Homem-Formiga
Capítulo 10
CASSIE AFINAL CONCLUIU que não gostava de Tucker McKenzie. Tá, ele era incrivelmente gato e interessante, mas tinha um monte de garotos incrivelmente gatos e interessantes, e não importava quão gato e interessante era um garoto se ele ia dar uma de completo idiota e ficar todo esquisito e convencido perto dos amigos só por causa de uma coisa que viu no Instagram.
Então no dia seguinte ao que acertou o nariz de Nikki com uma bola de basquete, Cassie resolveu ignorar Tucker. Às vezes, no corredor, após a aula de teatro, quando o via, ele dizia “oi” ou “e aí?”, e ela respondia com um “oi” ou “e aí?” em resposta. Mas dessa vez, quando passou por ele e Tucker disse “oi” agindo como se toda aquela história do Instagram não tivesse acontecido, ela o ignorou, sequer fez contato visual e continuou andando.
Mas estranhamente, ignorá-lo parecia deixá-lo ainda mais interessado. No dia seguinte, Cassie estava saindo do Gotham Pizza, na York, com suas amigas, e Tucker estava lá com os dele. Ele nunca dissera nada a ela antes, nem mesmo reparava nela quando estava com os amigos. Dessa vez, contudo, ele a chamou:
– Oi, Cassie, ei, peraí.
As amigas de Cassie continuaram a caminho da escola, e os amigos de Tucker também se afastaram. Os dois ficaram sozinhos, frente a frente pela primeira vez.
– Você tá, tipo, brava comigo ou algo assim? – ele perguntou.
Fazendo-se de boba, Cassie disse:
– Do que você tá falando?
– Sei lá – disse Tucker. – Você anda, sei lá, fria comigo, só isso. Quero dizer, nos últimos dias.
Cassie tentava não pensar em quão incrivelmente gato Tucker era – com aquele sorriso e o cabelo castanho ondulado – e no quanto queria beijá-lo.
– Eu só queria dizer – disse ele –, sobre aquilo que você postou no Instagram…
– Eu não postei nada – Cassie disse. – Foi a Nikki, e foi errado da parte dela fazer aquilo, porque era só uma mensagem, que mandei pra ela, e sim, eu escrevi, mas não vou mais ficar com vergonha disso. Foi só uma mensagem boba, e daí? Eu tava sentindo uma coisa na época, uma coisa que me deu de repente, e eu fui contar pra uma amiga. Pelo menos eu achava que era amiga. E não ligo para o que você nem ninguém pensam. Ninguém tem o direito de rir de mim como se fosse piada. Já foi humilhante demais ver uma coisa que eu não queria que ninguém visse lá pra todo mundo ver.
– Uau, calma – disse Tucker. – Assim eu não te alcanço.
Cassie falou rápido demais mesmo – fazia muito isso quando ficava nervosa.
– Foi mal – disse –, mas enfim. Isso não importa mais.
– Só pro seu governo – disse Tucker –, eu nunca ri de você. Eu nem sabia dessa parada do Instagram; fui descobrir só hoje, e fiquei lisonjeado.
– Ficou mesmo? – disse Cassie. – Mas não entendi. Quando te vi no outro dia, você tava rolando de rir.
– Devia ser de outra coisa, uma coisa engraçada de verdade. Eu não acho que postar mensagens dos outros seja legal.
Será possível que Cassie tinha se enganado? Andara tão chateada, sentindo-
Será possível que Cassie tinha se enganado? Andara tão chateada, sentindo-se humilhada, que poderia ter se apressado em tirar conclusões a respeito de Tucker. Ótimo – já estava se sentindo péssima por ter vestido o traje do Homem-Formiga e acidentalmente quebrado o nariz de Nikki; agora teria mais uma coisa para deixá-la chateada.
– Ah, uau – Cassie disse. – Eu não tinha a menor ideia.
– Tudo bem – Tucker disse. – Ei, tá a fim de ir ao Carl Schurz qualquer dia? Até semana que vem eu não posso porque tenho aula preparatória pro vestibular, e treino de lacrosse, mas na outra seria uma boa. Tipo, se você quiser, claro.
Carl Schurz era um parque da cidade. Cassie estava dormindo e sonhando, ou Tucker McKenzie tinha acabado de convidá-la pra sair?
– Peraí, isso não é parte da piada? – disse ela. – Se eu disser sim, você vai começar a rir de mim.
– Eu juro que não vou rir – ele disse.
Foi tão bonitinho; ele parecia nervoso, como se estivesse com receio de que ela o rejeitasse.
– Tá, então sim – disse Cassie. – Eu adoraria.
Os dois voltaram juntos à escola – juntos mesmo. Ela fantasiara sobre andar para qualquer lugar ao lado de Tucker tantas vezes, e agora estava acontecendo. A fantasia era realidade.
– Posso te perguntar uma coisa? – disse Tucker.
Será que ele ia pedir para segurar sua mão?
– Claro – disse a menina, torcendo para a mão não estar muito suada.
– Quem é aquele velho seguindo a gente?
– Que velho? – Cassie ficou confusa.
– Acho que o vi perto da escola também – Tucker disse.
Cassie olhou para Roger, seguindo-os meio quarteirão atrás. A menina tinha ficado tão absorta que se esquecera de Roger.
– Ah, ele – Cassie disse. – Se eu te contar, promete guardar segredo?
– Claro.
– Bom, você vai achar superesquisito, mas ele é um agente do FBI, um agente federal, que tem que me seguir a todo lugar por um motivo que eu não sei, e mesmo se soubesse não poderia contar pra você.
Eca. Cassie disse tudo aquilo rápido demais, de novo, provavelmente bancando a bobona – não conseguia evitar.
– É sério? – disse Tucker. – Ele é mesmo do FBI?
– Eu nunca mentiria pra você – Cassie disse.
– Isso é tão legal – ele disse.
– Que eu nunca mentiria pra você ou que ele é do FBI? – ela perguntou.
– Os dois – ele disse.
Na escola, Cassie quis muito não ter que se despedir de Tucker. Queria que já estivessem no parque, e que não houvesse mais ninguém ao redor.
– A gente se vê – ele disse.
Cassie foi para a aula seguinte, teatro, mas nem sabia por que se dava ao trabalho. Tinha certeza de que não conseguiria prestar atenção em nada que não tivesse a ver com Tucker McKenzie, e em como aquele estava sendo, definitivamente, o melhor dia de sua vida.
No dia seguinte, Nikki estava de volta à escola pela primeira vez desde que tinha quebrado o nariz com a bolada. Tinha uma bandagem enorme em torno do nariz. Cassie se sentiu muito mal. Lembrou-se do que o pai lhe dissera, que era preciso encontrar um jeito de expiar seus pecados cometidos contra Nikki. Bom, ele não tinha dito “expiar” nem “pecados”, mas algo semelhante, em essência. O pai sempre dizia que, na vida, a gente recebe aquilo que dá, o que era meio irritante. Principalmente porque ele tinha razão.
Cassie não conseguiu reunir coragem para dizer algo a Nikki durante a primeira aula, mas depois, foi até a menina no corredor e disse:
– Oi. Ouvi falar do seu nariz. Sinto muito.
– Sente por quê? – retrucou Nikki. – Não foi culpa sua.
Cassie imaginou a cena: uma garota encolhida, do tamanho de uma formiga, arremessando uma bola de basquete na cara da inimiga.
– É, eu sei disso – disse. – Quis dizer que sinto muito que tenha acontecido isso com você. Tá doendo ainda?
– Quando aconteceu doeu pra caramba – disse Nikki. – Ontem ainda doía muito, mas o médico me deu alguns remédios, e melhora bastante quando eu tomo. Hoje tá doendo um pouco, mas pelo menos não parece que a minha cabeça vai explodir.
– Que saco – disse Cassie. – Talvez eu possa te ajudar a fazer a lição de cálculo qualquer dia.
– Como assim?
– Tipo, depois da aula, ou no fim de semana, posso te ajudar na matéria. Quer dizer, eu sei que você odeia Matemática, e disse que seus pais estavam até pensando em te arranjar um professor particular. E como eu não tenho dificuldade nessa matéria, achei… ah, seria legal te ajudar, só isso.
Elas estavam no final do corredor, perto das escadas. Crianças passavam por elas, rindo e conversando sem sequer notá-las.
– Não tô entendendo – disse Nikki. – Por que tá sendo legal comigo?
– Por nada. Porque sim.
– Mas não tem por que ser legal. Eu é que devia ser legal. Quando tava no hospital, vendo o que tinha acontecido com o meu nariz, pensei em como fui mala com você. E foi estranho porque pensei que talvez eu merecesse levar a bolada e quebrar o nariz.
– Não merecia, não – disse Cassie. – Foi só um acidente.
– Não, não foi acidente. Aconteceu sozinho. Sei que parece loucura, mas a bola simplesmente voou do chão e me acertou no nariz, sozinha. Ninguém jogou.
– Mas não foi a Keely que te acertou com a bola? – disse Cassie. – Pelo menos é o que todo mundo diz.
– Não, quem disse que aconteceu isso foi a Sra. Jill. Então claro que o diretor e o coordenador acreditaram, porque ela é professora. Mas é mentira dela. Ela não viu nada. A própria Keely disse que não jogou a bola em mim, mas o diretor diz que eu tô falando isso pra proteger a Keely, o que é uma supermentira. Se ela tivesse jogado a bola em mim, eu teria dito que ela jogou, porque ia querer que ela pagasse por isso, mas ela não jogou, a bola voou sozinha. Sei que parece loucura, porque eu mesma me sinto louca quando falo, mas foi isso que aconteceu, e é tão, mas tão frustrante ninguém acreditar em mim. Todo mundo acha que eu fiquei louca. Até meus pais acham que eu fiquei louca.
Nikki chorava, as lágrimas rolando por cima das bandagens do nariz.
– Eu não acho que você ficou louca – disse Cassie.
– Todo mundo acha que fiquei louca. Todo mundo que tava lá e todo mundo que não tava.
– Eu acredito no que você contou.
– Jura? Não tá falando só por falar?
– Não. Eu te conheço. Se você diz que aconteceu é porque aconteceu.
– Mas como aconteceu? Que loucura.
– Quem liga?
Nikki olhou para Cassie por alguns segundos, como se tentasse sacar se ela estava falando sério. Então a abraçou e disse:
– Uau, obrigada. Você é incrível.
Cassie também ficou feliz. Era muito bom ter a melhor amiga de volta.
– Ei, quer ir fazer compras na rua 86 depois da aula? – Nikki perguntou.
– Eu adoraria, mas hoje não posso.
Nikki olhou para trás, para o final do corredor, onde Roger a espreitava, e depois retornou.
– Qual é a daquele cara, afinal?
– Ah, não é ninguém.
– Zoe disse que você disse a ela que ele é tipo um supervisor da escola. – Nikki parecia confusa. – Ele fica te seguindo todo dia? O que um supervisor faz?
– É, ele só monitora o desempenho dos alunos, sabe, tipo um monitor de desempenho escolar – disse Cassie, sabendo que não fazia o menor sentido. E acrescentou: – Tipo, é que nem uma pesquisa escolar. Sabe, pesquisa do Ministério da Educação. Nada de mais. Ih, uau, eu tenho que pegar um negócio no meu armário antes do próximo período. Te mando mensagem depois.
Cassie conseguira escapar dessa vez. Mas sabia que seria difícil manter Roger e a história toda da ordem de proteção em segredo perante Nikki e todo mundo por mais tempo, principalmente por já ter contado, em parte, para Tucker.
Esse foi o melhor dia de aula que Cassie teve em muito tempo. Foi ótimo se dar bem com Nikki de novo, não ter aquela sensação de vingança na cabeça. Agora que a amiga estava sendo tão legal e boa, Cassie mal se lembrava de por que quisera mexer com ela no outro dia, quando usava o traje do Homem-Formiga. Voltando atrás, tinha sido um comportamento tão imaturo, nada digno de alguém da idade dela, principalmente por não haver motivo, já que Tucker na verdade não estava tirando sarro dela. A postagem de Nikki no Instagram devia, na verdade, ter ajudado Cassie, porque foi graças a isso que o garoto descobriu que ela gostava dele, algo que talvez nunca soubesse de outro modo.
Cassie estava tão feliz que até mesmo o fato de Roger segui-la para todo canto não parecia mais tão embaraçoso ou ridículo. Ela viu Tucker algumas vezes – na primeira vez, ele estava com amigos, perto do armário, e não a viu. Depois ela o encontrou no corredor em que costumavam se cruzar, e em vez do “oi” que geralmente trocavam, tiveram toda uma conversa. Bom, talvez não uma conversa, mas se falaram por uns trinta segundos, e ele disse que tinha gostado da blusa que ela estava usando, o que foi incrível porque ela resolvera usá-la – a blusinha da Uniqlo – especificamente porque esperava vê-lo e esperava também que ele notasse a blusa e comentasse, foi como um sonho realizado.
Foi difícil se focar em qualquer coisa durante o resto do dia, porque ela estava tão absorta, revendo cada segundo, cada detalhe da conversa com Tucker. Algumas vezes os professores a chamavam, mas ela estava distraída e não respondia. Um professor, o Dave, de Química, foi conversar com ela depois da aula. Perguntou se havia algo a incomodando nos últimos dias, ou se a “situação” na qual ela se encontrava – a ordem de proteção, no caso – vinha atrapalhando seu desempenho escolar. Ela disse que não, que estava tudo bem, e que estaria mais concentrada no dia seguinte. O fato era que ela só conseguia pensar em Tucker McKenzie e no que ele queria dizer para ela, o que ela queria dizer para ele, e o mais importante: em como tudo isso a fazia se sentir.
Ao sair da escola, um pouco depois das três da tarde, ela esperava encontrar Tucker por acaso. Bom, não seria tanto por acaso – ela sabia que muito provavelmente ele estaria lá fora na entrada –, mas não o viu. Ela seguiu pelo
quarteirão e entrou na 1a avenida, torcendo para ele estar por ali, mas viu apenas dois homens vindo apressados em sua direção.
No começo ela não notou nada de muito esquisito neles. Eles vinham rapidamente em sua direção, com expressões muito sérias, mas ali era em Nova York. Havia uma tonelada de gente na cidade e uma tonelada de coisas estranhas acontecendo o tempo todo. Talvez os caras só estivessem com pressa e não viessem de fato para cima dela, queriam apenas passar por ela.
Então Cassie viu que os dois homens estavam armados, mas nem teve tempo de ter medo ou entrar em choque – além disso, a cena toda lhe pareceu totalmente surreal. Foi somente quando um dos homens, o mais alto, atirou – não em Cassie, mas em alguém atrás dela – que o pânico a dominou, mas nesse ponto já era tarde demais para reagir, porque o cara mais baixo já a tinha agarrado e a forçava a entrar no banco de trás de um carro. Uma mulher, alguém na rua, gritou algo como “olha ali!”, e Cassie pensou em Roger, ai meu Deus, Roger!, mas logo o cara mais alto entrou no carro, sentou-se ao lado dela e bateu a porta, e o carro saiu às pressas.
Antes que ela pudesse gritar por socorro, o baixinho colocou alguma coisa em seu rosto, uma toalha ou um trapo. Estava úmido, e tinha um cheiro forte e adocicado. Ela lutou e gritou sob o pano, pedindo que a soltassem, mas o homem não tirou o pano da boca e do nariz dela, e Cassie foi ficando meio tonta. Então ela pensou: Ah, não, é como num filme, o que tem no pano vai me fazer desmaiar. Foi ficando cada vez mais zonza, talvez em parte por causa do pânico; estava demorando mais do que nos filmes, mas estava acontecendo, estava acontecendo mesmo, mas por quê? Por que justo ela? Sabia que tinha a ver com o pai, com a causa daquela ordem de proteção idiota. Ela se lembrou da vez em que perguntou ao pai por que ele queria ser o Homem-Formiga, tipo o que ele ganhava com isso, e ele dissera: “Tem pessoas boas e más no mundo, e as pessoas más merecem ser punidas”. Bom, talvez ela fosse uma pessoa má e estava sendo punida pelo que fizera a Nikki, por ter quebrado o nariz dela, e foi ficando ainda mais zonza por causa daquele troço, sabia que seus pensamentos não faziam muito sentido, mas continuou pensando por quê? Por quê? E quando tentou gritar por socorro novamente, nem conseguiu fazer a boca se mexer.
E então ficou tudo escuro.