Homem-Formiga
Capítulo 15
NA SALA DE ESTAR do apartamento de Scott, os agentes Warren e James passaram pelo menos duas horas interrogando Scott e Cassie. Ela foi examinada por paramédicos, que determinaram que ela não sofrera dano físico algum durante o sequestro, embora sugerissem uma avaliação psiquiátrica para ajudar a lidar com os efeitos da experiência. Para Scott, o interrogatório do FBI poderia ser mais traumatizante para ela do que o sequestro.
No começo foi ele quem mais falou. Em seguida Cassie teve que dar sua versão dos eventos, e depois os agentes se revezaram nas perguntas feitas a pai e filha – às vezes, as mesmas perguntas. A cena fez Scott recordar-se das vezes em que foi preso e interrogado pela polícia, exceto que dessa vez os interrogadores não tentavam pegá-lo na mentira. Não suspeitavam nem um pouco de que Scott e Cassie mentiam sobre algo; só queriam garantir que tinham todos os fatos redondinhos para poder fechar o caso de Willie Dugan. Cassie dera aos agentes o endereço da casa em que fora mantida presa em Wallkill, e os federais já tinham recebido a notícia de que a polícia local encontrara os três corpos lá.
– Vamos repassar tudo outra vez – Warren disse a Scott, talvez sem se dar conta de que havia usado esse “tudo outra vez” há menos de uma meia hora. – Quando você recebeu a ligação de Cassie?
– Isso é necessário mesmo? – Scott reclamou. – Minha filha está exausta, e teve um dia difícil, obviamente. E ela tem aula amanhã.
– Amanhã é sábado – informou James.
– Ah. É mesmo. – Scott tinha perdido a noção dos dias.
– Tadinho do meu pai – brincou Cassie, sorrindo. Como era bom vê-la sorrindo de novo.
– Essa é a última vez – disse James. – Prometo.
Scott respirou fundo e recomeçou:
– Cerca de 4:30 da tarde.
– Conte tudo o que aconteceu depois disso – pediu Warren –, e seja o mais detalhista possível.
James, durante todo o interrogatório, fazia anotações em um iPad.
– Não há mais nenhum detalhe – disse Scott. – Cassie me ligou dizendo que tinha conseguido escapar da casa. Eu perguntei onde ela estava, e ela disse Wallkill, Nova York, e que tinha fugido para um bar da cidade e pedido o telefone emprestado de uma mulher. Eu mandei que ela esperasse onde estava, aluguei um carro e fui pra lá. Peguei-a, e voltamos pra cidade. Não contei nada à polícia porque Cassie me disse que os homens avisaram que se aparecessem policiais por lá, ela seria morta. Na hora, eu não sabia bem o que acontecia, então fui pra lá, peguei ela e voltamos pra cidade. Ah, sim, e paramos num McDonald’s, onde liguei pra minha ex-mulher, vocês podem checar isso, e pedi um McFish e um milk-shake de baunilha, e Cassie pediu sanduíche de frango, onion rings e milk-shake de baunilha também. Você disse que queria detalhes, certo?
Scott sorriu, mas os agentes do FBI não pareceram curtir o sarcasmo.
– Tem certeza de que está contando todos os detalhes relevantes? – Warren perguntou.
– Tenho, foi só isso – Scott respondeu.
Scott sabia que havia muito mais detalhes nessa história que não passariam por uma boa checagem de fatos. Por exemplo, se Scott alugou um carro, isso teria que aparecer na conta do cartão de crédito dele. E se Cassie havia ligado para ele no meio da confusão, onde estariam as provas de que ela fizera essa ligação? Ele torcia para que os federais não cavassem muito a fundo a história – que ficassem contentes por Dugan e seu bando estarem mortos, fora de circulação, e assumissem que outro associado dele o matou. Contanto que a polícia não soubesse que o Homem-Formiga tivera uma pequena participação no acontecido, Scott estava feito.
Na primeira vez que ele contou sua versão, o agente Warren deu-lhe o maior sermão por não ter contado a ninguém sobre a ligação da filha, dizendo que ele poderia ter comprometido sua segurança e a dela e blá, blá, blá. Scott se desculpou repetidamente pelo “lapso”, alegando que estava em choque por causa do sequestro e agira impulsivamente. Pediu desculpas também por qualquer problema que causara à polícia ou ao FBI.
Sim, teve de engolir um sapo daqueles.
– Só tem uma coisa que eu ainda não entendo – disse Warren.
Ai, ai.
– E o que é? – Scott perguntou, já se preparando para mais um sermão.
– Carlos Torres, o agente federal, disse que você subiu para o apartamento um pouco antes de ter recebido a ligação de Cassie. Como foi que você saiu de casa sem que ele te visse?
Warren ainda não tinha perguntado isso. Scott hesitou; queria ser muito cuidadoso com as palavras.
– Não faço ideia. Eu apenas saí pela entrada da frente.
Scott não queria colocar Carlos na complicada situação de ter que explicar aos supervisores que simplesmente deixara o homem passar despercebido.
– Do jeito que você e a sua filha desaparecem, dá até pra achar que são fantasmas ou algo do tipo.
– Haha – Scott riu, nervoso. – Então, já acabamos o interrogatório?
– Não se preocupe, não vou me esquecer de avisar quando tivermos acabado – disse Warren naquele tom pomposo e controlador que ele deve ter aperfeiçoado na prática de inúmeros interrogatórios em Quantico. Ele olhou para Cassie e disse: – E você pode me contar o que te aconteceu mais uma vez?
Cassie parecia exausta, os olhinhos vermelhos de sono.
– Fala sério – protestou Scott –, isso é mesmo necessário?
– Está tudo bem, pai – Cassie disse.
Pela milésima vez, Cassie explicou a Warren e James como fora sequestrada
na 1a avenida, entre as ruas 76 e 77. Descreveu os dois sequestradores, o máximo que conseguia se lembrar deles: o grandão tinha sobrancelhas grossas; o baixinho era calvo.
– Viu o motorista do carro? – Warren perguntou.
– Não, já disse. Foi tudo muito rápido.
– Tá bom – Warren disse. – Prossiga.
Cassie explicou que foi amarrada e amordaçada no carro, que trocaram de
Cassie explicou que foi amarrada e amordaçada no carro, que trocaram de veículos algumas vezes, e que foi levada a uma casa na periferia. Recontou a anedota da história do Sherlock Holmes que lera na escola e disse que não sabia onde estava, mas achava que estava a algumas horas de Manhattan. Descreveu que ficara amordaçada, e que outro homem veio falar com ela. Essa foi a parte da história que ela ensaiou com Scott enquanto voltavam, mais cedo, para a cidade. O pai dissera que ela podia mencionar um terceiro homem que viera conversar com ela, mas que não podia revelar nada do questionamento acerca do Homem-Formiga. Como no relato anterior, a menina não mencionou nada que não devia.
Finalmente, Cassie contou aos agentes que escutara tiros na casa, e como ficara aterrorizada. Estava ficando visivelmente perturbada: tremia, a voz falhava conforme ela falava.
Irritado por ver a filha ser forçada a recontar a história pela terceira ou quarta vez, Scott interveio:
– Não tem por que fazer a menina contar tudo de novo. Qual é?
– Ele tem razão – disse James.
– Tá bom, certo – Warren concordou, relutante. – E tinha mais alguém na casa?
– Eu já disse, só sei de três caras.
– Mas você disse que escutou alguém saindo. De carro.
– Eu ouvi o carro, só isso.
– Tem algum cheiro em particular que você lembre?
– A casa cheirava a comida mexicana – respondeu Cassie.
– Digo o cheiro de uma pessoa.
– Como eu disse, lembro do cheiro de dois deles. Um usava um perfume forte. O outro tinha cheiro de suor, como se tivesse acabado de chegar da academia.
Scott ficou escutando, orgulhoso de Cassie por responder às perguntas exatamente do jeito que ele a instruíra a fazer, apesar de cansada e agitada. Ele pedira para que não mencionasse nada sobre o quarto homem que estivera na casa, já que nem mesmo ele entendia muito bem o que lhe tinha acontecido – como fora temporariamente paralisado, e por qual motivo. Ainda não acreditava que fora apenas coincidência. Dugan, os outros dois homens mortos e talvez mais uma pessoa o atraíram para a casa com a suspeita de que ele era o Homem-Formiga. Deve ter havido uma discussão antes de ele chegar; em todo caso, os três homens foram assassinados, talvez pelo mesmo homem que o paralisara. Ou o quarto cara chegou depois e não teve nada a ver com as mortes.
Scott não fazia ideia do que o assassino, ou assassinos, queria dele, nem por qual razão o paralisara. Mas se aquilo envolvia a tecnologia do Homem-Formiga, ele tinha que descobrir o motivo antes que os federais o fizessem. Scott sabia que podia ser tudo paranoia dele, que esses eventos estranhos não tinham nada a ver com o Homem-Formiga, mas sua preocupação tinha fundamento. Já haviam tentado roubar sua tecnologia no passado; nas mãos erradas, ela poderia tornar-se uma perigosa arma. E se um traficante dos grandes pusesse as mãos nela? E se o líder de um grupo terrorista criasse um exército de soldados-formiga? As possibilidades eram quase infinitas.
Já havia repórteres amontoados em frente ao apartamento, e o sequestro,
Já havia repórteres amontoados em frente ao apartamento, e o sequestro, bem como a dramática escapada de Cassie, eram as notícias mais quentes da cidade, talvez até do país. Se os federais descobrissem que o Homem-Formiga estava envolvido, e fosse revelado que ele era Scott Lang, a imprensa faria um circo ainda maior, gerando mais perturbação na vida de Scott e Cassie.
Finalmente satisfeitos com as informações coletadas, Warren e James se despediram e deixaram pai e filha sozinhos.
Mas o drama não havia acabado. Scott sabia que no dia seguinte haveria mais interrogatórios por parte dos federais, e talvez da polícia civil, conforme mais dados sobre o caso saíssem e a busca pelo assassino, ou assassinos, de Dugan progredisse. Pior ainda, haveria um assédio incomensurável da imprensa em cima do caso. Os repórteres que acampavam em frente ao prédio ainda não tinham conseguido chegar perto de Scott e Cassie.
Dito isso, após todo o drama e loucura do dia, foi muito bom ficar sozinho com Cassie no apartamento.
– E aí, menti direito por você?
Apague o que eu disse. Cassie parecia irritada e amargurada.
Scott ficou escutando por um segundo para certificar-se de que os agentes saíram, depois disse:
– Ah, vai, não pense nisso como uma mentira.
– Ah, é? Então, você chama isso de quê?
Scott hesitou, depois rebateu:
– Não ser exatamente acessível.
– Essa é a sua lógica – disse Cassie. – É assim mesmo que você pensa. Quando roubava, você não dizia: “Não tô roubando, na verdade, porque roubo de pessoas más, ou de pessoas que merecem”, ou sei lá o que você pensava pra se sentir melhor?
– Tá bom, Cassie, você está cansada. Eu entendo, mas vai ter que parar com isso agora e…
– Seus segredos quase me mataram hoje – Cassie disse.
– O quê? – Scott disse. – Isso não faz o menor sen…
– O único motivo pra gente ter que ser protegido era aquele cara maluco, o Willie Dugan, que tava atrás de você. E por que ele tava atrás de você? Por causa do outro segredo que eu e a mamãe guardamos pra você, e eu não aguento mais, não aguento. Sempre tem outro segredo, e outro e mais outro. Com você, não tem fim. Tem sempre alguma coisa nova que eu não posso fazer, ou que não posso contar pra ninguém. Por que é tudo sempre em torno de você e dos seus segredos? E eu? Quando é que eu vou poder viver?
Scott sabia que isso não era apenas melodrama adolescente. Ele tinha dado mancada enquanto marido e enquanto pai, e a menina tinha o direito de ficar chateada com ele.
– Tá certo, ursinha – disse ele. – E eu estou tentando me ajeitar, deixar tudo mais estável pra você.
– Não me chame de ursinha! – Cassie ergueu a voz. – Acha que isso aqui é estável? Eu fui sequestrada hoje, interrogada pelo FBI. Todas as pessoas no mundo, nem só na escola, agora me conhecem. Faz ideia de como eu estou com vergonha? Me sentindo humilhada?
Scott quase lembrou a filha de que ter roubado o traje do Homem-Formiga também causara bastante “instabilidade” na vida dela. Contudo, conteve-se sabendo que o argumento não funcionaria visto que o traje era dele.
– Estou tentando mudar as coisas por você – disse. – Estou tentando mesmo.
Cassie fitou o pai por um tempo, depois foi para o quarto e trancou a porta.
Como era de se esperar a história do sequestro em Upper East Side e a escapada dramática de Cassie Lang de seu cativeiro em Wallkill, Nova York – onde os corpos de três homens, inclusive um dos fugitivos mais procurados do país, foram descobertos – era a manchete principal em todos os noticiários importantes. Havia também relatos de que o homem morto na Louisiana havia sido identificado como Lawrence Mulligan, o juiz aposentado de Nova York que presidira o julgamento de Dugan.
– Belo trabalho de investigação – disse Scott, irônico. – Palmas para o FBI.
Deitado na cama, no escuro, ele assistiu mais duas reportagens. Depois passou para a CNN querendo ver uma cobertura mais extensa, onde viu imagens repetidas do local – e do pessoal da polícia, equipes de reportagem e curiosos em frente ao seu prédio. Seu apartamento dava para os fundos, por isso ele não conseguia ver a rua no momento; apenas ouvir a comoção.
Adormeceu com a TV ligada. Pela manhã, a cobertura do sequestro ainda era o destaque dos noticiários. O Nova York 1, canal de notícias local, mostrava imagens ao vivo da fachada do prédio de Scott. Ele teve a impressão de que havia mais repórteres do que na noite anterior. Aquilo era pior do que a ordem de proteção – agora haviam se tornado prisioneiros.
Como se sentisse a deixa, chegou uma mensagem de Tony Stark:
Muito bem, meu chapa
Scott sentiu todo o sarcasmo que vazava da mensagem. Escreveu de volta:
Ainda não acabou
Tony devolveu:
Sério, que bom que Cassie tá bem. Se precisar de alguma coisa,
tô sempre aqui. Sabe disso.
Scott respondeu:
Obrigado, cara! Agradeço!
Não houve sarcasmo da parte de Scott. Dava-lhe uma sensação imensa de segurança saber que mesmo que as coisas ficassem péssimas em sua vida, ele nunca estava sozinho; seus amigos estavam sempre por perto.
Por volta das onze da manhã, recebeu uma ligação no telefone fixo de um número bloqueado.
– Alô?
– Espero que tenha descansado. Aqui é o agente Warren.
– Que houve? – Scott perguntou.
– Vai ficar feliz em saber que a ordem de proteção foi revogada – ele disse – É um homem livre.
– Então pegaram o assassino da casa? – Scott perguntou, imaginando por que ainda não ouvira nada no noticiário.
– Não, a investigação prossegue. Mas a ordem de proteção se referia à ameaça de William Dugan, e essa ameaça foi eliminada.
– Peraí, não tô acompanhando. Tem um assassino à solta, uma pessoa que viu a minha filha, pode ter participado do sequestro e pode ter receio de que ela a identifique. E você está me dizendo que a ameaça foi eliminada?
Claro que Scott não mencionou que o assassino provavelmente o vira também – e pior, sabia que ele era o Homem-Formiga.
– Sim, a situação é essa mesmo – disse Warren. – Mas fico surpreso de você achar ruim, do jeito que estava ambivalente no começo.
– Eu não estou surpreso – disse Scott. – A intenção nunca foi proteger a mim e a minha família. Foi tudo por causa de vocês, do FBI.
– Desculpa, mas um dos nossos levou um tiro tentando proteger a sua família.
– Não, ele levou um tiro tentando proteger seu emprego. Você ficou cabreiro quando o Dugan pegou aqueles caras no seu turno, e não queria que acontecesse de novo.
– Então o que você tá dizendo? Que quer proteção, agora?
Scott não sabia muito bem o que queria do FBI agora.
– Só quero que minha filha tenha segurança. Como é que ela vai pra escola? Como vai pra qualquer lugar desse jeito?
– No momento, não temos motivo nenhum pra achar que você ou a sua família estão em perigo. Se a situação mudar, informaremos imediatamente. Mas até onde sabemos, as mortes na casa foram um incidente isolado que não tem nada a ver com você e a sua família. Infelizmente, não podemos gastar os recursos do governo com suposições. Só agimos diante de fatos.
Scott compreendeu que mesmo que o FBI continuasse protegendo Cassie, talvez não fosse adiantar. Afinal, aquelas pessoas foram ousadas o bastante para sequestrá-la em plena luz do dia e atirar num agente federal. Se alguém quisesse vir atrás dela, colocar outro oficial para tomar conta não necessariamente garantiria sua segurança.
– Eu entendo a situação. Obrigado por tudo – disse Scott.
Ele passou o resto da manhã em seu pequeno apartamento, sentindo algo que não sentia há anos: um prisioneiro, como fora em Rykers Island. Aquela havia sido a época mais negra de sua vida. Ficar enfurnado num apartamento no Upper East Side não era exatamente como o pesadelo do dia a dia na prisão, mas ele odiava a sensação de estar preso, restringido. Desde que saíra da cadeia, tinha pesadelos recorrentes de estar amarrado ou confinado em lugares apertados. Uma das coisas que mais gostava em ser o Homem-Formiga era que jamais poderiam prendê-lo. Era como se a fantasia do criminoso tivesse virado realidade: praticamente não havia nenhum espaço que pudesse contê-lo.
Mas naquele momento, o Homem-Formiga não era uma opção. Embora Scott pudesse facilmente encolher e passar pelos caras lá de fora, não podia ir a lugar algum sem Cassie. Não podia deixá-la em casa sozinha, desprotegida, com um possível assassino na cola dela. E se saísse do prédio junto com ela, seriam atacados pelos repórteres.
A TV repetia os mesmos relatos sobre o sequestro e os assassinatos, mas ninguém mencionava novidades sobre a busca ao assassino. O que não significava nada, claro. Mesmo se os policiais estivessem focados em algum suspeito, a informação não seria publicada ainda. Scott receava que, caso os policiais capturassem o assassino, este revelaria a identidade do Homem-Formiga. O problema maior era, na verdade, o que mais o assassino revelaria. E se houvesse outro motivo para o sequestro? Scott pensou de novo na possibilidade do assassino estar querendo colocar as mãos na tecnologia do Homem-Formiga. De todo modo, era preciso encontrar esse assassino antes da polícia.
Ao meio-dia, Cassie ainda estava dormindo. Coisa boa – Scott estava contente por ela estar descansando bastante. Ele concluiu que esse seria um bom momento para acalmar a situação com os repórteres.
Ao aproximar-se do saguão de entrada, foi surpreendido pela quantidade de pessoas lá fora. Parecia haver dezenas de repórteres. Quando foi avistado, a multidão começou a chamar seu nome.
– Ei – George, o zelador, abordou Scott por trás, assustando-o. Talvez Scott estivesse sofrendo de estresse pós-traumático após ter sido surpreendido pelas costas no dia anterior.
– Que loucura, né? – Scott disse.
– Talvez você devesse sair de férias – disse George. – Isso aí não é nada bom pros vizinhos.
Mandar Cassie passar um tempo fora, talvez no Oregon, com Peggy, não seria má ideia se a menina tivesse a segurança garantida. Mas com o fim da ordem de proteção, Scott não queria correr o risco. E não pretendia ir a lugar algum enquanto não descobrisse o que exatamente acontecera com ele naquela casa.
– Desculpe por tudo isso – disse ele. – Com certeza vai acabar logo.
– Não está acabando, está piorando – George disse. – Essa é uma violação do estatuto. Vou ter que relatar para a administradora. Se não fizer alguma coisa, der um jeito, vai ser despejado.
O rosto raivoso de George brilhava, ruborizado, as veias visíveis na testa. Ele voltou para seu apartamento e bateu a porta.
Scott sabia que não seria assim tão fácil despejá-lo, mas a possibilidade não era tão remota. Graças a Willie Dugan, sua filha tinha sido sequestrada, seu emprego estava em risco e talvez ele fosse obrigado a achar outro lugar para morar. Scott não estava mesmo se saindo muito bem ao prover estabilidade para Cassie.
Farto, ele abriu a porta do prédio. Os repórteres avançaram, erguendo microfones, gritando o nome dele e fazendo perguntas. Diversas câmeras de TV apontavam para o rapaz.
– Tá, calma – disse ele. – Todo mundo, calma. Vou fazer uma declaração, e apenas uma.
A multidão silenciou.
– Estou contente e aliviado por minha filha estar a salvo, em casa. Eu e minha família temos passado por um momento extremamente difícil e cansativo; peço a vocês que, por favor, respeitem a nossa privacidade. Obrigado.
Os repórteres gritavam perguntas conforme Scott retornava para dentro do prédio. Ele não acreditava que essa declaração breve e rasa deteria a mídia por muito tempo, mas valia a pena tentar.
Quando voltou ao apartamento, Cassie estava acordada, sentada à mesa, comendo cereal numa tijelinha e fitando o celular. Após o inferno do dia anterior, foi ótimo vê-la retomando a rotina matinal de costume.
Scott foi até ela, beijou-lhe no topo da cabeça, do jeito que fazia desde que ela era bebê, e disse:
– Bom dia, docinho. Dormiu bem?
– Bem – ela disse. – Tive uns pesadelos.
– Você podia ir falar com aquele psiquiatra que sugeriram – Scott disse. – Vou marcar uma consulta pra você.
– Tanto faz – ela disse. – Eu sobrevivo.
A menina deu as últimas rápidas colheradas no cereal, levantou-se e disse:
– Preciso me aprontar.
– Aprontar? – Scott perguntou.
– É, ué – ela disse. – Vou sair. Você disse que eu podia comprar um celular novo hoje, não foi?
Tinham conversado sobre o celular no carro, a caminho da cidade.
– Acho que sair é algo impossível nesse momento – disse Scott.
– Como assim? – Cassie perguntou – Por quê?
Ele explicou a situação com os repórteres lá fora.
– E daí? – disse a menina. – Isso não significa que tenho que ficar aqui dentro o dia todo.
– Não é boa ideia sair e lidar com aquilo tudo. Principalmente depois do que você passou ontem. A gente podia ficar aqui hoje, e quem sabe à noite tenha menos gente lá fora.
– Isso é um absurdo – disse ela. – Eu estou ótima, e quero ver meu namorado.
– Desculpa, o seu o quê?
– O nome dele é Tucker – ela disse.
– Ah, sim, Tucker McKenzie, como eu pude esquecer? Mas desde quando ele é seu namorado? – Scott perguntou-se: Será que Peggy sabe disso? – E eu tava achando que não tinha mais essa de namorar.
– Hã? – Cassie se fez de perdida. – Não entendi.
– Ah, não, é verdade. Você disse que não rolam mais os encontros. Pelo visto,
– Ah, não, é verdade. Você disse que não rolam mais os encontros. Pelo visto, namorar é outra coisa.
– É, totalmente diferente – ela disse.
– Quando isso aconteceu? – Scott perguntou. – O Roger estava seguindo você o tempo todo. Confie em mim, sei como é. – Scott lembrou-se do café que tomou com Jennifer.
– Que diferença isso faz? – disse Cassie. – Aconteceu, e ele quer me encontrar na Sixteen Handles mais tarde. – Sixteen Handles era uma lojinha de frozen yogurt.
– Pra começar, eu preciso conhecer esse Tucker McKenzie, ou qualquer menino com quem você sair – Scott disse. – Segundo, eu já disse, hoje não é uma boa sair. E é bem possível que você não possa ir a lugar nenhum sozinha por um tempo.
– Como assim? Por que não?
Scott explicou que a ordem de proteção fora revogada, mas até onde ele sabia, não era seguro para Cassie ficar sozinha com um assassino à solta.
– Mas o FBI acha que está tudo bem – ponderou Cassie –, ou eles continuariam me protegendo, não é?
– Não necessariamente – Scott disse.
– O que você quer dizer? Agora você acha que sabe mais do que o FBI?
– Ei, mocinha, cuidado – ele disse.
– Eu acho que é só porque você não quer que eu saia com o Tucker – ela disse. – Não tem nada a ver com a minha segurança. Se você quisesse me ver segura, estaria você mesmo me protegendo ontem em vez de deixar isso pro FBI fazer.
– Eu te salvei – ele disse.
– É, e eu não precisaria ser salva se você não fosse o Homem-Formiga, se fosse só um pai normal – ela disse. – É tudo culpa sua, é sempre culpa sua, e sou sempre eu que sou punida.
– Cassie, deixa disso – Scott disse. – Sei que você está chateada, mas…
– Te odeio! – ela disse – Odeio isso tudo!
A menina marchou para o quarto e bateu a porta. Depois de George, essa bateção de portas parecia estar começando a virar moda na vida de Scott.
Scott ficou muito bravo consigo mesmo por brigar com a filha, por perder o controle. Às vezes ele achava que estava fadado a cometer os mesmos erros repetidamente.
O interfone tocou; tinha alguém no saguão de entrada. Scott ignorou o chamado, imaginando que fosse um repórter tentando fazê-lo descer. Mais toques. Após alguns minutos disso, tocou o celular. Um número restrito.
– Alô? – Scott atendeu.
– Oi, é o Carlos.
– Oi – Scott disse.
– Por que não está atendendo o interfone?
– Pensei que fosse um repórter.
– Deixa eu subir – Carlos disse. – É urgente.