Homem-Formiga

Jason Starr · Capítulo 19 de 21

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Homem-Formiga

Capítulo 18

CASSIE NUNCA FICARA MUITO DESLUMBRADA com celebridades, talvez por ter crescido cercada de tantos super-heróis famosos. Quando tinha dez anos, o pai pediu que o Homem-Aranha fizesse uma visita surpresa na festa de aniversário dela na Pizzaria Uno. Os coleguinhas acharam aquilo a coisa mais legal do mundo, mas para ela foi, tipo, normal.

Tony Stark, por exemplo. Cassie o conhecia há tanto tempo que nem pensava mais nele como sendo o Homem de Ferro – parecia apenas aquele tio maluco. Tá, talvez maluco seja uma palavra um pouco forte demais – excêntrico. É, era apenas como aquele tio excêntrico. Na verdade, ela o considerava meio irritante. Tá, a armadura era legal, e ele podia fazer coisas tipo voar, mas ela não enxergava nada de tão incrível nele enquanto pessoa. Era engraçado, mais ou menos, mas muito cheio de si. Sério, se não era assim tão egocêntrico, por que colocava o nome dele estampado em tudo ao redor da cidade? Indústrias Stark, Torre Stark, Hotel Stark, Ringue de Patinação no Gelo Stark. Se desse dinheiro suficiente para a cidade, talvez renomeariam a ponte do Brooklyn, chamariam de Ponte Stark. E em vez da Estátua da Liberdade, por que não Starktua da Liberdade.

Cassie sempre gostara de Pepper, no entanto. Ela era superlegal e linda, e Cassie não sabia por que a moça perdia tempo com Tony. Bom, o cara era um dos homens mais ricos do mundo, então Cassie entendia essa parte, mas Pepper não parecia fazer o tipo que fica com um homem só pelo dinheiro dele. Isso era uma das coisas que a menina mais gostava nela. Havia garotos ricos na escola, garotos que moravam na Park Avenue e tal, e viviam contando sobre as viagens chiques que faziam – tirando o fato de que não diziam “viagem”, diziam “férias”. Quando chegaram as férias de Natal no ano anterior, Cassie escutou um desses meninos da Park Avenue perguntar pro outro: “Onde vai passar as férias este ano?”. Que irritante! Se Pepper tivesse a idade de Cassie, e as duas estudassem na mesma escola, a menina tinha certeza de que seriam amigas. Talvez não melhores amigas, mas amigas.

Enquanto o pai de Cassie e Tony conversavam sobre seus assuntos ultrassecretos de salvar o mundo que eram importantes demais para ela escutar – revirada de olhos –, Pepper lhe fez companhia. Primeiro ela mostrou um monte de vestidos que não usava mais e disse que Cassie podia ficar com eles se quisesse. A menina os provou, mas Pepper era um pouquinho mais alta, então não caíram muito bem, o que foi uma pena, porque alguns eram bem legais e Cassie já podia se imaginar usando um deles em seu primeiro encontro de verdade com Tucker McKenzie. Cassie contou a Pepper tudo sobre Tucker. Era tão bom ter alguém com quem conversar, uma mulher, já que a mãe morava tão longe. Obviamente, não dava pra conversar com o pai sobre garotos. Ele vivia querendo saber da vida dela, lia as mensagens em voz alta, tentava deixá-la com vergonha. Talvez estivesse apenas sendo superprotetor, como a maioria dos pais, e ela sabia que isso era por amor, mas essas atitudes apenas a faziam querer guardar mais ainda as coisas para si.

Depois que terminaram de provar as roupas, Pepper disse que tinha cabeleireiro marcado, então colocou Cassie em frente à TV na “sala de vídeo” do apartamento. A tela era tão grande quanto a de um pequeno cinema, e havia assentos reclináveis estilo dessas salas de exibições. Aquilo era muito legal, mas Cassie sentiu-se como um verdadeiro bebê. Não estava a fim de ver filme, então ficou trocando de canal, até parar num noticiário que falava do Formigapocalipse. Uau, era mesmo como o pai explicara – talvez pior. Havia formigas morrendo em toda a região nordeste. As imagens das formigas penduradas, mortas, nas folhas e em todo canto eram de cortar o coração. Cassie lembrou-se de como foi divertido usar o traje do Homem-Formiga aquele dia, e ver as formigas tão de perto. Ela rezou para que o pai descobrisse logo o que estava acontecendo, mas ele parecia muito confuso com relação à história toda, então ela não estava muito confiante.

Enquanto assistia à TV, recebeu uma mensagem de Tucker:

podemos nos ver mais tarde?

Ela poderia estar em um encontro com o menino mais bonito da escola, o amor de sua vida, mas em vez disso estava aprisionada no cinema caseiro de Tony Stark. Aquilo não era justo.

Depois de mais uns vinte minutos de tédio e frustração, Tony entrou e disse:

– E aí, como você está?

– Péssima – Cassie disse.

– Pelo menos não está um desastre ou insuportável – Tony disse. – Eu também sempre enxergo as coisas pelo lado positivo.

– Posso sair só por uma horinha? – Cassie perguntou.

– Primeiro, eu prometi ao seu pai que você não iria a lugar nenhum – disse Tony. – Segundo, não.

Tony abriu seu sorriso superarrogante de sempre.

– Por favor – disse Cassie. – Não vou sair desse quarteirão, eu juro.

– Ah, me deixa adivinhar – Tony disse. – Primeiro namorado.

– A Pepper ou meu pai disseram alguma coisa?

Cassie não achava que Pepper poderia ter dito algo, mas podia totalmente imaginar o pai tagarelando sobre isso.

– Não, foi só a minha brilhante intuição – disse Tony.

– Você não pode me prender aqui – Cassie disse.

– Como sua mais do que qualificada babá, acho que posso, sim. E já que eu não sei nada sobre esse seu mocinho charmoso, se ele é igual um típico garoto de catorze anos, ou, Deus o livre, como eu era quando tinha catorze, ele não vale nada.

– Ele tem quinze – disse Cassie –, e por que eu daria ouvidos a conselhos sobre relacionamento vindos de você? Sr. Nunca Me Casei, Sr. Nunca Namorei Sério. E nem vem me dizer que é porque você é ocupado demais pra namorar, porque é uma péssima desculpa.

– Salvar o mundo tende a tomar muito tempo de uma pessoa – Tony rebateu.

– Falando sério – Cassie disse. – Por que você e a Pepper não se casam logo? Ela é tão legal!

– Finalmente a gente concorda numa coisa – Tony disse.

– E você tá velho…

– Epa, calma lá.

– Mais velho que o meu pai, pelo menos – Cassie terminou. – Acho que sei qual é o seu problema.

– Por favor, diga – Tony disse.

– Fobia de compromisso – Cassie disse. – Muitos homens têm, principalmente os da sua idade que nunca foram casados.

Tony sorriu e disse:

– Peraí, agora é você que vai me dar conselho sobre relacionamento?

– Alguém tem que dar, ué – Cassie disse. – Antes que você estrague de uma vez o que tem com a Pepper. Se quisesse se casar, já teria se casado. É tão óbvio que ela é totalmente a fim de você. Você só fica enrolando, fazendo promessas vazias, e isso não tá certo. Se você não fosse tão centrado na sua imagem e em pôr seu nome nos prédios, talvez percebesse isso.

Houve uma longa pausa na qual Cassie e Tony competiram pra ver quem encarava o outro por mais tempo.

Então Tony disse:

– Bom, até agora, estávamos nos divertindo. Quem dera seu pai te deixasse aqui mais vezes. Eu seria tão mais ajustado psicologicamente se tivesse sua consultoria.

– Ah, e esse seu sarcasmo – Cassie disse. – Óbvio mecanismo de defesa provavelmente relacionado a uma profunda insegurança. Eu sugiro que se livre dele. Confia em mim, mulher nenhuma vai ficar por perto com esse jeito convencido, principalmente uma legal como a Pepper.

Tony estava impressionado com as respostas da menina.

– Você é uma boa menina, Cassie Lang. Não vou ficar contestando suas opiniões. Quer ir lá pra cima ver uma coisa legal?

Cassie adorou a chance de poder sair daquele cinema caseiro – estava começando a ter claustrofobia –, então acompanhou Tony até o último andar da gigantesca cobertura.

Ali ficava a área de trabalho de Tony, onde acontecia toda a mágica do Homem de Ferro. No centro da sala estava uma das armaduras vermelhas e douradas dele.

– Diga oi para o meu mais novo brinquedinho – disse Tony.

Celebridades não impressionavam Cassie, mas tecnologia a deixava pasma.

– Que legal! – Ela chegou mais perto e espiou dentro do painel de controle. – Posso dar uma volta nela?

– E depois eu que sou convencido? – Tony disse, sorrindo.

– Ser confiante é muito diferente de ser convencido – Cassie retrucou. – Deixa, vai, meu pai me deixa usar o traje dele.

– Ah, é?

– Bom, deixou uma vez, esses dias. E na verdade não deixou, exatamente, mas não aconteceu nada.

– Que legal você ser tão, hã, unida ao seu pai. Só que na casa do Tony Stark, só o Tony Stark brinca com os brinquedos.

Cassie, olhando para a traseira da armadura, disse:

– Repulsores… Legal.

– É – Tony disse, – eles ajudam a dar impulso na horizontal e…

– … e na vertical – Cassie emendou. – Mas é a repulsão giroestabilizada que te faz voar. – Ela estreitou os olhos para analisar as botas. – Microturbinas pra liquidificar o ar, correndo sobre círculos de nitrogênio líquido.

Impressionado, Tony comentou:

– Você curte mecânica teórica, hein!

– Pra mim é tipo um hobby – Cassie disse. – Mas meu pai nunca me contou como funciona a tecnologia do Homem-Formiga. Acho ele meio paranoico. Tive que descobrir quase tudo sozinha.

– Falando sério, agora – disse Tony –, seu pai é um cara muito legal. Sabe disso, né?

– É, sei, sim – Cassie disse. – Uma coisa que eu não descobri, quando tava usando o traje, foi como me comunicar com as formigas. Quando eu tava no traje, era, sei lá, estranho. Parecia que eu tava falando com elas, mas sem falar. É difícil de explicar, mas parecia, sei lá, telepatia.

– Isso é porque deve ser mesmo telepatia – disse Tony. – Seu pai nunca me contou nada também, nem eu pra ele. Segredo de super-herói, podemos chamar. Mas se eu for chutar, acho que Hank Pym colocou uma espécie de telepatia sintética no traje. É assim que um cérebro se comunica com uma máquina via interface neural direta, só que ele arranjou um jeito de fazer uma de um cérebro humano com uma formiga.

– Mas como isso é possível? – Cassie perguntou. – Tipo, as formigas não pensam igual a gente.

– Exato – Tony disse. – Essa telepatia é movida por pensamentos, não linguagem. Como um apito de cachorro, ou o modo como os pássaros se comunicam. Eles precisam de palavras ou ideias, ou é tudo instinto? Desconfio que o seu pai consegue se comunicar com as formigas através de um mecanismo similar, só que é silencioso… pelo menos pra ouvidos humanos.

– Peraí. – Uma ideia começava a brotar na mente de Cassie; ela ficou muito empolgada. – Meu pai ficou preocupado quando me viu no traje por eu ser muito jovem, meu cérebro ainda não se desenvolveu completamente. Ficou preocupado por eu ter encolhido; que efeito isso poderia causar em mim.

– Posso estar maluco, mas acho a preocupação bastante razoável – ponderou Tony.

– Mas e se na verdade funcionou ao contrário? – disse Cassie. – E se o meu cérebro fez algo no traje? Ainda não sou adulta, e o traje nunca teve um cérebro adolescente dentro dele. Quando eu me comuniquei com as formigas por essa interface neural direta, posso ter mudado alguma coisa no traje, e ele, tipo, abriu um portal.

– Não estou acompanhando – disse Tony.

– Meu pai acha que aconteceu alguma coisa com as formigas, algo que afetou a imunidade delas e deixou o fungo se espalhar. Mas talvez tenha sido o traje do Homem-Formiga que tenha enviado algum tipo de sinal pra elas. Não de propósito, mas porque alguma coisa no capacete mudou pra acompanhar o meu cérebro.

– Ele disse que acha que a imunidade delas foi comprometida – Tony disse. –

– Ele disse que acha que a imunidade delas foi comprometida – Tony disse. – Se esse traje pode se comunicar com os cérebros das formigas, por que não com seus sistemas imunológicos?

– Certo – disse Cassie. – Mas se o traje mandou uma mensagem que alterou a imunidade das formigas, por que não pode mandar uma que conserte? Temos que falar com o meu pai sobre isso. Cadê ele?

– Vai voltar logo.

– A gente devia falar agora, Tony, antes que o Formigapocalipse fique pior ainda.

– E como é que vamos fazer isso? – Tony perguntou. – Não é fácil rastreá-lo. Digo, o cara tá do tamanho de uma formiga.

Na verdade, Cassie sabia exatamente como encontrar o pai, mas receava que Tony não a deixasse sair para procurá-lo. Seria até um erro sugerir isso.

– É, você está certo – disse a menina. – Deixa pra lá.

– Logo ele vai entrar em contato, tenho certeza.

Para mudar de assunto, Cassie fez perguntas a Tony sobre a armadura do Homem de Ferro. Deu supercerto – ele adorou mostrar todos os novos equipamentos para ela. Ela achava que seu pai era o nerd mais fissurado por tecnologia do mundo, mas Tony era igualmente viciado.

Mais tarde, quando Tony colocou para tocar um heavy metal velho e péssimo e ficou ocupado ajustando alguma coisa nas turbinas, Cassie saiu de fininho para usar o banheiro. Fo quando lhe ocorreu: ela podia simplesmente sair do apartamento. Primeiro, pegou um iPad, depois entrou no elevador e desceu ao saguão, passou pelo porteiro e ficou livre. Tony podia ser um dos mais poderosos super-heróis do planeta, mas era a pior babá.

Alguns meses antes, Cassie baixara um GPS rastreador no celular de Scott. Era preciso para uma garota saber sempre onde o pai estava, ou não teria chance alguma de se divertir. Ela encontrou um Starbucks com Wi-Fi e conectou-se ao celular do pai pelo aplicativo que baixou no iPad. Apareceu um mapa de Nova York; ela deu zoom no Brooklyn, vendo o ponto azul perto do centro, a localização atual de Scott.

Cassie tinha cinco dólares consigo – mais do que suficiente para comprar um

cartão de metrô na Estação da rua 57, na 6a avenida. Ela comparou o mapa do celular com o do metrô e concluiu que o pai estava perto da parada da avenida Lafayette, no trem C. Ela pegou o F para o centro, desceu na 4a Oeste e trocou para o C. Quando chegou a Lafayette, subiu para a rua e viu que saíra um pouco de curso, mas eram poucos quarteirões. Ela subiu a avenida até a rua certa e seguiu na direção da localização do pai.

Era uma casa antiga de aparência comum, enfiada entre duas outras casas velhas. Havia um portão baixinho na frente e um monte de latões de lixo. Perto da entrada do porão, mais abaixo, havia uma grande poça de água; pelo visto houvera um vazamento ou algo assim no porão. Havia também pegadas molhadas indo na direção da casa, então devia ter alguém lá dentro. Cassie não fazia ideia de por que o pai fora até essa casa, nem o que aquilo tinha a ver com as formigas-zumbis, mas não se preocupou.

Ela tocou a campainha, mas ninguém atendeu. Tentou mais algumas vezes; ainda sem resposta. Verificou o aplicativo – o pontinho dela estava praticamente em cima do pontinho do pai. Tentou a maçaneta, e a porta se abriu, então ela entrou no comprido vestíbulo conjugado à cozinha. Havia um zumbido alto, esquisito, espalhado pela casa… mas era apenas um ou um monte de ruídos?

– Olá – ela chamou. – Tem alguém em casa?

Conforme Cassie foi adentrando a casa, o zumbido foi ficando mais alto.