Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 13 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

Capítulo 1

Parei para conferir a sacola de drogas a uns trinta quilômetros ao leste de Baker. Debaixo daquele sol escaldante, eu sentia vontade de matar alguma coisa. Qualquer coisa. Até mesmo um lagarto. Perfurar o filho da puta. Tirei do porta-malas o 357 do meu advogado e girei o tambor. Estava carregado: projéteis compridos e destruidores, com ponta folheada a ouro asteca – dez gramas e uma bela trajetória em linha reta. Buzinei algumas vezes na esperança de atrair um iguana. Queria desentocar os safados. Estavam por ali, eu sabia, no meio daquele maldito oceano de cactos – bem escondidinhos, quase sem respirar. Todos cheios de veneno mortal. Escrotos.

Três rápidas explosões me desequilibraram. Três estouros ensurdecedores do 357 na minha mão direita. Jesus! Atirando em nada, sem motivo nenhum. Demência completa. Joguei a arma no banco da frente do Tubarão e encarei a rodovia, nervoso. Não havia nenhum carro; a estrada estava vazia por três ou quatro quilômetros em ambas as direções.

Que sorte. Não seria nada bom ser encontrado no deserto naquelas circunstâncias: atirando num cacto como um débil mental, dentro de um carro cheio de drogas. E seria especialmente ruim agora que estou fugindo da polícia rodoviária.

Perguntas constrangedoras viriam à tona: “Bem, senhor... ah... Duke; como imagino que saiba, é ilegal disparar qualquer tipo de arma de fogo numa rodovia federal”.

“O quê? Mesmo em autodefesa? É que essa arma tem o gatilho solto, seu guarda. Na verdade eu só quis atirar uma vez – queria dar um susto nos safados.”

Depois de me encarar por um bom tempo, ele falaria bem devagar: “O senhor está dizendo que... foi atacado na rodovia?”.

“Bem... não... não literalmente, caro policial, mas seriamente ameaçado. Parei pra mijar e assim que pisei fora do carro fui cercado por esses saquinhos de veneno imundos. São rápidos como gordo em pau de sebo!”

Será que acreditariam nessa história?

Não. Eu seria preso e em seguida revistariam o carro – e quando isso acontecesse a tragédia estaria completa. Nunca acreditariam que as drogas eram necessárias ao meu trabalho; que na verdade eu era um jornalista profissional a caminho de Las Vegas para cobrir a Conferência Nacional dos Promotores Públicos sobre Entorpecentes e Drogas Perigosas.

“São amostras, seu guarda. Arranjei com um sujeito da Igreja Neoamericana em Barstow. Ele começou a falar umas coisas esquisitas, aí entendi tudo.”

Será que acreditariam nisso?

Não. Eu seria trancado numa cadeia imunda e seria golpeado nos rins com pedaços de pau – e passaria os anos seguintes mijando sangue...

Por sorte, ninguém me incomodou enquanto eu revistava o conteúdo da sacola de drogas. Era lamentável. Coisas esmagadas, misturadas, espalhadas pelo interior da sacola. Algumas das bolinhas de mescalina tinham se desintegrado até formar uma poeira marrom-avermelhada, mas consegui encontrar umas 35 ou 40 ainda intactas. Meu advogado tomou todas as vermelhas, mas ainda tinha sobrado um pouco de anfetamina... a maconha tinha acabado e o potinho de cocaína estava vazio... também havia sobrado uma folha de ácido, um belo pedaço de haxixe e seis amilas soltas... Não dava para fazer nada sério com aquilo, mas se a mescalina fosse racionada com cuidado poderia durar pelos quatro dias da conferência.

Nos arredores de Vegas, parei numa farmácia/vendinha e comprei dois litros de tequila Gold, duas garrafas de Chivas Regal e meio litro de éter. Senti vontade de pedir algumas amilas. Minha angina pectoris estava dando sinais de vida. Mas o balconista tinha olhos de batista histérico. Argumentei que precisava do éter para limpar o esparadrapo das minhas pernas, mas quando acabei de falar ele já tinha até colocado o negócio na sacola. Estava pouco se fodendo para o éter.

Fiquei pensando no que ele diria se eu pedisse 22 dólares de xarope Romilar e um cilindro de óxido nitroso. Talvez até vendesse. E por que não? Livre-Iniciativa... dê ao público o que ele precisa. Especialmente a este sujeito suado e de voz nervosa, cheio de esparadrapos nas pernas e uma tosse horrível – além de angina pectoris e indícios de aneurisma sempre que exposto à luz do sol. Mas tô dizendo, seu guarda, o cara tava na pior. Como diabos eu podia imaginar que ele ia direto pro carro e começar a abusar das drogas?

De fato, como? Fiquei parado algum tempo na frente das revistas, mas logo me controlei e voltei para o carro. Ficar alucinado de gás hilariante no meio de uma conferência de promotores públicos sobre drogas era uma ideia que tinha lá seu apelo perverso. Mas não logo no primeiro dia, refleti. Melhor deixar isso para depois. Ser preso antes mesmo do início da conferência não faria nenhum sentido.

Roubei um jornal de uma banquinha no estacionamento, mas joguei longe ao ler uma notícia na primeira página.

Cirurgia com resultados

Incertos após remoção de olhos

Baltimore (upi) – Na última sexta-feira, os médicos afirmaram não ter certeza se uma cirurgia seria capaz de restaurar a visão de um jovem que arrancou os próprios olhos na cadeia, sob efeito de uma dose maciça de drogas.

Charles Innes Jr., 25, foi operado na última quinta-feira no Hospital Geral de Maryland, mas os médicos afirmaram que ainda levará semanas para se analisar o resultado.

De acordo com um relatório divulgado pelo hospital, “antes da cirurgia Innes não possuía percepção de luz em nenhum dos olhos, e a chance de recuperá-la algum dia é bastante remota”.

Innes, filho de um notório republicano de Massachusetts, foi encontrado em sua cela na última quinta-feira pelo carcereiro. Foi ele o primeiro a notar que o detento tinha arrancado os próprios globos oculares.

Innes foi preso na noite de quarta-feira enquanto caminhava nu por um bairro vizinho ao que residia. Foi examinado na Santa Casa de Misericórdia e depois encaminhado para uma cela. De acordo com a polícia e um amigo, Innes tomou uma overdose de tranquilizante para animais. Segundo a polícia, a droga é conhecida como PCP. Produzida pela Parke-Davis, não é mais vendida para uso em humanos desde 1963. Um porta-voz da empresa, porém, declarou que talvez seja possível obter a droga no mercado negro.

Ainda de acordo com o porta-voz, os efeitos do PCP duram entre doze e catorze horas se a droga for ingerida sozinha. No entanto, caso seja combinado com alucinógenos como o LSD, o PCP pode causar efeitos ainda desconhecidos.

No último sábado, dia seguinte à primeira vez em que consumiu a droga, Innes comentou com um vizinho que não conseguia ler e que seus olhos o estavam incomodando. Na noite de quarta-feira, de acordo com a polícia, Innes parecia encontrar-se num estado de depressão profunda e tão insensível à dor que não gritou ao arrancar os próprios olhos.