Homem-Formiga
Capítulo 1
ANTHONY HAWKINS, vinte e dois anos, usando um gorro preto com abertura para os olhos, entrou no bar na 3a avenida com a rua 128, sacou a arma – uma Glock nove-milímetros, a mesma que usara em todo seu festival de assaltos pela cidade de Nova York –, apontou para o senhor de idade atrás do balcão e disse:
– Passa tudo aí.
– Deixa disso, garoto – disse o cara, sotaque espanhol, fala arrastada. – Você não vai ficar rico me roubando.
Anthony reparou na câmera, apontada direto para ele no canto perto da porta. Atirou uma vez, errou. Atirou de novo, dessa vez acertou, estilhaçando a câmera.
Uma mulher nos fundos – ele não sabia que tinha mais gente na loja – gritou.
Anthony, nervoso, berrou em direção ao corredor:
– Ei, você, sai daí agora!
A senhora oriental, assustada, chorando, foi até a frente da loja com os braços erguidos. Então Anthony viu o velho pegar alguma coisa atrás do balcão – uma arma, talvez.
Anthony apontou a Glock para ele e gritou:
– O caixa! Faz a limpa agora mesmo, ou mato vocês dois, eu juro!
E então ele ouviu:
– Larga a arma, Anthony!
A voz era alta e clara, mas de onde tinha vindo? Ainda apontando a arma para o senhor atrás do balcão, Anthony virou o olhar para a porta. Esperava ver um policial, mas não havia ninguém ali.
– Quem disse isso? – ele berrou. Depois voltou-se para o velho. – Tem mais alguém na loja?
– Não, eu juro – respondeu o idoso.
– Tá, mas tem alguém falando comigo – disse Anthony. – E a pessoa sabe o meu nome.
– Deixe-os em paz, Anthony – disse a voz. – Abaixe a arma, deixe o homem chamar a polícia, e não vai se machucar. É sua melhor opção no momento. Na verdade, sua única opção.
A voz pareceu mais próxima dessa vez, poucos metros distante, mas ainda não havia ninguém por perto. Que diabos? Anthony estava assustado, sua arma tremia.
– Que tá acontecendo? – ele perguntou. – Tem alguém aí? Tá escondido em algum lugar?
– Vou pedir pela última vez. – A voz falou ainda mais perto. – Abaixe a arma, e então vai poder voltar pra prisão e cumprir a pena que merece. Se você não baixar a arma, vai voltar pra prisão mesmo assim, mas depois de passar umas semanas no hospital.
Então assim que é ficar louco?, pensou Anthony. Estava escutando vozes. Que diabos estava acontecendo, afinal? Seria trancado de novo – mas dessa vez não seria em uma cadeia, mas num hospício.
– Cala a boca! – ele gritou, talvez para si mesmo.
O senhor e a senhora asiática fitavam Anthony como se ele fosse mesmo
O senhor e a senhora asiática fitavam Anthony como se ele fosse mesmo louco.
– Estão olhando o quê? – Anthony perguntou.
Foi quando seu gorro saiu da cabeça, como se alguém o arrancasse, mas não havia ninguém ali. Anthony, chocado e confuso, disse:
– Mas como…
Antes que pudesse completar o protesto, sentiu uma dor no rosto, como se tivesse levado um soco repentino. E então tombou de costas na prateleira, e as latas de comida caíram por cima dele e se espalharam pelo chão.
Acabou derrubando a arma. E quando tentou alcançá-la, ela escorregou para longe de sua mão, indo parar perto da entrada da loja – como se alguém a tivesse chutado. Mas não tinha ninguém ali.
Então não eram mais só as vozes. Agora as coisas estavam começando a se mexer sozinhas, e ele havia imaginado que tinha levado aquele soco na cara? Mas se foi apenas imaginação, como é que doeu daquele jeito? E, caramba, porque seu nariz estava sangrando?
– Olha, eu te dei uma chance – disse a voz –, mas você preferiu fazer do jeito mais difícil, então esse é o jeito mais difícil.
– Quem… quem disse isso? – Anthony perguntou com a voz trêmula. Então sua cabeça voou para a direita, como se alguém acabasse de lhe atingir com um disparo de arma de pressão à queima-roupa em sua bochecha esquerda.
– Ei, olha aqui – disse a voz. O som parecia vir de perto de sua barriga.
Anthony olhou para baixo, e alguma coisa acertou-lhe o queixo. Sua cabeça tombou para cima das latas mais uma vez.
– Eu disse aqui – a voz repetiu, dessa vez a poucos centímetros de seu rosto. E então alguma coisa acertou-lhe a testa, ele se sentiu tonto e toda a loja começou a girar.
– Foi você quem pediu – disse a voz.
Anthony quis dizer que não tinha pedido nada, mas não conseguia mover os lábios.
Toda vez que o rapaz tentava se levantar, alguma coisa o atingia e ele tornava a cair. Foi quando ouviu as sirenes, cada vez mais altas.
– Eu adoraria ficar – disse a voz –, mas tenho outro encontro no centro.
Ao sair da loja, Scott Lang – da sua perspectiva de um homem de quatro centímetros de altura – viu as viaturas da polícia parando no meio-fio. Enquanto os policiais saíam às pressas, Scott disparou pela calçada, que, de sua mínima perspectiva, era do tamanho de uma grande praça. E então ele saltou do meio-fio, que foi como pular da janela do segundo andar. Pousou em pé e continuou, passando por entre dois colossais carros estacionados.
Scott prometera a Hank Pym que não abusaria da tecnologia do Homem-Formiga – o que significava não usá-la por motivos triviais, como escapar do trânsito. Mas uma vez ou outra, quando estava com pressa, por que não?
Quando um táxi se aproximou, Scott saltou no para-choque e segurou-se com suas mãos e pés superfortes. Saltar de carro em carro como Homem-Formiga era o jeito mais rápido de se chegar a qualquer lugar. Ele se agarrou ao teto do táxi, que começou a virar à direita na rua 125; em seguida saltou para o para-brisa de outro carro – uma picape branca. Deu de cara com o enorme rosto irritado do motorista, que pensou que ele fosse um mero inseto que pousara à sua frente. Era sempre muito perigoso para Scott permanecer tão perto do olhar de outra pessoa por tanto tempo – a pessoa poderia notar que ele não era um inseto, mas sim uma miniatura de homem metido num traje vermelho e cinza. Ouviu um chiado muito alto, virou-se e viu a imensa lâmina do limpador vindo na sua direção. Pouco antes do impacto ele saltou e pousou no teto da picape.
Scott seguiu na picape até a 116a, e então pulou num carro que ia para o leste pela Rodovia FDR. Trânsito livre. O carro o levou pelo centro até o East Village. Então, pulando sobre os tetos de carros, caminhões e ônibus, ele seguiu até o Starbucks da Astor com a Lafayette.
Apesar de ter feito a viagem em tempo recorde, continuava atrasado. Não dava para voltar ao seu tamanho normal em público, então ele correu para a cafeteria, desviando dos sapatos, tênis e botas que via pela frente como se estivesse numa partida de Frogger. Havia uma fila no banheiro dos fregueses, então ele disparou por debaixo da porta do banheiro onde havia uma placa dizendo “Somente funcionários”. Trazia consigo uma muda de roupa previamente encolhida numa bolsa acoplada ao traje do Homem-Formiga. Vestiu a calça jeans, as botas e a camisa de flanela, depois ativou o gás expansor Pym. Logo estava de volta ao tamanho natural. Uma barista do Starbucks – uma jovem asiática – entrou no banheiro e congelou.
– Como você entrou aqui? – ela perguntou.
– Hã, a porta estava destrancada – Scott disse.
– Os clientes não podem usar esse banheiro – ela disse.
– Desculpe, não vai acontecer novamente – Scott respondeu.
Scott saiu correndo e seguiu para seu encontro.