Homem-Formiga
Capítulo 13
CASSIE ESTAVA no escuro e em silêncio total.
Quando desmaiou, os homens cobriram seus olhos com uma venda, ou fita, ou talvez ambos, e taparam-lhe a boca também, para que não pudesse gritar. Então arrastaram-na para fora do carro e depois para dentro de outros carros mais algumas vezes. Não paravam de mandá-la ficar calma e fazer tudo o que diziam, que ficaria tudo bem. Ela não acreditava, mas sabia também que o pai viria resgatá-la. Talvez viesse sozinho, talvez com o Homem de Ferro e o Homem-Aranha, para salvá-la e colocar esses caras na cadeia.
Contudo, agora, já não tinha mais tanta certeza.
Não fazia ideia de onde estava nem como o pai poderia encontrá-la. Julgava que algumas horas haviam passado desde o sequestro, mas estava com tanto medo que perdeu a noção do tempo. E mesmo que tivessem se passado duas horas, isso não significava necessariamente que ela estava a duas horas de Manhattan. Havia lido uma história do Sherlock Holmes na aula de Inglês, no ano anterior, na qual os criminosos sequestraram um cara e o colocaram no porta-malas do carro e o levaram a um lugar que parecia muito distante por causa do tempo que passara, mas acabou que tinha sido um truque. Os criminosos tinham dirigido em círculos o tempo todo. Cassie não acreditava que era isso o que tinham feito com ela, porque certamente não estava em Manhattan. Quando a tiraram do carro pela última vez, com o grandalhão pedindo que parasse de chorar e ficasse tranquila, ela sentiu cheiro de grama, flores e do ar fresco e limpo do interior.
Ela parou de andar e deixou os pés arrastarem, recusando-se a ir além.
– Anda – disse o grandão. – Pode ir por bem ou por mal.
A menina prestou bastante atenção à voz dele, sabendo que, se escapasse dessa com vida, teria que lembrar-se dela. Era um timbre profundo, e com sotaque. Boston? Long Island? Nunca fora muito boa com sotaques, esse era o problema. Eles não arrastavam as vogais em Boston? Ela continuou escutando, esperando que ele arrastasse uma vogal um pouco a mais, e então teria certeza. Sabia que estava sendo ridícula, preocupando-se com sotaques quando sua vida devia estar em perigo, mas estava assustada demais para pensar no que estava de fato acontecendo. Tinha que pensar em outra coisa, se distrair.
– Tá bom, pelo visto ela vai querer ir por mal – disse o grandão.
Os caras a pegaram pelos braços e arrastaram por uma escadaria, para dentro de algum lugar. Era uma casa – sem dúvida uma casa. Tinha cheiro de mofo, mas ela também pensou ter sentido cheiro de comida – alguma coisa apimentada, talvez mexicana. Teria que lembrar-se disso também, caso alguém perguntasse mais tarde. Tinha que dar uma de detetive, como Sherlock Holmes, e continuar juntando as pistas. Seria o melhor jeito de lidar com aquilo: como se fosse um jogo, um mistério.
Abriu-se uma porta. As portas rangem em casas antigas, certo? Então estava numa casa antiga no interior onde talvez vivessem mexicanos moradores de Boston. Tá, não era muito, mas já era alguma coisa.
O grandão a mandou sentar-se, então ela se sentou numa cadeira, uma cadeira de madeira.
– Se prometer não gritar nem fazer nenhuma bobagem, eu tiro a fita da sua
– Se prometer não gritar nem fazer nenhuma bobagem, eu tiro a fita da sua boca. Acha que consegue fazer isso?
Cassie não achou mais que o cara fosse de Boston, mas não sabia de onde era. Ela apenas assentiu.
– Deve doer um pouco – disse ele, e puxou a fita da boca da menina.
– Ai! – ela reclamou.
– Lembre-se – disse ele –, a gente não tá de brincadeira, então vê se não tenta fazer nada, ou a fita volta pra sua boca.
– Por que tão fazendo isso? – Cassie perguntou.
– Ei – disse o homem –, por acaso eu disse que você podia falar?
– Tenho que ir ao banheiro – Cassie disse.
– Não acredito, está falando por falar – o cara respondeu.
– Por que eu falaria só por falar?
– Deixa ela ir ao banheiro – disse o baixinho.
Cassie gostava mais deste. Parecia mais bonzinho.
– Tá bom – o grandalhão disse. – Acho bom não tentar nenhuma gracinha.
Ele a levou para fora do cômodo até um corredor. O local ainda cheirava a comida mexicana, mas não fez Cassie sentir fome – estava assustada demais para ter fome.
– Tá, o banheiro é aqui, pode entrar – disse o cara.
– Como é que eu vou usar o banheiro de olhos vendados?
– Fica bem aqui à esquerda. Vai tateando que você se vira. E nem pense em tentar sair pela janela. Está parafusada.
Cassie entrou no banheiro e fechou a porta. Teve a impressão de que o homem mentira sobre a última parte, mas não queria tentar nada estúpido e acabar morta. Tinha que torcer para que o pai pudesse salvá-la, de algum modo. Era sua melhor chance – talvez a única.
Foi tão nojento sentar no vaso de olhos vendados. E se estivesse tão sujo quanto os da escola? Mas quando se está com medo de morrer, um vaso nojento não incomoda tanto assim.
Ela pensou em tirar a venda e pelo menos olhar pela janela para ver onde estava, mas teve receio de não conseguir colocá-la de volta corretamente. Além disso, o grandão estava logo atrás da porta e poderia entrar se a escutasse andando até a janela.
Cassie teve que tatear ao redor para encontrar a descarga e a pia. Jamais pensara direito no que os cegos tinham que enfrentar todos os dias. Se saísse dali viva, passaria a dar mais atenção a tudo com que as pessoas com deficiências tinham que lidar diariamente. E ajudaria sempre que pudesse, fazendo trabalho comunitário, ensinando de graça, qualquer coisa. E seria uma pessoa melhor.
Trouxeram-na de volta ao mesmo cômodo. O grandão a mandou sentar-se numa cadeira, e depois o outro a amarrou com uma corda.
– Quanto tempo planejam me manter presa aqui? – Cassie perguntou.
– Isso depende do seu pai – respondeu o grandão.
– O que querem com ele? – Cassie perguntou. – Ele não fez nada pra vocês; não fez nada pra ninguém. – Ela virou o rosto para onde achava que estava o baixinho e disse: – Por que tão fazendo isso comigo? Pede pra ele me soltar? Por favor, não conto pra ninguém o que aconteceu. Só me larguem em Manhattan que eu invento uma história, digo que fugi e fiquei escondida. Até porque foi isso que eu disse pra todo mundo outro dia, que tava escondida, mas na verdade eu tava… – De tão nervosa, Cassie quase soltou que tinha experimentado o traje de Homem-Formiga do pai. – Enfim, todo mundo acreditou, e não vou falar nada sobre vocês. Não vou contar que a casa cheira a comida mexicana. Sou ótima em guardar segredo. É sério, é um dos meus maiores talentos.
– Ei, faz um favor pra si mesma e fica quietinha, falou? – disse o grandão.
Ela continuou falando com o mais baixo.
– Por favor. Sei que você não é igual ao seu amigo. Dá pra ver que é uma boa pessoa… você é diferente.
Ela esperava mesmo que ele fosse diferente, que se virasse contra o grandalhão, talvez sacasse uma arma ou algo do tipo.
Mas o cara não era nem um pouco diferente, afinal, ou era só um baita dum covarde, porque quando terminaram de amarrá-la, os dois saíram do cômodo sem dizer mais nada.
Cassie fazia de tudo para agir como adulta. Sabia que chorar não apressaria a chegada do pai.
Mas sabia também que ficar tão calma numa situação daquelas não era normal. Provavelmente estava em choque, e isso desde que o grandão atirou em Roger e os dois a forçaram para dentro do carro.
Roger levou um tiro, um tiro de verdade.
Pensar nisso agora era tão surreal, quase como um pesadelo. Cassie torceu para que ele estivesse bem. Provavelmente ele estaria usando colete à prova de balas, então poderia ainda estar vivo; a não ser que o homem tivesse atirado bem na cara dele. Por que esses homens atirariam num agente federal apenas para sequestrá-la? O sequestro tinha que ter relação com seu pai e com o Homem-Formiga, obviamente. Como sempre, os segredos do pai criavam caos na vida dela. Todas as mudanças que tiveram que fazer quando ela era pequena, a questão do divórcio, era tudo culpa do pai dela e do Homem-Formiga. E agora, se ela morresse, seria culpa dele também.
Estava tão brava com ele, mas, por outro lado, contava com ele para salvar-lhe a vida. Ficou sem saber, então, o que sentir pelo pai, se devia odiá-lo ou amá-lo. A história da sua vida.
Foi então que não conseguiu mais segurar o choro – estava com tanto medo, tão sozinha. Por que a vida tinha que ser assim tão cruel, tão injusta? Aquele passara do melhor dia da vida dela para o pior, em um segundo. Estivera tão feliz durante as aulas depois de descobrir que Tucker gostava dela. Imaginara-se beijando-o tantas vezes, se perguntando como seria a sensação de tocar os lábios e a língua dele. Na verdade, nunca havia beijado ninguém antes. E se morresse sem ter beijado ninguém? Era tão injusto – ela não tinha feito nada para merecer aquilo. Ou tinha? Talvez fosse karma. Porque ela quebrara o nariz de Nikki com a bolada, fora sequestrada e não teria mais a chance de beijar Tucker.
Cassie ouviu passos no corredor, e então a porta abriu e alguém entrou. Era um homem – dava para saber pelo odor corporal. Um cheiro horrível.
– Então você é a filha do Scott Lang, hein? – disse o homem.
Era uma voz grave, igual de fumante. A idade? Na casa dos cinquenta ou sessenta, com certeza mais velho que seu pai. Havia algo de assustador nele, também. Não somente no jeito de falar, em toda sua presença.
– Lembro de quando você nasceu – ele prosseguiu. – Sentava no meu colo. Eu sabia que você ia ficar bonita quando crescesse.
Assustador mesmo.
– Quem é você? – Cassie perguntou. – O que você quer?
– É, você é mesmo filha do seu pai, hein. Atrevidinha. Era isso que eu mais admirava no seu pai. Ele era de lutar, não de choramingar. Não desistia nunca.
– Acho bom você não me machucar – disse Cassie. – E é melhor me soltar, escuta o que eu tô falando; meu pai vai te procurar, te encontrar e…
– Não se preocupe, seu pai já está a caminho.
– Ah, é? – Cassie se perguntou se ele estava mentindo.
– É – assegurou o homem. – Falei com ele no telefone, e ele vai chegar por volta das seis.
Ainda achando que era algum tipo de truque, Cassie perguntou:
– Se isso for verdade, por que você está tão tranquilo?
– Como assim? Há algum motivo pra eu ter medo do seu pai? Tipo, se ele for mesmo só um trabalhador comum de Manhattan, que mal pode fazer pra mim?
Cassie entendeu que o cara jogava verde para colher maduro; queria que ela revelasse que seu pai era o Homem-Formiga. Mas não falava como se tivesse certeza disso.
– Ele é meu pai – disse a menina. – Os pais ficam muito bravos quando as filhas estão em perigo.
– Ah, nossa, não quero nenhum pai bravo vindo atrás de mim – o homem disse.
– Você está sendo sarcástico – disse Cassie.
– Certo, quer que eu fale sério, eu vou falar sério – o homem disse.
Chegou a hora – o cara ia atirar nela. Cassie pensou em Tucker, seus lábios, seus beijos. Era essa imagem que queria guardar.
Mas o homem não atirou. Ela ainda respirava, ainda pensava nos lábios de Tucker.
O homem disse:
– Eu era amigo do seu pai. A gente trabalhava junto. Isso faz muito tempo. Tipo uns dez, quinze anos.
O coração de Cassie ainda batia acelerado – se era por achar que estava para morrer, ou por imaginar os beijos de Tucker, não sabia.
– Entendi – disse ela. – Você é um criminoso, que nem o meu pai foi.
– Que palavra pesada essa, criminoso – o homem disse. – Mas é, a gente teve essa fase juntos. Eu confiava no seu pai, literalmente confiava a ele a minha vida, mas daí ele fez uma coisa muito má, fez algo para me trair.
Cassie disse:
– É você que tá atrás do meu pai, não é? Por sua culpa a gente teve que ser protegido.
– Não, não estou atrás dele – disse o homem. – Só quero fazer um trato com ele, só isso. Se ele cooperar, eu te deixo ir. Só depende dele.
– Meu pai não é má pessoa – disse Cassie. – Ele não faria mal a você, a não ser que merecesse.
Assim como eu mereço estar aqui pelo que fiz a Nikki, pensou Cassie.
– É, bom, você pode até ser esperta, mas não sabe de tudo – o homem disse. – Seu pai fez a pior coisa que um homem pode fazer a outro: testemunhou contra ele. Sabe o que é isso?
– Tenho catorze anos, não quatro. Claro que sei o que é.
Retrucar desse jeito fez Cassie sentir-se mais forte, mais capaz. Ela conseguiu se esquecer por alguns segundos de que estava amarrada a uma cadeira e de olhos vendados, ou seja, totalmente incapacitada.
– Criminosos como nós, digo, criminosos mesmo, profissionais, fazem um juramento – o homem continuou. – Não o tipo de juramento que se faz numa corte, não juramos por Deus. Juramos por nós mesmos. Confiamos. Estou falando de confiança. Eu acreditava que seu pai nunca ia me entregar, e foi exatamente isso que ele fez. Pior, ele fez pra salvar o próprio rabo. Colocou a si mesmo antes dos amigos. Que tipo de homem faz isso? E por causa do que ele fez comigo, ter se virado contra mim, passei nove anos no inferno. Nove anos da minha vida morando numa jaula, como um animal. Mas agora que saí da jaula, eu digo pra você: nunca mais eu volto pra lá.
Uma das maiores habilidades de Cassie era a de diagnosticar gente maluca. Às vezes, na cidade, quando estava com amigas no Starbucks ou algum outro lugar, ela apontava para alguém e dizia: “Olha aquele cara ali; é maluco”, e as amigas diziam algo tipo “Como assim? Que cara?”. E então a pessoa fazia algo totalmente maluco, tipo gritar na cara de alguém ou começar uma briga, e Cassie dizia “Não falei”. Ela sempre acertava. E agora esse seu radar de malucos estava, bem, enlouquecendo, gritando que aquele homem era louco. Certamente já tinha matado pessoas, e poderia facilmente matar de novo.
– Se meu pai testemunhou contra você, deve ter tido um bom motivo pra isso – disse ela. Não sabia de onde vinha toda essa coragem para enfrentar o homem, dizer o que pensava, mas não estava mais com medo.
– Não tinha motivo nenhum! – gritou o homem, tão alto que fez os ouvidos de Cassie doerem. – Não tinha!
Mais um ponto para o radar de malucos de Cassie.
Ela achou que o cara fosse bater nela ou algo assim. Chegou até a se retrair e se preparar para o impacto. Ele apenas continuou falando.
– Eu tenho uma informação sobre o seu pai, e venho tentando descobrir se é verdade ou não. Se você me ajudar, pode haver um, digamos, um final melhor pra você e o seu pai. Depende de você.
Mais uma vez, Cassie pensou que o cara queria saber sobre o Homem-Formiga, embora não estivesse muito certa disso. De uma coisa ela tinha certeza: o cara não a soltaria assim tão fácil, independente do que ela contasse para ele. Ela vira os outros atirando em Roger, então por que não atirariam nela também? Se o pai não aparecesse para salvá-la, com certeza ela seria morta. Por isso, de jeito algum contaria qualquer coisa ao homem.
– Que tipo de informação? – ela perguntou.
– Acho que sabe do que eu estou falando – ele disse.
– Não, eu não sei.
O homem respirou fundo e disse:
– Você e o seu pai parecem ser bem unidos, hein!
– É – ela disse. – E daí?
– Ele já te contou da vida secreta dele?
Sim, era sobre o Homem-Formiga mesmo. Uau, incrível como ela sempre acertava tudo sobre as pessoas. Quem sabe ela daria uma boa psicóloga no futuro. Bem, se tivesse futuro. No momento, não dava muito para contar com isso.
– Não – disse ela. – Nunca.
– Nunca reparou que tem uma coisa diferente no seu pai? Tipo, que ele consegue falar com os insetos.
– Insetos?
– É – o homem disse. – Mais especificamente, formigas.
– Formigas? Não sei do que você tá falando.
– Tá bom, eu vou ser mais direto – o homem disse. – O seu pai é o Homem-Formiga, não é?
– Quê? Do que você está falando?
– Ele conhece Pym, o cientista – ele disse. – Pym deu o traje pra ele.
– Não sei do que você tá falando – disse Cassie. – Meu pai é só meu pai. Peraí, é por isso que você me trouxe aqui? Por isso está fazendo isso comigo, porque você acha que… ai meu Deus, que loucura. Não acredito que isso esteja acontecendo.
Ei, até que sua atuação não era das piores. Se ela escapasse dessa enrascada, pensaria seriamente em fazer testes para uma das peças do ano seguinte na escola.
– Acho que você está mentindo – disse o homem.
Bem, talvez sua atuação não tivesse sido assim tão boa.
Mesmo assim, ela continuou tentando.
– Pense sobre isso – ela disse. – Se meu pai fosse o Homem-Formiga, por que o FBI teria que proteger a gente de você? Já pensou nisso? Se ele fosse um super-herói, não precisaria de proteção. Poderia se proteger sozinho, certo?
Silêncio. Cassie orgulhou-se de ter sacado esse argumento do FBI. Pareceu ter algum efeito sobre o cara – no mínimo, deixou-o intrigado.
E então ele disse:
– Você é filha dele mesmo. É teimosa que nem ele. Mas sabe de uma coisa? Eu acredito em palpites, e o meu me diz que você está me escondendo alguma coisa. Escuta aqui, tá cometendo um baita dum erro… erro que pode te custar a vida.
– Ah, para de tentar me deixar com medo – Cassie retrucou. – Já cansou. Não tenho medo de você; não tenho medo de nada… então não vai funcionar.
– É – ele disse – que nem o seu pai.
Então ela ouviu o homem sair do cômodo e bater a porta.
Cassie não fazia ideia do que esperar. Nem sabia que horas eram, se era dia ou noite. Achava que ainda era dia, porque não estava cansada nem com fome demais. Mas o que aconteceria mais tarde? Dariam comida? Onde ela ia dormir?
Nos filmes, quando as pessoas estavam amarradas a uma cadeira, apenas
Nos filmes, quando as pessoas estavam amarradas a uma cadeira, apenas agitavam um pouco as mãos e em poucos segundos, pronto – estavam livres. Mas na vida real, era tudo muito mais difícil – talvez impossível. Cassie tentou mover os braços para ver se as cordas se soltavam, mas os outros homens a tinham amarrado forte demais. Ela continuou tentando; finalmente, os nós em torno de suas mãos afrouxaram um pouco.
Foi quando escutou os disparos.
Tentou convencer-se de que vinham de uma TV, que não eram reais, mas não dava para se enganar. Foram quatro disparos, talvez cinco, e ouviu também um homem gritar, ou talvez berrar – foi tudo rápido demais para assimilar. E então houve mais um tiro, e tudo ficou quieto.
O silêncio foi a parte mais assustadora. Ela queria gritar, mas teve medo demais. Com a venda ainda apertada, não dava para ver nada – o que de alguma forma tornava o silêncio ainda mais silencioso. Ocorreu-lhe, então, uma ideia terrível: e se todo mundo na casa estivesse morto? E se seu pai nunca viesse? Poderia ficar amarrada ali naquela cadeira por dias, até acabar morrendo também.
Cassie continuou se mexendo, puxando as cordas.
Por um bom tempo – ou talvez apenas tenha parecido um longo tempo – o silêncio foi absoluto. Até que ouviu passos. Alguém se aproximava do cômodo pelo corredor, e então a porta abriu-se com um rangido.
Se tivesse chegado a hora, se fosse para morrer, preferia mesmo que acontecesse rápido. Pelo menos seria melhor do que ficar amarrada a uma cadeira e morrer de fome. Acabaria em poucos segundos. Fim dos pensamentos, fim do medo. Odiava sentir medo.
Cassie escutou um clique. Nunca atirara com uma arma na vida, mas assistira a muitos programas de TV e filmes com armas, e sabia como era o clique de uma arma.
– Anda logo – ela disse. – Manda ver. Eu não ligo.
Talvez estivesse em choque, porque realmente não sentia nada. Bem, nada além de torpor. Não havia nada a fazer para evitar aquilo, nada mesmo. Nunca daria seu primeiro beijo, nunca mais veria o rosto de Tucker. Tudo ficou escuro, e ela ficaria ali no escuro para sempre.
Mas o tiro não veio. Cassie ouviu passos deixando o cômodo e sumindo corredor afora. Estava sozinha de novo.