Homem-Formiga

Jason Starr · Capítulo 18 de 21

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Homem-Formiga

Capítulo 17

SCOTT TROCAVA DE CANAL FRENETICAMENTE, tentando encontrar mais informações sobre as formigas-zumbis. Mas não encontrava nada.

– O quê você está procurando? – Cassie perguntou. – O que há de errado? Alguma coisa ruim? Você está me assustando.

– É uma coisa ruim, sim – Scott disse. – Muito, muito ruim.

No iPad, Scott encontrou algumas notícias, muito similares ao que vira na TV, relatando as estranhas mortes de formigas na região norte de Nova York. Depois, em outro site de notícias, encontrou o que esperava encontrar: as formigas estavam morrendo principalmente em Wallkill, Nova York.

– Eu sabia – ele disse.

– Sabia o quê? – Cassie perguntou.

Scott analisou o artigo mais uma vez enquanto a filha lia por cima de seu ombro. Não havia conexão alguma entre as histórias das formigas mortas e o assassinato de Willie Dugan e seu bando. A única conexão – bem, a única conexão óbvia, pelo menos – era o fato de que os dois eventos ocorreram em Wallkill.

– Peraí, já entendi – disse a menina. – Isso tem alguma coisa a ver com todas aquelas formigas que estavam perto da casa quando a gente saiu?

Garota esperta.

– Talvez tenha – disse Scott.

Scott havia convocado todas aquelas formigas até a casa – talvez tenham sido afetadas por algo que acontecera nos arredores. Scott lembrou-se do instante em que foi apagado e caiu de costas feito um inseto morto. Será que o que o fizera apagar também afetara as formigas?

– Mas só porque elas estavam lá, por que estão cometendo suicídio agora? – Cassie perguntou.

– Não é bem suicídio – disse Scott. – Elas não podem evitar. Já ouvi falar das formigas-zumbis. Um fungo cresce dentro dos cérebros delas, e faz com que procurem lugares úmidos pra morrer. Esse fungo é o pior inimigo natural das formigas. Por isso que recebeu esse nome, zumbi. Porque suga a vida delas.

– Então morreu um monte de formigas – disse Cassie. – Eu entendo você ficar chateado por elas, mas qual o problema?

– As formigas são os insetos mais importantes do ecossistema de todo o planeta. Se todos os humanos fossem retirados da Terra, seria melhor ainda para o planeta. Mas se todas as formigas fossem removidas, haveria extinções em massa e caos. Sabe esses romances de distopia que você adora ler? Seria tipo isso, só que pior. Muito pior.

– Então é isso que você acha que está acontecendo?

– Honestamente, não tenho certeza, Cass. Só sei que, seja lá o que está acontecendo, está acontecendo rápido. Geralmente, seria preciso dias, talvez semanas para o fungo chegar ao ponto de causar morte em massa. Então aconteceu alguma coisa, algo que acelerou o crescimento do fungo ou está fazendo ele se espalhar.

Scott falava para Cassie, mas também para si mesmo, como se pensasse em voz alta.

Então Cassie perguntou:

– Mas se isso é um fungo, de onde veio?

– Basta uma única formiga Scott disse. – Uma formiga pode vir numa caixa de frutas da América do Sul e ir parar em Wallkill. Quando pedi ajuda pras formigas, a infectada podia estar no meio das outras, uma em milhares. Elas costumam ter defesas, então o que aconteceu deve ter bagunçado a imunidade delas. Mas por que iam querer fazer isso? O que ganham com isso?

– Quem? – disse Cassie.

– Sei lá – Scott disse. – Esse é o problema. – Scott percebeu que havia dito demais. Não queria assustar a filha de novo. – Deixa pra lá. Pode se vestir pra gente sair?

– Achei que a gente não pudesse sair hoje.

– Não temos mais escolha. Anda, se apronta, vamos sair.

Enquanto Cassie se vestia no quarto, a mente de Scott era um turbilhão, tentando descobrir qual seria a motivação de Dugan e talvez de Monica Rappaccini em tudo aquilo. Era como tentar resolver uma complicada charada. Ele sabia que a resposta estava em algum lugar, que havia resposta, mas isso só o frustrava ainda mais, porque não a encontrava. Por que quiseram destruir toda a população de formigas da área? Seria este algum plano sádico, niilista, de Dugan? O mundo acabara com ele, então ele queria acabar com o mundo?

Não, isso não fazia sentido. Dugan queria vingança, sim, mas para ele a vingança era sempre algo pessoal. Teria a ver com dinheiro? Também não fazia sentido. Como conseguir dinheiro com um holocausto em potencial?

No NY1, o âncora dizia:

– O inexplicável suposto suicídio de formigas na região norte de Nova York parece estar se expandindo. Há relatos de morte em massa de formigas por Catskills e Adirondacks, e em partes da Pensilvânia e Connecticut.

Scott ouvira o bastante. Gritou para a filha:

– Vamos logo! – em seguida praticamente agarrou Cassie pelo braço e arrastou-a para fora do apartamento.

Cassie segurava a jaqueta enquanto era levada às pressas pelo pai escada abaixo. Não havia tantos repórteres e curiosos em frente ao prédio quanto houvera antes, mas havia gente suficiente para causar tumulto quando Scott e Cassie saíram.

– Não pare de andar. E não diga nada pra ninguém – Scott instruiu à filha conforme seguiram pela calçada na direção da avenida York. Dois policiais foram ajudando a abrir caminho para eles; quando chegaram à esquina, poucos repórteres ainda os seguiam, gritando perguntas.

Scott chamou um táxi que seguia para o centro e entrou nele com Cassie.

– 57 com a 6a – Scott disse ao taxista. – O mais rápido que puder.

– Vai ter trânsito na ponte – disse o taxista. – Não posso voar, meu chapa.

– Pode me dizer pra onde a gente vai? – Cassie perguntou ao pai.

– Não vamos pra lugar nenhum. Vou te levar pra um lugar onde vai ficar em segurança.

– Não, me deixa sair! – Cassie gritou.

Ela foi abrir a porta, mas o carro já estava em movimento, e Scott teve que agarrá-la pela mão para que não pudesse abrir.

O taxista freou, os olhos pretos escancarados fixos no banco de trás.

– Ei, vocês tão malucos? Querem morrer?

– Tá tudo bem – disse Scott. – Pode ir, pode ir. – Depois disse a Cassie; – Olha, eu juro que você não vai correr nenhum perigo.

– É, foi isso que você disse na última vez.

– Não, isso foi o que o FBI disse na última vez.

– Quero ir com você, pai. Por favor.

– Não, Cassie.

– Mas eu posso te ajudar. Se você acha que o que está acontecendo com as formigas tem a ver com o que aconteceu na casa, então precisa de mim, porque eu tava lá!

– Não, de jeito nenhum, vai ser perigoso demais.

– Ah, é? – Cassie exclamou. – E onde é que vai ser menos perigoso?

Scott não respondeu. Cerca de cinco minutos depois, o táxi parou em frente à Torre Stark, o novo e escandaloso prédio residencial de Tony.

– Fala sério – disse Cassie. – Quer me deixar com o Homem de Ferro?

Enquanto subiam pelo elevador, Cassie continuou reclamando.

– Não quero ficar aqui – dizia sem parar. – Por que tenho que ficar?

Scott mal podia acreditar. Cassie havia crescido como filha de super-herói, o que nunca foi muito fácil para ela, mas estaria assim tão farta a ponto de reclamar tanto de ter que passar um tempinho com Tony Stark? E se o Homem-Aranha quisesse passar o dia com ela? A atitude dela seria foi mal, Aranha, tô ocupada demais pra você?

– Sabe de uma coisa, em outra situação eu diria que você está sendo muito mimada – disse Scott.

Os dois foram anunciados pelo porteiro. Quando tocaram a campainha do apartamento, que era praticamente tão grande quanto à da Cidade Esmeralda, quem atendeu foi Pepper Potts.

Scott não a via há algum tempo, talvez uns meses, e estava linda com seu cabelo ruivo liso e seus grandes olhos verdes. Será que estava fazendo pilates ou ioga? Scott ficara um pouco a fim dela quando ela começou a trabalhar com Tony, mas ficou na dele quando percebeu que havia alguma coisa rolando entre os dois – não queria entrar num triângulo amoroso, seria esquisito. Por muito tempo, o relacionamento de Stark com Pepper fora ambíguo. Eram colegas de trabalho? Amigos? Amantes? Considerando que ela estava na casa dele num sábado à tarde, descalça, de jeans e camiseta, pelo visto os dois tinham finalmente oficializado o namoro.

– Uau, que bom ver vocês, gente – disse Pepper. Ela beijou Scott na bochecha e disse a Cassie: – Olha só você, está maior cada vez que eu te vejo. – Depois, para Scott, fez cara de sonsa: – Queria poder dizer o mesmo de você.

Uma boa e velha piada sobre formigas. Scott estava acostumado.

Então Tony apareceu usando um jeans velho, camiseta preta justa e tênis de marca de quinhentos dólares – o look casual do cara rico. O modelito que dizia: Tenho tanto dinheiro que nem preciso me vestir bem.

– Scott, esse é o cara – disse ele.

Ele se aproximou e deu um abração em Scott. Depois disse a Cassie:

– E olha só você, toda crescida e linda. Tem certeza de que esse cara é seu pai?

Ninguém sorriu, a não ser o Tony.

– A gente precisa conversar – disse Scott.

Sacando a urgência, Tony disse a Pepper:

– Ei, Pep, pode levar a Cassie lá pra cima? Brinquem de desfile, sei lá.

– Sem problema – disse Pepper.

– Desfile? – Cassie perguntou enquanto acompanhava Pepper, relutantemente, até uma escada espiralada.

– Não queremos definir nada ainda – Tony disse a Scott, respondendo à pergunta não feita sobre seu relacionamento com Pepper.

– Os dois, ou só você? – Scott cutucou, sorrindo.

Tony rebateu:

– A gente podia sair em dois casais qualquer dia. Digo, se você conseguir arranjar alguém.

– Sabe alguma coisa sobre uma mulher chamada Monica Rappaccini?

Tony ficou calado, processando a pergunta. Depois disse:

– Sei que você não tá pegando ela. Digo, nem você tá tão desesperado assim pra sair com uma maluca dessas. – Tony viu a cara de culpa de Scott. – Ou está?

– Foi só um encontro, e…

– Fala sério, meu – disse Tony. – Tem que haver opções melhores pra você por aí. Sei que você é divorciado, e está triste, mas devia ser um pouco mais como eu.

– Frio? – Scott perguntou.

– Prático – Tony disse. – Se o seu coração já chega partido não tem como ninguém partir de novo.

– Tá, então o que sabe sobre ela? – Scott perguntou.

– Na verdade, ela anda fora do jogo há anos – Tony disse. – Só na maciota, eu acho. Ela trabalhava com a I.M.A., tem experiência com Ciências. Sabe lutar, também. Ex-fuzileira. Virou casaca depois da guerra. Desiludida, achou que o país a deixou na mão. Isso é tudo trauma de abandono.

Scott explicou que fora apagado na casa, e que suspeitava que Monica estivesse envolvida.

Quando ele terminou de falar, Tony, que permanecera sem expressão alguma, disse:

– Uau, a sua vida está uma bagunça. Tipo, que bom que eu tenho estilhaços no coração e voo por aí numa armadura movida à eletricidade – mas em comparação a você, me sinto um cara normal.

Scott disse:

– Tem formigas morrendo numa taxa altíssima, praticamente cometendo suicídio.

– Ouvi falar disso na TV – Tony disse. – Estão chamando de Formigapocalipse.

– Acho que você não tá captando as implicações disso tudo – disse Scott.

– Pra mim, uma porção das suas amigas formiguinhas tão batendo as botas, e você está chateado com isso.

– É muito maior que isso – Scott disse. – Muito maior. Não é o começo de uma guerra mundial, nem um ataque de seres espaciais, mas pode ser igualmente perigoso. Se não for mais.

Tony reparou que Scott falava sério sobre todas essas coisas.

– Continue – disse ele.

– Se a morte das formigas alcançar certo ponto – Scott explicou –, vai levar ao caos. Estou falando aqui de falta de alimento e extinção em massa.

Agora Tony começava a compreender a seriedade da situação.

– As formigas são seu departamento, então acredito em você, meu chapa – disse Tony. – Com que velocidade a situação vem evoluindo?

– Já tem formigas morrendo em três estados – Scott disse. – Até domingo, pode ter acontecido em toda a Costa Leste.

– E como isso está acontecendo assim tão rápido?

– Não tenho certeza – Scott disse. – Sei que a imunidade das formigas foi afetada. E tenho quase certeza de que tem relação com o que aconteceu comigo ontem.

– Pergunta óbvia – Tony disse, – por que alguém ia querer matar as formigas do mundo?

– Acho que foi um acidente – disse Scott. – O que está acontecendo com elas é um efeito colateral. Queriam alguma coisa de mim, da tecnologia do Homem-Formiga, e as formigas estavam lá. Então alguém traiu o Dugan e o matou, junto com os capangas, antes de eu chegar lá.

– Isso é a cara da Monica Rappaccini – disse Tony. – Se ela quer muito uma coisa, faz de tudo pra conseguir. Ela colocou isso no perfil do Tinder?

Scott ignorou a brincadeira. Disse:

– E seja lá o que ela quer, é algo que vale muito dinheiro, ou não teriam atirado num agente federal nem organizado um sequestro arriscado para conseguir. E ela não teria matado três homens e deixado as provas lá.

– Então o que você quer de mim? – Tony perguntou. – Quer que eu te ajude a encontrar a Rappaccini pra descobrir o que está acontecendo?

– Não, quero uma coisa muito mais importante que isso – Scott disse. – Quero que cuide da minha filha.

– Como? – Tony perguntou.

– Você disse que me ajudaria assim que eu pedisse – Scott falou. – Bom, é disso que eu preciso. Posso cuidar da Rappaccini, mas a Cassie é a coisa mais importante da minha vida, e não posso correr o risco de algo acontecer com ela de novo. A ordem de proteção acabou, e preciso que ela fique no local mais seguro possível. Se você não puder protegê-la, quem mais pode?

– Por mim, fechado – disse Tony, sorrindo. – E se quiser encontrar a Monica, acho bom você falar com Peter Lawson. Posso dar o endereço dele. Fica no Brooklyn.

– Quem é Peter Lawson?

– O ex da Monica – disse Tony. Depois, bancando o malandro, acrescentou: – Encare os fatos, meu chapa. Ela te enganou feio.

Saindo do prédio de Tony, Scott pensava que tinha que melhorar no quesito paquera-pós-divórcio.

O celular dele vibrou – número restrito, que ele supôs ser do FBI.

– Scott, cadê você? – Carlos perguntou.

Andando às pressas pela rua 57, passando por entre a horda de turistas, Scott perguntou:

– Que houve?

– Estão sabendo que você não alugou um carro aquele dia – Carlos disse. – Querem falar com você de novo.

Scott sabia que o policial se referia a Warren e James.

– Diga que agora não posso.

– Você não entendeu. Eles desconfiam que foi você quem cometeu os assassinatos naquela casa.

Scott viu uns policiais mais à frente no quarteirão. Eles não o viram, mas ele

deu meia-volta, por via das dúvidas, e seguiu para a 6a avenida.

– Mande que fiquem na deles – disse.

– Não posso fazer isso – Carlos respondeu.

– Se quer que eu encontre essa Monica Rappaccini e segure o seu emprego, vai fazer isso, sim – disse Scott.

– Você já falou com ela? – perguntou Carlos.

Scott encerrou a ligação.

Correu por uns quarteirões, entrou em uma lanchonete e foi ao banheiro. Tirou as roupas que usava, colocou-as na bolsinha grudada no uniforme, depois ativou o gás Pym e, de repente, formigou-se.

Notou que havia umas formigas no banheiro: duas bebês e uma adulta fêmea. Não estavam ali por terem sido atraídas por Scott – estavam evidentemente doentes. Caminhavam com dificuldade e tinham deformidades nojentas na cabeça, como se tivessem contraído uma versão para formigas da elefantíase. Pareciam não ter reparado na presença de Scott conforme zanzavam na direção da poça de água debaixo da pia, atraídas pela umidade.

Então Scott reparou em outras formigas, já mortas, perto do cano. O fungo estava se espalhando mais rapidamente do que ele temia.

Scott passou por debaixo da porta do banheiro e voltou para a apinhada calçada, desviando de todos aqueles sapatos gigantescos. Depois saltou para a traseira de um táxi, seguindo de volta ao Brooklyn. Tinha que encontrar Monica Rappaccini o quanto antes e torcer para ter acertado no palpite: que era ela a causadora da epidemia de fungo zumbi, e que esta podia ser revertida. Mas, vendo que até em Manhattan as formigas estavam morrendo, havia apenas uma certeza: o tempo não estava do lado de ninguém.