Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 9 de 26

Páginas do PDF

Medo e Delírio em Las Vegas

9. Nenhuma compaixão pelo diabo... jornalistas torturados?... Voando rumo à loucura

9. Nenhuma compaixão pelo diabo... jornalistas

torturados?... Voando rumo à loucura

 

A decisão de fugir surgiu de repente. Ou talvez não. Talvez eu estivesse planejando isso o tempo todo, esperando de forma subconsciente pelo momento ideal. Acho que a conta foi um fator importante – já que eu não tinha dinheiro para pagar. E não podia mais apelar para os esquemas demoníacos de reembolso de cartão de crédito. Não depois de lidar com Sidney Zion. Confiscaram meu American Express e agora os desgraçados estão me processando – junto com o Diners Club e a Receita Federal...

E, de qualquer modo, a revista é legalmente responsável. Meu advogado cuidou disso. Não assinamos nada. Exceto aquelas comandas do serviço de quarto. Nunca ficamos sabendo o total da dívida, mas – pouco antes de fugirmos – meu advogado calculou que gastamos algo entre 29 e 36 dólares por hora durante 48 horas consecutivas.

“Incrível”, comentei. “Como isso foi acontecer?”

Mas quando fiz essa pergunta não havia ninguém por perto para responder. Meu advogado tinha sumido.

Deve ter farejado problemas. Na noite de segunda-feira, pediu um conjunto de malas de couro refinadas para o serviço de quarto e me informou que tinha feito reservas no próximo voo para Los Angeles. Precisávamos nos apressar, avisou, e a caminho do aeroporto pegou 25 dólares emprestados para a passagem de avião.

Esperei que ele fosse embora e voltei ao balcão de suvenires do aeroporto, onde gastei o resto do meu dinheiro em bobagens. Lixo completo, suvenires de Las Vegas, isqueiros de plástico com uma minirroleta embutida – falsificações grosseiras de isqueiros Zippo – que custavam 6,95 dólares, prendedores de dinheiro com a efígie de JFK que custavam 5 dólares cada, macaquinhos de lata que sacudiam dados e custavam 7,50 dólares... um monte de porcarias que joguei no banco de trás do Grande Tubarão Vermelho... e então me sentei no banco do motorista com uma postura muito digna (como sempre, a capota branca estava abaixada), liguei o rádio e comecei a pensar.

Como Horatio Alger lidaria com aquela situação?

One toke over the line, sweet Jesus... one toke over the line.

Pânico. Subia por minha coluna como as primeiras ondas de uma viagem de ácido. Todas aquelas realidades horrendas começavam a ficar claras: ali estava eu, sozinho em Las Vegas com aquele carro incrivelmente caro, sob efeito de incontáveis drogas, sem advogado, sem dinheiro, sem matéria para a revista – e, para coroar o desastre, com uma imensa conta de hotel para saldar. Tínhamos pedido para aquele quarto tudo o que as mãos humanas podiam carregar – incluindo umas seiscentas barras de sabonete Neutrogena transparente.

O carro estava cheio de sabonetes – no assoalho, nos bancos, no porta-luvas. Para conseguir seiscentas barras daquela merda esquisita e transparente, meu advogado fez alguma mutreta com as camareiras mestiças do nosso andar. E agora eram todas minhas.

Assim como a valise plástica ao meu lado no banco da frente. Quando peguei aquela bosta, senti imediatamente o que continha. Nenhum advogado samoano em sã consciência tentaria passar pelo detector de metais de um aeroporto comercial carregando um revólver calibre 357 Magnum...

Então ele deixou a arma comigo, pensando em reavê-la mais tarde – se eu conseguisse voltar a Los Angeles. Senão... bem, eu quase conseguia me ouvir falando com a Polícia Rodoviária da Califórnia:

Hein? Esta arma? Este revólver calibre 357 Magnum carregado, sem registro, escondido e talvez até mesmo roubado? Quer saber o que estou fazendo com ele? Veja bem, seu guarda, eu saí da estrada perto das Fontes Mescal – por recomendação do meu advogado, que mais tarde acabou sumindo – e de repente, quando estava apenas passeando sem rumo naquele pseudo-oásis no meio do deserto, um sujeitinho barbudo apareceu na minha frente saído do nada, segurando uma faca enorme e um revólver negro e assustador na outra mão... ele se ofereceu para desenhar um X enorme na minha testa em memória do tenente Calley... mas quando expliquei que sou um doutor em jornalismo ele mudou de atitude. Sim, seu guarda, talvez você não acredite, mas naquele mesmo instante ele atirou a faca nas águas salobras que nos rodeavam e me entregou seu revólver. Sim, ele simplesmente enfiou a arma na minha mão, com a coronha virada pra mim, e depois saiu correndo rumo à escuridão.

E é por isso que estou com essa arma, seu guarda. Dá pra acreditar?

Não.

Mas eu também não ia jogar fora aquele troço. Hoje em dia é muito difícil conseguir uma boa Magnum 357.

Aí pensei comigo mesmo, bem, se eu levar esta coisa até Malibu ela é minha. Se eu corro o risco, a arma é minha – fazia muito sentido. E se aquele porco samoano quiser discutir, se aparecer gritando na minha casa, seu fêmur vai sentir o gostinho desse revólver. Ah, sim. Dez gramas de liga de chumbo a 450 metros por segundo são capazes de produzir uns vinte quilos de hambúrguer samoano misturado com fragmentos de osso. Por que não?

Loucura, loucura... estou sozinho com o Grande Tubarão Vermelho no estacionamento do aeroporto de Las Vegas. Chega de pânico. Calma. Controle-se. Nas próximas 24 horas manter o autocontrole será uma questão crucial. Estou sozinho no meio da porra do deserto, no meio de um ninho de lunáticos armados, dentro de um carro lotado de cargas perigosas – riscos, horrores e imputabilidades que preciso transportar até Los Angeles, porque se me pegarem por aqui eu estou fodido. Completamente. Sem dúvida nenhuma. Um doutor em jornalismo não merece editar o boletim semanal da penitenciária. Melhor acelerar e cair fora deste lugar primitivo. Certo. Mas antes disso – voltar ao hotel Mint e descontar um cheque de cinquenta dólares, subir para o quarto e pedir dois sanduíches de três andares, dois litros de leite, um bule de café e uma garrafa de Bacardi Añejo.

O rum será essencial para suportar esta noite e passar a limpo estas anotações, este diário vergonhoso... com o gravador se esgoelando a noite inteira no volume máximo: “Allow me to introduce myself... I’m a man of

wealth and taste”.[1]

Compaixão?

Não por mim. Não existe misericórdia para um criminoso drogado em Las Vegas. Este lugar é como o Exército: aqui vale a ética do tubarão – devorar os feridos. Numa sociedade fechada, na qual todos são culpados, o único crime é ser pego. Num mundo de ladrões, o único pecado capital é a burrice.

É estranho sentar num hotel de Las Vegas às quatro da manhã – curvado sobre a mesa diante de um caderno de anotações e um gravador, numa suíte com diária de 75 dólares e uma conta astronômica de serviço de quarto acumulada em 48 horas de completa loucura – sabendo que você vai fugir sem pagar um centavo assim que começar a amanhecer... vai atravessar o saguão, pedir que tragam seu conversível vermelho da garagem e esperar, carregando uma valise cheia de maconha e armas ilegais... tentando agir com naturalidade, folheando a edição matinal do Las Vegas Sun.

Seria o último passo. Algumas horas mais cedo eu já tinha levado para o carro todas as toranjas e o resto da bagagem.

Agora era só uma questão de escapar da forca: sim, agir com a maior naturalidade, escondendo o olhar demente por trás de óculos escuros espelhados feitos em Saigon... esperando a chegada do Tubarão. E cadê ele? Dei 5 dólares para aquele vagabundo do manobrista. Na minha situação atual, isso é um grande investimento.

Trio volta a ser preso

por morte de garota

Overdose de heroína é a causa mortis oficial da bela Diane Hamby, 19, cujo corpo foi encontrado no interior de uma geladeira na semana passada, declarou o legista-chefe de Clark County. De acordo com investigadores da equipe de homicídios que tentou efetuar a prisão dos suspeitos, um deles, uma mulher de 24 anos, tentou se jogar pelas portas de vidro do trailer em que morava antes de ser contida pelos policiais. Ainda conforme os investigadores, a suspeita estava descontrolada. “Nunca vão me pegar viva”, gritava. Mas a mulher, que não parece ter sofrido nenhum ferimento, acabou algemada pelos policiais...

Drogas matam soldados

Washington (ap) – Drogas ilegais foram responsáveis pela morte de 160 soldados americanos no último ano – quarenta deles no Vietnã... Conforme o relatório do subcomitê, há suspeitas de envolvimento de drogas em outras 56 mortes de militares na Ásia e na região militar do Pacífico... A heroína, informa o documento, é um problema cada vez mais grave no Vietnã, especialmente por conta da proximidade dos centros de produção no Laos, na Tailândia e em Hong Kong. “A repressão às drogas no Vietnã é praticamente nula”, afirma o relatório, “em parte graças à ineficiência da polícia local e também pelo envolvimento de funcionários públicos corruptos, ainda não identificados, com o tráfico de drogas.”

À esquerda dessa notícia sinistra havia uma foto centralizada, que ocupava quatro colunas. Mostrava policiais de Washington D.C. atacando “jovens manifestantes contrários à guerra que, num protesto pacífico, bloquearam a entrada ao Quartel-General do Alistamento Militar Obrigatório”.

E, ao lado da foto, uma imensa manchete em negrito: casos de tortura mencionados em audiências sobre a guerra.

Washington – De acordo com o testemunho de voluntários a uma comissão informal de congressistas, tortura e assassinatos de prisioneiros norte-vietnamitas são comuns no dia a dia dos responsáveis por interrogatórios militares. Isso inclui o uso rotineiro de aparelhos de choque elétrico e a prática de atirar prisioneiros ao mar a partir de helicópteros. Segundo um membro do serviço de inteligência do Exército, o fuzilamento de sua intérprete chinesa foi justificado por um oficial superior com as palavras “era só mais uma amarela” – ou seja, uma asiática...

Logo abaixo dessa matéria, outra manchete informava: CINCO FERIDOS EM NOVA YORK... vítimas de um atirador não identificado que disparou sem motivo aparente do telhado de um edifício. Essa nota aparecia logo acima de uma manchete que dizia: DONO DE FARMÁCIA PRESO EM BLITZ... “resultado”, explicava o artigo, “da investigação de uma farmácia de Las Vegas, na qual cem mil comprimidos de venda controlada sumiram sem explicação...”.

Fiquei bem melhor ao ler aquela primeira página. Comparados com aquelas abominações, meus crimes eram banais e irrelevantes. Eu era praticamente um cidadão respeitável – um delinquente, talvez, mas sem dúvida inofensivo. E quando chegasse minha hora isso com certeza contaria a meu favor.

Será? Lendo a seção de esportes, vi uma notinha sobre Muhammad Ali; seu caso tinha sido levado para a última instância, a Suprema Corte. Ele tinha sido condenado a cinco anos de prisão por se recusar a matar “amarelos”.

“Não tenho nada contra esses vietcongues”, declarou.

Cinco anos.

 

[1] “Permita que eu me apresente... sou um homem de posses e bom gosto”, primeiros versos de “Sympathy for the Devil” (“Compaixão pelo Diabo”), dos “Rolling Stones”. (N.T.)