Filhas do mundo

Simone Gonçalves de Assis · Capítulo 22 de 26

Páginas do PDF

Filhas do mundo

15 - O lugar do fracasso: as salas de aulas e as oficinas profissionalizantes

15 - O lugar do fracasso: as salas de

aulas e as oficinas profissionalizantes

 

Tem meninas que demoram aí um ano e tanto. Não tem uma

escola formal aqui dentro. Resultado? Ela não consegue

completar nenhuma seriação escolar, pra gente fornecer um

certificado, que isso anima pra ela dar continuidade. A Elisa?

Era analfabeta. Já entrou aqui cinco ou seis vezes e continua

analfabeta. Não posso aceitar um negócio desse.

(Funcionária da direção)

O fracasso revelado na fala acima tem sido reiteradamente mencionado em todos os outros trabalhos realizados no ESD desde o início de sua existência. Malaguti (1998), analisando os laudos técnicos da Funabem, descreve situações semelhantes que refletem a ineficácia institucional em reeducar, ressocializar e reintegrar a adolescente à sociedade. Em seu estudo, jovens considerados analfabetos e que tinham várias passagens pela Funabem eram novamente inseridos na instituição, na mesma situação. O autor argumenta que os objetivos oficiais camuflam o verdadeiro objetivo de manter sob controle determinada parcela da população.

Se a falha na alfabetização já é tão evidente, pode-se imaginar o que é feito no sentido de profissionalizar as jovens. Conforme ressalta Lemgruber (1999), para que a ação pedagógica resultasse eficiente, o tempo passado na unidade deveria abrir ao interno perspectivas efetivas de melhoria socioeconômica, o que não acontece em função da baixa qualidade dos cursos oferecidos na instituição.

Apesar de o resultado final ser tão precário, há real investimento de alguns professores nessa tarefa. O setor pedagógico do ESD, for mado por três salas onde funcionam as oficinas e a escola for mal, é o único lugar em que as jovens circulam livremente sem precisar do acompanhamento do agente. A equipe do setor é composta por dois pedagogos, quatro professores de 1ª a 4ª séries, dois professores de educação física, um de artes cênicas e quatro instrutores para as oficinas de culinária, crochê, bordado e cabeleireiro.

Segundo os documentos oficiais, a recepção da jovem é feita por especialista em educação, que lhe informaria sobre as normas do educandário e a apresentaria à equipe de funcionários. A entrevista pedagógica é feita pelo professor ou especialista em educação e visa a conhecer o grau de escolaridade da aluna, propor as atividades pedagógicas, descobrir suas preferências e encaminhá-la para os cursos de iniciação profissional e de sala de aula (ESD, 1998).

 

A escola formal

Em relação à escola formal, nos anos de 1998 e 1999 organizava-se um grupo de alfabetização e outro direcionado para o atendimento de 1ª a 4ª séries, pois não havia condição de se criarem turmas específicas por série. Trabalhava-se com pequenos grupos, de acordo com o número disponível de professores, procurando desenvolver atividades que atendessem às necessidade e aos interesses das adolescentes e valorizassem os seguintes aspectos: pluralidade cultural; leitura de diferentes linguagens de forma crítica (texto, teatro, música, dança, vídeo); envolvimento com o tema a ser trabalhado (pesquisa, debates, leitura de material relacionado ao tema) e confecção de material apropriado e significativo (cartazes, murais, mensagens, desenhos e ornamentação).

As aulas são ministradas em uma sala grande com quadro-negro, mesas e cadeiras. Nesse espaço, há uma divisória. Do outro lado, há mais cadeiras, mesas e um armário com livros didáticos, enciclopédias e obras literárias. Nessa divisória são expostos os trabalhos e os desenhos realizados pelas adolescentes, além de cartazes sobre higiene pessoal.

A freqüência às aulas não é obrigatória. Não existe nenhum trabalho contínuo, pois a rotatividade e a heterogeneidade da turma não o possibilitam. As meninas entram na sala e saem de lá sem advertência alguma. As adolescentes passam a maior parte do tempo na sala de aula, desenhando.

As dificuldades são enormes. Uma professora conta que só dando-lhes muito amor e carinho consegue realizar seu trabalho de coordenação motora de preparação para a aprendizagem. Procura atrair a clientela para a sala, sempre buscando agradar às jovens. Lembra que antigamente tinha o recurso de uma boa sala e de um rádio para ouvir música, excelente chamariz, enquanto as meninas faziam colagem, corte, dobradura ou algo similar. Atualmente, o “espaço é péssimo”, diz ela.

O que se espera das jovens é tão elementar quanto conseguir que façam uma linha reta ou fechem um círculo. A descontinuidade na freqüência das garotas às aulas é o mais grave problema:

Consigo manter um grupo entre aspas. O máximo que consigo

é três. Uma ou outra vem todo dia, as outras vêm no dia que

querem e na hora que querem. A maioria é muito difícil. Eu não

sei o que a gente tem que fazer.

A total impotência desses profissionais diante das meninas e à falta de uma proposta pedagógica consistente fica evidente na fala de uma professora:

A obrigatoriedade é uma faca de dois gumes. O certo seria elas

freqüentarem a sala de aula, mas só que na prática isso não

funciona. Quando elas são obrigadas a ir para dentro da sala,

elas agridem ao professor e não ficam mesmo. Elas são

espontâneas. Elas têm que ter assim, uma aula livre, como

ultimamente tem sido feito.

Nessa aula livre, a simpatia da menina por determinada professora indica aquela que deseja como orientadora. Em função disso, misturam-se garotas dos mais distintos níveis educacionais na mesma sala e a professora se divide, “botando ela ali no cantinho, dando atividade pra essa aqui e trabalhando com a outra”.

A responsabilização pelo fracasso do processo de aprendizado e pela falta de compromisso institucional recai duramente sobre os professores, criticados pelos funcionários da unidade, que se ressentem do insucesso das atividades pedagógicas e do ócio dele decorrente:

Porque você também não tem um profissional que você diga: ‘A

aula começa às 9h’. E ele não está lá 9 horas. Então você

carrega a escola toda pra dentro da sala de aula, e chega às 9h

o profissional não está.

Tem funcionário aqui que você percebe que ele é envolvido

aqui, que ele quer que a menina aprenda, que ele faz tudo pra

alfabetizar, e tem outros que mal vêm aí dar a carga horária,

com uma má vontade danada. (...) Se elas perguntarem muito,

leva logo um fora.

Alguns professores também cobram da direção uma atitude mais dura em relação aos colegas faltosos, aumentando o clima de conflito na unidade.

Os responsáveis pelo setor pedagógico passam essa angústia

que eles têm, porque eles estão vendo. Antes de eu ver, eles já

viram. Ficam assim numa posição... porque era colega há muito

tempo, aí vem e passa pra mim, e eu tento organizar tudo, uma

escala, uma coisa pra ter, aí chamo e passo pra diretora. Ela

vai, dá uns apertos. Funcionário falta uma semana, quando tem

feriado. Fica sem atividade pras meninas. (Professor)

Os trabalhos anteriormente realizados no ESD evidenciam que a falta de real vontade política de mudar a situação interfere nas tão sobejamente lembradas falhas individuais – e provavelmente as determina:

Esse novo diretor do Degase, ele gosta muito dessa coisa de

aparecer, dizer que tem curso. Aí entrega diploma, traz a Banda

da Polícia Militar. Essas meninas aí receberam diploma mês

passado. (...) Eu não daria diploma, eu podia dar um certificado

de participação com tantas horas numa atividade de bordado,

mas um diploma, profissionalizante, com todas as autoridades

presentes, banda da Polícia Militar, cachorros amestrados... (...)

Ele falou que a gente não sabe fazer marketing do nosso

trabalho. Ele tenta passar essa imagem que o Degase está

fazendo curso, tá comprando máquina pra oficina, só que a

máquina está aí há seis meses e até hoje não veio material

nem professor. Vê se você não encontra peças de máquina lá

na lavanderia? Tem mais: não sei quantos computadores estão

aí, ó!

Costa chama essa situação de vitrines, quando, em lugar de um reordenamento corajoso e profundo nas instituições, os dirigentes se restringem a fazer pequenas melhorias nesse ou naquele setor:

Faz-se uma oficina profissionalizante, um programa artístico-

cultural, uma iniciativa na área de esportes e isso é

apresentado ao Governo e à opinião pública como a evidência

de que os graves problemas da instituição estão sendo, enfim,

superados. Tais práticas são uma maneira de as pessoas se

desincumbirem dos encargos de consciência e mostrarem que

estão fazendo alguma coisa, são vitrines essas pequenas

melhorias descontextualizadas. (Costa, 1999b:145)

 

Oficinas profissionalizantes ou terapias

ocupacionais?

Segundo a fala de uma das diretoras, o que se promove na unidade são terapias ocupacionais sem obrigatoriedade. Os cursos de iniciação profissional têm como objetivo incentivar as alunas para o trabalho, como parte de sua formação para a vida em sociedade, estimulando-as no desenvolvimento de suas aptidões e envolvendo-as em atividades produtivas, diminuindo as horas ociosas.

A instituição conta com uma musicoterapeuta, que proporciona momentos muito desejados pelas jovens. Nessas ocasiões, busca-se estabelecer o vínculo terapêutico, desenvolver a consciência corporal e a auto-estima, trabalhar e organizar o ritmo interno; desenvolver a percepção de si mesmo, do outro e do mundo externo; possibilitar a exteriorização dos conteúdos internos; conscientizar sobre e explorar o potencial do menor e facilitar sua auto-expressão (ESD, 1998). A sala de musicoterapia é a mais agradável da instituição: tem sofás, almofadão e uma grande mesa com cadeiras. Pela falta de espaço, a sala é dividida com outros profissionais quando está desocupada.

Há também um profissional que trabalha com artes cênicas, visando a desenvolver a auto-estima da adolescente, criando a possibilidade de agir e interagir, internamente e no meio social, de forma consciente, e a aumentar sua capacidade de interpretar e modificar o mundo em que vive. Esse profissional trabalha com peças de teatro, pintura e confecção de objetos, entre outras atividades. A impossibilidade de planejar o trabalho, devido à instabilidade institucional, a conseqüente falta de material e a falta de assiduidade das meninas são fatores que impossibilitam o sucesso das atividades. A criação de objetos, bonecos e máscaras em papel foi abruptamente interrompida por faltarem recursos para farinha de trigo e outros materiais que “custam uma fortuna”. As meninas são indicadas pela pedagoga, segundo critérios não conhecidos pela equipe. Há jovens que sempre voltam e outras que comparecem às atividades, xingam e vão embora, retornando ocasionalmente. O professor procura fazer com que as próprias criadoras dos trabalhos possam ficar com eles, lembrando com saudade do tempo em que elas faziam quadros para dar às mães, aos namorados e filhos. O problema da falta de sala, considerada imprescindível para se criar uma intimidade entre professor e alunas, também é mencionado pelo profissional:

Eu trabalho num arremedo, num pedaço de alguma coisa, de

sala dividida por outra coisa que eu não sei identificar muito

bem, cercado por algumas coisas esquisitas que eu também

não sei. Essa relação mais próxima, de poder conversar, de

poder trocar, fica mais complicado aqui.

A oficina de arte culinária tem formalmente o objetivo de desenvolver a auto-estima e a responsabilidade da adolescente por meio de uma atividade produtiva, bem como conscientizá-la de que pelo trabalho pode ter uma participação positiva na sociedade. Aprende-se a confeccionar salgados, bolos e doces. As aulas são ministradas na despensa da instituição, onde estão improvisados um fogão, um freezer e um armário no qual são guardados os mantimentos. É uma sala muito pequena; por esse motivo, apenas três meninas podem participar. Assim, o curso dura apenas um mês, para contemplar um maior número de meninas.

A procura é grande. As garotas recebem determinada quantia por semana, fruto da venda de doces e salgados feitos por elas. Estão inclusive recebendo pequenas encomendas. Para essa atividade, é avaliado o comportamento da adolescente, já que a cozinha é um local onde existem utensílios perigosos para a segurança de todos na instituição.

As atividades de crochê e bordado são apresentadas como tendo objetivos e estratégias comuns: serem produtivas e servirem como terapia ocupacional para as adolescentes. Ali, elas aprendem a fazer o trabalho manual e realizam exposições internas para a venda do material.

Essa atividade é bastante procurada pelas adolescentes, que fazem trabalhos para presentear a mãe ou bordam o nome do namorado. São atividades que requerem atenção do instrutor, por trabalharem com agulha e tesoura. Parecem ser as que mais prendem a atenção das meninas.

A oficina de cabeleireiro tem como objetivo desenvolver a auto-estima pela aceitação e a valorização da própria imagem. As atividades propostas são: corte, penteado, lavagem e secagem, alisamento, escova, permanente afro, limpeza de pele, maquiagem, manicure e pedicure.

O salão de cabeleireiro tem um significado muito especial para as meninas. O espaço é alegre, sempre com música dançante e conta com muitos produtos de beleza. O instrutor é considerado por elas como um amig o. Começou a montar o espaço com seus próprios recursos e, habitualmente, consegue doações para que ele se mantenha, pois a instituição não o supre com o material necessário.

O instrutor não considera as atividades que executa como um curso profissionalizante. Seu objetivo é mais trabalhar com a auto-estima da jovem do que o ensino propriamente dito. Procura fazer com que as meninas fiquem no espaço sem brigar, dialogando bastante e evitando a agressividade entre elas. Diz que seu trabalho é muito de improviso – funciona como um identificador e ‘resolvedor’ de problemas. Ele conta que, quando vê uma garota se agredindo e se cortando, ninguém pode esperar o dia seguinte para a psicóloga intervir, ressaltando a necessidade desse olhar por parte de todos que estão na unidade:

Seja ele faxineiro, seja ele diretor da escola, tem que

imediatamente dar atenção, dar ouvido a essa menina. Você

pode recuperar aquela falta, aquela abstinência e até mesmo

evitar uma morte.

Enquanto esse profissional cuida do cabelo de determinadas meninas, outras observam. Depois é a vez de umas fazerem nas outras o que observaram.

Elas têm um potencial de aprendizado incrível. São todas

inteligentes. Eu lembro de uns trabalhos fantásticos. Você tem

que dar atenção pra essas meninas pra ter uma resposta.

O espaço está sempre muito cheio, com novas meninas querendo participar. Organizam-se desfiles de moda, concursos de beleza e coreografias.

Pode-se constatar, após a apresentação dos cursos existentes, que a maioria das jovens não se integra sistematicamente nas atividades disponíveis. Entram nas oficinas e saem sem permanecer o tempo suficiente para apreenderem os conhecimentos transmitidos. As razões alegadas para não aderirem são variadas: falta de material, desorganização das atividades, cursos muito simples para quem tem alguma escolaridade, atividades promovidas desinteressantes, ‘sem graça’ e repetitivas. Essas dificuldades são ilustradas pela fala de Eliana:

A gente quer estudar, fazer bordado, não tem material. Pra

gente aprender alguma coisa, a gente tem que se esforçar. Mas

sem material, como é que a gente vai aprender? Quando a

gente quer jogar vôlei, não tem bola.

As atividades relatadas pelas internas são: ensino formal, bordado, dança, teatro, crochê, cabeleireiro, ginástica, culinária, pintura, vôlei, bijuteria, artesanato e Preservida (curso de prevenção de doenças e uso de drogas). Segundo Elen, a atividade mais disputada é o curso de bordado, e o ensino formal é a atividade que a maioria das jovens menos gosta de freqüentar.

Apenas duas adolescentes dizem gostar de ler, ambas apresentando melhor padrão socioeconômico. A visita do pessoal da Igreja cristã também foi mencionada como um momento importante, agregando meninas que se interessam pelas atividades religiosas. Sob o aspecto religioso, há relato de adesão a culto afro, manifestado na fala sobre presença de ‘espíritos’ que ‘tomam’ algumas meninas ou as ‘perseguem’ no alojamento.

As festas comemorativas e socializantes são utilizadas como estratégia para incentivar a participação das adolescentes que costumam confeccionar material apropriado para essas ocasiões, ajudando na ornamentação e nos demais preparativos. São exemplos a festa junina, a comemoração de Natal e de aniversariantes do mês. Nessas datas há bolo, salgados e refrigerantes. Além disso, freqüentemente promovem-se atividades recreativas dirigidas, tais como olimpíadas e peças de teatro, entre outros acontecimentos desse tipo, mantendose contato com outras instituições de internamento e o Criam, inclusive masculinos. Esses momentos ficam registrados nos diários das adolescentes. Há relatos esporádicos sobre essas atividades de lazer, que elas valorizam muitíssimo. Úrsula escreve:

Hoje o dia foi um pouco melhor que ontem, pois houve jogos,

brincadeiras e filmes depois do almoço, e isso ajudou a passar

o tempo.

Tais acontecimentos são vividos pelas meninas com muita euforia e satisfação. Quando fica impossibilitada a participação de todas nesses eventos, a direção escolhe aquelas que estão apresentando melhor comportamento, o que funciona como uma espécie de prêmio.