Homem-Formiga

Jason Starr · Capítulo 1 de 21

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Homem-Formiga

Prólogo

WILLIE DUGAN rastejava por um túnel escuro – enquanto fugia da Prisão Estadual Attica no norte do estado de Nova York, onde ficara enfiado por nove anos – quando Keith, um dos caras que fugia com ele, disse:

– Tô preso, velho.

– Quê?

Willie tinha ouvido muito bem – só não quis acreditar.

– Eu falei que tô preso – disse Keith. – Não consigo me mexer.

– Tenta, cara – disse Willie.

– Eu tô tentando, brother. Não consigo. Não dá, não dá.

Willie tentou empurrá-lo para frente, mas o túnel era tão apertado que ele não conseguiu fazer muita força. Só podia ter acontecido alguma coisa no teto; devia ter afundado. Keith era grandalhão – talvez mais de um e oitenta de altura, uns cem quilos –, mas não era gordo. Deveria passar facilmente pelo túnel.

– Você tem que continuar – disse Willie. – Cava o chão, abra mais espaço.

– Tô tentando, brother. Mas o chão parece feito de aço aqui.

– Tenta mais.

Willie contou até dez mentalmente, tentando não entrar em pânico nem pensar nas piores possibilidades. E então ele disse:

– Tá certo, tenta de novo.

– Ainda não consigo, Willie. – Keith parecia prestes a chorar. – Desculpa, brother, desculpa.

– Só cala essa boca e tenta – Willie retrucou.

– Não dá. Não dá, velho, não dá.

– Tenta, cacete. – Willie juntou todas as suas forças para empurrar. – Anda, vai, cava! – era o que ele dizia, mas Keith não desentalava.

Agora as piores possibilidades começavam a se insinuar para Willie. Não havia muito ar no túnel, principalmente com Keith sorvendo-o aos montes, então havia a chance de Willie morrer sufocado. Ou pior: e se o encontrassem vivo ali e o arrastassem de volta para a prisão? Ele ia parar na solitária por ter organizado a fuga, e nunca mais teria chance de sair.

Aquele era o momento, sua única chance – era tudo ou nada. Se ele não escapasse naquela noite, seria o fim da linha; ele morreria de velhice na prisão, a não ser que arranjasse um modo de se matar.

É, se o trouxessem de volta, o suicídio seria definitivamente a única saída.

Willie tentou empurrar Keith de novo. Foi quando sentiu algo atingir sua cabeça – um pedaço do teto do túnel.

Keith disse as palavras que bem poderiam ser os próprios pensamentos de Willie:

– Tá cedendo, tá cedendo!

Seria assim que Willie ia morrer? Seria essa a última piada de Deus? Se o mandassem escolher entre ser enterrado vivo e voltar para a cadeia, Willie teria escolhido a primeira. Mas não planejava ter que escolher entre alguma dessas opções.

Não havia gasto nove anos nesse túnel – todo o planejamento, todo o trabalho – para terminar daquele jeito. Ele usou toda sua força para empurrar Keith para frente.

– Vai! Mais rápido! – gritou ele.

O túnel desmoronava; devia ter mais de dois centímetros de terra em cima da cabeça dele. Willie não fazia ideia de quanto faltava rastejar para que saíssem dali. Se estivessem a um minuto da saída, talvez tivessem chance. Talvez. O túnel estava desmoronando tão rápido que dava para ouvir, como o começo de uma avalanche. E então veio o baque, atrás dele, onde Keith estivera entalado momentos antes. Seriam enterrados se ficassem ali, mas Willie não estava pensando nisso. Ele só pensava em ir para frente, em sair da escuridão.

– Mais rápido! – ele gritou novamente. – Anda!

Ouviram mais um baque atrás deles. Todo o túnel começou a desabar. Era terra para todo lado – por cima de todo seu corpo, dentro de sua boca, nos seus olhos. E então ele sentiu o solo abaixo de si começar a inclinar para cima.

Ele continuou cavando. Se ainda podia cavar, isso significava que ainda estava vivo.

E então, enquanto o túnel desabava, ele sentiu algo diferente – grama, grama de verdade. O buraco tinha pouco mais de um metro de extensão, uma versão maior de um buraco de marmota. Suas mãos escorregaram no orvalho algumas vezes, mas ele finalmente conseguiu içar-se para cima, saindo do túnel. Ignorando a ardência nos olhos, viu uma luz: vinha de um poste de iluminação a uns cinquenta metros dali. Não parou para pensar no quão perto estivera da morte. Embora seu corpo estivesse duro feito pedra e ele mal enxergasse o que havia na frente, sabia que não podia perder tempo. Viu Keith e os outros três caras se dispersando à frente, e tomou a rota pré-planejada: correu pela estrada por cerca de quatrocentos metros, depois pegou a esquerda numa rua estreita e a direita dois quarteirões depois. Finalmente parou numa esquina e ficou esperando.

Dois minutos depois, viu os faróis de um carro que se aproximava, bem na hora combinada. Após o quase desastre no túnel, estava tudo dando certo. Tinha bastante dinheiro guardado – dinheiro com o qual poderia se manter pelo resto da vida. Faltavam umas cinco horas para a hora de acordar, quando os guardas descobririam sobre a fuga. Tempo suficiente para ir ao Canadá, usar um passaporte canadense falso e voar até Belize, depois para o Kuwait, e então àquela ilha no sul do Pacífico.

Ele poderia fazer tudo isso, mas não faria. Tinha gasto energia demais ao longo dos nove anos em que sonhara com esse dia. A liberdade era incrível, mas havia uma coisa que acertaria tudo, que o faria verdadeiramente feliz.

Sim, era hora da vingança.