Homem-Formiga
Capítulo 16
SENTADO DE FRENTE PARA CARLOS na mesa de jantar, Scott olhava para o iPad do agente. Na tela havia uma imagem extraída de uma câmera de segurança, de Scott e a mulher com quem havia tomado café, tirada quando os dois caminhavam juntos pela 1a avenida.
– O nome dela não é Jennifer – disse Carlos. – É Monica. Monica Rappaccini. Eu a investiguei, movido apenas por palpite. Sabe alguma coisa a respeito dela?
– Só o que ela me disse no café – Scott disse. – Mudou-se pra cá de Hoboken, tem uma filha.
– Tudo mentira – Carlos disse. – A ficha dela é longa, e já se associou á diversas organizações criminosas, inclusive a Hidra e a I.M.A.
O primeiro pensamento de Scott foi: Uma ex-criminosa, por isso que me apaixonei. Ex-criminosos sempre conseguiam se encontrar, assim como os alcoólatras. Mas ele sabia que as associações criminosas dessa mulher tinham implicações muito mais sérias.
– Não fazia ideia de quem ela era – disse ele. – Por que quis investigá-la?
– Achei suspeito ela aparecer tão perto do dia em que a sua filha foi sequestrada. O reconhecimento facial bateu direitinho. – Carlos estendeu a mão e foi passando mais fotos de Scott e Monica, depois algumas só dela, de rosto.
Na cabeça dele, uma montagem do encontro com Monica no café foi sendo exibida, como um filme, inclusive todas as perguntas sobre as formigas. Isso seria prova de que ela estava trabalhando com Dugan e que talvez tivesse matado ele e os outros?
– Bem, isso é muito esquisito – disse Scott. – Mas o que tem a ver comigo?
– Eu esperava que você me dissesse – Carlos disse.
Este não era o Carlos gente boa, o federal que convidara Scott para dar um passeio no Bronx qualquer dia desses. Era o Carlos durão, que queria respostas de Scott, não perguntas.
– Bom, isso mostra que eu tenho um faro péssimo pra mulheres – Scott disse.
Sorriu, mas Carlos não viu graça.
– Me conta a verdade, amigo – disse ele. – Não estou de brincadeira. Eu já me lasquei por ter deixado você sair do apartamento e ir para aquela casa. Ainda não sei como você fez isso. O que você é, algum tipo de Houdini?
Scott abriu um sorriso malicioso.
– É sério – disse Carlos. – Sabia dos antecedentes dessa mulher?
– Claro que não sabia – Scott disse. – Pensei que o nome dela fosse Jennifer. Isso é tudo novidade pra mim.
– Não faz a menor ideia de por que ela te deu um nome falso?
– Não – disse Scott, mas tinha um palpite. Talvez Jennifer, ou Monica, tenha lhe dado um nome falso porque estava tentando descobrir se ele era o Homem-Formiga, para poder atraí-lo para a casa. Talvez tenha sido ela quem matou Dugan e o apagou.
Mas se fosse verdade, qual seria o motivo dela?
– É meio coincidência – Carlos retomou – ela ter te abordado com nome falso poucos dias antes da sua filha ser sequestrada.
– Eu acho que coincidências acontecem – Scott disse.
– Mas são raras – Carlos retrucou. – Acha possível essa Monica Rappaccini ter alguma coisa a ver com o sequestro de Cassie?
– Sei lá – disse Scott.
Carlos o fitava, como se tentasse descobrir se ele mentia. Scott tentou manter a expressão serena, inocente, mas não ajudava nada o fato de ele estar mesmo mentindo. Bom, mentindo em parte.
– Monica Rappaccini é perigosa – disse Carlos. – Trabalha sozinha, não é leal a ninguém, trabalha com quem estiver disposto a pagar mais. É cientista, mas acreditamos que agia como ladra, contrabandista e até assassina. Basicamente, se a pessoa estiver disposta a pagar bem por qualquer serviço, ela topa.
Scott lembrou-se de quão envolvido ficara por ela, chegara até a pensar que pudesse ser a mulher de sua vida.
– Uma bela duma atriz, também – disse.
– Sabe se ela tinha alguma conexão com Willie Dugan? – Carlos perguntou.
– Peraí. – Scott olhou sério para Carlos, começando a se irritar. – Tem certeza de que vai me perguntar isso?
Carlos não disse nada, ou seja: sim.
Scott pôs-se a sussurrar, para que Cassie não ouvisse nada no quarto ao lado.
– A minha filha foi sequestrada ontem. Se eu soubesse que essa mulher tinha alguma conexão com Willie Dugan, acha mesmo que eu teria me sentado pra tomar café com ela e não teria te contado nada?
– Eu não sei o que você faria ou não faria – Carlos disse. Só sei que já foi criminoso, e era amigo de Willie Dugan.
– Amigo, não – Scott protestou. – Eu só trabalhava com o cara. E o que isso significa?
Scott não podia acreditar que estava começando a gostar desse cara.
– Ela pode ter te encontrado pra mandar uma mensagem do Dugan, algo que você não queria que eu soubesse.
– E eu faria isso sabendo que colocaria minha filha em perigo?
– Talvez você não soubesse dessa parte. Podem ter te feito uma oferta, e você a recusou.
– Pensa um pouco no que está falando, só um pouquinho – disse Scott. – Por que eu faria isso?
– Então não sabia nada mesmo do passado dela?
– Eu nem sabia o nome verdadeiro dela antes de você entrar aqui e me contar.
Carlos balançou a cabeça, depois se levantou e ficou andando a esmo pela sala.
– Eu não sei no que acreditar – disse. Sua voz saiu mais fraca, como se ele começasse a perder a convicção, como se percebesse que sua teoria conspiratória envolvendo Scott não fazia o menor sentido.
Foi então que Scott entendeu o que realmente estava acontecendo ali.
– Peraí, agora eu saquei – disse. – Entendi por que você está tão incomodado, me acusando de trabalhar com Dugan, e por que veio aqui sozinho. Por que Warren e James não vieram também, já que você veio me interrogar? Você veio sozinho porque já estava em maus lençóis por eu ter saído sem ser visto do apartamento. Se seus chefes descobrirem que você deixou uma criminosa conhecida se aproximar de mim na rua durante o seu turno, isso vai te custar seu emprego. Então você vem até aqui e me joga essa ladainha, me acusa de trabalhar com a mulher, na esperança de voltar pros seus chefes com essa bomba, dizendo que descobriu uma espécie de conspiração. Mas é tudo bobagem, nem mesmo você acredita no que está dizendo.
Carlos parou de andar e disse:
– Tá, olha. Você está certo, amigo. É o meu que tá na reta. Você precisa ser sincero comigo. Sobre o que conversaram naquele café?
Lembrando-se da conversa, focada principalmente nas formigas, Scott disse:
– Nada de mais. Só, hã, batemos papo.
– Bateram papo, mas sobre o quê?
– Trabalho. Ela me disse que é fotógrafa e que morava em Hoboken, mas que tava de mudança pro Upper East Side.
– Que mais?
– Falamos das nossas filhas. Ela disse que tem uma filha adolescente… espera, ela me perguntou em qual escola a Cassie estuda e disse que a filha dela também estuda lá. Se ela tava mesmo trabalhando com o Dugan, talvez tenha sido assim que ela soube onde esperar pra pegar a Cassie na saída da aula.
– Então você acha que Monica Rappaccini estava no carro junto com os sequestradores? – Carlos perguntou.
– Sei lá – disse Scott. – A Cassie não viu nenhuma mulher, mas ela podia estar dirigindo. A Cassie não conseguiu ver quem dirigia.
Carlos olhou sério para Scott e disse:
– Está me escondendo alguma coisa, amigo? É melhor me contar agora. Se essas pessoas sequestraram a sua filha, sabe-se lá o que vão tentar fazer em seguida.
– Do que vocês tão falando? – Cassie perguntou.
A menina entrara na sala sem Scott perceber.
– Nada, não, docinho – disse ele.
– Ele disse que alguém vai tentar me sequestrar de novo – insistiu a menina.
– Isso não é verdade – disse Scott.
– Mas foi isso o que ele falou. Quero saber o que está acontecendo. Tenho direito de saber o que está acontecendo.
Cassie começava a perder o controle. Tremia, pânico nos olhos.
– Tá, fica calma – disse Scott.
Desse ponto em diante as coisas foram de mau a pior, com Cassie gritando e chorando.
Num dado momento, Carlos disse:
– Vou esperar no corredor.
Finalmente Scott pôde tranquilizar a filha, convencendo-a de que ela não estava correndo perigo imediato algum. A menina voltou para o quarto.
Scott saiu para o corredor e sussurrou para Carlos.
– Olha, eu respondi tudo que você me perguntou. A ordem de proteção já era, então oficialmente você não tem motivo nenhum pra estar aqui.
– Desculpe a sua filha ter ouvido aquilo – disse Carlos. – Sei que você não
– Desculpe a sua filha ter ouvido aquilo – disse Carlos. – Sei que você não tinha nada a ver com Dugan, e que não sabia quem era aquela mulher. Você é um cara legal, que ama a filha. Mas eu sei também que tem uma coisa que você não está me contando.
– Se eu soubesse de alguma coisa, contaria pra você. – Scott torceu para parecer bem sincero e convincente. Ele continuou, sussurrando: – Olha, talvez tenha sido mesmo tudo coincidência. Tá, ela mentiu com relação ao nome, e acabou que ela tem todo esse passado, mas isso significa que ela tem alguma coisa a ver com Dugan? Ela pode ter mentido porque tava tomando um café comigo e não quis revelar coisas dela. Não seria a primeira vez que uma mulher mente pra mim num encontro. Uma vez uma me disse que era solteira, e no dia seguinte eu a vi no parque com o marido e os filhos. – Scott sabia que estava exagerando na analogia, mas prosseguiu: – Com certeza foi só isso. Sei que você está paranoico, achando que tem alguma coisa maior rolando, e que vai vir pra cima de você. Quer saber? Se essa Monica entrar em contato comigo, você vai ser o primeiro a saber. Só que eu não acho que isso vá acontecer. Pra mim, eu conheci uma mulher, ela me deu um fora, e agora eu nunca mais vou ouvir falar dela. E também não seria a primeira vez que acontece isso.
Carlos não riu, sequer sorriu, mas Scott não esperava que o fizesse. Carlos tinha de aceitar a situação – não tinha escolha.
– Tá bom – disse ele. – Eu agradeço. Vamos manter contato, amigo. E não se preocupe que não venho mais aqui sem ser convidado. Prometo.
De volta ao seu apartamento, Scott sentiu alívio, mas sabia que teria de encontrar Monica Rappaccini antes que Carlos, ou alguém do FBI, a encontrasse. Do contrário, a identidade do Homem-Formiga seria revelada, e a tecnologia poderia acabar vendida para quem desse o maior lance. Embora Scott não tivesse certeza de que fora Monica quem o apagara na casa, tudo apontava para ela.
Só para não dizer que não tentara, Scott entrou na internet em seu iPad e pesquisou “Monica Rappaccini” e “criminosa” no Google. Não encontrou nada de útil. Mas quando digitou apenas Monica Rappaccini no Google Imagens, diversas fotos dela apareceram. Uma num encontro de colégio na Califórnia, tirada alguns anos antes; outra era uma foto dela com várias mulheres na praia; outras duas pareciam ter sido tiradas num casamento. Não havia nada nessas fotos que indicasse que a moça levava vida dupla. Parecia tão direita nas fotos que Scott poderia achar até que Carlos se enganara, que ela não nunca havia se envolvido com a Hidra e a I.M.A. – se ela não tivesse contado aquela história toda de fotografia e Hoboken no outro dia. Scott não precisava de provas para saber que Monica Rappaccini era uma trambiqueira mentirosa – vira as evidências com os próprios olhos.
Ele ligou a TV, depois foi checar Cassie, mas a porta estava trancada.
– Cassie, abra a porta. Quero falar com você.
A menina não respondeu.
Ele bateu com força mais algumas vezes e disse:
– Cassie, fala comigo, tá tudo bem?
Continuou sem resposta. Ele começou a ficar preocupado. Não achava que ela poderia machucar a si mesma, mas por outro lado, nunca a vira tão perturbada e traumatizada.
Bateu de novo. Nada de resposta. Estava prestes a encolher quando algo na televisão chamou sua atenção. Não tinha nada a ver com Willie Dugan. Pensando bem, talvez tivesse.
Imagens em close de arbustos cheios de formigas mortas, penduradas de cabeça para baixo nas folhas. A âncora, em tom jocoso, explicava que milhares de formigas tinham morrido na região norte de Nova York no que parecia um suicídio em massa. Apareceu uma imagem ainda mais ampliada das formigas mortas enquanto a âncora dizia que os cientistas “não sabem o que está causando os suicídios de formigas, mas acreditam que o fenômeno esteja relacionado ao suposto fungo zumbi que geralmente ataca formigas na América do Sul”. Ela brincou com o âncora ao lado, dizendo que torcia para que “as formigas não fossem atacadas por fungos vampiros na próxima vez”, e depois passou para a notícia seguinte.
Scott compadeceu-se pelas formigas – todas aquelas vidas perdidas – e ficou com raiva dos jornalistas por não levarem o fato a sério.
Cassie saiu do quarto, notando logo como o pai estava irritado.
– Pai, que foi? Que houve?
Scott, perturbado, não disse nada.