Homem-Formiga

Jason Starr · Capítulo 3 de 21

Páginas do PDF

Homem-Formiga

Capítulo 2

EM UMA MESA logo na entrada, perto da janela que dava a Astor, a paquera de Scott disse:

– Meu nome é Anne, com “e”, mas meus amigos me chamam de Annie.

Scott a conhecera pelo Tinder – é, hoje em dia os super-heróis também andam namorando pela internet. De que outro jeito um ocupado pai solteiro conseguiria conhecer alguém na cidade grande? Scott havia curtido as fotos de Anne – ela parecia moderna, com jeito de quem parece não se esforçar para isso, tinha cabelo escuro, franja, usava óculos grandões e estilosos da Warby Parker – e os dois pareciam estar em situações de vida similares. Ela havia acabado de se divorciar, tinha um filho de doze anos – dois anos mais novo que a filha de Scott, Cassie – e escrevera no perfil que procurava por “algo leve, porém significativo”, algo que basicamente resumia o ideal que Scott tinha de relacionamento perfeito. Fazia poucos meses que a última relação de Scott – com Regina, a hipnoterapeuta maníaco-depressiva – terminara, e só agora ele voltava à ativa, tentando conhecer gente nova.

Scott ficou contente por Anne se parecer bastante com o que vira nas fotos, o que nem sempre acontece quando se trata de namoro pela internet. Desde o divórcio, Scott saíra com mulheres que afirmavam ter a mesma idade que ele, mas no fim das contas eram mais velhas que sua mãe. O encontro acabou tomando um rumo desagradável quando Anne passou os primeiros dez minutos falando das dificuldades do divórcio e de como odiava o ex-marido, e os dez minutos seguintes explicando os negócios que ela “algum dia” pretendia começar – design de joias, mercado imobiliário, Reiki – e claro, contou também que queria escrever um livro sobre a separação por ter “tantas histórias malucas pra contar”. Mas atualmente, apesar de todos esses planos grandiosos, a moça não estava fazendo muito – a não ser odiar o marido.

Scott quase não disse nada sobre si mesmo. Ficou tentando inventar uma boa desculpa pra ir embora, mas ela não havia tomado nem metade do café gelado. Achou que seria grosseiro inventar uma história e sair naquele momento, mas seria muito fácil. Estava com a roupa do Homem-Formiga por baixo das outras, o que lhe daria a fuga perfeita para encontros ruins como aquele: bastaria ativar as partículas Pym do traje e puff, praticamente desapareceria.

– Tá, maiores medos – disse ela.

– Como? – Scott perguntou.

– Quais são seus maiores medos? – ela perguntou. – Você primeiro.

Scott não estava nem um pouco a fim de entrar naquela brincadeira – só queria ir pra casa ficar com a filha. Mas pelo menos não estavam mais falando do divórcio de Anne.

– Humm, pergunta difícil – disse ele. – Acho que você não espera ouvir as respostas óbvias como, da morte, de um holocausto nuclear, invasão alienígena.

– Você tem medo dessas coisas?

– Não, na verdade não.

Scott sorriu, mas ela continuou séria. Aparentemente, não entendeu o sarcasmo – segunda tentativa. Ele deu um belo gole do seu café, torcendo para que o gesto a encorajasse a tomar o dela mais rápido, mas a bebida continuava parada no mesmo nível, como uma ampulheta entupida.

– Então, você tem medo do quê? – ela perguntou.

– Tá, de fracassar – Scott respondeu. – Tenho medo de fracassar.

– Humm, boa – ela disse. – Como naqueles sonhos em que a gente tá no colégio e tem uma prova importante e temos medo de não passar. Odeio esses sonhos.

– Estava pensando em algo mais psicológico – Scott explicou. – Tipo, fracassar enquanto homem, fracassar enquanto pai.

– Ah – disse ela, e então, iluminando-se: – Sabe qual é o meu maior medo?

– Pode falar – disse Scott.

– Meu maior medo é que o próximo cara com quem eu me case seja igualzinho ao meu ex.

E lá foi ela voltar a falar do divórcio de novo.

– Jura? – disse Scott. – É esse o seu maior medo?

– Você mencionou o lado psicológico – disse ela. – Bom, eu acredito que as pessoas acabam agindo conforme padrões antigos. Saem com as mesmas pessoas, cometem os mesmos erros repetidas vezes. Quer dizer, tomemos você, por exemplo. O que eu sei sobre você? Sei que o seu nome é Scott, que você tem uma filha e que é bonitinho, mas o que eu sei mesmo? Tá entendendo? Você pode estar escondendo alguma coisa, ter um segredo sombrio. Quer dizer, ninguém conta tudo no primeiro encontro, né? Então pode ser que tenha, sei lá, tipo uma bomba, uma revelação, uma coisa que você só vai contar lá pelo quinto encontro… e nesse ponto eu já vou estar superenvolvida emocionalmente, e vou ficar possessa por não ter sacado mais cedo. Sinais de alerta, é disso que eu estou falando. Tenho medo de não captar os sinais de alerta. E você?

Scott tinha se distraído. Bonitinho? Que história é essa?

– Desculpa, qual foi a pergunta?

– Qual é o seu maior segredo? – Anne perguntou.

Essa tinha sido a pergunta?

– Hã, uau, que pergunta difícil – disse Scott. Ele tinha um uniforme por baixo das roupas que lhe dava a habilidade de encolher e ficar do tamanho de uma formiga, além de ganhar força sobre-humana. Pode-se dizer que isso é um baita dum segredo.

– Anda – disse ela. – Eu sei quando um cara tem segredos. Você com certeza tem um passado. Dá pra ver nos seus olhos.

Oh, não… será que ela era telepata? Depois do casinho que teve com a Emma Frost dos X-Men no ano anterior, ele fizera um trato consigo mesmo: chega de mutantes, chega de mulheres saidinhas, moderninhas. Queria uma pessoa normal, sem drama. Querer isso em Nova York? – Era melhor esperar sentado, filhão.

– Tá, já percebi que estou te deixando desconfortável – disse a moça. – Vou colocar de outro jeito. O que você esconde? Qual é seu maior arrependimento?

Essa era fácil: sua vida passada de crimes. Ultimamente, andava sendo muito bem-sucedido em deixar essa parte complicada do passado para trás, tentando se redimir lutando ao lado dos mocinhos. Mas ainda se sentia culpado por algumas das coisas que fez quando era mais jovem, e preferia não ficar revirando essas lembranças – principalmente num primeiro encontro.

– Hã, que tal você responder essa primeiro? – ele pediu.

– Tá bom – ela disse. – Uma vez eu roubei dinheiro de um morador de rua.

– Tá me zoando – disse Scott, tentando imaginar essa mãe neurótica roubando dinheiro de alguém na rua. Pela primeira vez naquele encontro ele se viu intrigado.

– Não – disse ela. – Estou falando sério. Aconteceu em Amherst, sabe, onde fica a UMass? Foi lá que fiz faculdade. Enfim, eu tava bêbada com as minhas amigas, e uma delas me desafiou a pegar um dólar da canequinha do cara. Então eu roubei e fugi e fiquei me sentindo megaculpada. Procurei o cara no dia seguinte, mas não encontrei. Pensei que fosse acabar encontrando depois, mas nada, nunca mais o vi. Até hoje eu carrego esse dólar comigo pra todo lugar, só para o caso de trombar com ele.

– Uau, isso é, hum, bem incomum – disse Scott.

– E você?

– Não, nunca roubei um morador de rua. Espero poder riscar essa da minha listinha de metas qualquer dia.

A moça não deu risada, sequer sorriu. O sarcasmo realmente não era o forte dela. Terceira tentativa.

– Você já roubou alguma coisa? – ela perguntou.

Há momentos na vida em que a honestidade não é uma opção.

Então ele entrou no jogo:

– Todo mundo já roubou.

– Nem todo mundo. Com certeza a Madre Teresa nunca roubou nada.

– Não sei, não – disse Scott. – Quando ela tinha uns seis anos deve ter havido um pote de biscoitos que ela estava proibida de tocar, e aposto que ela roubou e comeu um dos biscoitos.

– Biscoitos não contam – Anne rebateu.

– Acho que roubar biscoito deveria contar sim. – Scott sorriu. – Posso ser sincero com você?

– Adoro honestidade – disse ela.

Claro que adorava. Todo mundo adora honestidade até que ouve uma coisa que não queria ouvir.

– Acho que esse encontro não tá rolando – disse ele.

– Ah, não? – Ela pareceu chateada.

– Fala sério. – ele disse. – Você não acha mesmo que tá rolando, acha?

– Bom – disse ela. – Não sei muito bem.

– Não dá pra se conectar com alguém se você já começa procurando esses sinais de alerta. A conexão simplesmente acontece.

– Você tem razão. Me desculpe – disse ela. – Eu sempre faço isso, pressiono demais. Quer dizer, nem sempre e nem tanto assim. E nem um pouquinho de pressão. Não sei bem o que estou dizendo. Não costumo ter muitos encontros… acho que o problema é esse. Na verdade, não tive nenhum desde que me divorciei, então talvez isso seja parte do…

– É totalmente compreensível – Scott interrompeu. – Além disso, sugiro que não fale tanto do seu divórcio. Quer dizer, assim logo de cara. Pra ser sincero, é um pouco broxante.

– Eu falo mesmo muito sobre o divórcio, né? – disse ela. – E acabei de falar de

– Eu falo mesmo muito sobre o divórcio, né? – disse ela. – E acabei de falar de novo. Não sei por que faço isso. Quer dizer, eu já superei totalmente o meu divórcio. Aí, falei de novo. Ai meu Deus, não consigo parar. Estraguei o encontro todo, não é? É só tensão nervosa. Tô tomando Xanax. Sei que por isso eu devia ficar menos neurótica, mas normalmente eu sou ainda mais neurótica do que isso. Meu ex que dizia isso. Ai, Deus, falei outra vez. Podemos começar de novo?

– Claro – disse Scott. – Vamos começar de novo.

– Meu nome é Anne, com “e”, mas meus amigos me chamam de Annie.

Scott riu.

– Viu? – ele disse. – Isso sim foi bem natural.

Talvez ela estivesse certa quanto ao fato da tensão nervosa impedir que ela conseguisse mostrar o que tinha de bom, porque agora ela parecia estar bem mais calma. Os dois começaram a ter uma conversa de verdade. Partilharam histórias sobre os filhos, falaram de filmes e peças que andaram assistindo, exposições que foram conferir. Scott não estava mais monitorando o nível de café do copo dela – estava se divertindo.

– Bom, parece que o começo foi meio atrapalhado – disse ele –, mas posso ser sincero sobre mais uma coisinha?

– Ai, de novo, não – disse a moça.

– Tô começando a gostar bastante de você.

Ela ficou um pouco corada e disse:

– Que fofo.

Scott estendeu a mão por sobre a mesa e segurou a dela. Uau, essa foi de zero a mil. O encontro passara de um marasmo total para um dos melhores que ele já teve desde que se separara da ex. Já começava a pensar no encontro seguinte – queria sugerir que marcassem algo naquela mesma semana. Ele podia levá-la ao seu restaurante mexicano favorito no West Village.

Foi quando ele reparou na formiga cruzando a mesa, perto das mãos entrelaçadas deles. Não ficou surpreso. Por motivos que ele não entendia muito bem, as formigas ficavam atraídas por ele quando ele estava com a roupa do Homem-Formiga, mesmo quando não estava encolhido. E nos últimos tempos as formigas andavam atraídas por ele mesmo quando ele deixava a roupa em casa, trancada num cofre. Não sabia direito como ou por que as formigas queriam ficar perto dele. Talvez por ele ter sido exposto a tantas Partículas Pym – o componente principal do gás encolhedor que lhe permitia virar o Homem-Formiga – o gás tenha causado um efeito permanente nele. Ou quem sabe as formigas fossem simplesmente capazes de sentir uma natureza amigável para com elas na essência de Scott. O cara vivia se surpreendendo com a inteligência desses insetinhos. Não entendia como a sociedade como um todo desprezava as formigas, associando-as com sujeira e infestação, e as considerava um incômodo.

Anne reparou na formiga, fez careta e disse:

– Ai, meu Deus, isso é nojento! A Starbucks é uma grande corporação; deveriam ter padrões de higiene mais altos.

Então ela pegou um guardanapo e ergueu a mão para esmagar o inseto.

Scott agarrou-a pelo pulso antes que ela pudesse matar a formiga e disse:

– Jamais faça isso.

– Quê? – Anne parecia confusa.

– Matar uma formiga por querer. – Scott disse. – Quer dizer, pisar numa formiga por acidente na rua é uma coisa, algumas tragédias não podem ser evitadas, mas quando você faz de propósito, é o mesmo que assassinato.

– Tá brincando comigo, né? – ela perguntou.

– Parece que eu tô brincando?

– Me solta, por favor.

Scott soltou o pulso da moça. Bem, lá se foi o grande encontro.

Ele sabia que sua reação pareceria bizarra para ela, até maluca, mas não pôde evitar a pergunta:

– O que você tem contra formigas?

– Como?

– Você estava prestes a assassinar essa formiga – ele disse.

– Assassinar?

– Matar, extinguir… Como queira.

– É só uma formiga.

– É isso que você diria se eu pegasse o seu cachorro ou gato e tentasse matar? É só um gato? É só um cachorro?

– Por favor, diga que isso é brincadeira – ela disse.

Scott, agora mais chateado, disse:

– Então você estava mentindo quando colocou no seu perfil que adora animais e acredita em… como você colocou? Ah, certo, “bondade para com os outros”. É assim que você expressa a sua bondade? Tipo, roubando o dinheiro do morador de rua… Certo, você era só uma garota embriagada. Mas agora você é uma adulta, uma mãe. Qual desculpa você vai dar dessa vez?

– Se isso for brincadeira, não tem graça – ela disse.

– Parece que estou de brincadeira?

– Tá criando todo esse caso por causa de uma formiga idiota.

– As formigas não são idiotas!

O Starbucks inteiro parou para olhar.

– Não são?

– As formigas têm cérebros maiores, em proporção ao seu peso, do que os humanos.

Scott não sabia se isso era verdade, mas disse com confiança.

– Que bom pra elas – disse Anne. – E quem se importa com as formigas?

– Eu preferiria ler um livro sobre formigas do que sobre o seu divórcio – Scott disse.

Alguns clientes no balcão olhavam para o casal, querendo saber do que se tratava a discussão. Mais formigas invadiram a mesa. Elas captaram a tensão e o perigo iminente, e vieram ajudar Scott e sua camarada formiga.

Anne também reparou nas formigas e se levantou, vestindo a jaqueta.

– Você tem problemas sérios, sabia? – ela disse.

– Você quase mata uma formiga inocente, e eu que tenho problemas?

– Formiga inocente? Chega. Desisto. Oficialmente, esse foi o pior encontro de todos os tempos.

– Nisso você tem razão.

– Vou pra casa.

– Tá, beleza, vê se não vai matar nenhuma formiga lá, também.

A moça estava prestes a sair, mas voltou e olhou para Scott, dizendo:

– Viu só? Eu tenho razão quanto aos padrões – ela disse. – Obrigada. Muito obrigada por se revelar logo no primeiro encontro. Me poupou muito tempo.

E depois apertou o passo em direção à saída.

– Nunca mais machuque uma formiga.

– Seu maluco! – ela gritou.

– Sua assassina! – ele gritou de volta.