Homem-Formiga
Capítulo 11
– RAPTADA? O que diabos você quer dizer com raptada? O que tá acontecendo?
Scott e Carlos estavam no elevador do prédio comercial na avenida Park South.
– Acabou de acontecer – Carlos disse –, numa esquina perto da escola.
Subitamente, Scott ficou tonto, a cabeça leve.
– Isso é um engano, certo? Quer dizer que ninguém sabe onde ela está?
– Não, ela foi raptada. Roger levou um tiro. Mas pegaram a placa, e temos descrições dos sujeitos. Vamos resgatá-la, eu juro.
Sabendo que aquela era uma situação totalmente diferente, que era real, Scott perguntou, ensandecido:
– A Cassie tá bem? Tá bem?
– Até onde sabemos, sim.
Até onde sabemos.
Havia sido Dugan; só podia ter sido ele. Scott não conseguia se lembrar desde quando se sentia assim tão aterrorizado, tão impotente. Era o exato oposto do que devia sentir um super-herói – mas a maioria dos super-heróis não tinham filhas desaparecidas.
– Acho que não era o corpo do Dugan naquela fábrica – disse ele. – Acho que vocês se enganaram nisso também.
– Não sabemos se era ou n…
– Ele tá vivo – Scott exclamou. – Nós dois sabemos disso.
Saíram do elevador quando chegaram ao saguão. Scott agarrou Carlos pelos ombros e o prensou contra a parede.
– Eu preciso saber exatamente o que aconteceu. Agora!
– Eu disse tudo que sei, amigo. Um carro parou. Atiraram no Roger e levaram a sua filha.
– Vocês deveriam proteger ela – disse Scott. – Era disso que se tratava a ordem. Vocês não sabem fazer o trabalho de vocês, não?
– Alguma coisa deu muito errado… claro – disse Carlos. – Nosso homem foi ferido. Sugiro que me solte.
Sabendo que não havia tempo a perder, Scott soltou Carlos e saiu às pressas do prédio com ele. Entraram no Charger de Carlos e, com a sirene e o farol do teto ligados, chegaram ao bairro de Scott em menos de dez minutos.
No carro, Scott não disse nada. Agarrava-se à tênue esperança de que no fim tudo aquilo fosse apenas um engano. Não estava pronto para considerar a possibilidade de que Cassie estivesse em perigo, ou pior. Odiava sentir-se impotente, como uma vítima. Precisava ter poder, ter controle. Precisava ser o Homem-Formiga.
Qualquer esperança de que tudo fosse um engano evaporou quando
chegaram perto da 1a avenida pela rua 76. A área inteira tinha sido interditada, e não deixavam o tráfego passar.
Scott saiu do carro. Atrás dele, Carlos gritou:
– Ei, espere, aonde você vai?
Scott disparou à frente, e foi costurando por entre a multidão até chegar à área interditada, perto da avenida. Já tinha erguido a faixa da polícia e estava prestes a passar por baixo quando um policial civil corpulento com sotaque do Brooklyn disse:
– Ei, cara, afaste-se.
– Ela é minha filha – disse Scott. – Cassie… a menina que foi raptada.
O agente do FBI, Warren – o que viera ao apartamento dele na noite em que todo esse pesadelo começou – vinha correndo na direção deles.
– Pode deixar – disse. – Deixe ele passar.
Ainda atrás da faixa, Scott lhe disse:
– Foi o Dugan?
– Ainda não temos certeza.
– Olha, é a minha filha – exclamou Scott. – Minha filha, viu? Não quero essa sua informação parcial. Que se ferre o seu protocolo. Vocês deixaram isso acontecer. Quero saber o que tá acontecendo na Louisiana e aqui. Agora!
– Olha, eu entendo como você está preocupado, mas já te dissemos tudo. Não estou escondendo nada. Até onde eu sei, a investigação sobre a morte do Dugan na Louisiana continua em andamento. Fique sabendo que estou fazendo tudo o que posso para trazer sua filha de volta em segurança.
– Segurança – Scott zombou. – Nisso vocês são muito bons mesmo. E as testemunhas? Alguém viu alguma coisa?
– Sim – disse Warren. – Ainda estão sendo interrogadas, então pode haver mais informação, mas as testemunhas viram dois homens. Um atirou no Roger, e depois levaram Cassie. Temos uma identificação preliminar de um deles, Ricky Gagliardi.
Scott odiou o jeito como Warren dissera “levaram” Cassie. Soou-lhe muito frio.
– Eu conheço Gagliardi – disse Scott. – Trabalhava com Dugan. Isso significa que ele tá envolvido.
– Não necessariamente – disse Warren. – O pessoal do Dugan pode estar trabalhando por conta própria. O que você sabe sobre esse Ricky Gagliardi?
Subitamente Warren pareceu interessado só porque – e agora estava bem claro – o dele estava na reta. A situação saiu totalmente de controle justo no turno dele. Ele queria, sim, encontrar Cassie, mas apenas por ser o único jeito de salvar o seu emprego.
– Não conheço o cara, na verdade – disse Scott. – Faz muitos anos. Temos conhecidos em comum.
Scott não estava sendo totalmente sincero. Conhecia Gagliardi, ou “Gags”, muito bem, inclusive por ter feito pequenos trabalhos com ele e Dugan. Gags era um grandalhão, pura força. Ninguém ousava mexer com ele, o que fazia dele um cara valioso quando a equipe precisava intimidar alguém. Scott não lembrava muita coisa de Gags, mas não se lembrava de odiar o cara. Para um criminoso, tinha uma personalidade bem decente. Adorava pregar peças – parte do motivo por ele ter esse apelido – e era fã dos grandes filmes, vivia falando dos filmes do Scorsese. Sempre deu a impressão de gostar de Scott; pelo menos ria de suas piadas. Scott nunca teve nenhum problema com o cara, nunca testemunhou contra ele, e era assim que ele agradecia dez anos depois? Como é que um cara hoje ri das suas piadas e amanhã sequestra a sua filha?
– E o carro? – Scott perguntou. – Alguém identificou, anotou a placa?
– Uma testemunha, um entregador de pizza, viu a coisa toda. Temos descrição do veículo, inclusive a placa, mas infelizmente o carro acabou de ser encontrado no Bronx. Pelo visto trocaram de carro.
É, e a uma hora dessas já devem ter trocado mais duas vezes, Scott pensou.
Ele sabia como Willie Dugan trabalhava, e essa situação era a cara dele. Este era um homem que passara nove anos construindo um túnel para escapar de Attica. Sempre desenvolvia os planos até o último detalhe. Mas o que conseguiria com Cassie? Não era muito típico dele ir atrás da filha de um cara quando podia ir atrás do próprio cara. Se estava disposto a balear um agente federal, por que não mandara comparsas para atirar em Scott e Carlos? Para que perder tempo com Cassie, afinal?
– Como puderam deixar isso acontecer? – disse Scott. – Você só tinha uma função: protegê-la.
– E fizemos nosso melhor – Warren gritou de volta. – Ainda estamos fazendo. Quando começam a atirar, há uma limitação do que podemos fazer, seja protegendo a sua filha ou o presidente do país. Mas estamos fazendo tudo que podemos, usando todos os recursos disponíveis, para encontrar a sua filha. É a nossa prioridade.
Scott ainda estava furioso com Warren, mas não queria ficar atribuindo culpa naquele momento. Precisava do agente totalmente concentrado em encontrar Cassie. Além disso, sabia que não estava sendo muito justo: foi ele quem não dera bola para as ameaças de Dugan, que não tinha acreditado que este fosse vir atrás dele e de sua família.
– Está certo – disse. – Vamos apenas encontrá-la.
Outro agente veio e levou Warren dali. Scott avistou Carlos na outra ponta do quarteirão, obviamente procurando por ele. Scott passou por detrás de um furgão para evitar ser visto. Seu celular tocou. Ele o tirou do bolso no primeiro toque, rezando para ser Cassie, mas era Peggy.
Preparando-se para a bronca, sabendo o inferno que esperava por ele, Scott atendeu a ligação, já dizendo:
– Já ficou sabendo.
– Por favor… – Peggy chorava. – Por favor, diga que não é verdade.
– É, sim – Scott disse – mas vou encontrá-la. Eu…
– Isso é culpa sua! – ela berrou. – Culpa sua!
Scott tinha ouvido aquilo apenas cem mil vezes ao longo de seu casamento.
– Olha, agora não é hora de culpar…
– O Homem-Formiga – ela interrompeu. – O maldito do Homem-Formiga e os seus segredos malditos.
– Isso não tem nada a ver com isso – Scott rebateu, percebendo que fizera uma declaração ridícula. E então acrescentou: – Você está sozinha aí?
– Viu? – ela disse. – Você só liga pra esse seu segredo maldito; só liga pra isso.
– Peggy, por favor, tente…
– O quê? Ficar calma? Vai me pedir pra ficar calma? Eu sabia que tinha sido um erro ter deixado a Cassie com você. Um ex-presidiário! Mas não achava que daria tão errado, Scott, que você ia deixar isso… o que tá acontecendo, afinal? Eu tenho que saber.
– Olha, agora não é a hora…
– Só quero minha filhinha de volta. – Peggy chorava muito. – Quero minha filha em segurança.
– Confia em mim… – Scott também estava se emocionando, sentiu as lágrimas mornas escorrendo por suas bochechas. – Eu quero a mesma coisa. Eu prometo, vou trazê-la de volta, e vou fazer a pessoa que fez isso pagar.
– Cansei das suas promessas – disse ela. – Estou indo pra Nova York.
– Não, – Scott disse. – Isso é um erro. Não tem nada que você possa fazer aqui, e é mais seguro ficar aí.
– Tenho que fazer alguma coisa. Minha filha precisa de mim.
O celular de Scott vibrou – chegou uma mensagem.
O código de área era estranho, fora de Nova York: 859. Seria de Cassie? Será que de algum jeito ela havia conseguido um celular?
– Ligo para você depois – disse Scott.
– Scott, não… – Peggy disse.
Ele encerrou a ligação e acessou mensagem. Ela dizia:
Se quiser ver sua filha viva, ligue de um celular pré-pago em cinco
minutos
Scott xingou em voz alta. Alguns policiais que estavam perto olharam para ele.
E então chegou mais uma mensagem do mesmo número:
NADA DE POLÍCIA
Scott olhou ao redor freneticamente, supondo que quem mandara a mensagem estava ali perto, na cena do crime. Então ele avistou Carlos passando em meio à multidão, procurando por ele. Scott precisava evitar Carlos. Com o agente por perto, seria impossível ligar para o tal número com a privacidade que precisava.
Para afastar-se da multidão e de Carlos, Scott entrou numa farmácia no quarteirão seguinte e entrou na fila para acessar o local onde ficavam os celulares pré-pagos. Havia duas pessoas na frente dele: uma senhora que fuçava a bolsa em busca de trocado para terminar de pagar pelas compras e um cara de cabelo comprido, óculos e boné dos Brooklyn Dodgers virado para trás.
Scott checou o celular – fazia três minutos que recebera a mensagem, então tinha dois minutos para comprar o celular e retornar a ligação.
A mulher dizia:
– Eu sei que tem mais uma moedinha em algum lugar aqui.
– Por favor, estou com um pouco de pressa – disse Scott.
– Você vai ter que esperar – o atendente, um rapazinho, retrucou.
Novamente, Scott desejou estar com o uniforme do Homem-Formiga. Embora não roubasse nada havia anos, havia situações em que roubar uma loja é permitido, e uma delas é quando sua filha foi raptada e você tem mais dois minutos para comprar um celular e ligar para o sequestrador. Ele podia ter passado para trás do balcão, retirado um celular do mostruário e saído da loja – torcendo para que ninguém reparasse na bizarra cena de um celular sendo carregado por um homem do tamanho de uma formiga.
– Vou ter que te dar um dólar mesmo – disse a senhora.
Quando ela finalmente terminou a compra, o cara de boné de beisebol, percebendo a agitação de Scott, disse:
– Tudo bem, cara, pode passar na frente. Sem problema.
Quem disse que os nova-iorquinos não são amigáveis?
– Preciso de um celular daqueles – Scott disse ao atendente.
– Qual deles? – ele perguntou.
– Qualquer um – Scott disse. – Aquele ali… esse mesmo.
O atendente teve de pegar uma chave com o gerente para abrir o mostruário e retirar o celular. Scott pagou com cartão de crédito, e saiu correndo da loja. Virou na esquina da rua 75 e invadiu o saguão de entrada de um prédio.
Tinha um minuto… ou menos, se o autor da mensagem tivesse começado a contagem no instante em que a enviara, em vez de quando fora recebida. Suado e agitado, Scott ativou o celular o mais rápido que pôde e discou o número.
Alguém atendeu.