Homem-Formiga
Capítulo 14
SALTANDO DE CARRO EM CARRO, Scott foi seguindo pela ponte GW e ganhou a rodovia Palisades. Ele monitorava o trajeto e o tempo com a mais nova tecnologia do capacete, que meio que funcionava como o sistema de Tony Stark, com ativação por voz e imagens aparecendo em frente aos olhos. Scott meio que, bem, pegara emprestado a tecnologia de Tony. Mas ele não se importava: Scott e Tony viviam competindo e provocando um ao outro sobre suas mais recentes invenções. Desde que Scott se mudou para Nova York, não tinha mais muito tempo livre para brincar com tecnologia, mas sempre arranjava umas inovações. Trabalhar no traje do Homem-Formiga era um projeto interminável, que tomava muito tempo.
Scott estava bem adiantado; chegaria facilmente em Wallkill às seis horas. Era obrigatório chegar a tempo, e Cassie tinha que estar bem. Qualquer outra possibilidade estava fora de cogitação. Não escureceria antes das 7:30 ou 8 horas – e nem isso importava, porque ele tinha visão noturna. A única coisa que o podia limitar era o trânsito, e foi exatamente isso que ele encontrou quando se aproximava da saída I-87.
Havia um belo de um engarrafamento. Scott conseguiu ir pulando de carro em carro e fazer certo progresso. Podia mover-se rapidamente como Homem-Formiga, mas não a cinquenta quilômetros por hora. Ele pulou para as costas de um motoqueiro que dirigia pela lateral para ultrapassar os carros, mas até isso adiantou muito pouco a travessia.
Finalmente, Scott pousou em cima de um ônibus que pegou a saída. Os carros andavam bem na 87, mas o trânsito lhe custara uns bons vinte minutos. Um mapa apareceu diante de seus olhos: o GPS estimava que ele chegaria ao destino às 5:44. Essa estimativa não lhe conferia muita tranquilidade para cumprir o prazo de seis da tarde.
Scott pulou em outro ônibus que seguia para a I-84. Quando o ônibus saiu, ele tentou pular para cima de um carro, mas – talvez por estar tão preocupado com o tempo – não calculou bem o salto e pousou na beirada do porta-malas. Tentou se segurar, mas soltou a mão e caiu na rodovia. Alguns carros passaram bem por cima dele, quase o esmagando. Scott ficou de pé e pulou para cima de um carro da faixa ao lado, e retomou a viagem.
A queda custara-lhe um tempinho, mas não muito. Ele saiu em Newburgh e conseguiu cruzar boa parte do trajeto até Wallkill na caçamba de uma picape. Contudo, teve que pular fora cerca de um meio quilômetro longe do endereço quando a picape mudou de direção, e foi pousar no para-lama de outro caminhão para cobrir o restante do caminho.
Chegou às 5:47, antes do fim do prazo. De seu ponto de vista de formiga, ele focalizou a casa. Sem dúvida, não parecia nada com o local onde se esconderia um fugitivo, mas era essa a ideia. Se Dugan queria se misturar, passar despercebido como um civil normal, escolhera o lugar perfeito. Não somente ficava perto de uma prisão de alta segurança, a meio quilômetro de distância, de acordo com o GPS, mas era uma casa de campo típica da região, com uma bandeira dos Estados Unidos presa a um mastro na varanda frontal.
Embora Scott tivesse chegado a Wallkill sem chamar a atenção dos humanos, sua presença atiçou a curiosidade da comunidade local de formigas. Havia muito mais delas ali, obviamente, do que em Manhattan. Milhares delas saíram de seus ninhos e montinhos para testemunhar a chegada de Scott. Servindo-se do que ele chamava de sua telepatia de formiga, o rapaz soube que as amiguinhas ficaram muito empolgadas e curiosas ao vê-lo. Ele enviou uma mensagem telepática em resposta, informando-lhes que tinha grande respeito por todas, e que estava ali porque a filha se encontrava em perigo.
Uma formiga mais velha, líder de uma colônia local, mandou um recado. Scott sentiu que tinha o apoio das formigas.
Ele respondeu com uma mensagem cheia de sentimento: Obrigado. Fico muito mais fortalecido sabendo que estão aqui para me dar apoio.
Às vezes as habilidades de Scott como o Homem-Formiga eram como uma segunda natureza para ele; em outras vezes, como naquele momento, a coisa toda parecia um completo absurdo. Embora divertir-se com as possibilidades do traje fosse sempre um barato, às vezes ele não sabia se ser o Homem-Formiga valia o preço que tinha de pagar.
Scott prometera a Hank Pym que usaria seus poderes para o bem, e não para o mal, e havia salvado muitas vidas, mas havia consequências. Enquanto ajudava os outros, prejudicava a própria família. O estresse de suas responsabilidades, de manter a identidade secreta, sem dúvida foi um dos fatores que culminaram em seu divórcio, e agora, pior de tudo, era sua filha quem estava em perigo. Em momentos como esse, não era muito difícil odiar a pessoa que se tornara.
Então Scott escutou os tiros – um, depois muitos mais em rápida sucessão, lá dentro da casa. Conforme deslizou por debaixo da porta, as preocupações acerca das motivações secretas de Willie Dugan desapareceram. Sua prioridade era encontrar a filha.
Ele estava no que deveria ser uma sala de estar. Quando olhou dentro da sala de jantar adjacente, viu as pernas de um homem no chão. Ao chegar mais perto, viu uma poça de sangue; sem querer encharcar-se do líquido, saltou até a mesa de jantar para visualizar melhor o cômodo. Caído perto da porta estava Ricky Gagliardi, o cara que Scott conhecia. Havia mais dois corpos do outro lado – dois homens atingidos por tiros. Um ele não reconheceu, mas o outro ele jamais teria dificuldade de identificar. Mesmo de lado e com uma bala na cabeça.
Willie Dugan.
– Cassie! – Scott gritou. – Cassie!
Mesmo encolhido, usando o traje do Homem-Formiga, Scott podia projetar sua voz com o volume normal.
Ele saltou da mesa, passou pelo corpo de Dugan e correu pelo corredor. Escutou movimento no andar superior: passos e o rangido das tábuas de madeira. Seria Cassie lá em cima, ou o assassino?
Estava prestes a subir para investigar quando avistou uma porta no final do corredor. Focalizou-a e viu que estava trancada pelo lado de fora. Se estava trancada assim, era para prender alguém lá dentro.
Mas Scott tinha um ótimo plano B. As formigas locais o haviam seguido para dentro da casa, e ele pediu a elas que espalhassem algo para todas as formigas da área: bloqueiem a casa. As formigas se apressaram em entregar a mensagem. Scott não achava que elas teriam tempo de reunir um contingente grande o bastante para ajudar muito, mas valia a pena tentar.
Enquanto isso, Scott passou por debaixo da porta do cômodo fechado. Como esperado, lá estava Cassie. Bem no meio da sala, amarrada e vendada, presa a uma cadeira. Sacudia as mãos, tentando libertar-se.
– Cass, filhinha, você está bem?
– Pai… é você?
Ela parecia bem, mas ele rezou a Deus para que a menina não estivesse machucada. Willie Dugan tinha sorte de estar morto, ou Scott teria espancado o cara até não poder mais.
– Sou eu, sou eu. Eles te machucaram?
– Não, ninguém me machucou. Não acredito que você veio, pai. Te amo tanto.
– Também te amo, ursinha.
Scott costumava chamar Cassie de ursinha quando era bebê, quando ela ia com Peggy visitá-lo na prisão.
Ele saltou para o colo da filha, depois escalou até o queixo. A menina sacudiu a cabeça, tentando livrar-se dele como se ele fosse, bem, um inseto.
– Sou eu, Cassie. Estou no seu queixo.
– Te amo, pai – ela disse.
– Também te amo – Scott disse. – Mais do que tudo!
Ele engatinhou pela corda que prendia Cassie à cadeira e facilmente desfez os nós, libertando-a.
– Como chegou aqui tão rápido? – ela perguntou.
– Calma aí – ele disse.
Scott agarrou-se à beirada da venda. Estava presa com fita adesiva.
– Isso aqui vai doer igual Band-Aid – ele disse. – Pronta? Um, dois…
Ele saltou do queixo dela, segurando a fita, e a rasgou.
– Ai! – ela reclamou. Depois disse: – Você fez antes do três… Pai? Cadê você? Pai?
– Estou aqui, Cass.
– Onde?
Ele acenava para a filha do chão, onde tentava se desgrudar de um pedaço gigantesco de fita.
Ela viu o minúsculo pedaço de fita se mexendo no chão e entendeu.
– Ai meu Deus, que bizarro!
Scott finalmente se soltou.
– Beleza, fica aí.
Ele ativou os controles do traje e seu corpo retornou ao tamanho normal.
– Nossa… – Cassie ficou abismada, mas muito empolgada também. – Você vai ter que me deixar usar a roupa de novo!
– Quando você…
– Eu sei – disse ela. – Só com 21 anos.
Os dois se abraçaram. Scott não queria soltar a filha nunca mais.
– Hoje foi o dia mais assustador da minha vida – disse ele. – Nunca mais vamos passar por isso.
– Fechado – disse Cassie. Depois sussurrou: – Acho que tem mais alguém na casa.
– Eu sei – Scott disse.
– Acho que ouvi um clique de arma – Cassie sussurrou. – Alguém ia atirar em mim quando você chegou aqui.
Uau, será que ele tinha chegado assim tão na hora certa? Se tivesse sido pontual, encontraria a filha morta? Como Dugan e os comparsas?
– Não fale alto – disse ele. – Entre no armário. Eu já volto pra te pegar.
– Não, me leva junto – Cassie sussurrou.
– Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Scott lhe deu um beijo no topo da cabeça para acalmá-la, do modo que fazia quando ela ia visitá-lo na prisão e ele dizia: “Vai ficar tudo bem, ursinha, prometo. O papai logo volta pra casa”.
Cassie sussurrou:
– Toma cuidado, pai – e foi se esconder no armário.
Scott liberou o gás mais uma vez e voltou ao tamanho de formiga. Depois saiu do cômodo e parou no corredor, prestando atenção, analisando o cenário. Tudo estava como antes, e ele não escutava mais barulho nenhum no andar de cima. Sentia, na verdade, a presença das formigas – um monte delas – do lado de fora da casa e na área ao redor.
Foi verificar o corredor. Vazio. Estava prestes a saltar para as escadas quando escutou movimento logo atrás. Era um animal ou uma pessoa? No instante seguinte, estava esparramado no chão, feito um inseto que acabara de levar uma borrifada de repelente. Só que, ao contrário do inseto, Scott não conseguia nem agitar as perninhas. Estava totalmente imóvel.
Ele não fazia ideia do que estava acontecendo. Seu corpo parecia bem – a respiração estava normal, não sentia enjoo nem dor e pensava normalmente –, mas não podia se mover. Então escutou um zumbido esquisito vindo do capacete, e quando tentou ativar o sistema, descobriu que tinha sido desativado. Tentou reiniciar, mas nada aconteceu.
Sabia que tudo aquilo era intencional; alguém o fizera por algum motivo.
Então escutou um carro dar partida.
– Cassie! Cassie, você está bem? Cass! Cass, responde!
Poucos minutos antes ele prometera à filha que nunca mais a deixaria passar por apuros. E já estava faltando com a palavra.
– Pai?
Graças a Deus.
– Cass, estou aqui.
– Onde?
– Perto da escada.
– Não tô vendo nada.
O pé dela – o tênis colossal – pousou bem ao lado dele com um baque alto de sacudir o piso.
– Ei, cuidado – disse ele.
Scott não sabia se a paralisia que vivenciava estava afetando a estrutura extracraniana do traje, e sua força geral, mas não queria correr riscos. Preferia voltar ao tamanho natural, porém não podia mover os dedos para ativar o gás Pym. Tinha um sistema de apoio, um modo de ativar o gás pelo computador, mas isso também não ia funcionar, não com o mau funcionamento do capacete.
– Aí está você – Cassie agachou, seu enorme rosto olhando para o pai. – Por que está deitado assim que nem um inseto morto?
– Ah, eu só achei que seria bom fazer um pouquinho de ioga, esticar as costas – disse Scott, sarcástico. – Me põe na sua mão, rápido. E toma cuidado, não sei se tem outra pessoa na casa.
– Ouvi um carro saindo.
– Eu sei, também ouvi – Scott disse. – Vamos lá, me levanta.
– Como assim, você não consegue se mexer? – Cassie perguntou.
– Não – Scott respondeu. – Simplesmente faça o que eu estou te pedindo.
Usando seus dedos gigantescos, Cassie ergueu o pai do chão.
– E agora? – ela perguntou, e sem querer o soltou. – Ah, não!
Scott caiu no chão; foi como se tivesse saltado de um penhasco. O impacto sacudiu um pouco seu corpo, mas não doeu nada.
– Ai meu Deus! Você está bem, pai? – Cassie perguntou.
– Sim, mas faça o que eu disser, ok? Me coloque na palma da mão e me leve até a cozinha.
A menina obedeceu e disse, enquanto seguia pelo corredor:
– Acho que a cozinha fica pra cá.
– Não olhe para a sala de jantar! – Scott instruiu.
– Ai meu Deus, estou vendo as pernas de um cara.
– Eu disse para não olhar.
– Ele está morto?
– Deixa ele pra lá.
– Só quero sair daqui e ir pra casa – Cassie choramingou.
– Bem vinda ao clube – Scott disse.
Na cozinha, Cassie perguntou:
– O que quer que eu faça agora?
– Arranje um copo e encha de água.
– Pra quê?
– Apenas faça.
Antes que ela abrisse a torneira, Scott gritou para que esperasse. Teve receio de que ela o derrubasse por acidente no ralo. Se continuasse paralisado, ele não teria como escapar.
– Que foi? – perguntou ela.
– Me coloque no chão, e depois pegue o copo de água.
Cassie obedeceu, depois perguntou:
– E agora?– Ponha o copo perto de mim no chão, depois me jogue na água. Uma coisa importante – assim que me largar, saia correndo da cozinha e vá pro corredor. Corra como se uma bomba fosse explodir.
Cassie ergueu o pai com os dedos e o segurou em cima do copo.
– Quer mesmo que eu te solte lá dentro? – perguntou. – Você vai se afogar.
Scott não podia rejeitar totalmente essa possibilidade, mas tinha que tranquilizar a filha.
– Não se preocupe, vai dar certo. Lembre-se de fugir pra se proteger. Tá, no
– Não se preocupe, vai dar certo. Lembre-se de fugir pra se proteger. Tá, no três. Um, dois…
Quando Cassie soltou, Scott pensou: Você soltou antes do três, e mergulhou ruidosamente na água – talvez não tão ruidosamente assim. Se alguém estivesse de olho no copo, teria visto que a água nem se mexeu.
Scott esperava que a água acionasse o fluxo do gás expansor Pym. No começo, não aconteceu nada. Bom, nada além dele afundar cada vez mais para o fundo do copo. Já estava ficando sem ar. Pior, instruíra Cassie a sair da cozinha, então a menina não podia salvá-lo. Ele tentou gritar por socorro, mas sua voz foi abafada pela água.
Foi quando viu umas bolhinhas na água, e num instante, cabum! – retornou ao tamanho normal numa explosão de estilhaços de vidro.
Scott ficou deitado de costas no chão da cozinha, aturdido e zonzo. Arquejava um pouco, grato por poder respirar. Podia se mover também, o que também era uma ótima notícia.
– Cass? – ele chamou. – Cass, você está bem?
Cassie entrou na cozinha, viu Scott no meio dos estilhaços brilhantes e disse:
– O quê… que aconteceu?
Scott deu uma avaliada rápida no sistema – tanto o capacete quanto o navegador pareciam totalmente de volta ao normal.
– Eu explico depois – Scott disse. – Anda, vamos embora.
Ele só queria tirar Cassie dali e levá-la a um local seguro. Revelaria os mistérios mais tarde.
Quando abriu a porta e olhou para fora, ficou estupefato com a massa negra.
– Uau – disse Cassie. – Tudo isso são formigas?
Eram sim.
Dezenas de milhares de formigas juntaram-se em torno da casa. As que estavam paradas mais perto da porta abriram caminho, como se fossem o Mar Vermelho – no caso, um Mar Preto –, dando assim espaço para que Scott e Cassie passassem. Os dois seguiram até a rua; as formigas iam mostrando o caminho.
Havia dois carros na garagem. Scott poderia ter retornado a casa e procurado pelas chaves nos bolsos de Willie Dugan e dos outros mortos, mas tinha um método mais rápido.
Ele pediu à filha que se afastasse, e então ativou o gás Pym. Encolheu, saltou para o banco do motorista e pousou abaixo da janela, depois entrou pelo buraco da chave. Destrancou a porta, deu impulso para a frente, e fez a porta abrir.
Quando Scott emergiu da porta do carro, Cassie falou:
– Você vai ter que me ensinar a fazer isso algum dia.
– Ainda não terminei – Scott disse.
Dentro do carro, o Homem-Formiga entrou na ignição e deu partida no motor. Depois voltou, saiu do carro e retornou ao tamanho normal.
Fez tudo isso em menos de vinte segundos.
– Incrível – disse a filha.
Scott sempre carregava uma muda de roupa e uns duzentos dólares em dinheiro encolhidos numa bolsinha acoplada ao traje. Ele vestiu essas roupas, calça jeans, camiseta, moletom preto e tênis. O traje do Homem-Formiga era incrível, mas foi ótimo sentir-se como humano novamente depois da experiência de quase morrer em um copo de água.
– Vamos nessa! – ele disse.
Cassie sentou-se no banco do passageiro, e os dois deixaram Wallkill, em direção à Nova York. Durante o trajeto, Scott tratou de garantir à filha que agora ela estaria a salvo, que os homens que a sequestraram estavam mortos. Contudo, ele não parava de pensar numa coisa: quem estaria por trás de tudo isso? Dessa vez, Dugan estava morto, e Scott não precisava de um exame médico para comprovar. Mas quem matou Dugan e sua equipe foi a mesma pessoa que o apagou?
– O cara que entrou na sala – ele disse à filha –, quando você tava amarrada.
– Que tem ele?
– Lembra de alguma coisa dele?
– Eu tava vendada.
– Eu sei – disse Scott. – Mas talvez haja mais alguma coisa. Você escutou alguma coisa? Sentiu algum cheiro?
– Não, mas seja lá quem for, é mau. Tipo, senti uma vibração muito negativa. – A menina parecia estar em pânico. – Ai meu Deus, e se ele vier atrás de mim? E se me sequestrar de novo?
– Vai ficar tudo bem agora – Scott disse. – Não tem perigo.
– Você fica falando isso – disse Cassie. – Disse que a ordem de proteção ia cuidar de mim também. Como sabe que agora não há mais perigo?
– Ei, você viu do que o Homem-Formiga é capaz – disse Scott, tentando acalmar a filha. – Você testou o traje, viu como é.
– É, mas ele não fez nada de bom por você hoje – Cassie disse.
– Ele me levou até lá – disse Scott. – Até aquela casa.
– É, e você também acabou esparramado no chão igual uma barata morta.
Touché.
– Não sei bem como isso aconteceu – disse Scott –, mas vou descobrir.
Ele tentou distrair Cassie, falando do futuro – coisas positivas. Lembrou-lhe de que logo ela estaria de volta à escola, com os amigos, e tinha as férias ainda para esperar. Ia para o acampamento em Poconos com Elly, antiga amiga dela de São Francisco.
A estratégia de distração funcionou por alguns minutos, mas depois Cassie ficou chateada de novo e disse:
– Eu podia ter morrido naquela cadeira, pai. Se você não tivesse aparecido pra me salvar, eu estaria morta a uma hora dessas.
– E se você não tivesse me colocado naquele copo de água, talvez tivesse um pai-formiga imobilizado pra sempre – Scott disse.
Na estrada, pararam numa área de descanso. Scott ligou para Peggy pelo celular que comprou para falar com Dugan.
– Alô – ela atendeu, ansiosa.
– O agente está aí com você? – Scott perguntou.
– Sim – Peggy disse. – Por quê? Que tá acontecendo? O que houve?
– Só queria dizer que já estou com a Cassie – Scott disse. – Ela está bem.
– Ah, graças a Deus. Posso falar com ela?
– Cassie, fala oi pra sua mãe.
Cassie se inclinou para perto do telefone e disse oi para a mãe.
– Oi, docinho, amo você. Você está bem? Te machucaram?
– Estou muito bem – disse Cassie. – Graças ao papai.
Scott ficou emocionado, mas manteve a compostura.
Ele disse para Peggy:
– Isto é importante. Diga ao agente que estamos voltando pra cidade, e que estamos bem. Logo estaremos de volta ao apartamento.
– Como assim? – perguntou Peggy. – Onde estão?
Scott sabia que podiam rastrear a chamada, mas não ligou. Em pouco tempo ele e a filha estariam de volta à estrada.
– A gente tá bem, isso é que importa – Scott disse. – Quando chegar na cidade, ligo pra você.
Entraram, usaram o banheiro e pegaram algo para comer. Havia policiais estaduais na fila da Pizza Hut, então Scott e Cassie escaparam para o McDonald’s e compraram comida para a viagem.
Scott sabia que teriam muito a explicar aos policiais e ao FBI quando retornassem à cidade. Contar a verdade estava fora de cogitação, a não ser que ele quisesse aproveitar essa oportunidade para revelar ao mundo que era o Homem-Formiga, então precisava de uma versão dos eventos que soasse plausível. Estava confiante de que não deixara evidência alguma de sua presença na casa, mas sabia que os investigadores da cena do crime teriam dificuldade de explicar como e por que um copo de água explodiu na cozinha.
Durante o restante do trajeto, pai e filha ensaiaram a história que iam contar. Scott a fez repetir algumas vezes para certificar-se de que um não contradiria o outro.
Quando chegaram à cidade, passava um pouco das nove da noite. Cumprindo a primeira parte do plano, estacionaram o carro perto de um terreno baldio num pedaço feioso do Harlem. Scott limpou todas as digitais do carro, embora duvidasse que a polícia fosse investigar muito minuciosamente. Conhecia o trabalho de Dugan: o carro com certeza tinha sido roubado, e tivera as placas trocadas. Quando fosse encontrado, seria muito difícil conectá-lo ao bando de Willie Dugan, muito menos a Scott.
Para a parte seguinte do plano, caminharam alguns quarteirões, pegaram um táxi e seguiram para o Upper East Side.
No banco de trás do táxi, Cassie encostou a cabeça no ombro do pai e fechou os olhos. Por acaso havia no mundo sensação melhor do que ver a filha adormecendo usando seu ombro como travesseiro? Se havia, Scott ainda não tinha experimentado.
Quando chegaram perto da rua 79 com a 1a avenida, Scott falou com o motorista.
– Aqui já está bom. – Deu uma cutucadinha em Cassie e disse: – Chegamos, filha.
Os dois saíram do carro e seguiram pela avenida.
– Estou tão cansada, pai – Cassie disse.
Scott também estava exausto. Queria que aquela fosse uma noite normal, que pudesse apenas cair na cama e pegar no sono lendo, sabendo que Cassie estava protegida no quarto. Porém, quando entraram na rua 78 e viram a imprensa, as viaturas e todos aqueles policiais perto do prédio, ele soube que a rodada seguinte de caos estava prestes a começar.