Homem-Formiga
Capítulo 3
VOLTANDO PARA CASA NO trem das seis da tarde, Scott se deu conta de que havia pegado pesado demais. É, foi errado da parte da Anne tentar matar aquela formiga, mas provavelmente dezenas de milhares de formigas são mortas todos os dias só em Manhattan, pisadas e exterminadas por pesticidas. Scott não podia salvar todas elas. Entretanto, ver uma formiga morrer – ou quase morrer – sempre o tirava do sério, e às vezes ele perdia o controle.
Quando saiu na rua 77, mandou uma mensagem de texto para ela:
Desculpe estourar daquele jeito. Foi errado da minha parte.
Alguns minutos depois, mandou mais uma:
Realmente gostei de ter te conhecido!!
A quem ele queria enganar? Ela provavelmente estava achando que ele era totalmente psicótico/maluco – não havia como contornar a situação. Tinha certeza de que nunca mais iria ouvir falar dela. No máximo, essas mensagens de desculpas provavelmente o fariam parecer ainda mais instável.
Bem, essa ele teria que deixar para trás – acrescentar à experiência. De todo modo, ele obviamente não estava pronto para começar outro namoro. Da próxima vez, tentaria manter suas emoções pró-formigas sob controle.
Enquanto caminhava, mandou uma mensagem para Cassie perguntando se ela já tinha jantado. Scott ainda não tinha, então comprou comida chinesa – carne apimentada para ele e o favorito de Cassie, chow fan de camarão – e seguiu para o prédio em que morava, na rua 78 leste entre a Primeira e a York.
Scott se mudara do East Village para o Upper East Side havia muitos meses, antes de Cassie começar o primeiro ano do ensino médio no Colégio Eleanor Roosevelt. “El-Ro” era uma das melhores escolas de ciências da cidade e, como Scott, Cassie era fissurada em tecnologia. Adorava computadores, vídeo games e aprender sobre o cérebro. Scott não fizera faculdade, então queria que Cassie seguisse um bom caminho e não se desviasse dele. Ela queria ser neurologista, o que para Scott era uma ótima ideia; com sorte ela juntaria bastante dinheiro para sustentá-lo em sua velhice.
Outro ótimo aspecto da escola: ficava a poucos quarteirões do apartamento, e a localização também era conveniente para Scott. Estava trabalhando como técnico de cabo para a NetWorld, uma empresa de rede de computadores do centro. Era um emprego legal e discreto que o mantinha afastado de encrenca – e longe dos holofotes. E ultimamente, esses eram seus principais objetivos.
A mãe de Cassie – ex-mulher de Scott, Peggy – mudara-se para Portland, no Oregon, para cuidar da mãe, que sofria de Alzheimer. Scott já se sentia tremendamente culpado pelo tempo que não pudera passar com Cassie enquanto estava na cadeia, e mais ainda por tê-la feito passar pelo divórcio. Sentia-se grato pelo tempo que podia passar com ela agora. Tinha que lhe garantir isso – a menina era durona e estava indo muito bem na escola, mas ele queria oferecer um lar estável e se dedicar a ser um bom pai para ela.
Scott arrumou a mesa e chamou Cassie, que estava no quarto. Como sempre, teve que gritar algumas vezes para chamar a atenção dela, mas logo ela veio e juntou-se a ele à mesa. Tinha cabelos loiros compridos e uma beleza natural. Meio moleca, meio nerd, não curtia muito coisas de menina, tipo fazer compras ou usar um monte de maquiagem. Não gostava muito de esportes também, o que não era problema para Scott. Uma das atividades favoritas dos dois era desmontar computadores e outros eletrônicos, para depois remontar os aparelhos novamente. Adoravam jogar vídeo game juntos, construir cidades malucas no Minecraft e montar modelos intricados de aviões e naves espaciais. Contudo, nos últimos tempos, desde que entrara no ensino médio, Cassie não andava passando muito tempo com o pai, e consumia muitas horas do tempo livre em casa, no Skype ou no Facetime, conversando com amigos. Comportamento normal de adolescente, claro, mas Scott começava a sentir falta de sua garotinha.
– E aí, como foi seu dia? – perguntou Scott quando começaram a comer.
– Bom – respondeu ela, olhando para o celular. Começou a digitar outra mensagem.
– Vamos lá – Scott disse. – Dá isso aqui.
– Ah, pai, fala sério…
– O celular. Agora.
Cassie revirou os olhos e passou o aparelho para Scott. Ele tinha uma regra para o jantar: se alguém manda uma mensagem à mesa, o outro tem que ler o texto em voz alta.
– Obrigado, e nada de fazer essa cara – disse Scott. Ele leu a mensagem em voz alta: – Acho que estou apaixonada pelo Tucker McKenzie.
Cassie corou.
– Tá, quem é esse Tucker McKenzie? – Scott perguntou.
– É só uma pessoa – Cassie disse. – Pode devolver meu celular?
Ainda segurando o telefone, Scott disse:
– Uma pessoa. Beleza, isso deu para perceber. E essa pessoa estuda na sua escola?
– Que diferença isso faz?
– Ele não estuda na sua escola?
– Estuda, sim, na minha escola… ai meu Deus… pode me devolver o celular?
– Ele faz alguma das suas matérias?
– Não, tá bom? Ele está no segundo ano.
– Segundo ano? – Scott ficou horrorizado. Um garoto do segundo ano já é quase um homem. – Não é um pouco velho demais pra você, Cassie?
– Ele é só um ano mais velho que eu, pai.
– É complicado namorar uma pessoa um ano mais velha que você, principalmente na escola.
– Complicado o quê? – ela perguntou.
– Namorar.
– Hã?
– Namorar.
– Não sei o que é isso.
– Não sabe o que significa namorar?
– As pessoas não namoram mais, pai.
– Ah, não? Então namorar é só um conceito que eu imaginei? Então estive alucinando a minha vida toda?
– Me refiro a pessoas pessoas. Tipo pessoas-que-tão-no-ensino-médio.
– Ah, pessoas de verdade – disse Scott. – Agora eu entendi. – Teve a impressão de que a filha não captava o sarcasmo dele, assim como Anne. Por um momento ele imaginou se o problema não seria com ele. – Então como é que as pessoas de verdade do ensino médio chamam o ato de namorar?
– Sei lá. Nada.
– Chamam de nada?
– É só, tipo, ficar junto.
– Tá bom, então, se você e esse Tucker McKenzie começarem a ficar, quero conhecê-lo, tá? Aliás, não confio muito nesse nome, Tucker McKenzie. Parece muito nome de cafajeste.
– É só um nome – disse ela –, como qualquer outro. E não vamos começar a ficar. Não vamos começar nada.
Scott olhou fixamente para ela.
Finalmente, ela disse:
– Tá bom, pai.
Scott sorriu. Era uma sensação boa: ser pai, estabelecer limites. Todos aqueles livros sobre pais solteiros que leu começavam a valer a pena.
Então Cassie disse:
– E você?
– Eu?
– Como foi o seu encontro? – ela disse, fazendo encontro soar como uma bobagem que só pais divorciados fariam.
– Como sabia que eu estava num encontro?
– Você tá usando uma camisa melhor do que de costume e sapato, e não Nike Air. Só falta segurar uma placa.
Scott teve que sorrir.
– Acho que não rolou uma conexão – disse ele, lembrando-se de quando Anne o chamou de maluco.
– Ah, bem – disse Cassie –, ela não devia valer a pena, então.
Após o jantar, Cassie foi para o quarto e fechou a porta, Scott ouviu o som da trava. Uma plaquinha na porta dizia: “Abandone toda esperança, tu que aqui entras”. Scott aceitava que a filha agora era uma adolescente e às vezes precisava de espaço, passar tempo sozinha. Ficava muito contente por sua rebeldia manifestar-se apenas numa citação de Inferno na porta do quarto, em vez de drogas e sexo. Mas quanto tempo levaria para a rebelião total começar? Seria Dante apenas o começo?
Scott arrumou tudo, lavou a louça, levou o lixo para fora. O mais difícil de ser pai solteiro era ter que fazer tudo – todas as atividades de pai, todos os afazeres da casa – sozinho. Mas havia vantagens. Scott e Peggy brigavam o tempo todo por causa das tarefas domésticas, e era gostoso ter noites relaxantes em casa. Colocou jazz para tocar, folheou uma Time Out New York, assistiu a um programa de detetives da BBC no Netflix. Às dez da noite, pôs no noticiário.
Não falaram nada sobre o assalto frustrado na lojinha – nem mesmo no Nova York 1, o canal de notícias local que nunca parava. Provavelmente já devia ter algum artigo on-line especulando se o Homem-Formiga estaria envolvido na confusão – mas visto que ninguém tinha sido morto nem ferido seriamente, não era uma grande notícia.
Scott estava habituado à falta de atenção. Ao contrário de outros super-heróis, que se concentravam em salvar o mundo, Scott costumava correr atrás dos criminosos menores, derrotando delinquentes antes que pudessem roubar, estuprar ou matar de novo. Seu objetivo era acabar com o crime de baixo para cima – prender um criminoso por vez, tornar as ruas mais seguras e melhorar a qualidade de vida para o cidadão comum. Ajudar o povo não colocava Scott nas manchetes chamativas, mas lhe dava uma grande satisfação.
Ele passou para a CNN, onde Tony Stark dava uma coletiva, respondendo perguntas da imprensa sobre o último plano da Hidra que ele detonara. Tony estava em forma: metido, arrogante, indiferente, mas mesmo assim cativante. Scott o conhecia fazia anos; Tony o ajudara a escapar de algumas enrascadas. Ninguém podia negar uma ajudinha ocasional do Homem de Ferro. Mas embora Scott não pudesse voar para o espaço e enfrentar tanques de guerra, podia fazer coisas que Tony e outros super-heróis não podiam. Certa vez, salvara a vida de Tony durante uma missão com o Capitão no Afeganistão – Tony tinha ficado preso na armadura. Scott encolheu e o salvou.
Tony parecia ter amnésia com relação a esse dia – obviamente não queria reconhecer que Scott havia salvado sua vida –, mas ele não se importava. Scott adorava o que fazia, mas não se alimentava da fama, não curtia ter seu nome exposto em prédios e manchetes. Tony, assim como o Capitão e o Aranha, chamava atenção; já Scott preferia espreitar, despercebido, ao fundo, e certamente não precisava dos holofotes. Seu objetivo principal era ser um grande homem, um bom pai. Se formassem uma banda de rock, Tony seria o vocalista, o Aranha ficaria na guitarra. O Capitão seria o baterista, e Scott tocaria baixo. Ou talvez nem o baixo. Seria o cara com o chocalho.
– Já pensou em desistir de tudo? – um repórter perguntou a Tony.
– Eu pararia amanhã, se pudesse – respondeu Tony. – Mas se eu não pegar todos os bandidos, quem vai pegar?
Scott riu e disse:
– Manda ver, Tony, manda ver.
Em seguida desligou a TV e foi bater na porta do quarto de Cassie.
– Hora de dormir em dez minutos – disse, depois puxou a cama da parede. O apartamento era pequeno, até mesmo para os padrões de Nova York, mas era tudo que ele podia pagar. Além disso, Scott estava acostumado a viver na simplicidade.
Mais tarde, deitado na cama, lendo um livro de autoajuda – 100 motivos pelos quais sua filha adolescente te odeia tanto –, Scott adormeceu com o livro aberto no peito, apenas para acordar assustado quando alguém tocou a campainha.
Ele viu a hora no celular. 00:14. Fazia uma hora que tinha adormecido. Quem
Ele viu a hora no celular. 00:14. Fazia uma hora que tinha adormecido. Quem estaria na porta a uma hora dessas? Deviam ser moleques bêbados, ou alguém tocando no apartamento errado.
A campainha tocou de novo, por mais tempo dessa vez, então Scott foi até o interfone e disse:
– Sim?
– Scott Lang?
Era um homem. Parecia sério, formal. O nome de Scott não estava escrito no interfone lá embaixo, então ele soube que não era um trote.
– Talvez – respondeu. – O que deseja?
– FBI – o homem disse. – Precisamos falar com você agora mesmo.