Homem-Formiga
Capítulo 9
CARLOS EXPLICOU QUE O CORPO de Willie Dugan tinha sido encontrado num armazém abandonado em Breaux Bridge, Louisiana.
– Boa notícia para você – disse. – Pelo visto a sua vida vai voltar ao normal, amigo.
– Louisiana? – Scott ficou surpreso. – O que Dugan tinha ido fazer lá?
– Quem sabe, e quem liga? Só fico feliz por ele estar fora de circulação, você não está?
– Como ele morreu?
– Não recebi os detalhes ainda. A notícia deve ter chegado há uns dez minutos, mas com certeza logo vamos ouvir mais. Com alguma sorte, já no fim do dia a ordem de proteção vai ser cancelada e você e sua família poderão seguir normalmente com suas vidas.
O fim da ordem de proteção era, sem dúvida, uma ótima notícia, mas alguma coisa nela fez com que Scott se sentisse inquieto. No celular, ele pesquisou informações sobre Dugan. Não havia nada na internet sobre a morte dele, o que fazia sentido, já que tudo havia acabado de acontecer. Logo a história estaria no noticiário. Scott mal podia esperar para saber mais detalhes.
– Que foi? – perguntou Carlos. – Pensei que fosse ficar animado.
– Mecanismo de defesa – disse Scott. – Não gosto de ficar muito empolgado ou triste a respeito de nada até saber todos os fatos. Me poupa de ficar chateado quando as coisas não saem do jeito que eu gostaria.
– Ah, entendi. Mas às vezes você precisa se soltar, ser otimista. O Dugan morreu, amigo. Aleluia.
Carlos levou Scott diretamente ao posto de trabalho na avenida Park South. Uma startup de tecnologia de São Francisco estava abrindo escritórios em Nova York, e Scott e sua equipe da NetWorld estavam instalando toda a rede e os cabos para o escritório de um andar inteiro. Era um trabalho tão complicado, coordenar a instalação de uma rede para 150 usuários, que ele praticamente se esquecia do oficial que o seguia. Assim como, bem, uma formiguinha, Scott foi absorvido pelo trabalho e pela rotina diária.
No fim do expediente, Carlos aproximou-se dele e disse:
– Pronto para ir?
– E quanto ao Dugan? – Scott perguntou.
– Houve um problema – disse Carlos. – Bom, uma mancadinha, por assim dizer. O corpo de Dugan ainda não foi identificado. Mas fica tranquilo, é ele sim.
Os dois atravessavam o escritório, seguindo por um corredor entre os cubículos vazios.
– Não entendo – Scott disse. – Como isso é possível?
Havia alguns funcionários por perto. Scott reparou que Carlos não queria conversar sobre aquele assunto ali.
Mas quando estavam no carro, a caminho da Upper East Side, Carlos disse:
– Algumas coisas ainda não vieram a público, então isso deve ficar entre nós, certo?
– Claro – disse Scott. – O que tá acontecendo?
– Com certeza foi assassinato – Carlos disse. – Talvez tenha sido alguém do próprio grupo do Dugan que o pegou, mas ele fez algum inimigo por aí. O corpo dele foi encontrado dentro de um contêiner com uma espécie de ácido. É por isso que vai demorar um pouco pra identificar.
– E por que estão tão confiantes de que é ele mesmo? – Scott perguntou.
– Os policiais encontraram as roupas e os documentos dele no local – disse Carlos. – E também havia digitais dele em um carro roubado que encontraram lá perto.
– Mesmo assim, como sabem que é ele?
– Olha, não estou envolvido diretamente na investigação, então não tenho como responder tudo – Carlos disse. – Só sei o que me disseram: era Dugan que estava no contêiner.
Scott não se convenceu. Havia muitas pontas soltas.
– Estou vendo que você continua com esse seu mecanismo de defesa – disse Carlos. – Não se preocupe, logo tudo vai acabar. Vai ficar tudo bem, amigo.
Quando chegaram ao prédio de Scott, os agentes Warren e James estavam na entrada, conversando com Roger, o outro agente. Quando viram Scott e Carlos chegando, pararam de falar.
– O que estão fazendo aqui de novo? – perguntou Scott.
– Não é meu departamento – disse Carlos. – Minha função é te proteger. Eu não me preocuparia. Deve ser apenas um acompanhamento de rotina.
Scott abordou os homens com um sorriso forçado.
– Sejam bem-vindos, pessoal. Quanto tempo!
– Temos que conversar – disse Warren.
Ele soou muito sério, não como se tivesse vindo fazer um “acompanhamento de rotina”.
No apartamento, Scott viu que a porta do quarto de Cassie estava fechada. Deu para ouvir uma batida suave de música vindo de dentro dele.
– Já ficou sabendo da novidade? – perguntou Warren.
– Alguma coisa, sim – disse Scott. – Você podia me aprofundar.
– O que já sabe?
Scott não queria mencionar nada do que Carlos lhe contara confidencialmente, então rebateu:
– Porque você não começa?
– Willie Dugan foi encontrado morto na Louisiana – disse o agente James.
– E vocês têm certeza de que é Dugan mesmo? – perguntou Scott.
– Que tal você nos dizer isso? – pediu James.
– Dizer o quê? – Scott disse. – Vocês que estão me atualizando.
James e Warren trocaram olhares.
E então Warren perguntou:
– Recentemente você andou tendo contato com Willie Dugan?
– É sério que você vai vir com essa para cima de mim, de novo? – Scott protestou.
As caras de pudim dos agentes indicavam que sim.
– Não – disse Scott. – Há anos não tenho contato nenhum com ele, já disse isso. Não faço ideia do que ele foi fazer na Louisiana, ou de quem o matou, se essa for a próxima pergunta.
– Quem disse que ele foi morto? – Warren perguntou. – Eu só disse que ele morreu.
– Seu colega me contou, tá? – disse Scott. – Ele não me deu mais nenhum detalhe, mas o caso já deve estar no noticiário, também. E não gosto nada de vocês aparecerem aqui me acusando quando, obviamente, eu não tenho absolutamente nada a ver com isso.
Imperturbável, Warren perguntou:
– Teve contato com algum dos associados de Dugan?
– Quê? – Scott perguntou.
– Teve? – Warren insistiu.
– Claro que não – Scott respondeu.
– Espero que esteja falando a verdade – disse Warren. – Lembre-se de que você tem uma filha que depende de você.
Scott entendeu a insinuação, mas perguntou:
– O que isso quer dizer?
– Que seria uma pena você ter que voltar para a prisão por mais um longo tempo – Warren disse.
Scott, furioso por dentro, conseguiu manter-se calmo por fora.
– Pra que eu iria querer entrar em contato com alguém? – perguntou.
– Parece óbvio para mim – disse Warren. – Dugan tem um ressentimento contra você, você acha que ele vai vir atrás de você, então você resolve surpreendê-lo. Você já foi criminoso, tem uma ficha longa, deve ter contatos. Pode ter contratado alguém pra rastreá-lo e dar um jeito nele. Do jeito que aconteceu, com certeza foi assassinato por vingança.
– Quero um advogado – disse Scott.
– Só gente culpada precisa de advogado – disse Warren.
– Não, gente inocente que está sendo assediada também precisa – Scott disse.
Warren abriu um sorriso falso, depois acenou para James. Os dois seguiram até a porta. No entanto, quando se aproximou de Scott, ele parou. Olhando bem nos olhos de Scott, ele disse:
– Eu sei quando alguém está escondendo alguma coisa, quando alguém tem um segredo… e você é alguém que tem. Não sei o que é, mas, pode acreditar, eu vou descobrir. – Após uma pausa, ele acrescentou: – Nos falamos depois – e saiu do apartamento.
Ansioso por mais novidades, Scott ligou a TV no noticiário. Como esperado, a descoberta do corpo na Louisiana já era manchete principal na CNN, mas não houvera maiores desenvolvimentos, pelo que Scott viu. A polícia acreditava que Willie Dugan tinha sido assassinado, talvez por um membro da própria equipe. O detetive principal do caso concedeu uma breve entrevista coletiva, na qual afirmou que a investigação estava em “andamento”, mas não deu novas informações.
Scott estava preocupado; não ficava nada feliz quando tinha mais perguntas do que respostas. Se Dugan tivesse sido morto por um membro da equipe, por que o cara teria tanto trabalho para se desfazer do corpo – tornando difícil ou até impossível fazer a identificação –, para depois deixar roupas e um carro cheio de digitais? Se o objetivo era acobertar o assassinato, por que não se livrou de tudo?
Era possível que a pessoa que cometera o crime não fosse lá muito brilhante. Afinal, a maioria dos criminosos que Scott encontrara na vida não era dos mais espertos mesmo, motivo pelo qual acabavam todos indo parar na cadeia. Scott torceu para que fosse esse o caso dessa vez, e que Dugan estivesse mesmo morto, mas preferia não apostar muito nisso ainda.
Cassie saiu do quarto e perguntou:
– O que tá acontecendo? O que você estava falando com aqueles caras do FBI?
Scott desligou a TV. Torceu para que ela não tivesse ouvido a conversa, principalmente a parte em que o agente Warren o ameaçou de ser mandado de volta à prisão. Não queria ver a filha triste ou preocupada.
– Ah, na verdade, são boas notícias – disse Scott. – Acham que a ordem de proteção vai ser anulada logo.
– Uau, jura? – disse Cassie. – Que maravilha! Era só disso que vocês estavam falando?
Cassie provavelmente não escutara nada da conversa, mas era uma menina esperta, com boa intuição.
– Só – Scott disse.
Scott era um mentiroso terrível. Teve a sensação de que Cassie soube que ele estava escondendo alguma coisa.
Se sabia, ela preferiu não pressionar.
– Que coisa boa – disse. – Aquele Roger não era má pessoa, mas vai ser um alívio poder ficar sozinha de novo.
Scott conseguiu esquecer-se de Dugan por um tempinho e aproveitou uma noite relaxante em casa com a filha. Estava pra lá de empolgado por ela não demonstrar nenhum efeito adverso resultante de sua experiência dentro do traje do Homem-Formiga. Parecia completamente normal: saudável, contente e cheia de energia.
Ao longo do dia, Scott recebera algumas mensagens da ex, Peggy. Ela continuava, compreensivelmente, incomodada com toda a questão da ordem de proteção. Ele escrevera para ela dizendo que acreditava que a ordem seria em breve anulada, mas não dera maiores detalhes.
Por volta da meia-noite, ela ligou.
– Por que o policial continua em frente à minha casa? – perguntou.
Preparando-se psicologicamente, Scott respondeu:
– Desculpe, pensei que a uma hora dessas já estaria tudo acabado.
– Não aguento mais. Eles me seguem pra todo lugar!
– Eu sei – disse Scott. – Mas não vai durar muito tempo.
– Por que isso continua? Eu vi no noticiário… Dugan morreu, né?
– Presumem que sim – Scott disse. – Mas o FBI parece ter certeza de que é ele mesmo.
– E se não for? Isso vai durar pra sempre?
– Não – Scott disse.
Peggy respirou fundo.
– Posso falar com a Cassie, por favor? – pediu. – Eu liguei para ela, mas o celular está desligado.
– Ela foi dormir mais cedo hoje – disse Scott.
– Sinto tanta falta dela – Peggy disse. – Como ela está?
De jeito nenhum Scott podia contar que Cassie vestira o traje do Homem-Formiga e se encolhera. Era certo que Peggy usaria isso como prova de que ele não estava fazendo um bom trabalho como pai.
– Tivemos um probleminha aqui, uma questão de indisciplina, mas já passou.
– Ela está bem? – Peggy pareceu entrar em pânico.
– Sim – Scott disse. – Melhor do que nunca. Acho que tem um namoradinho.
– Tucker McKenzie – Peggy disse, sem hesitação.
– Tá sabendo dele? – Scott perguntou.
– Claro que tô sabendo dele. Tem coisas que uma garota conta pra mãe e não conta pro pai, sabia?
Scott não gostou nada disso.
– De que coisas exatamente você tá falando? – perguntou.
– Eles ainda nem se beijaram, se é isso que você tá pensando. Mas sua filha está crescendo, Scott. Você vai ter que aceitar isso.
– Quem, minha filha, a Rapunzel? – Scott brincou.
Peggy não riu. Fazia muito tempo que não ria de suas piadas.
– Sinto que estou perdendo todos esses momentos – disse Peggy. – Digo, por não estar por perto.
– Você vai ver a Cassie nas próximas férias. Só faltam alguns meses. E outra, você está onde devia estar, com a sua mãe. Por falar nisso, como ela está?
– Não muito bem, eu acho. Tem dias que ela não me reconhece. Bom, quase todos.
– Que pena ouvir isso – Scott disse. – Se tiver algo que eu possa fazer, me avise.
– Obrigado, fico muito agradecida – Peggy disse. – E me perdoe por ter ficado tão brava. Tive um dia difícil aqui com a minha mãe e tudo mais, e foi errado descontar em você. Queria te agradecer… por cuidar tão bem da Cassie enquanto não estou aí. Sei que você quer o melhor pra ela. Nós duas temos sorte de ter você nas nossas vidas. Não sei o que faríamos sem você.
Scott não entendeu de onde viera essa ternura repentina, mas ficou contente por ela ter parado de atacá-lo por causa da ordem de proteção.
– Legal você dizer isso – ele comentou.
– É a verdade – disse Peggy. – Sei que não tenho dado muito apoio a ela ultimamente, mas ela tem sorte de ter um pai como você. Você se saiu bem melhor que o combinado, Scott, e não tem com que se preocupar. Nunca vou contar a ninguém sobre você-sabe-o-quê. Vai ser sempre um segredo.
Scott sabia que “você-sabe-o-que” referia-se à sua identidade como o Homem-Formiga.
– Obrigado – disse ele. – Isso é muito importante pra mim.
Foi revigorante – ter uma conversa normal e amigável com a ex-mulher. Não seria ótimo se fosse sempre assim? Se não houvesse amargura, intenções escondidas e agressividade subjacente acoplados em toda interação? Quem sabe ainda não estariam casados.
– Você é um bom homem – disse ela. – Isso é uma coisa da qual nunca duvidei.
Na manhã seguinte, Scott preparou o café da manhã favorito de Cassie: rabanada. Mais tarde, após se assegurar que Roger sabia que Cassie estava mesmo no apartamento, Scott e Carlos saíram para mais um dia de trabalho.
Scott estava se acostumando a ter Carlos por perto. Por anos, sua vida girara em torno de Cassie e do trabalho – como Homem-Formiga e no das nove às cinco –, por isso ele nunca teve muito tempo para fazer novas amizades. Carlos era um cara legal do Bronx, e trabalhava no FBI fazia vinte anos. Muito bem casado, pai de dois filhos – um menino que acabara de se formar em Fordham e uma menina um pouco mais velha que Cassie.
No carro, falavam casualmente sobre as mudanças ocorridas em Manhattan ao longo das últimas duas décadas. Carlos contou que a efervescência de Nova York havia quase desaparecido, e agora parecia haver apenas as mesmas drogarias e bancos em cada esquina.
– Como você veio parar em Nova York? – perguntou o policial.
Passavam pela 2a avenida, num tráfego lento que chegava perto da ponte Ed Koch.
– Gosto de cidade grande – disse Scott. – E sempre quis morar em Manhattan.
Em parte, isso era verdade. Gostava mesmo de cidades grandes, mas provavelmente teria optado por viver em São Francisco, ou pelo menos no norte da metrópole. Viera para Nova York porque Tony lhe oferecera trabalho. E outra, fazia muito mais sentido para o Homem-Formiga estar em Manhattan, o centro de tudo.
– Mas por que o Upper East Side, amigo? – perguntou Carlos. – Você não é nenhum almofadinha engravatado. Vejo você morando bem mais longe. Brooklyn, quem sabe Washington Heights. Mas o Upper East Side?
– Eu morava no centro, Lower East Side, rua Ludlow, mas a Cassie entrou no colégio aqui perto, e eu quis facilitar a vida dela. Ela teve uma vida difícil. Você sabe do meu passado, e depois teve um monte de mudanças, com o divórcio. Só quero dar um pouco de estabilidade pra ela, finalmente. Acho isso importante.
– Legal, amigo. Você ama muito a sua filha, isso eu respeito. Comigo é a mesma coisa. Pode fazer o que quiser comigo, mas se mexer com a minha filha, vai enfrentar um demônio. Essa coisa da proteção tem sido uma chatice pra vocês, mas eu ouvi por aí que os caras do laboratório têm uma amostra de DNA e devem fazer um anúncio oficial sobre a morte de Dugan ainda hoje.
– Puxa, que notícia boa – disse Scott.
Cruzaram a ponte, e o tráfego começou a fluir melhor. Scott logo chegaria ao
Cruzaram a ponte, e o tráfego começou a fluir melhor. Scott logo chegaria ao escritório, o que era ótimo porque ele queria que Jeff visse que a ordem de proteção não estava afetando seu trabalho – ou pelo menos seu horário de chegada.
– Ei, tive uma ideia – disse Carlos. – Quando tudo isso aqui acabar, a gente devia sair qualquer dia, tomar umas cervejas, ver um jogo. Ou eu te convido para ir ao Bronx, te levar a uns lugares no meu bairro. Pra você ver como vive um verdadeiro nova-iorquino.
Dez anos antes, Scott era um criminoso, trabalhava ao lado de Willie Dugan, e agora estava planejando cair na farra com um agente federal? Sem contar que, claro, ele era o Homem-Formiga. Como as coisas mudaram.
– É, seria uma boa – ele disse.
Após mais um longo e cansativo dia de trabalho, Carlos levou Scott para casa. Enquanto saíam do carro, ele avistou a morena que vira no dia anterior. Ela vinha em sua direção, e sorriu quando percebeu que ele a notara.
Sem querer perder outra chance de falar com ela, Scott disse a Carlos:
– Ei, posso ter um pouco de privacidade aqui?
– Claro que sim – respondeu Carlos. – Buena suerte, irmão. – E atravessou a rua.
– Ei, com licença – Scott disse à mulher.
Ela parou perto dele, ainda mais bonita de perto. Usava calça jeans casual e uma jaqueta de couro preto fino, e usava o cabelo preso em rabo de cavalo naquele dia.
– Acho que vi você esses dias – disse Scott.
– Não se preocupe, não foi sua imaginação – ela disse.
– Uau, você se lembra? – ele perguntou.
– Foi ontem. Se eu já tivesse esquecido, acho que estaria com algum problema de memória, não é?
– Nunca se sabe – disse ele. – Às vezes você vê uma pessoa e depois vê de novo e não faz a conexão. Você vê alguém no trabalho e, dez minutos depois, vê de novo na rua e pensa “quem é esse cara? Não te conheço?”. Acontece comigo o tempo todo.
– Mas não aconteceu dessa vez, certo? – ela perguntou.
Ela era engraçada. Scott soube naquele mesmo instante que gostaria dela.
– Não, dessa vez, não – ele disse. – Meu nome é Scott.
– Jennifer.
– Jennifer – Scott repetiu – sempre gostei muito desse nome.
– Ah é?
– Não – Scott disse. – Estou mentindo totalmente.
A moça riu. Depois do encontro infernal com Anne, era bom conhecer uma mulher com quem ele parecia realmente conectar-se logo de cara.
– Mas é um nome bonito – ele elogiou.
– Obrigada – ela disse. – Já Scott, acho horrível.
Ela ficou tanto tempo de cara fechada que Scott chegou a pensar que ela tinha falado sério.
E então ela riu, e disse:
– Te peguei!
– Eu admito, pegou mesmo – disse Scott, rindo. – E aí, você mora aqui por perto?
– Moro, sim. Acabei de me mudar de Hoboken. E você?
– Eu morava no centro, mudei pra cá há alguns meses. Moro logo ali. – Ele apontou para o prédio. Carlos estava na entrada, lendo alguma coisa no celular.
– Legal – disse ela. – E, hã, quem é esse seu amigo?
– Quem? – Scott ficou genuinamente perdido por alguns segundos. – Ah, ele. É meu, hã, meu motorista.
– Motorista? – ela repetiu.
Scott, com sua roupa de trabalho – jeans e boné – não parecia exatamente o tipo de pessoa que tem um motorista.
– É – disse ele –, não tenho muita grana, mas sempre quis ter motorista, então contratei o Carlos. Alguns sonhos a gente tem que realizar, certo?
Scott acenou para Carlos, que acenou de volta. Jennifer acenou para ele também.
– Então – disse Scott –, quer tomar um café?
– Agora?
– É – Scott disse. Se você não tiver outra coisa pra fazer, a gente podia ir jantar ali na esquina.
– Hã, bom… – Ela hesitou, olhando para o celular.
– Ou pode ser outro dia – disse Scott. – A gente podia trocar telefones. Ou se você achar que não tem nada a ver, a gente só segue cada um com a sua vida.
Jennifer sorriu, depois disse:
– Na verdade, acho que tenho tempo pra tomar um café agora.
– Legal! – disse Scott. – Vamos lá.
Eles foram até o Cozinha Verde, restaurante numa esquina da 1a avenida, e sentaram-se numa das cabines ao fundo. Scott, de frente para a rua, viu Carlos zanzando em frente à entrada do lugar. Essa coisa de ser protegido estava realmente atrapalhando a vida de solteiro de Scott, mas ele se orgulhou de ter improvisado a história do motorista. Deu até uma impressionada.
Eles pediram cafés e conversaram sobre trabalho. Ela era fotógrafa freelancer e também designer gráfica. Scott contou que trabalhava com rede de computadores.
– Como foi parar nessa área? – ela perguntou.
– Sempre gostei de construir coisas – disse ele. – Comecei com o normal: modelos de avião e carro, quando era criança. E quando enjoava, adorava desmontar computadores e montar de novo.
– Que barato! – Ela parecia genuinamente impressionada.
– É uma coisa que posso fazer com a minha filha. Ela tem catorze anos, acabou de se mudar para aquele colégio no outro quarteirão.
– Você tem uma filha adolescente?
– Por acaso você vai elogiar minha aparência jovem e bonita? – brincou Scott, piscando.
Ela riu e disse:
– Eu também tenho uma filha, na verdade. Também tem catorze e mora metade do tempo com o pai. E estuda naquela mesma escola.
– El-Ro?
– Como?
– Eleanor Roosevelt? É o nome da escola.
– Ah, sim, certo. É, essa mesma.
– Uau, isso é muito legal! – disse Scott. – Digo, que legal que temos filhas da mesma idade. Me pergunto se elas se conhecem. Minha filha se chama Cassie. Qual é o nome da sua? Vou perguntar se ela a conhece.
– Ah, a minha filha ainda não começou lá – disse Jennifer. – Ainda estuda em Hoboken, mas vai começar aqui na semana que vem. O nome dela é Rebecca.
– Uau, legal – disse Scott. – Vou pedir a Cassie que a procure.
Além de descobrir que ambos tinham filhas da mesma idade, Scott ficou muito empolgado ao ouvir que Jennifer tinha um ex-marido – que bom que se encontravam em situações similares. Se dessem certo, seria perfeito. Moravam no mesmo bairro, poderiam encontrar-se o tempo todo. Ela parecia ser muito divertida e interessante; se as filhas se dessem bem e ficassem amigas, seria melhor ainda.
Foi quando Scott viu uma formiga andando em cima do guardanapo da moça. Mas será que a vida dele seria sempre assim? Justo quando as coisas começavam a ir bem, quando havia potencial para que uma coisa boa e estável acontecesse para ele, surgia alguma coisa que atrapalhava tudo. Geralmente, essa coisa era uma formiga.
– Então, quando você resolveu que seria fotógrafa? – Scott perguntou, tentando distrair Jennifer, para que ela não notasse a formiga. Peraí, formiga, não; formigas. Sim, agora havia duas delas. A outra zanzava perto da colher de Jennifer.
Enquanto a moça falava, contando de uma aula de fotografia que assistira na faculdade, Scott tentou enviar às formigas uma mensagem para que fossem embora e lhe dessem um pouco de espaço. Isso nunca funcionara sem ele estar usando o traje do Homem-Formiga, e não funcionou dessa vez também. Pior ainda, uma terceira formiga apareceu na mesa. Era apenas questão de tempo até que toda formiga que morava em cada canto e rachadura do restaurante passasse ali para dar um oi. Em geral, Scott adorava isso, mas não quando estava tentando dar em cima de uma mulher.
– Adoro fotografar – Jennifer dizia. – Acho que sempre tive essa coisa pelo visual. – Então ela viu as formigas na mesa e soltou um: – Ah, meu Deus!
Lá vamos nós de novo, pensou Scott. Se ela quisesse matar as formigas, ele teria que defender suas amiguinhas – e então ela ficaria fula da vida, acharia que ele era louco e sairia pisando duro do restaurante, e assim terminaria mais um grande encontro.
Mas a moça não pirou. Na verdade, seu rosto iluminou-se, e ela disse:
– Olha, que legal!
Surpreso pela reação dela, Scott perguntou:
– Não tá com nojo?– Não, acho as formigas um barato. Você não?
– Acho, acho sim. Mas conheço um monte de gente que não acha.
– Eu sei, que loucura – ela disse. – Não entendo. Por que as pessoas são tão contra-formigas? Não faz o menor sentido. Sempre amei formigas. Quando era criança, ficava observando umas colônias que havia no jardim por horas. O comportamento delas, como são organizadas, é incrível. E elas não fazem ideia de que nós existimos. Faz a gente pensar se não tem algo maior lá fora, olhando pra cá. Como se nós fôssemos formigas para civilizações de outros níveis, ou vidas, como quiser, que são mais complexas que as nossas, só que a gente não faz ideia. Acho que as formigas podem ensinar muito sobre fé. Puxa, tô tagarelando aqui, né? Desculpa. Mas você entende o que eu tô dizendo? Você deve tá pensando “nossa, que mulher louca! Por que eu fui convidá-la pra tomar café? Como é que eu saio daqui sem ofendê-la?”.
– Então ver formigas num restaurante não te incomoda nem um pouco? – Scott perguntou. – Digo, você não acha que elas são sinal de falta de limpeza?
– Quê? Não – ela disse, como se a sugestão fosse um disparate. – Estamos em Nova York. As formigas são mais limpas do que muita gente que anda de metrô.
– Aposto que isso é verdade – disse Scott. E sorriu. Gostava dos olhos de Jennifer. Eram azuis-acinzentados. Quis dizer algo sobre eles, mas tinha acabado de conhecê-la, e temia soar meio cafona. O que poderia dizer? Seus olhos, eles são tão lindos? Não queria bancar esse tipo de cara.
– Seus olhos, eles são tão lindos – disse.
No mesmo instante, Scott se arrependeu de ter dito.
– Obrigada. Eu estava pensando a mesma coisa.
– Jura? Tá dizendo isso só pra me agradar.
– Não, é verdade.
– O que gosta neles?
– A cor. Acho que nunca vi esse tom de azul… são muito intrigantes. E adoro a profundidade. Tem gente com um olhar que parece unidimensional. Você olha pra pessoa e não precisa de mais informação. Mas os seus têm camadas, contam uma história. Quando te olho nos olhos, vejo um garotinho com um grande segredo.
Ficaram se olhando mais um pouco.
E então ela disse:
– Interessante isso, não é?
– Que nós dois gostamos dos olhos um do outro?
– Não, que as formigas parecem estar zanzando só pela nossa mesa. Olha, ali tem outra. – Ela apontou para a parede perto de Scott, onde passava uma das grandes. – E outra ali. – Havia uma menorzinha numa tigela atrás da caneca de café.
Receando que o garçom, ou alguém mais no restaurante, visse as formigas e resolvesse matá-las, Scott sacou seu guardanapo. Ainda que ele não pudesse comunicar-se com elas sem o traje, as formigas eram capazes de perceber perigo sozinhas. Sabiam também que Scott era um amigo, então todas as formigas da mesa e arredores subiram sábia e obedientemente no guardanapo dele.
– Uau, parece que elas gostam de você – disse a moça. – Acho que nunca vi nada igual.
– Ah, não é nada de mais.
Scott liberou as formiguinhas a salvo no chão, onde com sorte elas evitariam quaisquer armadilhas ou rastro de inseticida e voltariam seguras para seus ninhos.
– Ah, saco. – Jennifer olhou para seu iPhone. – Era pra eu ter ido encontrar minha filha na casa de uma amiga no centro; ela tá esperando por mim. Tenho que pegar um táxi.
Scott imaginou se isso seria apenas desculpa para fugir do encontro. Ele mesmo usara diversas encarnações da história do “familiar com problema urgente” quando as coisas não pareciam ir a lugar algum num encontro. Talvez ele a tivesse lido demais durante o comentário dela sobre o olhar. Talvez a conversa sobre as formigas a tivesse espantado, no fim das contas.
– Estava me divertindo muito; queria não ter que ir – disse ela. – Mas não quero deixar minha filha esperando.
– Entendo totalmente. Sei como são as adolescentes.
Ela abriu a bolsa e disse:
– Preciso deixar um dinheirinho…
– Nada disso. Essa é por minha conta – Scott disse.
Jennifer agradeceu. Quando saíram, Scott reparou em Carlos, do outro lado da rua, mas a moça pareceu não reparar nele.
– Obrigada de novo – disse ela.
– Eu que agradeço – disse Scott, aproximando-se para dar-lhe um beijinho no rosto.
Sentiu um frio na barriga; seu coração bateu mais forte. Scott tinha lutado junto dos maiores super-heróis do mundo, enfrentado os mais perigosos vilões, e – quando usava o traje do Homem-Formiga – era, relativamente, o mais forte de todos eles. Contudo, convidar uma mulher para sair ainda o deixava tremendo feito vara verde.
Juntando uma bela porção de coragem, ele disse:
– Então… a gente podia, hã, sair de novo qualquer dia… Sei lá, jantar fora ou ir ao cinema. Mas, claro, se você estiver a fim. Não precisa responder agora. Digo, tudo bem se você não…
– Não, eu adoraria – disse ela.
Uau, pensou ele.
– Legal, me dá seu telefone, então – disse.
Jennifer disse seu número, e Scott passou o dele.
– Ótimo, anotado – ele disse.
– A gente se vê – disse ela. – E mande um oi pro seu motorista.
Scott sorriu, vendo-a andar até o quarteirão seguinte. Cara, que mulher.
Então ele deu meia-volta e foi para casa, na direção oposta.
Carlos insistiu em acompanhar Scott até o apartamento para garantir que estava tudo tranquilo e seguro. Cassie estava no quarto, fazendo lição de casa, e nada parecia estar fora do lugar.
– Acho que dou conta de tudo daqui por diante – disse Scott.
– Legal – disse Carlos. – Já sabe como funciona. Se você ou Cassie tiverem que ir a algum lugar, mande mensagem pro Jimmy, o agente que vai passar a noite por aqui. Isso se a ordem de proteção não tiver sido anulada até lá.
Carlos e Scott se cumprimentaram.
– De verdade, fico muito agradecido por tudo o que fizeram por nós – disse Scott –, e obrigado por me dar um pouco de espaço agora há pouco.
– Ei, os caras tem que se ajudar, certo, hombre? Além disso, faz tempo que não sou mais solteiro. Estou revivendo aquela época através de você.
Depois de fazer o jantar – ok, ele só esquentou uma pizza congelada no micro-ondas junto com umas cenouras e ervilhas também congeladas, mas mesmo assim era uma refeição –, Scott mandou uma mensagem para Jennifer:
Me diverti muito, obrigado por ser tão espontânea!
Vamos sair nesse fim de semana, jantar ou pegar um cinema.
Mal posso esperar!
Nem se lembrava da última vez em que ficara tão empolgado com uma potencial namorada.
Enquanto limpava tudo e lavava a louça, viu as formigas de sempre zanzando ao redor da pia e da geladeira. De sempre, porque ele passara a reconhecer a maioria delas; como Homem-Formiga, havia se comunicado com as formigas que moravam no apartamento. Sabia que a maioria vivia numa colônia dentro da parede atrás da pia da cozinha dele, e que consideravam seu apartamento um porto seguro no edifício – o que, para as formigas, era todo um mundo –, cheio de venenos e inimigos. Entre esses inimigos estavam outros insetos da cidade – baratas, traças etc. –, mas muitos desses insetos eram sábios o bastante para evitar as formigas, sentindo o poder do coletivo dos insetinhos. Quando outros insetos apareciam ocasionalmente no apartamento, Scott era bonzinho com eles, capturava-os e os libertava lá fora, às vezes até os alimentava. Sim, ele sabia que dar de comer a baratas era algo que fazia a sociedade virar a cara. Contudo, desde que se tornara o Homem-Formiga, aprendera a admirar e respeitar todos os insetos.
Ele verificou o telefone; nada de resposta de Jennifer. Seria ótimo se eles saíssem de novo e se dessem bem, e isso evoluísse para um relacionamento de verdade. Scott ficava mais feliz quando tinha uma relação estável, o que não lhe acontecera desde os primeiros anos de casamento. A quem queria enganar? Desde os primeiros meses de casamento. E seria ótimo se Cassie tivesse um exemplo positivo de mulher na vida – mesmo sendo uma madrasta.
Mais tarde, na mesma noite, Scott estava sentado na beirada do sofá-cama, olhando para o telefone, quando escutou:
– Ei, não vou ter que ler essa mensagem em voz alta, né?
Cassie estava perto do quarto dela e tinha acabado de escovar os dentes.
Scott sorriu, percebendo que estava bancando o adolescente da casa.
– Haha, me pegou – ele disse. – Boa noite, lindinha.
– Boa noite, pai.
A menina lhe deu um beijo na bochecha e foi para o quarto.
Scott assistiu ao noticiário – nada sobre Willie Dugan, nem uma possível identificação oficial de seu corpo. O noticiário internacional informou que o Capitão e Natasha, a Viúva Negra, tinham acabado de desmantelar um esquema da Hidra na Tailândia. Sempre que Scott ouvia falar dos feitos de outros super-heróis, não deixava de sentir uma pontadinha de inveja, como um atleta assistindo a uma partida da qual não podia participar. Compreendia que tinha um lugar todo seu na ordem das coisas, mas às vezes odiava ter que ficar de canto. Queria participar da ação, das jogadas maiores.
Na TV, um repórter explicava, no local, como a cidade tinha sido liberada. Mostraram uma foto de Natasha, fonte extra de angústia para Scott. Os dois tiveram um discreto lance durante uma missão na França alguns anos antes. Natasha deixara bem claro logo de cara que não seria nada muito sério, e Scott achou que lidaria bem com isso. Mas vamos encarar, ela era muito para o caminhão dele – era muito para o caminhão de qualquer um. Porém, que o chamem de romântico inveterado, ele não conseguiu evitar de se apegar emocionalmente. Então, sim, ele ficou chateado quando ela foi embora uma bela amanhã sem deixar nem um bilhete. Mas Scott sabia que seria melhor assim. Nem sabia muito bem se estava mesmo a fim de Natasha ou da ideia de Natasha – uma mulher livre, sem filhos, sem raízes. Podia fazer as malas e ir aonde quisesse. Era parte do que fazia Scott se sentir diferente da maioria dos super-heróis. Era pai antes de ser herói, e embora invejasse caras como Tony ou o Capitão, sabia que esse estilo de vida não era para ele. O papel de pai era o seu principal, e ele não abriria mão disso por nada.
– Tchau-tchau, Natasha – disse, e desligou a TV.
É, ele não precisava de mais uma mulher complicada e fria na vida dele, mesmo uma tão gostosa como aquela.
Já Jennifer, a fotógrafa – Scott já estava quase adormecendo –, essa sim tinha tudo a ver com ele.
De manhã, Scott ainda não tinha recebido resposta de Jennifer. Achou que não era nada de mais; tem gente que não responde logo de cara. Porém quando chegou o meio-dia e ela ainda não tinha dito nada, ele começou a se perguntar se algum dia ela responderia.
E ela tinha parecido sincera quando disse que também queria vê-lo de novo, mas talvez a história de ter que buscar a filha fora mesmo só uma desculpa. Talvez Scott não tivesse entendido muito bem o interesse dela pelas formigas e a assustado. Ou quem sabe foi o fato de ter um motorista que causou estranhamento, principalmente com o Carlos zanzando, à espreita, na entrada do restaurante. Algumas mulheres ficam um pouco inseguras no fim de um encontro, e dizem que aceitam um novo encontro apenas por não acharem legal dizer que não.
No almoço, numa padaria perto do escritório, Carlos perguntou a Scott em que pé ele estava com a moça do dia anterior.
– Nada ainda – disse Scott, checando o celular. Não havia resposta alguma de Jennifer, mas uma mensagem de Peggy perguntando se havia alguma novidade com relação a Dugan.
– Fica frio, amigo – disse o agente. – Que bom que você mora em Nova York, e não no Kansas.
– Não entendi o que quis dizer.
– Só estou dizendo pra você ficar tranquilo. Tem mais um monte de moças por aí. Já, já você encontra outra pessoa.
– Mas tem um monte de mulher no Kansas também.
– Eu sei. Foi só uma piada – Carlos riu.
– Se era piada, tinha que ter dito Sibéria ou Antártica. Um lugar onde não tem mulher nenhuma mesmo. Não Kansas.
– Uau – Carlos disse. – Gostou mesmo dessa garota, hein?
– Quê? – disse Scott, depois se deu conta do que acabara de dizer. – Foi mal, velho. Não quis ser chato com você. É, acho que ela grudou um pouco na minha cabeça. Tinha alguma coisa nela, sabe? Mas, claro, você tem razão. Não estou no Kansas.
– Antártica, você quis dizer – retrucou o agente, sorrindo.
Scott foi absorvido pelo trabalho na maior parte do dia, tentando concluir as instalações finais do escritório e colocar o último grupo de usuários na internet. Nem estava mais pensando em Jennifer, mas mesmo assim, por impulso, mandou outra mensagem:
Espero que seu dia esteja ótimo!
Assim que clicou para enviar, se arrependeu. Se ela não estava a fim de sair com ele de novo, mandar outra mensagem não a faria mudar de ideia. E se ela quisesse mesmo sair com ele de novo e apenas não tivesse conseguido responder à mensagem, essa outra não acrescentaria nada.
– Deixa pra lá – Scott disse consigo mesmo. – Tá tudo bem.
Mas então veio uma resposta:
NÚMERO INVÁLIDO
Hmm – que esquisito. Scott não tinha recebido essa resposta quando mandou a primeira mensagem. Então, a não ser que houvesse um problema na rede de celulares – muito improvável, nesse caso –, Jennifer tinha cancelado seu serviço de celular.
Havia mais uma possibilidade: podia ter bloqueado o número dele. Só que ele não achava que dissera ou fizera algo que a ofendesse tanto a ponto de obrigá-la a bloqueá-lo. Ou será que havia? Juntar formigas num guardanapo e levá-las ao chão num restaurante era o tipo de comportamento que a maioria das pessoas consideraria anormal. Porém Scott julgara que Jennifer seria uma das exceções, que entenderia, mas pelo visto tinha julgado-a mal.
Enfim, não havia nada a fazer. Ele retomou o trabalho na instalação. Então Carlos entrou.
– Temos que ir – disse. Agarrou Scott como um agente do Serviço Secreto agarraria o presidente e tirou-o da rota do perigo.
Conforme Carlos arrastava Scott pelo escritório, os funcionários paravam para ver. Scott estava tão confuso quanto todos eles.
– Que foi? Que tá fazendo?
Carlos não respondeu. Parecia tenso, e não fazia contato visual de jeito algum.
– Para com isso, você tá me assustando – disse Scott. – Que foi? Pode me falar? Que aconteceu? É o Dugan?
Carlos esperou até que ficassem sozinhos no elevador que levava ao saguão de entrada. Então disse:
– É a Cassie.
– O que foi? – O coração de Scott começou a pular. – Ela não foi à aula de novo?
Estava pronto para ficar bravo com ela. Será que tinha conseguido abrir o cofre e vestido o traje do Homem-Formiga de novo? Ele trocara a combinação, então não imaginava como ela teria conseguido, mas era uma menina esperta – às vezes, esperta demais.
Carlos desviou o olhar, como se procurasse pelas palavras certas, depois mirou Scott bem nos olhos e disse:
– Ela foi raptada, Scott.