Homem-Formiga

Jason Starr · Capítulo 20 de 21

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Homem-Formiga

Capítulo 19

ENCOLHIDO, Scott saltou de um furgão no cruzamento da Washington com a Fulton, e disparou pela calçada. Quando chegou a casa, na esquina, passou por debaixo da porta. Havia sapatos perto da porta e um par de botas, todos de homem. Ele parou perto da escada, mas não escutou nada. Foi até a cozinha. Não havia ninguém ali também – bom, ninguém exceto um ratinho agitado perto da base da pia. Embora Scott fosse o Homem-Formiga fazia muito tempo, e se sentisse confortável em miniatura tanto quanto no tamanho natural, sempre ficava um pouco alarmado quando via um animal ou um inseto sob aquela perspectiva diminuta. Porém, o rato nem deu bola para ele quando cruzou a cozinha e passou para a sala de jantar.

Nada parecia estar fora do lugar. Uma mesa, cadeiras. Ele saltou para a mesa e viu uma caneca com café quente dentro, o que indicava que havia alguém em casa – ou que houvera recentemente.

De volta ao chão, Scott atravessou a sala de jantar, ultrapassando um tapete afegão cheio de cabelos – alguns lembravam os de Monica Rappaccini. Uma porta dava para um pátio nos fundos. Ele saiu e viu diversas formigas caminhando a esmo, pareciam tontas. Uma delas tinha grotescas protuberâncias na cabeça.

Scott retornou a casa e viu uma pilha de revistas numa mesinha junto ao sofá. Subiu em cima da primeira, uma National Geographic com matéria de capa intitulada – dá para acreditar? – “Formigas da Amazônia”. O endereço de correspondência que aparecia na capa era de Peter Lawson, confirmando que Scott estava na casa certa. Estava prestes a subir as escadas para checar o segundo andar quando escutou passos acima, fazendo ranger o piso de madeira. Depois ouviu uma mulher falando – parecia estar ao telefone, terminando uma conversa.

– É… tá bom, eu vou… obrigada. Certo, tchau.

Parecia a voz de Monica.

Scott parou perto da escada vendo a mulher descer. De seu ponto de vista, via apenas as pernas conforme ela chegava ao térreo e ia bem em sua direção. Scott caminhou bem junto à parede para que ela não o notasse. Ela passou por ele e foi para a sala de estar.

Cantarolando de boca fechada uma canção que Scott não identificava, a moça largou o celular na mesa de centro. Depois foi até a cozinha e soltou um berro.

O rato, pensou Scott.

– Que nojo – disse Monica. – Meu Deus!

Scott aproximou-se para poder ver a moça, que se afastara, de medo, da pia. Foi difícil acreditar que aquela mulher de aparência inocente que tinha medo de rato fosse uma perigosa criminosa que trabalhara com o pessoal de Dugan e que cometera os assassinatos em Wallkill.

– Ei, Monica – disse Scott.

Já assustada com o rato, Monica escancarou os olhos na direção da sala de jantar.

– Quem está aí?

Scott escondeu-se atrás do batente do arco de entrada, onde não podia ser visto.

– Fico surpreso por você ter me esquecido assim tão rápido.

Quando espiou a cozinha, viu Monica empunhando uma faca enorme.

– Seja quem for, apareça – disse ela.

Scott correu para a cozinha, saltou e arrancou a faca da mão dela.

Monica ficou pasma.

Ele pousou no balcão.

– Acho que você está começando a entender.

Ela deu meia-volta e saiu correndo da cozinha. Scott pulou atrás, agarrou-a pela blusa, girou-a e a empurrou contra a parede.

– Agora acabou – disse. – Você vai pra cadeia.

Scott soltou-a e voltou ao chão, para que ela não o visse.

– N… não sei do que você tá falando – declarou Monica, olhando freneticamente para os lados.

– Mas sabe quem eu sou – Scott disse. – Sabe que sou o Homem-Formiga.

– Não sei de nada.

Será que Scott tinha se enganado?

Achou melhor continuar pressionando.

– Você matou três homens. Eram todos assassinos procurados, mas mesmo assim você matou todos. E também fez algo às formigas.

– Você… você é maluco – ela disse, recuando. Olhava ao redor freneticamente, tentando descobrir de onde vinha a voz. – Você está enganado. Eu não sei quem é você, nem o que quer de mim.

– Você queria a minha tecnologia – Scott disse. – Mas pra quê? Que quer fazer com ela?

– Não faço a menor ideia… – ela disse.

Subitamente, Monica virou e disparou em direção à sala de jantar. Scott logo a alcançou; agarrou-a pelas costas. Mas ela ergueu um aparelhinho, algo similar ao que um palestrante usa para ir passando slides durante uma apresentação. Scott a soltou e caiu no chão, quicou, girou, não conseguia controlar seus movimentos. Ficou deitado de lado, incapaz de se mover, como acontecera na casa de Wallkill.

– Ah, aí está você – disse ela.

Tonto, mas ileso após a queda, Scott viu uma gigantesca Monica agachar-se à sua frente.

– Scott, seu bobinho – disse a moça. – Achou mesmo que poderia vir aqui me impedir sozinho, desse tamanhinho, sem a ajuda dos seus amigos super-heróis? Tem ideia de com quem está lidando?

Ela pegou Scott e o espremeu entre o polegar e o indicador.

– Uau, o Dr. Pym sabe mesmo o que faz. – Ela chegou mais perto. – Olha como sua cabeça está pequena. E seus olhos! Queria poder te adotar como bichinho de estimação. Levar você por aí no bolso.

Scott sempre ficava muito tranquilo nas situações de tensão, mesmo na época de criminoso. Precisava ganhar tempo para pensar no que fazer em seguida – quer dizer, se fosse possível fazer alguma coisa.

– Como conhece do Dr. Pym? – disse.

– Não o conheço pessoalmente – Monica disse. – Sempre curti tecnologia quando nova. Era fã do trabalho dele, mas meu herói mesmo era o Einstein. Queria criar a próxima superarma. Mas eu tinha ouvido falar do tal do Homem-Formiga, e que ele escolhera alguém pra dar seguimento ao seu legado. Então era você esse tempo todo. Não acredito que estou segurando o Homem-Formiga na mão. Quão poderoso tá se sentindo agora, Scott? Acho que não muito.

Scott supôs que o melhor a fazer seria apaziguar Monica, visto que não podia se mexer e tinha um milésimo do tamanho dela.

– É, no momento eu me sinto bem… hmm… pequeno.

– Pequeno? – Ela riu. – Está pequeno mesmo. E fraco, incapacitado. E prestes a morrer.

Scott lembrou-se de quanto gostara de Monica – na época, Jennifer – quando a conhecera. Tinha realmente péssimo faro pra mulheres.

– Então era você naquela casa? – ele perguntou, ganhando tempo.

– Sim, moi – ela disse. – E sim, eu matei aqueles três imbecis.

– Como foi se meter com Willie Dugan? – Scott perguntou.

– Por favor – ela disse, – não use esse termo, “se meter”. Conheci Willie, Will, eu chamava assim, anos atrás. Mantivemos contato ao longo dos anos, e ele me procurou semana passada. Estava planejando matar você e queria minha ajuda pra sair do país depois. Tenho um monte de contatos – disse ela, e riu. – É até meio engraçado: se eu não tivesse ajudado ele, você já estaria morto. Ganhei uma semana a mais de vida pra você.

– Como ele achava que ia poder me matar se eu estava sob proteção?

– Ele matou os outros caras, inclusive o juiz. Confie em mim, você era o próximo da lista… e ele pretendia matar sua ex e sua filha também. Tinha um grande plano organizado, e teria conseguido realizar tudo. Mas depois me contou uma história, de como você o salvou de um incêndio. Ele achava que talvez você fosse o Homem-Formiga. Foi quando fiz um trato com ele, um que nos faria ganhar muito dinheiro. Tudo o que eu precisava fazer era confirmar que você era o Homem-Formiga… e você facilitou tanto pra mim no café com aquela conversa sobre as formigas.

– Tá, e qual é o seu plano? – Scott perguntou. – Não tem por que esconder.

Monica saiu andando pela sala, abusando do poder que sentia por ter um ínfimo e imobilizado Scott na palma da mão.

– Legal. Estou gostando. Muito mais íntimo do que nosso primeiro encontro no café. Mas foi bonitinho ver como você ficou todo apaixonadinho por mim. Em outra vida, a gente poderia ter sido muito feliz.

– Hmm, não tenho muita certeza disso – Scott zombou. – Em outra vida, eu teria sacado que você é uma psicopata que não vale nada e te colocado atrás das grades.

A mulher sorriu.

– Posso até não valer nada. Mas acredite, você vale muito. Você cairia duro no chão, antes mesmo de eu ter chance de te matar, se ouvisse quanto a I.M.A. oferece pela sua tecnologia de comunicação com as formigas.

– Pra que querem essa tecnologia?

– Você teria que ver pra acreditar. Era um plano brilhante, mas antes precisávamos pensar num jeito de fazer você aparecer em algum lugar como Homem-Formiga. A primeira parte era usando a espertinha da sua filha como isca pra te atrair pra fora da cidade. Depois que me livrei do peso morto, só precisei ficar esperando você chegar. Acabou que foi superfácil. Primeiro te paralisei, depois te repliquei.

– Replicou? Como assim, replicou?

– Inventei um aparelho que pode duplicar certos tipos de tecnologia. O Dr. Pym ficaria orgulhoso.

– Replicou toda a tecnologia do traje?

– Não, só o que era mais valioso – ela disse. – A habilidade de se comunicar com as formigas. Pra mim, essa é a invenção mais impressionante do Dr. Pym, só que acho que ele não a levou até onde ela poderia ir. Se você puder controlar as formigas, por que não outros insetos também? E se puder controlar insetos, por que não animais? E se animais, por que não humanos? – A moça foi andando cada vez mais rápido, se tornando cada vez mais maníaca. – Pensa nisso. Uma única pessoa poderia controlar um exército inteiro, ou forçar um país a se submeter sem dar um tiro.

– Um grande objetivo de vida – disse Scott, sarcástico.

– Mas é mesmo – retrucou a mulher, não entendendo, ou apenas ignorando, o sarcasmo.

– E você disse que é fã do Dr. Pym… – Scott continuou. – Bom, eu o conheço pessoalmente, e ele queria que a tecnologia fosse usada somente para o bem, nunca pro mal.

– E eu lá me importo com essa coisa de bem e mal? Não vou usar a tecnologia, vou vender pra I.M.A por… prepare-se… vinte milhões de dólares. Ops, não era pra contar?

– Que ótimo – disse Scott. – Bom, caso você tenha ficado escondida embaixo de uma pedra pelas últimas 24 horas, seu grande plano teve um grande efeito colateral. Seu replicador parece ter gerado uma mutação num fungo que está matando formigas em todo o Nordeste, talvez até além.

Ela parou de andar, levou o rosto perto de Scott – ficou a um centímetro dele – e disse:

– Scott, você não entendeu? Não estou nem aí pras formigas. Eu quero o dinheiro.

– Acho que quem não entendeu foi você – Scott disse. – Se as formigas morrerem, tudo mais vai morrer. Bom, quase tudo. Vai ser um mundo no qual você não vai querer viver.

– Eu compro uma ilha só pra mim, então – ela disse.

– Tá – Scott disse, – e vai morrer de fome lá.

– Se vai ter alguém com dinheiro pra comprar comida, serei eu.

Não tinha como fazê-la compreender.

– O Lawson está aqui? – Scott perguntou. – Ele está nisso junto com você?

– Hmm, ele sofreu um grave acidente semana passada: o corpo ainda não foi encontrado. Daqui a pouco eu vou ganhar uma bela grana e, caso você ainda não tenha entendido, eu gosto de jogar sozinha. Faz tempo que tem sido assim, desde quando eu era criança. Sempre fiz o tipo solitária… e sim, já matei animais. Muito clichê, eu sei. Mas se eu já matei todos os gatos da vizinhança, acha mesmo que eu vou ligar pro que está acontecendo com umas formiguinhas idiotas?

O insulto às formigas, principalmente, fez Scott fervilhar. Mas ele engoliu a raiva.

– Bom, tenho coisas a fazer – ela disse. – Foi um prazer conversar com você.

Ela o levou até um pequeno banheiro. Ergueu a tampa do vaso sanitário e, entre o polegar e o indicador, manteve Scott pendurado acima da água. Pelo visto ele estava prestes a ser jogado numa imensa piscina oval.

– Espera, antes de me matar – disse ele –, prometa que vai tentar reverter o que você fez. Não pode deixar esse fungo se espalhar. Não vai ganhar nada com isso.

– Vou ganhar vantagem – ela disse. – Poder.

– Não faz sentido – Scott insistiu, mas a moça não escutava.

– Sayonara, Homem-Formiga.

Ela o soltou na privada.

Ele mergulhou espirrando muita água ao redor e foi afundando dentro da água. Em seguida ouviu um rugido tremendo, e a água começou a girar. Ser jogado num vaso sanitário era uma experiência que Scott jamais esperara ter que enfrentar, e não foi nada divertido. A água foi girando cada vez mais rápido. Com uma força incrível, como a água de um tsunami sendo sugada para o mar antes do ataque da onda gigante, Scott foi sugado pelo ralo para a total escuridão.

Foi como andar numa montanha-russa – uma versão aquática da Space Mountain –, só que tirando a diversão. O lado positivo é que a água desativaria temporariamente o traje, revertendo-o de volta ao tamanho normal; ele só esperava que isso acontecesse depois que ele tivesse chegado ao esgoto, afinal não dava para imaginar o que aconteceria se ele ficasse subitamente centenas de vezes maior dentro de um encanamento estreito.

Num exemplo extremo de “cuidado com o que desejas”, Scott pousou com um baque no sistema de esgoto da cidade – numa experiência que ele pretendia bloquear da memória para o resto da vida.

Pelo menos tinha uma boa notícia: a paralisia já era. O gás Pym ativou-se, devolvendo-o ao tamanho natural. Entretanto, estava preso no esgoto, no escuro. Foi tateando ao redor, tentando encontrar a saída. Finalmente, conseguiu agarrar-se a algo gosmento e escalar a parede do esgoto pelas saliências, na direção de uma luzinha fraca. Acabou que era a tampa de um bueiro. Scott conseguiu destravá-la e saiu do esgoto, surgindo bem no meio da rua, na frente da casa de Monica.

Ele reparou, então, em alguns garotos de bicicleta que tinham parado para observá-lo, estupefatos. Ou melhor, em choque. Não era todo dia que se via um super-herói emergindo de um bueiro.

– Vão pra casa – disse Scott. – Finjam que não viram nada disso.

Ah, tá, como se houvesse chance disso acontecer. Um dos meninos sacou o celular e ficou mirando Scott por vários segundos. Depois saíram todos de uma vez, correndo quarteirão acima. Scott sabia que não demoraria muito até o vídeo estar na internet, se é que já não estava.

Scott se aproximou da casa de Monica, ainda encharcado e muito fedido. O traje do Homem-Formiga, contudo, voltara a funcionar. Ele ativou o gás Pym, encolheu e passou por debaixo da porta.

Ele não viu Monica na sala de estar – devia estar no andar de cima. A caminho da sala, uma mosca enorme passou voando e colidiu contra ele. Aquilo era muito estranho; em geral os outros insetos o evitavam, confusos quanto à natureza do pequeno humano. Depois outra mosca veio na sua direção. Aqueles olhos verdes e as asas compridas foram ficando cada vez maiores até que, no último instante, Scott desviou.

Só que mais moscas estavam entrando por debaixo da porta e por uma fresta na janela, e todas miravam Scott e iam para cima dele. Ele conseguiu enfrentá-las, claro – era muito mais forte do que uma mosca comum –, mas havia tantas, já eram dezenas, cutucando-o, atormentando-o. Scott as golpeava, mas havia tantas que foi ficando difícil manter a vantagem. Será que estavam sendo atraídas a ele pelo cheiro do esgoto, do mesmo modo que eram atraídas a um cocô de cachorro na rua? Não parecia ser apenas isso. Estavam agressivas, como se quisessem matá-lo, algo muito incomum.

– Seja bem-vindo de volta, Scott.

Monica estava na frente dele, perto da cozinha. Devia ter vindo do porão. Estava em seu tamanho natural, mas usava um capacete muito similar, talvez idêntico, ao de Scott.

– Pelo visto você é igual a um daqueles gatos que eu matei quando era criança – disse ela. – Digo, por ter sete vidas. Bom, não importa quantas vidas você teve, agora só lhe resta uma.

Mais moscas vieram para cima de Scott, dificultando-lhe a visão. Ele tentou ativar o gás Pym, para ficar grande, mas as moscas bloqueavam suas mãos.

– Ai meu Deus, tá funcionando! E melhor do que eu imaginava! – Monica comemorou. – Espere só quando eu começar a usar em humanos! Tá, vamos tentar isso aqui…

Diversas moscas morderam o traje de Scott, agarrando-o com força suficiente para erguê-lo do chão. Saíram voando com ele ao redor da sala, foram zumbindo para a janela, voltaram para a cozinha e depois à sala de jantar. Finalmente, trouxeram-no para o corredor, onde ficaram plainando em frente à Monica.

– É como o vídeo game definitivo – disse ela. – Mas melhor ainda, porque não precisa de controle. É tudo na mente.

Foi então que Scott ouviu a voz de Cassie.

– Pai!

Estaria imaginando a voz da filha? Era difícil enxergar com todas aquelas moscas bloqueando seus olhos. Cada mosca da vizinhança devia estar a caminho da casa.

– Ora, que visita inesperada – disse Monica. – Minha vítima de sequestro favorita veio se juntar à festa. Bem-vinda, Srta. Lang!

– Pai, você tá aqui?

Monica olhou para Cassie, distraindo-se por um instante, e as moscas soltaram Scott. Pois é, Cassie estava mesmo ali. Tony era mesmo a melhor das babás.

A mulher agarrou Cassie e apontou uma arma para a cabeça dela. A menina parecia estar em pânico, mas procurou manter a calma.

– Pelo visto teria sido melhor você não ter saído do esgoto, onde é o seu lugar

– Pelo visto teria sido melhor você não ter saído do esgoto, onde é o seu lugar – disse Monica.

Ela não percebera que as moscas haviam soltado o Homem-Formiga. Scott já estava atacando, ainda encolhido. Ele saltou no ar e facilmente arrancou a arma da mão dela.

– Você não vai me derrotar agora – disse Monica. – Sou mais forte que você.

– Ah, é mesmo? – Scott meteu um soco na cara da mulher, que voou para trás. – Quase acreditei.

As moscas voltaram a atacá-lo, tentando grudar-se nele.

– A força aérea sempre vence a guerra – disse a vilã.

As moscas ergueram Scott mais uma vez, e saíram girando com ele pela sala. O zumbido estava tão alto e furioso que nem mais parecia produzido por insetos.

Foi então que Scott ouviu Cassie gritando por socorro. Ele se lembrou da promessa que fizera, de que tudo ficaria bem. Então ele juntou forças para combater algumas das moscas e ativou o display do capacete.

Scott já tinha testado, algumas vezes, alterar o funcionamento do traje para se comunicar com outros insetos, além de formigas. Certa vez conseguira de fato comunicar-se com moscas. Para isso, era preciso ajustar a frequência do sensor-sonda principal – tarefa que já era difícil de fazer estando ele sozinho, tranquilo, num quarto. Não havia jeito de fazer isso sendo carregado pela casa por um enxame de abelhas.

A filha gritava:

– Não façam isso!

E então Scott teve uma ideia. Podia tentar acessar o aparelho de Monica e usar seu próprio capacete como transmissor. Seria como roubar o sinal de Wi-Fi do vizinho.

As moscas o prensaram contra uma parede, depois voltaram voando para outra direção. Scott conseguiu desligar o software de comunicação do capacete, deixando-o, contudo, no modo “ativo”. E, como esperado, deu certo.

As moscas que o seguravam pararam em pleno ar no meio da sala de estar. Elas foram para cima de Monica no instante exato em que ela estava prestes a disparar contra a cabeça de Cassie. Scott transmitiu o comando de atacar, e tanto ele quanto as moscas foram para cima de Monica.

– Segura essa! – ele gritou, assustando Monica.

A mulher escancarou os olhos, chocada, quando Scott agarrou o capacete dela, arrancou-o de sua cabeça e o jogou para longe.

Ela foi ao chão, quase inconsciente – e sem o controle das moscas. Elas se afastaram de Scott e juntaram-se perto da janela. Scott, ainda encolhido, virou Monica caída de barriga para baixo. Depois, usando um pano de prato, amarrou as mãos da mulher atrás das costas.

Scott retornou ao tamanho normal e foi abraçar a filha.

– Tá tudo bem? O que você está fazendo aqui?

Cassie disse, se encolhendo:

– Hã, pai, por que você tá tão fedido?

– Longa história – ele disse. – Por que o Tony deixou você sair? Como sabia que eu tava aqui?

– Hã – ela disse, – é uma longa história também. Mas eu descobri o que aconteceu com as formigas.

Ela explicou que achava que havia desestabilizado algo na tecnologia de comunicação com as formigas ao fazê-la tentar funcionar junto ao seu cérebro.

Scott fitou Monica – deitada de lado, inconsciente –, depois fez uma varredura no software do traje, vendo os resultados que apareciam num display holográfico. Dito e feito: havia uma anormalidade nos circuitos de comunicação.

– Uau, acho que você está certa – disse ele. – Foi isso que aconteceu. A Monica não teve nada a ver com a história.

– Então como podemos consertar? Achei que o certo seria manter aberto agora, que nem um portal.

– Não, acho que é o oposto – Scott disse. – Tenho que consertar o software, depois enviar um sinal novo.

– Tem certeza de que vai funcionar? – Cassie perguntou.

– Não – Scott disse, – mas só há um jeito de saber.

Scott encolheu e convocou as formigas da região. Os insetinhos vieram rastejando das paredes; passaram por debaixo da porta da frente, dos fundos e do porão. Algumas estavam saudáveis; outras, obviamente infectadas pelo fungo.

– Cassie, venha até a sala de estar comigo – pediu Scott.

Ele pegou o controle remoto que encontrou na bolsa de Monica. Embora tivesse pouco mais de um centímetro de altura, arremessou facilmente o aparelhinho para a filha.

Ela o pegou.

– O que você está fazendo? – perguntou.

– É você que vai fazer. Se o cérebro e a imunidade das formigas foram afetados por isso, então talvez a gente possa consertar.

– O que tenho que fazer?

– Aponta isso aí pra mim e liga.

– Como faço isso?

– Deve ter um botão ou alavanca. Se aprendeu a usar meu traje, vai aprender a usar isso aí tamb…

Cassie já tinha aprendido.

Scott sentiu o mesmo tranco, só que dessa vez o traje não foi paralisado. Mais importante: as formigas que pareciam sofrer nas mãos do fungo começaram imediatamente a mostrar drástica melhora. Já estavam andando normalmente, não como zumbis.

– Deu certo! – disse Cassie.

Scott retornou ao tamanho normal.

Monica estava quase saindo da cozinha, rastejando pelo chão com os braços amarrados atrás das costas.

– Você está cometendo um erro, um erro daqueles – disse ela –, usando a sua tecnologia desse jeito. O que você ganha com isso? Você é um criminoso. Adora dinheiro. Trabalhe comigo. Podemos ser parceiros.

Então Scott reparou numa coisa estranha. As formigas e moscas estavam indo para cima de Monica. Foi uma combinação de ataque aéreo e terrestre: as formigas, talvez já às centenas, atacaram o corpo da moça, mordendo-a, enquanto as moscas atacavam do alto. Mais moscas e formigas entraram na casa, todas indo contra Monica, já que sabiam, por instinto, que era ela o seu maior inimigo, e que era preciso combatê-lo.

– Pelo visto, tá rolando um efeito colateral – disse Scott.

Monica tentou dizer alguma coisa, mas havia moscas e formigas por todo o rosto, e não pôde nem abrir a boca. Scott vestiu suas roupas casuais por cima do traje e saiu com Cassie da casa.