Homem-Formiga

Jason Starr · Capítulo 9 de 21

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Homem-Formiga

Capítulo 8

SCOTT FICOU EMOCIONADO, bravo e morto de medo. Emocionado por ter encontrado Cassie, bravo por ela o ter colocado naquele inferno matinal, e morto de medo de não conseguir devolver a filha ao tamanho normal.

– Pelo amor de Deus, Cassie – ele disse, vendo a miniatura da filha na palma de sua mão. – Por que você fez isso, hein? Por quê?

Não esperava que ela respondesse. Era bastante difícil aprender a modular a voz no traje do Homem-Formiga; já era impressionante ela ter descoberto como fazer para encolher e ter se virado por aí. Era uma menina esperta, mas também muito ousada – uma combinação perigosa.

– Deixa pra lá – disse ele. – Com certeza tem um motivo, mas não me importa agora. Só quero te ajudar, tá me entendendo?

Mal dava para ver a cabeça dela, mas conseguiu ver que ela assentiu.

– Que bom. Agora, vou te colocar de volta no chão, e quero que faça exatamente o que eu mandar, tá?

Ela assentiu novamente.

Scott pousou a mão no chão, e a menina pulou. Aquela era sua filhinha, a coisa mais importante da sua vida, e estava menor que uma borracha de lápis. Como pai, ele nunca havia se sentido tão impotente.

– Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Eu prometo.

Mas o fato era que ele não tinha a menor certeza disso. Nunca tivera que explicar a ninguém como usar o traje do Homem-Formiga, e aprendera tudo com apenas uma única pessoa, Hank Pym. Cassie era adolescente, ainda estava crescendo, e era menina. Ele não tinha ideia de como essas variáveis afetariam a tecnologia.

– Certo. – A voz dele tremia, não podia evitar. – Você tem que ativar o gás expansor. O que quero que faça é tocar essas alavancas de controle na manga. Você já as encontrou, tenho certeza, mas agora você precisa mantê-las abaixadas e contar até cinco, e, ao mesmo tempo, pender a cabeça pra baixo, colar o queixo no peito. Tá, vamos contar até cinco. Um, dois…

Alguma coisa bateu em Scott como um soco aplicado bem embaixo do queixo. Ele foi catapultado para trás e colidiu contra a porta do armário. Demorou alguns segundos para ele se orientar e perceber que tinha sido atingido pelo capacete do Homem-Formiga, quando Cassie retornou ao tamanho normal.

Scott, meio tonto, conseguiu levantar-se.

– Cassie, você tá bem? Fala alguma coisa. Por favor – ele disse, agarrando a filha pelos braços.

– Tá… tá tudo bem, pai.

Dava para ver que estava assustada. O jeito que dissera “pai” o tocara. Sempre tocava; sempre tocaria.

– Graças a Deus! – Ele abraçou a menina o mais forte que pôde sem machucá-la e disse: – Você não tem ideia de como fiquei preocupado.

– De-desculpa. Nunca mais vou fazer isso. Eu juro, pai.

Ele tirou o capacete da cabeça dela e deu-lhe uma chacoalhada.

– Tá bem mesmo? Como se sente?

– Totalmente normal. Assim, quero dizer fisicamente.

– Tem certeza? Todos os órgãos do seu corpo, inclusive o cérebro, se

– Tem certeza? Todos os órgãos do seu corpo, inclusive o cérebro, se encolheram e se expandiram novamente. Vai saber que efeito isso pode causar em você.

– Eu sei, mas tô superbem, juro.

– Onde você nasceu?

– Quê?

– Em qual cidade você nasceu?

– São Francisco.

– Qual era o nome do seu primeiro cachorro?

– Duncan. Já disse, pai, eu estou bem.

– Espero que sim. Espero mesmo que sim.

– Com que você tá tão preocupado, afinal? – Cassie perguntou. – Você faz isso o tempo todo, não faz?

– É, mas eu sou adulto. Você ainda tá crescendo. Não faço ideia do efeito que isso pode ter em você. É território desconhecido, e é perigoso, e não é algo que você podia ter feito sozinha.

– Tô me sentindo normal. Só meio boba, acho.

Agora que sabia que ela estava bem, e aparentemente ilesa, a raiva de Scott começou a se mostrar.

– Por que você fez isso? – disse Scott. – O traje não é um brinquedo, Cassie. Quantas vezes eu já te disse isso? Pensei que podia confiar em você.

– Mas você pode.

– Posso mesmo? Não foi o que você me mostrou hoje. E se eu não tivesse te encontrado? E se outra pessoa te encontrasse? E se você se machucasse ou morresse? Chegou a pensar nisso?

– Na verdade, não – ela disse.

– Viu, esse é o problema. Você não pode viver desse jeito! Não pode correr riscos. Quem corre riscos acaba morto.

Scott sabia que estava sendo hipócrita, claro. Durante boa parte de sua vida ele correra muitos riscos, viciado em adrenalina.

Mas com ele era uma coisa. Com a filha, a história era outra.

– Eu só queria pregar uma peça numa pessoa – disse Cassie.

– Uma peça? Que tipo de peça?

– Eu sei que vai parecer muito idiota, mas eu tava com raiva e… bom, nem pensei que fosse funcionar.

– Então a peça era pra mim?

– Não, pra uma menina da escola.

Scott lembrou de ter visto formigas na escola e a menina com o nariz quebrado entrando na enfermaria.

– Peraí – disse –, você machucou alguém?

– Foi sem querer. Eu só quis jogar uma bola de basquete na Nikki e…

– E se alguém tivesse te visto? Você estava pequena, mas não invisível.

– Ninguém me viu.

– Acredite em mim, sempre tem alguém que vê as coisas. Principalmente hoje em dia. Então agora todo mundo acha que uma bola de basquete, por conta própria, acertou a Nikki no nariz? E se alguém tiver filmado com o celular? O vídeo pode estar no Instagram ou no YouTube agora, viralizando.

– Ninguém filmou. Acham que foi uma menina que fez isso, a Keely.

– E o que vai acontecer quando a Keely negar? Isso aqui não é brincadeira. Tem sérias consequências, principalmente agora que estamos sob ordem de proteção.

– Não foi só culpa minha – disse Cassie.

– Como assim? Como você…

– Se não fosse você, nada disso estaria acontecendo. É você que tem esse maldito traje de Homem-Formiga, é você que tá sob ordem de proteção. Você, com todos os seus segredos… que eu tenho que ficar guardando pra você.

Cassie estava chorando. Scott odiava vê-la assim tão chateada. Além disso, a menina tinha um pouco de razão.

– Tá, você tá certa – disse ele. – Eu fiquei com medo, só isso. Você é tudo pra mim. Não sei o que faria sem você.

– Eu… eu nunca mais vou fazer isso. – agora ela soluçava. – Eu juro. Eu juro.

Scott a abraçou, prometendo que tudo ficaria bem, e que deixariam esse incidente para trás.

Então, quando ela já estava se acalmando, ele disse:

– E aí… como se sentiu sendo o Homem-Formiga?

– É incrível – ela disse.

– Não é? – disse Scott.

– Quer dizer, você me contava sobre como as coisas ficavam legais, assim, por essa perspectiva, mas até eu ver com meus próprios olhos não dava pra ter ideia. E a força…

– É, foi assim também quando me tornei Homem-Formiga pela primeira vez – disse Scott, lembrando-se do dia em que Hank Pym o mostrara como usar o uniforme. – Ainda estou impressionado com o jeito como você aprendeu a se mover, andar por aí. Levei uma semana pra me acostumar.

– Sei lá, acho que pra mim foi muito natural – disse Cassie. – Hã, aliás, é Menina-Formiga, não Homem-Formiga.

Scott sorriu. Cassie continuou descrevendo como aprendera a correr e a pular, subir e descer escadas, e a experiência de ter observado o comportamento das formigas. Scott fazia algumas piadas, sobre como aprendera a falar usando o som normal da voz, mesmo encolhido, e como aprendera, com o tempo, a se comunicar com as formigas. Mesmo chateado com a filha por ela ter roubado o traje e se colocado em perigo, ele tinha de admitir que foi revigorante conversar sobre as experiências. Além de Hank Pym, Scott nunca conversara com ninguém que tivesse vivenciado aquilo, e o fato de poder falar disso com a própria filha era ainda mais empolgante. Ele sempre se sentia mais próximo dela quando mexiam com tecnologia juntos, construindo ou desmontando algo – mas recentemente, depois que ela entrou na adolescência, os dois não passavam mais muito tempo juntos. Foi bom ter mais uma coisa que os ligasse.

– Posso usar de novo algum dia, pai? – ela pediu.

– Talvez, quando tiver 21. E vai ter que pensar em algum jeito de se desculpar com essa Nikki.

– Como? – Cassie perguntou. – Não posso falar a verdade.

– Não, mas pode compensá-la karmicamente – disse Scott. – Pode mandar um cartão desejando melhoras, ajudá-la com a matéria, fazer algo de bom pra ela.

– Mas pai, ela andou sendo tão má comigo ultimamente. Foi por isso que eu quis me vingar.

– Bom, você vai ter que achar outro jeito de resolver essas divergências – disse Scott. – Ah, e você está de castigo. Não vai sair com nenhuma amiga. Só pode sair do apartamento pra ir à escola, e depois vai voltar direto pra casa.

– Isso não é justo.

– Depois do que fez hoje, tô pegando leve até demais. E pode levar o celular para a escola, por segurança, mas nada de celular em casa por uma semana.

– Sem celular? – Cassie estava chocada. – Que maluquice! Não posso viver sem meu celular.

– Por milhares de anos os humanos conseguiram sobreviver sem iPhones, acho que você também vai conseguir.

Enquanto ajudava a filha a tirar o resto do traje, Scott reparou que ela estava chateada. O que significava que ele a havia tocado. Estava pegando a manha dessa história de ser pai solteiro; talvez aqueles livros de autoajuda estivessem começando a dar resultado. Cassie precisava ser amada, mas com disciplina, e Scott estava conseguindo oferecer ambos.

Ele guardou o traje no cofre e dirigiu-se a Cassie:

– Vou mudar a combinação, então nem pense em tentar abrir de novo.

– Não se preocupe, não vou.

– Acredito em você – disse Scott. – Agora temos que dar a Roger e a todos que estão te procurando uma explicação para o que aconteceu hoje de manhã. A polícia toda está atrás de você.

– Ai meu Deus – disse Cassie.

– Tenho uma ideia. Vem cá.

Scott e Cassie saíram, foram até a entrada do prédio, onde estavam Roger, Carlos e George, conversando. Roger e Carlos ficaram claramente aliviados ao vê-la.

– Onde ela estava? – perguntou Roger.

– No telhado – disse Scott.

– Mas eu chequei o telhado – disse George. – Não havia ninguém lá.

– Ela tava escondida – Scott disse.

– Não é possível que ela estivesse no telhado – George insistiu. – A porta é trancada, por dentro.

– Você deve ter se enganado, porque foi lá que eu acabei de encontrá-la – disse Scott.

– Eu não me enga… – começou George.

– Agora não importa – interrompeu-o Roger. – Ela está em segurança, é isso o que importa – ele disse para Carlos. – Mande cancelarem as buscas.

Carlos foi fazer a ligação.

Roger se virou para Cassie:

– Por que fez isso, Cassie? Queria deixar todo mundo preocupado?

Antes que ela pudesse responder, Scott interveio:

– Ela ficou chateada com esse negócio de proteção.

– Eu entendo – disse Roger –, mas a gente está aqui para ajudar vocês dois. Vocês vão colocar todos nós em perigo se não nos deixarem fazer nosso trabalho. Queremos que vocês tenham privacidade, mas se tivermos que ficar dentro do apartamento, vamos ficar.

– Isso não será necessário – disse Scott. – Cassie e eu tivemos uma longa conversa sobre o que aconteceu, e ela me garantiu que não vai acontecer de novo. Não é mesmo, Cassie?

– Sim, tá certo – disse a menina. – Eu prometo.

Roger olhou fixamente para Scott, depois para Cassie, por um bom tempo. E então disse:

– Então tá. Bom, acho que é melhor irmos pra escola, não? Antes tarde do que nunca.

– Vou pegar a mochila – disse Cassie, e correu para dentro do prédio.

Carlos retornou e disse para Roger:

– Resolvido. – Em seguida perguntou para Scott: – E aí, quer voltar pro escritório?

– Vamos lá – disse Scott.

Estava ansioso para retomar a rotina e se esquecer daquela manhã louca e frenética. Ele reparou que as formigas que vira antes tinham sumido. Obviamente deviam ter ficado intrigadas com a presença de uma pessoa nova, uma garota, usando o traje do Homem-Formiga. Mas agora que a confusão havia terminado, elas também poderiam retornar à suas rotinas atarefadas.

Carlos tinha estacionado do outro lado da rua. Quando foi entrar no carro, Scott viu uma mulher muito atraente, com traços do Mediterrâneo – cabelos escuros compridos, de tailleur justo –, caminhando pela calçada em sua direção. Os dois se notaram ao mesmo tempo e sorriram. Atração mútua? Bom, pelo menos Scott achou que sim. Pena que ele tinha um acompanhante do FBI, senão teria dito oi, tentado puxar papo.

Quando saíram, o celular de Carlos tocou; ele atendeu pelo Bluetooth, dizendo:

– Alô?

Scott percebeu, pela expressão muito séria do agente, que ele estava recebendo algum tipo de informação importante.

Scott olhou para trás, procurando a mulher, desejou ter dito algo para ela.

Carlos dizia à pessoa com quem conversava no celular:

– Sim… ok… tudo bem… certo, obrigado.

E então ele desligou o celular e disse:

– Era sobre o Willie Dugan.

– Pegaram ele? – Scott perguntou.

– Melhor que isso. – Carlos disse. – Ele está morto.