Homem-Formiga

Jason Starr · Capítulo 8 de 21

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Homem-Formiga

Capítulo 7

QUANDO CASSIE OUVIU A PORTA da frente se fechar – indicando que o pai havia saído para trabalhar –, ela foi correndo até o armário, abriu o cofre e pegou o traje do Homem-Formiga. Arrumou tudo no armário para parecer que ninguém mexera e fechou a porta.

Como esperava, o traje não servia nela, mas ela teve uma ideia. Se o gás Pym encolhia as pessoas, não poderia encolher objetos como o próprio traje? Valia a pena tentar.

Cassie abriu o tubinho e apertou uma barrinha de metal. Não aconteceu nada. Tentou de novo, com mais força, e o traje subitamente encolheu para o tamanho de uma roupa de Barbie. Uau, muito legal, mas acabou ficando difícil de encontrar novamente a barrinha. Encontrou, com a unha, e puxou na direção contrária. O traje expandiu-se, mas continuava pequeno demais para ela. Foi preciso tentar muitas vezes, mas finalmente ela conseguiu que o traje e o capacete coubessem perfeitamente nela.

O capacete tinha antenas e uma abertura para a boca, e aberturas para enxergar que lembravam os grandes olhos de uma formiga. Uau, seria ótimo para usar no Halloween. Ela tinha ido a uma festa, certa vez, na qual um garoto estava vestido de Homem-Formiga. E se ela fosse à próxima festa de Halloween com o traje verdadeiro? Poderia fazer uma aposta: “Aposto mil dólares que posso encolher e ficar do tamanho de uma formiga”, e então encolheria mesmo. Poderia fazer fortuna com esse esquema, o suficiente para comprar as roupas que quisesse. Nada de H&M – iria fazer compras na avenida Madison.

Estava pronta para encolher, mas com um pouco de medo. Não achava que o traje pudesse machucar seu corpo, ou seu pai já estaria morto àquela altura, mas sempre tinha medo de coisas que nunca tinha feito na vida. Lembrou-se de que tivera medo de andar na tirolesa naquela vez, dois verões atrás, mas acabou andando e não foi tão ruim; na verdade, foi bem divertido. Então fez o que sempre fazia quando tinha medo: fechou os olhos e fez contagem regressiva, começando no dez. O coração acelerou quando ela disse “um” e empurrou a alavanca.

Não aconteceu nada.

Ela não entendeu. Tentou mais algumas vezes; mesmo assim, nada aconteceu. Para o traje funcionar talvez fosse preciso fazer outra coisa. Não havia um botão de ligar nem nada do tipo.

– Isso seria fácil demais, né, pai? – ela disse em voz alta.

Não parecia haver nenhum mecanismo de ativação no capacete também. Havia algo como uma malha na área do queixo. Ela soprou ali, mas nada aconteceu.

Tentou lembrar-se de como o pai usava o traje. Ela o viu encolhendo somente algumas vezes, e em todas elas ficou tão impressionada ao vê-lo subitamente ficar minúsculo que não prestara atenção a mais nada.

O pai lhe contou sobre sua identidade secreta há apenas um ano, mais ou menos. A mãe tinha ido morar no Oregon, e Cassie ficou triste, chorando muito. O pai sentou-se junto dela e disse:

– Cassie, para mim é muito importante ser um bom pai pra você. Na verdade, é a coisa mais importante da minha vida. Minha razão de viver. E parte de ser um bom pai é ter confiança, e parte de ter confiança é ser honesto, então quero ser honesto com você sobre tudo.

Ela achou que o pai fosse pedir desculpas por alguma coisa, do mesmo modo que sempre pedia à mãe dela por todas as coisas ruins que fizera no passado. Em vez disso, ele falou que tinha de contar um “grande segredo” que vinha escondendo dela.

Foi quando contou sobre o Homem-Formiga e o Dr. Pym. Contou que tinha a habilidade de encolher e ficar pequeno como uma formiga, mas mantendo sua força proporcional, e que podia se comunicar com outras formigas, e que às vezes embarcava em missões junto de outros super-heróis para lutar contra o mal em Nova York e ao redor do mundo.

Claro que ela não acreditou nele. Achou que fosse só uma historinha boba para fazê-la sentir-se melhor, como quando os pais inventam para os filhos que existe uma fada do dente. Mas então ele disse que ia mostrar, e vestiu o traje. Ela continuava achando que era mentira, mas ainda assim queria acreditar naquela mentira. Que garota não ia querer acreditar que o pai é um super-herói?

– Tá, pronto – disse ele. – Afaste-se. E quando eu encolher, não entre em pânico. Vou continuar falando com você com a mesma voz, e posso voltar ao tamanho normal a qualquer momento. Você tá bem? Promete que não vai se assustar?

Ela ainda achava que era tudo palhaçada. Ele diria “oops, não funcionou hoje, quem sabe na próxima vez?”, mas estaria tudo bem, mesmo assim, porque ela sabia que era tudo invenção. Não esperava que nada acontecesse de fato.

Mas então ele fez – bem na frente dela. Ativou o gás Pym – dessa parte ela se lembrava – e no instante seguinte foi como se ele tivesse desaparecido.

– Cassie, eu tô aqui. Acena pra mim.

Então ela o avistou no chão, do tamanho de uma formiga.

– Ai meu Deus – ela disse, e se agachou diante dele para poder ver melhor.

Era o pai dela mesmo. E, sim, estava acenando para ela.

Mas naquele momento, enquanto tentava descobrir como ativar o traje do Homem-Formiga, começou a se sentir ridícula. Afinal, por que queria fazer aquilo? Seu pai ficaria tão furioso com ela se descobrisse. Valia a pena tudo aquilo só para se vingar de Nikki? Seria muito bom fazer isso, mas não faria Tucker McKenzie se esquecer do que vira no Instagram – e não o faria querer ficar com ela, que é o que ela realmente queria.

Estava prestes a desistir, guardar o traje, quando sentiu algo como uma alavanca na manga do traje acima da mão esquerda. Havia outra na direita também. Ela empurrou a da esquerda para cima e sentiu um zumbido no corpo, tipo um leve choque elétrico – parecido com quando estava de blusa de lã e tocava uma maçaneta de metal num dia frio. Ela testou o outro lado, e aconteceu a mesma coisa. Foi esquisito e interessante, mas eram apenas leves choques; não parecia estar acontecendo nada. Provavelmente, só tinha a ver com o material de que o traje era feito.

Então, só por via das dúvidas, a garota empurrou as duas alavancas ao mesmo tempo enquanto soltava o gás Pym e, definitivamente, algo aconteceu porque subitamente ela só conseguia enxergar uma coisa cinza enorme e peluda. Estendeu a mão e tocou a coisa; parecia um dente-de-leão macio. Peraí, aquela coisa cinza era uma bola de poeira?

Cassie olhou para a esquerda e viu mais coisas cinza por cima de algo que se parecia com um amplo campo azul. Conhecia aquele campo azul: era o carpete.

– Ai meu Deus, isso é tão legal – ela disse.

Deu um passo à frente, e suas pernas estavam normais. Agitou as mãos – normais também. Tudo nela parecia estar normal. Bom, tirando o fato de que estava do tamanho de uma formiga.

Então ela tentou correr. Grande erro. Num instante, passou voando por cima do carpete inteiro e colidiu contra alguma coisa, talvez a mesa de cabeceira. Porém, não se machucou – fosse lá qual fosse o material do traje, com certeza era muito resistente.

Cassie tentou correr de novo, e dessa vez entrou num borrão de branco – provavelmente uma parede. Continuou correndo por um tempo, trombando nas coisas e quicando como se fosse uma bola dentro de uma máquina de fliperama gigante. Deu-se conta de que era como esquiar ou andar de patins: no começo mandaria muito mal, mas acabaria pegando o jeito. Aquilo era muito mais divertido do que qualquer brinquedo em que ela já andara em qualquer parque de diversões que estivera, ou do que qualquer vídeo game que jogara. Como é que o pai nunca lhe contara como era incrível ser o Homem-Formiga?

A menina riu e, embora a risada tenha soado como de costume, imaginou se as pessoas poderiam ouvi-la, se poderiam ouvir sua voz. Havia uma série de coisas que ela precisava aprender sobre o traje, e com certeza era muito mais divertido do que ir à escola.

Imaginou o que aconteceria se ela pulasse.

Péssima ideia.

Ela saltou o que achou que seria meio metro do chão, mas acabou se catapultando no ar e bateu a cabeça no teto. No entanto, novamente não doeu nada, e foi muito mais divertido do que assustador.

Depois de muitos minutos correndo e saltando pelo apartamento, Cassie já se sentia capaz de controlar seus movimentos. Além disso, estranhamente, ela conseguia ver os objetos claramente quando os focava, como um telescópio quando aumenta a imagem. Não sabia como conseguia fazer isso, por não estar apertando nenhum botão nem alavanca. Parecia que estava fazendo tudo só com a mente.

Ela podia ter ficado o dia todo no apartamento e se divertido pra caramba, explorando suas habilidades, mas havia um motivo para ter vestido o traje do Homem-Formiga. Não podia perder mais tempo.

Cassie passou por debaixo da porta – o que foi incrível; ela nem precisou da chave – e parou em frente à escada. Contou:

– Um, dois, três… – e pulou.

Foi perfeito… bem, quase perfeito. Ela alcançou seu destino no fim da escada, no quarto andar… mas quicou na parede, bateu no teto e cambaleou para os degraus seguintes. Gritou como se estivesse numa montanha russa até pousar no segundo andar. Não sofreu nada, mas resolveu descer os degraus um por um até o térreo.

Passou por baixo da porta do vestíbulo, depois por cima de uma cópia do The New York Times e saiu. Na rua, viu pernas logo à frente. Quando olhou para cima e aproximou a imagem, viu Roger, o agente do FBI, que esperava para levá-la à escola.

Para testar a voz, disse:

– Oi! Oi!

Mas Roger não reagiu. Pelo visto não tinha escutado nada.

Para fazer graça, Cassie pulou bem em frente ao rosto dele e disse:

– Até mais, bobão!

Ela ria muito, mas ele não fazia ideia. Deve ter pensado que era uma mosca ou pernilongo, porque lhe deu um tapa que a fez voar e murmurou:

– Sai daqui… – ela pode ouvi-lo perfeitamente… e em seguida caiu em cima de uma lata de lixo.

– Ei, isso não foi legal! – disse ela. Depois pulou para a calçada e seguiu para

a 1a avenida.

Foi quando viu todas as formigas.

Já tinha visto imagens ampliadas de formigas em livros e na internet, mas nada poderia tê-la preparado para aqueles insetos gigantes. Pareciam alienígenas. Alienígenas assustadores.

– Ai meu Deus, que nojo – ela disse. – Por favor… por favor, fiquem longe de mim, tá?

Ela realmente estava falando com formigas, e esperando que a entendessem?

As formigas começaram a surgir de todos os cantos, como um exército invasor. Ela estava prestes a dar meia-volta e fugir, mas foi cercada – estavam avançando para cima dela.

Contudo, logo ficou claro que as formigas não tinham intenção de machucá-la. Ela não captava uma vibração de ameaça, e achava até que tinha se acostumado um pouco com a aparência dos insetos assim de perto, porque já não estavam mais tão assustadoras. Na verdade, elas é que pareciam estar com medo dela, ou, ao menos, admiradas. Formaram fileiras ao redor de Cassie, observando-a do mesmo modo como as pessoas ficam paradas vendo o presidente, ou alguém famoso, passando num desfile. Ela sentiu lealdade, respeito, até mesmo amor da parte delas.

E outra coisa esquisita: vendo-as daquele jeito, tão de perto, dava para reparar que eram diferentes entre si. Cassie sempre pensara que toda formiga tinha a mesma aparência, mas agora podia ver que do mesmo modo que os humanos têm traços diferentes que os distinguem uns dos outros, as formigas também tinham. Tamanhos diversos de olhos, antenas, pernas, a cor, até mesmo expressões faciais. Havia formigas crianças, adolescentes, adultas e mais idosas, com cara de avô sabe-tudo. E havia também uma sensação de comunidade, ordem – como com os humanos.

Cassie passou lentamente por entre as formigas, sentindo-se tão diferente de como se sentia na escola, principalmente nos últimos tempos. Lembrou-se de como Nikki e as amigas riram dela no dia anterior, na hora do almoço. Às vezes, na escola, ela achava que ninguém realmente se importava com ela. Tá, tudo bem, tinha alguns bons amigos – mas até Nikki, que achava que era sua melhor amiga, se virara contra ela. Se não dá pra confiar na melhor amiga, a gente vai confiar em quem?

Mas, por mais estranho que fosse, Cassie confiava naquelas formigas – mais do que confiaria em qualquer humano, a não ser seu pai. Sentia que elas a respeitavam; sabia que poderia sempre contar com elas. As formigas a faziam sentir-se confiante, importante.

Ela mal podia esperar para chegar à escola e botar o plano em ação.

Cassie meio que trotou pela rua, com receio de ir rápido demais. A 1a avenida não estava tão longe, e ela preferiu evitar o tráfego. Teve que passar por cima de folhas, galhos, chiclete, papel de bala, cuspe, cocô de cachorro – ainda tinha olfato humano, isso era certo – e mais coisas igualmente nojentas. Algumas coisas ficavam tão esquisitas vistas de perto que não dava nem para ter certeza do que eram. Ainda não tinha visto nenhum outro inseto, e com certeza não estava com a menor pressa de encontrar uma barata – seria superassustador! Passou, sim, por um cachorro preso à coleira, algo que foi incrivelmente fantástico. Era um poodle miniatura do tamanho de cinco elefantes.

Tentava desviar das pessoas e manter-se longe dos pés imensos quando

ganhou a calçada na 1a avenida. Tinha medo de que alguém pisasse nela, mas imaginava o que aconteceria se alguém pisasse. Não achava que seria esmagada – se fosse o caso, o pai já teria sido esmagado umas mil vezes.

De repente, como esperado, uma bota gigante – daquelas de camurça marrom – veio para cima dela, e tudo ficou escuro por um segundo. Ela se sentiu encurralada, como se estivesse num quartinho e as luzes fossem apagadas subitamente. Parte do sapato pressionava a cabeça dela, mas, incrivelmente, não doía nada. Então, como se nada tivesse acontecido, a pessoa seguiu adiante e Cassie ficou numa boa.

Uau. Se ela estava tão forte assim que um homem de uns noventa quilos pisando em cima dela não lhe causava nada, quão forte estava?

Ora, por que não descobrir? Na esquina seguinte, a menina parou em frente a um latão de lixo de metal que, claro, para ela estava gigantesco. Estendeu uma das mãozinhas e empurrou o metal. Foi como tentar derrubar um prédio. Contudo, como esperado, a lata tombou na rua e espalhou todo o lixo.

A sensação era maravilhosa. Ela se sentiu como se fosse a pessoa, ou inseto – tanto faz, oras! – mais forte do mundo. Não era de se admirar que aquelas formigas estivessem alinhadas, demonstrando tanto respeito.

Cassie passou correndo por debaixo das portas do Colégio Eleanor Roosevelt. Viu mais algumas formigas aqui e acolá, observando-a com curiosidade, talvez assombro, conforme seguia adiante. Ela focalizou um relógio e viu que eram umas nove e pouco. Ou seja, hora da aula de Educação Física. Seria perfeito!

O ginásio de esportes ficava no segundo andar. Subir os degraus, ela percebeu, era mais complicado do que descer. Ela foi pulando um por um, o que era bem cansativo. Tinha de haver um jeito mais fácil de subir escadas – talvez pelas paredes, como faziam as formigas –, mas não havia tempo para testes.

Cassie chegou ao segundo andar e correu pelo corredor na direção do ginásio,

Cassie chegou ao segundo andar e correu pelo corredor na direção do ginásio, mais uma vez desviando de sapatos e outros objetos. Foi quando viu o Sr. Griffin, seu professor de Matemática, conversando com outro professor. Cassie parou e escutou um pouco da conversa. Não falavam sobre nada de interessante, só a respeito de um programa de TV que os dois estavam acompanhando, mas seria tão legal seguir os professores o tempo todo, e os colegas também, para escutar tudo o que diziam quando ela não estava perto. Era como ser invisível, mas muito melhor.

Teria sido incrível encontrar Tucker McKenzie, espiá-lo o dia todo e descobrir o que ele realmente pensava dela. Mas ela sabia que não tinha muito tempo. Roger já devia ter sacado que ela tinha sumido, e não tardaria muito em chamar o pai dela. Era preciso voltar para casa e guardar o traje do Homem-Formiga de volta no cofre antes que o pai percebesse que ela o tinha pegado.

No ginásio, todas as meninas estavam em fileira para treinar lance livre de basquete. Cassie era péssima no esporte – que bom que estava matando essa aula. Ela avistou Nikki na fila, falando com Keely, umas de suas amigas.

– Sei lá. Não quero – disse Nikki.

– Ah, para com isso, vai ser tão legal – disse Keely.

– É, talvez, não sei – disse Nikki.

– Você vai mudar de ideia – Keely retrucou.

Cassie não tinha a menor ideia do que as duas estavam falando. Adoraria ter ficado para escutar o restante da conversa, esperar até que dissessem algo interessante, mas não queria perder mais tempo. Então ela pulou nas costas de Nikki, na altura da cintura – que lhe pareceu gigantesca, claro. Então, agarrando os shorts da menina com as duas mãos, Cassie saltou como quem salta de paraquedas só que de uma montanha, o tempo todo sem soltar o elástico. Como esperado, o shorts caiu, e Nikki ficou só de calcinha na frente de todo mundo.

A menina ficou confusa e chocada. E só piorou a situação quando gritou, então todas as meninas ao redor olharam para ela e caíram no riso. Cassie ria muito também. Ela saltou fora do elástico assim que Nikki puxou o shorts para cima.

– Ai meu Deus, por que fez isso comigo? – Nikki perguntou à Keely.

– Quê? – disse Keely. – Não fiz nada!

A professora de Educação Física, a Sra. Jill, que era sempre muito rígida e meio malvada, se aproximou e disse:

– O que está acontecendo aqui?

– A Keely puxou meu short pra baixo – disse Nikki.

– Não puxei, não – protestou Keely.

Nikki e Keely continuaram discutindo, e Jill avisou que as deixaria no banco de castigo até o final da aula se não se comportassem. Enquanto isso, Cassie e as outras meninas continuavam rindo. Uma pena Tucker McKenzie não estar ali – teria sido ainda mais perfeito.

A Sra. Jill soprou o apito, e o treino de basquete continuou. E então Cassie teve outra ideia. Havia um monte de bolas de basquete num canto, não muito longe da cesta na qual Nikki praticava. Cassie passou para trás de uma das bolas, que para ela tinha o tamanho de uma roda gigante; quando Nikki se aproximou da cesta e estava prestes a fazer um lance, Cassie jogou a bola nela. A ideia era só assustar a menina e fazê-la errar o arremesso, mas ainda havia muito que aprender no controle da força e dos movimentos do Homem-Formiga, ou Menina-Formiga, ou seja lá quem ela fosse. Ela arremessou a bola muito mais forte do que pretendia, e atingiu o nariz de Nikki. Foi tão forte que deu pra ouvir um crunch bem alto.

Nikki começou a gritar e chorar, jorrando sangue pelo nariz no piso do ginásio. A professora não viu o que aconteceu, mas supôs que Keely estava envolvida e gritou com ela, mandando-a para a diretoria. Instruiu também outro aluno, Julien, a ir chamar a enfermeira. Só depois foi dar atenção a Nikki, e tentar acalmá-la. Mandou as demais alunas saírem da quadra e irem para o refeitório.

Cassie sentiu-se péssima. Não queria de fato machucar Nikki – só dar um sustinho nela.

– Ai meu Deus, me desculpa! – disse, e então viu algo que parecia ser uma imensa bola de sangue vindo em sua direção. Saiu do caminho antes que a alcançasse – aquilo teria sido muito nojento.

E então ela entrou em pânico. Por todo o tempo, desde que tivera a ideia de pegar emprestado o traje do Homem-Formiga, tinha ficado tão empolgada vendo o mundo da perspectiva de uma formiga e descobrindo todos aqueles poderes legais, que jamais havia pensado sobre as possíveis consequências. Tinha acabado de machucar Nikki, provavelmente quebrado o nariz da menina, mas e se tivesse feito coisa ainda pior? Ela só quis, então, voltar para casa e guardar o traje antes que alguém descobrisse – ou que causasse ainda mais problemas.

A menina disparou pelo piso da quadra, passando pela enfermeira, que corria para prestar socorro a Nikki, e seguiu pelo corredor, andando dessa vez pela parede, para ficar fora do caminho da multidão de alunos. No final do corredor, viu Tucker McKenzie e parou.

Reconheceu primeiro os tênis do garoto, os Nikes com as cores dos Knicks, laranja e azul, e então olhou para o rosto dele. Mesmo daquele ângulo esquisito, o menino era incrivelmente bonito. E estava obviamente falando sobre o que tinha acontecido na quadra.

– Quem fez aquilo? – ele perguntou.

– Ninguém sabe – o outro menino respondeu.

– Disseram que a bola simplesmente voou e acertou nela sozinha – disse outro.

– Cara, isso é tão louco.

Cassie focalizou o rosto de Tucker. Não era de se admirar que estivesse tão a fim dele. Era o menino mais gato que já vira na vida.

De repente o Nike veio parar em cima dela, e ela ficou presa num vão embaixo da sola. Estava presa mais uma vez, como numa cela escura. No entanto, não sentiu medo, apenas frustração.

– Anda, sai daqui, Tucker – disse Cassie. – Preciso ir embora.

Finalmente, talvez um minuto depois, Tucker saiu andando, provavelmente indo para a sua próxima aula. Cassie desceu as escadas, correu para a entrada do colégio, derrapou ao virar no corredor e saiu.

Foi correndo pela 1a avenida, evitando obstáculos, como anteriormente, e então viu o pai – e Roger logo atrás dele – correndo para a escola. Será que o pai tinha descoberto que o traje do Homem-Formiga estava sumido? Com certeza ela receberia um belo castigo – o maior que já recebera.

Cassie atravessou a rua, notando mais formigas ao redor, e finalmente chegou ao prédio. Pulou as escadas, degrau por degrau, o mais rápido que pôde. Seu pai a estava procurando na escola, e quando descobrisse que ela não fora à aula, voltaria para casa. Era preciso retornar ao tamanho normal e guardar o traje antes de ele voltar. Finalmente, ela chegou ao quinto andar. E viu George, o zelador, vindo em sua direção.

O cara parecia irritado com alguma coisa. Ele parou de andar e olhou para baixo, fitando-a diretamente. Foi a primeira vez, desde que encolhera, que um humano olhava direto para ela, e ter aquele rostão encarando-a foi aterrorizante. Então ele fez uma careta e disse:

– Malditos insetos.

Em seguida seu imenso sapato preto voou rápido para cima de Cassie. O zelador queria esmagá-la.

Ela escapou do sapato – que pareceu fazer todo o piso tremer – por um segundo. Teve receio de que o homem percebesse, caso olhasse bem para ela, que de fato não era um inseto. Cassie correu e deslizou por debaixo da porta do apartamento em busca de segurança.

Bom, nem tanta segurança assim. Ainda tinha que voltar ao tamanho normal. Ela pressionou as alavanquinhas das mangas simultaneamente, pensando que esse poderia ser o truque, mas não aconteceu nada. Tentou movê-las na direção oposta, mas nada de novo.

– Por favor – disse. – Anda…

Estava começando a entrar em pânico, com medo de nunca mais poder voltar ao tamanho normal.

Cassie manejou as alavancas para todos os lados, mas mesmo assim nada aconteceu – nem mesmo aquela sensação esquisita, aquele zumbido de antes. Ela só queria tirar aquele uniforme, mas teve medo de fazer isso estando daquele tamanho. Quis ser forte, não chorar, mas seus lábios começaram a tremer e algumas lágrimas rolaram pelas bochechas.

A porta da frente se abriu, e seu pai entrou. Parecia gigantesco, mas ela já estava se acostumando a ver as pessoas desse ângulo.

– Pai! – ela gritou. – Pai, eu tô aqui! Paiê!

Ele não podia escutá-la, é claro. A menina sentiu como se estivesse num daqueles sonhos angustiantes em que a gente quer fazer alguma coisa ou chegar a algum lugar, mas continua se distraindo, ou não tem velocidade ou força suficiente, e a única coisa que se quer fazer nunca se consegue. Só que aquilo não era sonho – era um pesadelo completo.

O pai foi direto para o armário, checou o cofre, isso quer dizer que ele deve ter descoberto de alguma forma que ela havia pegado o traje. E isso era uma coisa boa, ela refletiu, porque então ele tentaria encontrá-la. Dito e feito: ele ficou de joelhos e saiu engatinhando.

– Pai, aqui embaixo! Aqui! – ela gritava.

E então Roger entrou no apartamento. O pai inventou uma desculpa, disse que estava procurando suas chaves, e conseguiu fazer com que ele o deixasse sozinho.

– Cassie? Cassie, cadê você, filha?

Ela nunca tinha visto o pai assim tão preocupado.

– Aqui, pai! – A menina pulava, acenando com os braços. – Aqui!

– Cassie. Achei.

Ele estendeu sua mão gigante, e a menina pulou sobre ela. Então ele a trouxe para perto do rosto. Seus olhos brilhavam, furiosos.

É, o castigo seria dos grandes.

Imenso.