Homem-Formiga

Jason Starr · Capítulo 13 de 21

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Homem-Formiga

Capítulo 12

– HÁ QUANTO TEMPO – disse Dugan. – E bem na hora.

Scott não ouvia a voz de Willie Dugan fazia muitos anos – Dugan optara por não testemunhar nem dizer uma palavra sequer em público durante seu julgamento por assassinato. Mas não havia dúvidas de que era ele mesmo.

– Quero falar com ela, agora – explodiu Scott.

– Que indelicadeza – disse Dugan – A gente não se fala faz anos, e agora nada? Nem um “e aí, como você tá”? Não está curioso? Não tá nem aí pro que passei?

– Passa pra ela agora, Willie.

– Humm, estamos muito bravinhos! Que foi, está com dificuldade de controlar a raiva agora, Scott? Você costumava ser um cara tão calmo, escutava Bob Dylan e Cat Stevens. Tocava violão também, se bem me lembro.

– Willie, me deixa falar com ela.

– Que pena, ela não pode falar no momento. Gostaria de deixar recado? – Willie ria.

Scott tinha uma pressão sanguínea normal, mas agora já devia estar passando de dezoito.

– Eu juro – Scott disse –, se você a machucar, vou te caçar e acabar com você.

– Diga isso com sotaque irlandês e vai ficar igualzinho ao Liam Neeson.

– Não estou brincando – disse Scott.

– Ah, eu não achei que estivesse – rebateu Dugan. – Então, está surpreso que eu estou vivo? Tipo, há dias todo mundo anda dizendo que morri.

– Não estou surpreso – Scott disse.

– Não acredito nisso – Dugan disse. – Sei como você é… sempre o Sr. Otimismo. Parte de você quis acreditar que eu tava morto, que tudo tinha acabado, mesmo que a parte inteligente soubesse que eu não estava.

– Como você fez isso? – Scott perguntou, supondo que teria mais chances de conseguir informação com Dugan se ficasse puxando papo, se o mantivesse na linha.

– Estou um pouco surpreso por ninguém ter sacado até agora – disse Dugan. – Tipo, com todo aquele equipamento chique de DNA que existe hoje em dia. Estou surpreso que ainda ninguém comentou que o Mulligan sumiu.

– Mulligan? – perguntou Scott.

– Lawrence Mulligan – Dugan disse. – Lembra? O juiz que presidiu o julgamento. Sabe, aquele em que você me delatou.

Scott lembrou-se do nome.

– Espera – disse ele –, então você…

– É, eu matei o sacana – Dugan disse. – Estava aposentado em Nova Orleans. Morava sozinho, acho que ninguém percebeu que o cara sumiu. Mas eu achei que se arrumasse tudo pra parecer que tava morto, teria mais chance de chegar até você. Ah, e à sua garotinha.

– Seu filho da mãe – Scott disse. – Se machucar ela, eu te mato!

– Uau, Scotty, você não é assim. – Dugan parecia estar se divertindo muito com a conversa. – Quer dizer, você não é um amador tipo aquele cara, o Castle. O Homem-Formiga não mata pessoas, ele leva pra justiça, certo?

Como Dugan havia descoberto que Scott era o Homem-Formiga? Cassie havia contado? Ela não faria isso… a não ser que fosse ameaçada ou torturada.

– Não faço ideia do que você tá falando – Scott mentiu.

– Pode se fazer de bobo o quanto quiser – Dugan disse –, mas eu sei a verdade. Descobri há algum tempo, enquanto estava na prisão. Eu sabia que você conhecia Hank Pym, aquele médico… foi você mesmo quem me falou dele. Depois teve o incêndio naquele motel. Como será que eu consegui sair de lá? Foi um milagre… ou será que não foi? Os bombeiros disseram que parecia que eu havia pulado da janela, mas eu sabia que tava preso lá em cima, fraco demais pra pular. Não tinha como eu ter me levantado, ido até a janela e pulado. Digo, não sozinho. Eu tava quase desmaiando, morrendo, mas… bom, você sabe o resto, Scott.

Scott não sabia por que Dugan tocava naquele assunto, mas precisava mantê-lo na linha. Precisava descobrir onde Cassie estava e certificar-se de que ela estava bem.

– Não entendo o que isso tem a ver com a Cassie – disse.

– Achou que eu fosse idiota? – disse Dugan. – Que eu não fosse sacar?

– Se ela estiver com você, pode pelo menos…

– Não tô falando da sua maldita filha! – Dugan berrou. E então Scott escutou-o respirando fundo algumas vezes, como se tentasse se acalmar.

Jesus, o cara parecia totalmente fora de controle, e estava com a Cassie. Aquele era o pior dos pesadelos imagináveis.

– Tipo, eu admito que levei um tempo pra juntar as peças – continuou Dugan. – Foi o timing que te entregou. Você disse que ia sair da equipe, queria se endireitar, e logo depois comecei a ouvir falar do Homem-Formiga. Ele usa as partículas Pym no cinto ou sei lá, encolhe, fica do tamanho de uma formiga e trabalha com os grandões, Homem de Ferro, Capitão América, até com o Homem-Aranha, ajudando a livrar o mundo do mal e essa porcaria toda. Muitos rumores rolaram também. Todo mundo ficou intrigado. Quem é esse cara que encolhe? Será que é meu amigo? Será que é meu vizinho? Será que Hank Pym passou a tecnologia pra outra pessoa? Daí eu fui preso, chega meu julgamento, e quem colocam para testemunhar contra mim? Meu antigo parceiro leal. Coube direitinho; mais uma peça do quebra-cabeça. Foi por isso que você testemunhou contra mim, né? Porque ficou todo certinho. Então essa sua virada de casaca me colocou na prisão, prisão perpétua, e enquanto isso você leva esse vidão na cidade grande, fingindo que é herói. É, eu disse “fingindo” porque é isso que você faz. Você finge, você mente. Sabia que pensei em você todos os dias na prisão? Pensei no que ia fazer pra me vingar de você. Tinha outras pessoas na minha lista, mas com eles foi só aquecimento. Você é o meu grande prêmio, Scott. Cada dia que eu passei construindo aquele túnel com as próprias mãos, isso mesmo, com as mãos, eu pensava em você, que me traiu. E a cada punhado de terra eu chegava mais perto do dia em que ia me vingar de você. Você pode até enganar os outros, Scott, mas não me engana. Sei quem você é. Sei o que você é. Só porque você usa um terno chique não quer dizer que tenha mudado. Você não é herói coisa nenhuma, Scott.

Scott não sentiu remorso algum; sabia que tinha feito a coisa certa. Contudo, precisava acalmar Dugan, argumentar com aquele lunático.

– Por que você machucaria a mim ou a minha filha? – perguntou. – Eu entendo que você me odeie por causa do julgamento, mas se o que diz é verdade, e não estou dizendo que não seja, então eu salvei a sua vida.

– Vida? – Dugan disse, parecendo chocado. – Eu não vivi, eu fiquei preso. Você cumpriu quanto, seis meses? Um ano?

– Quase dois anos – Scott disse.

– Dois anos numa colônia de férias se comparado ao que eu passei em Attica. Sabe que tipo de animal ficou lá comigo? Sabe o inferno que eu vivi? E chama isso de vida?

– Sei que você viveu um inferno – disse Scott –, e sinto muito pelas coisas terem acontecido assim. Mas a gente está falando da minha filha, cara. Ela não tem nada a ver com isso. Seu problema é comigo, vem me pegar. Lute comigo como um homem.

Dugan caiu no riso.

– Que foi? – disse Scott. – Está achando graça? Tô falando sério. Solte-a, e te encontro onde você quiser.

Ainda rindo, Dugan disse:

– Brother, você não mudou nada, né? Sempre achando que é o cara mais esperto da sala. Bom, quer saber? Você não é.

– Ah, tá, porque você é o mais esperto – disse Scott. – Você sabe tomar boas decisões. Lembro de como você organizava os esquemas até o último detalhe. Sabia quando havia menos pessoal, menos armas, e nunca dava um passo errado. Você pode tomar a decisão certa agora, Willie. Pode…

– Cala a boca. Está me dando dor de cabeça – Dugan cortou. – Nunca mais vou voltar para a prisão, tá me ouvindo? Quando entrei naquele túnel, eu soube disso, não tinha mais volta. Eu tinha que chegar até o final ou morrer tentando, só tinha essas duas opções. Mas eu não morri, eu saí, e agora é a minha vez. Minha vez de me vingar.

Scott não conseguia acompanhar Dugan, mas prosseguiu.

– Eu te entendo. Você está frustrado, está nervoso. Qualquer um ficaria, na sua situação, mas isso não quer dizer que você tenha que…

– Vou mandar um endereço pra esse número depois que eu desligar – disse Dugan. – Venha hoje, seis da tarde, sozinho. Se eu vir um policial, ou achar que vi, vou meter bala na cabeça da sua filha.

O rosto de Scott ficou vermelho de raiva, mas ele manteve compostura suficiente para dizer:

– Estarei lá

Scott permaneceu no saguão, esperando que a mensagem chegasse. Só conseguia pensar na ameaça de Dugan de matar Cassie. Era difícil acreditar que passara tanto tempo convivendo com esse psicopata, que chegou até mesmo a gostar dele. No julgamento, Scott vira um Dugan completamente diferente, ouvira sobre as coisas terríveis que o cara fizera, como havia se tornado duro e cheio de ódio. Se, naquela época, Dugan ainda tinha um pouco de moral, a prisão conseguira arrancá-la dele. Agora ele estava totalmente maluco, delirante, irremediável. Será que durante todo aquele tempo Dugan havia escondido de Scott sua verdadeira natureza? Ou os sinais sempre estiveram lá, mas Scott, envolvido em seus próprios problemas, preferira ignorá-los?

A mensagem chegou – um endereço em Wallkill, Nova York. Wallkill? Não havia uma prisão lá? Scott procurou no Google – pois é, a Instituição de Correção de Wallkill. Fazia sentido, na verdade – bom, fazia sentido para Willie Dugan. Ele costumava dizer que o melhor lugar para se esconder dos policiais era bem ao lado da porta da delegacia, por ser o último lugar em que os caras esperariam te encontrar. Expandindo um pouco mais o conceito: se você fosse um presidiário fugido, um dos mais procurados do país, qual seria o lugar mais seguro para se esconder? Que tal uma cidadezinha na qual havia outra prisão?

Aproveitando que já estava no Google, Scott abriu o mapa de Wallkill – ficava ao norte, perto de Catskills, a cerca de uma hora e meia da cidade. Eram quatro da tarde. Como Dugan esperava que ele chegasse assim tão rápido?

Scott escreveu:

Preciso de mais tempo

E recebeu:

6 ou ela leva bala, e não mande mais mensagens, o celular vai ser

destruído

 

Scott xingou, depois seguiu para a 2a avenida. Pensou em dar a volta para chegar ao apartamento, pegando um quarteirão a mais, para evitar dar de cara com Carlos.

Então, atrás de si, ele escutou:

– Ei, aonde você vai?

Scott parou e deu meia-volta.

– Te procurei em todo canto – disse Carlos. – Não pode ficar sozinho agora… é perigoso demais.

– Desculpe. Eu, hã, tive que ficar um pouco sozinho.

Scott continuava com o celular pré-pago na mão. Escondeu-o discretamente no bolso.

– Aonde vai agora? – Carlos perguntou.

– Só queria ir pra casa – Scott disse. – Esperar pelas novidades lá.

– Tá indo na direção errada.

– Ah, é – disse Scott, fingindo desorientação. – Tem razão.

– Eu te acompanho – disse Carlos. – Tenho que garantir que sua casa está segura, e quero ficar com você. Nem imagino o que está passando pela sua cabeça agora.

O que passava pela cabeça de Scott era muito simples: estava planejando o jeito mais rápido de se livrar de Carlos e chegar voando em Wallkill.

No prédio, Carlos entrou junto com Scott no apartamento e, olhando ao redor, sugeriu:

– Posso te fazer companhia, se quiser.

– Não, está tudo bem. Tem umas coisas que preciso fazer agora.

 

O celular dele, o celular verdadeiro, tocou. Scott checou a tela e leu: Tony

O celular dele, o celular verdadeiro, tocou. Scott checou a tela e leu: Tony Stark.

– Preciso atender… é minha ex-mulher – mentiu.

– Vou estar lá embaixo se precisar de mim – disse Carlos.

Quando o agente se foi, Scott atendeu ao telefone.

– Acabei de ficar sabendo – disse Tony. – Vamos lá… te ajudo a encontrar Cassie.

Seria ótimo voar até Wallkill com a velocidade de um jatinho. Mas lembrando-se de que Dugan avisara para chegar sozinho, Scott recusou.

– Não precisa, Tony, eu resolvo.

– Tem certeza? É sua filha que está em perigo. Não é hora de ser orgulhoso, cara.

Scott não estava tomando uma decisão movido por orgulho. Se achasse que levar Tony junto aumentaria as chances de trazer Cassie a salvo para casa, claro que aceitaria a oferta.

– Não, está tudo bem – disse. – Sério, agradeço muito. Se precisar de apoio, te procuro, mas não acho que seja o caso.

– Então já sabe onde está esse cara? – perguntou Tony.

Scott não respondeu.

– Vou entender como um sim. Tudo bem, Scott, você é quem sabe, claro. Tenho certeza de que tem tudo sob controle, mas tome cuidado. Esse tal de Willie Dugan parece que não tem nada a perder; esse é o tipo mais perigoso de criminoso.

Scott já estava agachado no armário, digitando a combinação que abria o cofre.

– Não se preocupe. – Ele abriu a portinha, revelando o traje do Homem-Formiga. – Ele vai ter que jogar com as minhas regras.

 

Conforme Scott vestia o traje, foi sentindo sua pulsação aumentar, como de costume. Era isso que ele tinha nascido pra fazer na vida – sua vocação; a coisa certa a fazer. Como homem, era apenas mais um trabalhador, um rosto anônimo na multidão. Mas quando vestia o uniforme – ganhando força ao encolher –, tornava-se um lutador, um líder. Foi por isso que Hank Pym confiara-lhe esse poder. Alguns nascem para ser médicos, professores, pedreiros, presidentes. Scott nascera para ser o Homem-Formiga.

O capacete soltou-se das roupas, e Scott o ajustou no lugar. Liberou as partículas Pym – e então bum, encolheu. Que barato! Transformara-se centenas, talvez milhares de vezes, ao longo dos anos, mas nunca deixara de sentir-se admirado com a tecnologia, com a nova perspectiva que ganhava do mundo. Ficar pequeno nunca o fazia sentir-se insignificante – fazia-o sentir-se imenso.

Mas a sensação de grandeza não era apenas física, era psicológica. Como homem, os sentidos de Scott limitavam-se aos seus pensamentos e emoções – mas como Homem-Formiga, tinha uma consciência mais ampla e uma compreensão natural de como o universo funcionava. Ficar do tamanho de uma formiga lhe mostrava como a perspectiva humana é limitada – existe um mundo muito maior ao nosso redor que simplesmente não entendemos. Talvez a tecnologia o aproximasse de algo que os budistas procuram: conscientização pura. Em alguma camada de seu inconsciente, ele captava a presença de todas as formigas do prédio, outro mundo de amigos prontos para apoiá-lo feito soldados leais. Scott não confiava plenamente nos humanos – a maioria das pessoas o desapontava ou virava-se contra ele em algum momento –, mas nunca conhecera uma formiga de que não gostasse.

A euforia foi passando, contudo, dominada por sua única preocupação: encontrar Cassie e trazê-la para casa sã e salva.

Scott saiu do apartamento e saltou pelas escadas, um andar por vez. Sabia que estava indo rumo a algum tipo de armadilha. Dugan sempre tinha um plano, um método em meio à sua loucura – e dessa vez o plano certamente teria algo a ver com a identidade de Scott como Homem-Formiga. Foi por isso que Dugan sequestrou Cassie em vez de Scott – por saber que este viria a Wallkill como Homem-Formiga. Contudo, Scott não fazia ideia se compreendia o plano do antigo sócio. Talvez fosse tentar convencê-lo a usar os poderes de Homem-Formiga para cometer algum crime, roubar um banco ou um carro-forte. Talvez o cara planejasse atrair Scott simplesmente para matá-lo – e a Cassie também.

Em frente ao prédio estava Carlos ao celular, provavelmente falando com algum colega do FBI.

– Isso, está lá dentro… Tá, vou fazer isso… Certo, beleza, entendi, sem problema… Sim…

Scott passou por ele sem ser visto. Sabia que Carlos sofreria alguma penalidade por deixar Scott desaparecer do apartamento em seu turno, ainda mais sendo no mesmo no dia em que Roger deixou Cassie ser levada. Mas essa era a última das preocupações de Scott.

Ele correu pela calçada, mais rápido do que podia mover-se em tamanho natural. Na esquina, ele saltou para o topo de um táxi que ia para o norte e firmou-se ali.

Devia ser umas 4:15, então seria preciso vencer o trânsito do horário do rush se ele quisesse ter alguma chance de chegar em Wallkill no prazo das seis da tarde.

Finalmente sentia-se como ele mesmo, seu verdadeiro eu. Não aguentava mais bancar a vítima, escondido sob uma ordem de proteção, sendo saco de pancada.

Era hora de ser o Homem-Formiga.

Era hora de contra-atacar.