu pai, pontuando novas qualidades para um homem. Alegando pouco saber do convívio íntimo de seus pais, comenta:

Aparentemente era normal, porque a gente não participava

muito disso, não, mas não tinha briga, não. O meu pai sempre

foi muito sério, sem vício, era comerciante. Sempre foi muito

bom, nunca deixou faltar nada em casa.

Nota-se nessas falas a dependência econômica dessas mulheres em relação ao marido, um dos fatores que influenciam na reprodução da dependência e da violência.

Indaga-se se haveria de fato reduzida freqüência do fenômeno ou se o distanciamento no tempo e um maior grau de sigilo intrafamiliar verificado em gerações anteriores pode estar contribuindo para que as mães dêem pouca relevância ao tema. Outra hipótese que pode ser formulada é a de haver entre as mulheres dessas gerações maior capacidade de compreensão, adquirida com a maturidade.

 

Violência doméstica contra a criança e a

adolescente

Apenas cinco dentre as adolescentes disseram não apanhar dos pais, que lidavam com os problemas dando-lhes conselhos. Ivone é uma delas:

Quando eu fazia alguma coisa que ele não gostava, ele me

chamava pra conversar e perdoava. Se ele me bateu, eu tinha

uns dez anos, assim mesmo quem apanhou mesmo foi a minha

irmã, não fui eu, por causa de briga de nós duas.

Outras sete disseram ter recebido castigos, palmadas e pequenas agressões. Os castigos são: físicos, como ficar ajoelhada em caroço de milho; psicológicos, como passar determinado tempo lendo tudo que errou na prova; ou de restrição de liberdade, como ficar trancada no quarto e não poder sair de casa.

As demais 15 jovens explicitaram que a agressão física foi a forma de punição privilegiada por pais, padrastos, irmãos, avós ou madrastas para discipliná-las, como ilustra Elen: “Meu pai um dia pegou o pé dele e botou atravessado no meu pescoço. Como se quisesse me matar”.

Outra jovem, Olga, sofreu tanta agressão que acabou saindo de casa para fugir da mesma violência que já expulsara sua mãe. Ela conta uma de suas terríveis experiências com a nova madrasta e o pai:

Ela me deu cabada de vassoura, quebrou a vassoura em cima

de mim. Ele me batia que nem homem. Só me dava bicadão na

minha cara. É isso que eu tenho revolta. Meu pai empurrou

minha mãe, deu só na cara dela. Nós fomos pra cima dele, pra

não bater na minha mãe. Foram os piores momentos da minha

vida.

Os motivos mais comuns das situações de violência são: desrespeito às nor mas familiares, especialmente não chegar no horário marcado pelos pais; fuga de casa; falta à escola; recusa a ajudar nos serviços domésticos; namoros; uso de cigarro ou droga; ciúmes do padrasto em relação à mãe; ou mesmo atos banais, como a adolescente comer uma fatia de salame que era desejada pelo pai.

Os objetos citados e utilizados na violência familiar geralmente são: borracha de pneu, cabo de vassoura, pedaço de pau, caroço de milho para ajoelhar, corrente presa na cama, vara, chinelo, faca, cinto e ferro. Além disso, socos, chineladas, tapas, chutes, facadas e ameaças com armas de fogo.

Em muitos casos, as meninas parecem querer diminuir a gravidade das agressões cometidas pelos pais. Justificam as severas violências sofridas alegando terem sido elas próprias as causadoras dos atos violentos praticados por eles. Além disso, muitas dizem não doer as agressões praticadas por eles, como se os pais tivessem o direito de praticar tal ato.

Me batia de borracha. Aquelas borrachas de pneu... Não

chegava a me machucar. Ficava aquelas marcas, depois sumia.

(Isabel)

Na geração das mães, a prática de disciplinamento e socialização pela violência física foi relatada por metade das entrevistadas, mostrando como bater é uma estratégia que se repete ao longo das gerações. Em alguns casos, os episódios são bastante severos, como é o caso da família da mãe de Elisa, em que pai e mãe batiam nos filhos, tanto quanto se agrediam violentamente.

Minha mãe me botava na corrente. Ela me amarrava assim num

pé, onde não desse para sair. Tinha que ver, ela pintava e

bordava comigo. Uma vez ela me amarrou assim com um fio, aí

eu fui e peguei a gilete e cortei, isso quando eu tinha uns 11, 12

anos. A minha mãe veio e me deu, nunca me esqueço disso, a

minha mãe veio e me deu duas assim de fio.

Tem coisas que acontecem na nossa vida que a gente não

consegue esquecer. Meu pai empurrava a nossa cabeça na

parede, pegava a gente pelo cabelo.

Outra mãe que sofreu muito foi Gina, mãe de Antônia, que sempre teve uma complicada relação com a genitora. Ela conta o que aconteceu ao ser flagrada pela mãe beijando uma mulher, antes que sua homossexualidade fosse conhecida pela família:

Bater de ficar desmaiada no chão. Chegava a esse ponto, de

eu ficar com o corpo todo marcado e ver as colegas zoando. Foi

quando ela quebrou a minha cabeça em dois lugares.

A mãe de Alba reuniu violência física e sexual na família de origem, continuando a viver as mesmas experiências nas novas famílias que construiu. Sua fragilidade como mulher e a total dependência em relação aos homens podem ser compreendidas em face do relato que faz de sua infância:

A minha mãe sempre foi muito durona com a gente. Eu apanhei

muito da minha mãe, como do meu pai. Uma vez ela me deu

uma surra de correia porque eu não queria levantar para o

colégio. Falei que não ia estudar mais. O meu pai também, mas

não era sempre. Ele me bateu umas três vezes, mas foi forte

mesmo. Porque eu fiquei na rua sem eles deixarem. Era mais

minha mãe, mesmo. Eu até fiquei com problema de nervo

quando era mais nova, de fazer tratamento e tudo, assim meio

traumática de apanhar. Eu ficava tremendo, chorando, aí minha

tia me levou para o hospital.

Outra mãe que apresenta uma imagem de total desproteção é a de Inês, que sofria constantes agressões do ex-marido, da sogra e de outros familiares na casa em que viviam:

Ela já bateu em mim, sabe, eu não gosto de falar, tem coisa que

eu não gosto de falar, fico calada. Mas eu não vou ficar

passando toda a minha vida calada, calada, só ficar

apanhando, apanhando dos outros. Que é isso? Eu não sou

saco de espancada. Tem um mês atrás quem me bateu foi o

filho dela [irmão do ex-marido]. Me deu com o cabo de vassoura

na minha cabeça.

Beatriz, a mãe de Andréa, foi abandonada pelos pais na casa dos avós em outro estado do país. Nunca os perdoou. Voltou aos seis anos quando a avó morreu, e não foi totalmente aceita pelos pais e ir mãos. Apanhava muito dos pais, “uma coça de manhã, uma de tarde, uma de noite”, porque “fazia muita arte”. Apanhava de cinto, de tela de arame, lata de leite em pó ou o que estivesse à mão, a ponto de ter que levar oito pontos na cabeça. Foi levada por um vizinho à polícia, onde denunciou seus pais por maus-tratos, fazendo-os passar uma noite na cadeia. Passaram a ter “mais ódio ainda” de Beatriz. Até hoje é malvista pelos pais e irmãos.

Várias dessas mães, mesmo que criticando as atitudes violentas praticadas pelos pais, acabam por dar alguma justificativa para seu comportamento. Gina, que sofreu muitas agruras e se diz revoltada com os pais, fala sobre sua mãe:

Não sei se era revolta por parte dela ou porque eu também

aprontava. Mas eu aprontava, e as coisas de antigamente eram

melhores. Era soltar pipa, jogar bola de gude, ficar no meio dos

garotos no campo. Ela nunca aceitava isso e me batia.

Nessa fala, Gina destaca que o comportamento inaceitável da mãe foi uma reação a atitudes indesejáveis na socialização feminina.

 

Um ciclo de violência física se reproduzindo

A história de Isabel e sua mãe, Glória, é um exemplo típico de reprodução do ciclo da violência. Glória abandonou Isabel e outra filha aos cinco anos de idade, quando se separou do marido, motivo de ressentimento para Isabel. Desde então, a menina viveu com o pai, a avó paterna (a quem realmente ama) e alguns tios.

Glória conta que sua vida com os pais foi similar à que ofereceu aos filhos. Seus pais se separaram quando ela tinha 15 anos, e os filhos foram distribuídos. Considerava seu pai um homem bom, mas a sua mãe ruim. Apesar disso, Glória apanhava do pai quando este chegava em casa e a mãe não estava. Da mãe apanhava por qualquer motivo, a ponto de lhe tirar sangue. Esta costumava deixar os filhos sozinhos dentro de casa por longos períodos, nos quais estabelecia relacionamentos extraconjugais.

Se meu pai ficasse um ano fora, preso, a gente ficava presa.

Mas ela não entregava a gente pra alguém. Ela trancava a

gente dentro de casa, era preciso bombeiro. A minha mãe me

batia muito.

A agressão entre o casal também era freqüente.

A mãe de Glória teve vários companheiros, mesmo enquanto morava com o marido. Tanto ele como os seus irmãos usavam drogas. A família se dissolveu. Glória nunca teve diálogo com sua mãe, de quem nunca recebeu carinho. Sofreu ainda abuso sexual do avô e do tio, porém nunca falou a respeito disso com ninguém, pois acreditava ser errado.

Glória constata que, assim como não recebeu carinho dos pais, nunca conseguiu dá-lo para Isabel e outros filhos. Doou uma filha, com a qual nunca mais teve contato, apenas lembrando que a agrediu na última vez que a viu. É muito seca com os dois filhos que a acompanharam na entrevista. Sofre por ser assim: “Eu era muito fria. Até pouco tempo eu não era de beijar as minhas filhas, de abraçá-las”. É uma das únicas mães entrevistadas que fazem crítica à própria conduta com a filha: “Ela teve tudo, quarto, tudo, mas não teve carinho”.

Isabel contou uma história similar. Fugia de casa por não se dar com a madrasta, que a colocava contra o pai. Sofria violência física extrema e cotidiana, sempre com borracha de pneu, o que a deixava invariavelmente marcada no corpo. Diz odiar o pai por essa violência, e ter deixado de falar com ele. A mãe impingiu-lhe uma cicatriz na cabeça por bater com o cabo da vassoura numa das primeiras vezes em que fugiu de casa, aos nove anos de idade. Logo, justifica Isabel, “ela não estava errada: eu aprontava muito”. A mãe se cansou de buscá-la na rua, situação à qual reagiu com naturalidade: “Um certo dia ela não foi mais atrás de mim. Eu nem ligo, porque se eu quiser eu procuro ela”.

Tal como a mãe, Isabel sofreu tentativa de abuso por pessoa da família, igualmente escondendo o fato. Com apenas 14 anos de idade, já fez dois abortos,. Sua baixa auto-estima fica evidente ao falar sobre o filho que teria tido – “Se eu não tenho responsabilidade comigo mesma, eu vou ter com outra pessoa?” – bem como ao comentar a agressão do pai em relação à irmã: “Ele bate pra ela não ser o que eu sou. Eu não sou nada por enquanto”.

Isabel tem seguido sua vida marcada por uma sucessão de violências, agora cometidas por conhecidos, namorados e colegas de instituição. Demonstra profunda dificuldade em enfrentar os conflitos. Foge e logo se entrega, procurando ajuda.

Outro mecanismo de reprodução do ciclo de violência também pode ser identificado nas vidas de Ingrid, Eloísa e Ilda, que sofreram violência física de seus parceiros amorosos.

 

Violência policial

Mais da metade das jovens relatou episódio de violência física cometida por policial, revelando o quão corriqueira é essa agressão na vida de adolescentes envolvidas em atos infracionais. Não é apanágio das mulheres sofrer esse tipo de abuso. Muitos estudos têm demonstrado a violência policial no país, seja contra infratores, seja dirigida à população de jovens em geral (Assis, 1999; Minayo et al., 1999)

Os relatos das meninas mostram um grau de crueldade na relação não condizente com a fala corrente dos traficantes, segundo a qual as mulheres seriam mais bem tratadas pelos agentes da lei. Muitas relatam situações em que os policiais mergulhavam suas cabeças na água, com ou sem plástico, até elas perderem o ar, lançaram suas cabeças na poça de lama, deram-lhes tapas na cara, socos no peito, bateram suas cabeças contra a parede, agrediram-nas com pedaços de pau, ou as obrigaram a traficar para eles. Os resultados dessas torturas são similares ao que relata Olga: “Me arrebentaram na porrada, fiquei toda moída em cima da cama! Aí todo mundo, os cara, te massacraram”.

Ivete, mesmo grávida de oito meses, apanhou dos policiais, indo direto para o hospital, onde teve um parto prematuro. Essas jovens consideram que foram “tratadas igual cachorro” ou “como se fosse homem” pelos policiais, que delas queriam extrair informações e nomes dos parceiros do ato infracional. Algumas chegaram a ser feridas por balas.

Eles me arrastaram, pegaram um pedaço de pau daqueles

grossos, aí começaram a me bater, começaram a me arrastar,

enrolaram o meu cabelo assim, me arrastaram na lama.

Enfiavam minha cabeça na poça d’água até eu perder o fôlego.

Falava: quando quiser falar, levanta a mão que eu te tiro. Eu

levantava a mão, ele tirava a minha cabeça, eu pegava um ar,

aí começava de novo. (…) Jogava minha cabeça na parede,

pegava o fio, me enforcava... Nossa, eu sofri muito, muita

paulada nas costa. (Úrsula)

Uma menina estava apanhando de chicote, eles me batendo,

dando só bicão, só socão! Eles botaram a gente sentada na

pedra, com a mão pra trás, aí seguraram no meu cabelo,

levantaram e me deram um montão de tapa na cara. Me

arranharam com um canivete, deram com a bota na minha

canela, abriu a minha canela, isso aqui meu já estava cheio de

sangue. Eu tomei uma coronhada atrás da fronte, se eu

tomasse na frente eu ia morrer. (Elena)

A ameaça e o desrespeito são tamanhos que Eva, apreendida por estar carregando pó, foi obrigada pelo policial a cheirar cocaína no cano da pistola dele, sob ameaça de morte:

Colocou o pó no cano da pistola, falou pra mim puxar. Só que a

cocaína que ele tinha botado era dele. (…) Eu fiquei com medo.

Deve estar com caco de vidro, e eu vou morrer.

A corrupção desses profissionais também faz parte da vivência cotidiana das adolescentes, pois elas são chantageadas para que dêem a eles elevadas quantias, muito além de suas posses. Está em jogo o dinheiro oriundo do tráfico ou dos roubos. Uma visão mais crítica dessa atuação foi apresentada por Eliana:

Se eles fizessem o serviço deles, de acordo com a lei, eu acho

que seria mais fácil pra eles pegar o ladrão, porque aí eles

prenderiam toda vez que eles pegassem. Agora, eles fora da

lei, eles preferem dinheiro.

Duas jovens de classe média foram tratadas de forma diferenciada pelos policiais. Evelin não sofreu nenhuma violência, e foi acompanhada de sua casa até a delegacia pelos policiais. Alessandra foi ameaçada e logo reagiu, cônscia dos seus direitos: “Ele levantou a mão pra mim. Aí eu falei que, se eles me batessem, eu ia processar eles, aí eles também não me bateram”.

As jovens acreditam não haver diferença na violência do relacionamento dos policiais com elas, nem por serem mulheres, nem por serem ‘menores’. Pelo contrário: citam algumas localidades em que os policiais são mais rigorosos com as mulheres, por considerarem-nas ‘safadas’, ‘piranhas’, ‘vagabundas’, exprimindo assim o quanto a transgressão do papel feminino socialmente esperado os incomoda. São direta ou indiretamente sempre agredidas e mandadas “de volta ao tanque e à pia, de onde nunca deveriam ter saído”, segundo esses agentes que sintetizam, nos seus modos, o extremo da repressão patriarcal.