Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 8 de 26

Páginas do PDF

Medo e Delírio em Las Vegas

8. “Gênios mundo afora estão de mãos dadas, e basta um choque de reconhecimento para o círculo inteiro andar” Art Linkletter

8. “Gênios mundo afora estão de mãos dadas, e basta

um choque de reconhecimento para o círculo inteiro

andar” Art Linkletter

 

Moro num lugar tranquilo, onde qualquer ruído no meio da noite significa que algo está prestes a acontecer: você acorda na hora, pensando “mas o que foi isso?”.

Geralmente não é nada. Mas às vezes... é difícil se adaptar ao esquema da cidade, com suas noites cheias de ruídos confortavelmente rotineiros. Carros, buzinas, passos... relaxar é impossível; melhor abafar tudo com o zumbido suave e contínuo de um televisor vesgo. Colocar o bicho num canal fora do ar e cair no sono, feliz...

Ignore o pesadelo dentro do banheiro. É apenas mais um horrendo refugiado da Geração do Amor, um pobre-diabo que não conseguiu aguentar a pressão. Meu advogado nunca conseguiu aceitar a ideia – geralmente defendida por sujeitos que abusaram das drogas e depois largaram tudo e especialmente popular entre quem está em liberdade condicional – de que é possível ficar mais chapado sem drogas do que com elas.

Eu também não, por sinal. Mas uma época morei bem perto do Dr. ____

na rua ____[1], um antigo guru do ácido que mais tarde alardeou seu sucesso na transição do furor químico para a consciência sobrenatural. Uma bela tarde, na primeira curvatura ascendente daquilo que logo se tornaria a Grande Onda do Ácido de San Francisco, visitei a casa do Bom Doutor com a intenção de perguntar (naquela época ele já era famoso como autoridade em drogas) quais conselhos ele teria para um vizinho com uma curiosidade saudável a respeito do LSD.

Estacionei na rua e me arrastei pelo acesso de cascalho, parando no meio do caminho para acenar gentilmente para sua esposa, que trabalhava no jardim protegida por um enorme chapéu de jardinagem... uma bonita cena, pensei: o velho está lá dentro, preparando suas fantásticas poções lisérgicas, e aqui no jardim a mulher está cuidando das cenouras ou coisa que o valha... enquanto trabalha, cantarola alguma música que não consegui reconhecer.

Cantarola. Sim... mas eu ainda levaria quase dez anos para entender a verdadeira natureza daquele som: como Ginsberg perdido em seu Om, ____ tentava me cantarolar para fora dali. Quem estava naquele jardim não era uma velha senhora; era o Bom Doutor em pessoa – e cantarolava numa tentativa desesperada de me manter bem longe de sua consciência elevada.

Esbocei várias tentativas de esclarecer as coisas: eu era apenas um vizinho que viera pedir conselhos ao Doutor sobre tomar um pouco de LSD no meu casebre, logo ali, morro abaixo. E, sim, eu tinha armas. E gostava de atirar com elas – especialmente à noite, quando a grande chama azul salta para fora com todo aquele barulho... e, sim, eu também tinha munição. Não podia negar. Grandes projéteis de liga de chumbo zunindo pelo vale em velocidades que beiravam os 1.200 metros por segundo...

Mas eu sempre atirava contra o morro mais próximo ou, se isso não fosse possível, contra a escuridão. Não queria machucar ninguém; gostava das explosões, só isso. E sempre tomei cuidado para nunca matar mais do que podia comer.

“Matar?” Percebi que nunca conseguiria explicar esse conceito àquela criatura que dava duro no jardim. Será que já tinha comido carne alguma vez? Seria capaz de conjugar o verbo “caçar”? Compreenderia o sentido da fome? Entenderia o terrível fato de minha renda média naquele ano ser de 32 dólares por semana?

Não... não havia esperança nenhuma de comunicação por ali. Acabei admitindo isso – mas não a tempo de impedir que o doutor das drogas me cantarolasse até o acesso da sua casa e para dentro do meu carro e para a rua morro abaixo. Esqueça o LSD, pensei. Olha só o que ele fez com esse pobre infeliz.

Então continuei com o haxixe e o rum por mais uns seis meses, até que me mudei para San Francisco e certa noite acabei num lugar chamado Fillmore Auditoriurn. E pronto. Um torrão de açúcar acinzentado e BUM. Na minha cabeça, voltei direto ao jardim do Doutor. Não para a superfície, mas para debaixo dele – cutucando aquela terra cultivada com afinco como se eu fosse algum tipo de cogumelo mutante. Uma vítima da Explosão das Drogas. Um vagabundo de rua, um maluco nato, engolindo o que aparecia pela frente. Lembro que certa noite um andarilho entrou no Matrix com um mochilão nas costas, gritando: “Alguém quer um pouco de L... S... D...? Tenho todo o material, só preciso de um lugar pra fazer”.

O gerente caiu em cima dele na hora, falando baixinho: “Pega leve, pega leve, vamos ali pro escritório”. Nunca mais vi o andarilho depois daquela noite, mas ele distribuiu umas amostras antes de ser grampeado. Cápsulas brancas, imensas. Entrei no banheiro masculino para engolir a minha. Mas só metade para começar, pensei. Uma decisão sábia, mas difícil de ser levada a sério naquelas circunstâncias. Tomei a primeira metade e derramei o resto na manga da minha camisa xadrez vermelha... Enquanto tentava resolver o que faria com aquilo, um dos músicos entrou. “Qual o problema?”, ele quis saber.

“Bem”, comecei. “Esse negócio branco na minha manga é LSD.”

Ele nem disse nada: simplesmente agarrou meu braço e começou a chupar o tecido. Uma cena bem grotesca. Tentei imaginar o que aconteceria se algum sujeito no estilo Kingston Trio/corretor da bolsa entrasse de repente e nos pegasse no flagra. Ah, pensei, ele que se foda. Com alguma sorte, aquilo arruinaria sua vida – pensaria eternamente que atrás das portas de seus bares prediletos homens vestidos com camisas xadrez vermelhas curtem loucamente coisas que ele nunca vai conhecer. Será que ele ousaria chupar a manga de uma camisa? Provavelmente não. Melhor não correr riscos. Fingir que não viu nada...

Lembranças estranhas nesta noite nervosa em Las Vegas. Cinco anos depois? Seis? Parece uma vida inteira, ou no mínimo uma Grande Era – o tipo de auge que nunca mais volta. San Francisco na metade dos anos 60 era um lugar muito especial para estar, em um tempo muito especial para viver. Talvez tenha significado algo. Talvez não, no fim das contas... mas nenhuma explicação, nenhuma combinação de palavras, músicas ou lembranças é comparável à sensação de saber que você esteve lá, que viveu naquela parte do mundo durante aquele momento. Seja lá o que isso tenha significado...

História é um assunto nebuloso, por todas as merdas que acabam incluídas mais tarde. Mas, mesmo sem podermos ter nenhuma certeza sobre a “história”, parece bastante sensato imaginar que, vez ou outra, a energia de uma geração inteira atinge seu ápice num instante magnífico e duradouro, por motivos que na época ninguém compreende por inteiro – e que, em retrospecto, nunca explicam o que realmente aconteceu.

Minha principal lembrança daquela época parece se estender por uma, cinco ou talvez quarenta noites – ou inícios de manhã – quando eu saía do Fillmore meio alucinado e, em vez de ir para casa, corria a quase 160 por hora pela Bay Bridge com minha enorme 650 Lightning, usando bermudas L. L. Bean e um casaco de lã da Butte... voava pelo túnel de Treasure Island sob as luzes de Oakland, Berkeley e Richmond, sem saber direito qual saída pegar quando chegava na outra ponta (sempre empacava no pedágio, alucinado demais para me controlar enquanto procurava dinheiro trocado)... mas sempre absolutamente seguro de que, não importava a direção que tomasse, acabaria chegando a algum lugar onde as pessoas estariam tão chapadas e enlouquecidas quanto eu. Disso não se podia duvidar...

Havia loucura rolando por todos os lados, a qualquer hora. Se não estivesse rolando do outro lado da baía, estava rolando depois da Golden Gate ou descendo a 101 até Los Altos ou La Honda... Era possível ficar louco em qualquer lugar. Todos compartilhavam uma sensação fantástica de que estávamos fazendo algo correto, mesmo sem saber o que era... sentíamos que estávamos vencendo...

E acho que essa foi a armadilha – essa sensação de vitória inevitável sobre as forças do Antigo e do Maligno. Não num sentido cruel ou militar; não precisávamos disso. Nossa energia simplesmente prevaleceria. Lutar não fazia sentido – tanto no nosso lado como no deles. Aquela era a nossa hora; estávamos na crista de uma onda imensa e linda...

E agora, menos de cinco anos mais tarde, basta subir um morro íngreme em Las Vegas e olhar para o Oeste com a predisposição adequada para quase enxergar a marca da maré – o lugar onde aquela onda enfim quebrou e se retraiu.

 

[1] Nomes removidos por insistência do advogado do editor.