Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 5 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

5. Cobrindo a matéria... Um gostinho da imprensa em ação... horror & fracasso

5. Cobrindo a matéria... Um gostinho da imprensa em

ação... horror & fracasso

 

Quando amanheceu, os pilotos estavam prontos. Um belo nascer do sol no deserto. Muito tenso. Mas, como a corrida só começaria às nove, tivemos que passar três longas horas no cassino montado perto dos boxes. Foi aí que os problemas começaram.

O bar abria às sete. Havia também um “cantinho de café & roskinhas”, mas todos os que tinham passado a noite em lugares como o Circus-Circus não estavam muito a fim de café & rosquinhas. Como éramos uns duzentos sujeitos de péssimo humor, o bar abriu mais cedo. Às oito e meia já havia multidões ao redor das mesas de jogo. O lugar foi tomado por todo tipo de barulho e gritaria de bêbados.

Um magricela de meia-idade, vestido com uma camiseta da Harley-Davidson, entrou gritando no bar: “Diacho! Que dia é hoje... sábado?”.

“Tá mais pra domingo”, alguém respondeu.

“Ha! Que merda, hein?”, gritou o sujeito da Harley-Davidson para ninguém em especial. “Ontem à noite eu tava em casa, lá em Long Beach. Aí alguém falou que ia correr na Mint 400 e eu disse pra minha patroa: ‘Quer saber? Eu também vou’.” Deu risada. “Aí ela ficou me enchendo o saco, vocês sabem como é... dei uns tapas nela e de repente dois caras que eu nem vi de onde saíram me jogaram na calçada e me encheram de porrada. Puta merda! Desceram o sarrafo.”

Riu de novo, falando para o grupo inteiro sem se importar se alguém estava prestando atenção. “É isso aí, porra!”, continuou. “Aí um deles quis saber: ‘Pra onde você vai?’. E eu respondi: ‘Las Vegas, pra Mint 400’. Aí eles me deram dez paus e uma carona até a rodoviária...” Fez uma pausa. “Pelo menos eu acho que foram eles...”

“Bem, enfim, aqui estou eu. E vou te contar, caralho, que noite longa! Passei sete horas naquele ônibus, porra! Mas aí quando acordei já era de manhã. Eu tava ali, no centro de Vegas, e por um instante não fazia ideia de que porra eu tava fazendo na cidade. Eu só pensava assim, ‘Ai Jesus, vai começar tudo de novo: Quem será que se divorciou de mim dessa vez?’.”

O sujeito aceitou um cigarro de alguém na multidão e acendeu, sem parar de rir. “Mas aí lembrei, puta merda! Eu tava em Vegas pra Mint 400... e, cara, isso era tudo que eu precisava saber. Vou te contar, é sensacional estar aqui. Não tô nem aí pra quem vai perder ou ganhar, cara. É sensacional estar aqui com vocês...”

Ninguém discutiu com ele. Todos entenderam. Em certos círculos, a Mint 400 é uma coisa muito, muito superior ao Super Bowl, ao Kentucky Derby e à final do Lower Oakland Roller Derby somados. Essa corrida atrai criaturas muito especiais, e nosso amigo com a camiseta da Harley era nitidamente uma delas.

O correspondente da Life sacudiu a cabeça, compadecido, e gritou para o barman: “Servumadózz duquieliquiser!”.

“E rápido”, gritei. “Que tal cinco?” Dei um tapa no balcão com a mão aberta. “É isso aí, porra! Traz logo umas dez!”

“Eu pago!”, gritou o cara da Life. Suas mãos foram se soltando do balcão, fazendo com que ele caísse de joelhos bem lentamente, mas ainda falava com autoridade indiscutível. “Este é um momento mágico do esporte! Pode nunca mais se repetir!” Então sua voz pareceu falhar. “Já escrevi sobre a Triple Crown”, murmurou. “Mas não chega nem perto disso aqui.”

Uma mulher com olhos de rã puxava com força o cinto dele. “Levanta!”, implorava. “Levanta, por favor. Você seria um homem tão bonito se ficasse em pé!”

Ele riu, parecendo estar longe dali. “Olha, madame”, cortou. “Já sou bonito até demais aqui de baixo. Chega a ser insuportável. Se eu levantasse, você ficaria doidinha!”

Mas a mulher insistia. Estava pendurada nele havia duas horas e agora enfim tomava a iniciativa. O cara da Life não queria nem saber; se agachou ainda mais.

Desviei o olhar. Aquilo era horrível demais. Afinal de contas, éramos a nata da imprensa esportiva do país. E estávamos reunidos em Las Vegas para uma tarefa muito especial: cobrir a quarta edição anual da Mint 400... e com esse tipo de coisa não se brinca.

Mas naquele momento – antes mesmo de o espetáculo começar – havia sinais de que talvez estivéssemos perdendo o controle da situação. Ali estávamos nós, naquela bela manhã de Nevada, em meio à aurora radiante e fresca do deserto... empilhados num bar imundo dentro de um cassino feito de blocos de concreto & batizado “Clube de Tiro Mint”, a uns quinze quilômetros de Vegas. A corrida estava quase começando, mas nossa desorganização era completa.

Do lado de fora, os malucos preparavam as motocicletas. Reforçavam os faróis dianteiros, conferiam o óleo, faziam ajustes de última hora (parafusos do carburador, vários tipos de porcas etc.)... até que as primeiras dez motos arrancaram. Era muito emocionante, e saímos todos para assistir. Após a bandeirada, os dez sujeitos soltaram as embreagens e dispararam até a primeira curva, todos juntos, até que alguém tomou a liderança (uma Husquavarna 405, pelo que me lembro). Ao som de gritos entusiasmados, o piloto acelerou e sumiu em meio a uma nuvem de poeira.

“Bom, é isso aí”, alguém falou. “Daqui a mais ou menos uma hora eles voltam. Agora vamos voltar pro bar.”

Não. Ainda não. Umas 190 motocicletas ainda esperavam a largada. Saíam de dez em dez, a cada dois minutos. De início era possível enxergar cada uma delas a uma distância de duzentos metros da linha de partida. Mas essa visibilidade não durou muito. As dez motos da terceira bateria sumiram na poeira a uns cem metros de onde estávamos... e depois que as primeiras cem tinham largado (ainda faltavam outras cem) nossa visibilidade estava reduzida a uns quinze metros. Na melhor das hipóteses, conseguíamos enxergar os fardos de feno na saída dos boxes...

A partir desse ponto, a incrível nuvem de poeira que pairaria naquela parte do deserto pelos dois dias seguintes já havia se tornado quase sólida. Naquele momento nenhum de nós imaginava que aquilo seria a última coisa que veríamos da “Fabulosa Mint 400”...

Ao meio-dia já era difícil enxergar os boxes a partir do bar/cassino, distante trinta metros debaixo de um sol escaldante. Sob qualquer ponto de vista convencional, a ideia de “cobrir a corrida” era absurda: seria como tentar acompanhar uma prova de natação numa piscina olímpica cheia de talco no lugar de água. Conforme prometido, a Ford trouxera uma caminhonete Bronco com motorista “para uso da imprensa”, mas após algumas voltas ensandecidas pelo deserto – procurando por motocicletas sem grande sucesso – deixei os fotógrafos tomarem conta do veículo e voltei ao bar.

Senti que havia chegado o momento de fazer uma Reavaliação Dolorosa de toda aquela situação. Sem dúvida a corrida estava acontecendo. Eu havia testemunhado a largada; disso tinha certeza. Mas e agora, o que eu podia fazer? Alugar um helicóptero? Entrar de novo naquela caminhonete? Zanzar pelo maldito deserto assistindo àqueles idiotas passando a mil pelos pontos de controle, um a cada treze minutos...?

Às dez horas os competidores já estavam espalhados por todo o percurso. Não era mais uma “corrida”; era um Enduro. Só se via alguma ação na linha de largada/chegada, onde a cada poucos minutos algum infeliz chegava a mil acompanhado por nuvens de poeira e saía cambaleando da moto. O pessoal dos boxes reabastecia a motocicleta e a devolvia à pista com um novo piloto... outra volta de oitenta quilômetros, mais uma hora cruel de loucura moedora de rins naquele terrível limbo de poeira ofuscante.

Lá pelas onze dei outra volta na caminhonete da imprensa, mas tudo que encontramos foram dois buggies cheios de sujeitos que pareciam suboficiais da reserva da Marinha vindos de San Diego. Jogaram areia em cima de nós e exigiram informações: “Cadê essa maldita corrida?”.

“Sei lá”, respondi. “Somos apenas americanos decentes e patriotas, assim como vocês.” Os dois buggies estavam cobertos de emblemas macabros: águias carregando bandeiras nacionais nas garras, uma cobra com os olhos semicerrados sendo retalhada por uma serra elétrica com as cores dos Estados Unidos. Um dos veículos parecia ter uma metralhadora montada no banco do passageiro.

Só estavam se divertindo – passeando pelo deserto a toda velocidade, abordando todo mundo que encontravam. “Com quem vocês estão?”, um deles perguntou aos berros. Os motores estavam ligados; mal conseguíamos nos comunicar.

“Com a imprensa esportiva”, gritei. “Estamos do seu lado – somos trouxas de aluguel.”

Sorrisos discretos.

“Se querem uma boa perseguição”, continuei, “deveriam ir atrás daquele escroto da CBS News, que está num jipe preto, um pouco mais adiante. É o responsável pelo documentário A venda do Pentágono”.

“Pela madrugada!”, dois deles gritaram ao mesmo tempo. “Como é mesmo? Um jipe preto?”

Arrancaram, e nós fizemos o mesmo, sacolejando por rochas & arbustos/cactos. A cerveja que estava na minha mão saiu voando, bateu no teto da caminhonete e caiu no meu colo, encharcando minhas calças com espuma quente.

“Você está demitido”, informei ao motorista. “Quero voltar pros boxes.”

Senti que estava na hora de colocar os pés no chão – refletir sobre aquela pauta infeliz e encontrar um jeito de lidar com ela. Lacerda insistia em Cobertura Total. Queria voltar para o meio da tempestade de areia e ficar experimentando combinações esdrúxulas de filmes e lentes até conseguir fotografar alguma coisa.

“Joe”, nosso motorista, era a favor dessa ideia. Seu nome verdadeiro não era “Joe”, mas fomos instruídos a chamá-lo assim. Na noite anterior eu tinha conversado com o chefão da Ford, e quando ele citou nosso motorista disse o seguinte: “O nome verdadeiro é Steve, mas chamem ele de Joe”.

“E por que não?”, falei. “Chamo do que ele quiser. Que tal ‘Zoom’?”

“Não dá”, recusou o cara da Ford. “Tem que ser ‘Joe’.”

Lacerda concordou. Era quase meio-dia quando ele voltou ao deserto com nosso motorista, Joe. Voltei ao bar/cassino de blocos de concreto que na verdade era o Clube de Tiro Mint – onde eu pretendia encher a cara de bebida, encher a cabeça de ideias e encher meu caderno com muitas anotações...