Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 3 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

3. Estranho remédio no deserto... Uma crise de confiança

3. Estranho remédio no deserto... Uma crise de

confiança

 

Continuo vagamente obcecado pelo comentário do garoto a respeito de “nunca” ter andado num conversível. Aquele pobre coitado vivia num mundo de conversíveis que passavam zunindo pelas rodovias o tempo todo sem nunca ter andado num deles. Isso fazia com que eu me sentisse o rei Faruk. Quase obriguei meu advogado a estacionar no aeroporto mais próximo, com a intenção de pedir que ele arrumasse algum jeito, com um contrato qualquer, de simplesmente doarmos o carro para aquele infeliz. Dizer: “toma, assina aqui e o carro é seu”, entregar as chaves para o garoto e depois usar o cartão de crédito para pegar um jato até algum lugar, talvez Miami. Chegando lá, alugaríamos outro imenso conversível vermelho para uma viagem movida a drogas, cruzando as águas a toda velocidade até chegar à última parada em Key West... e então trocar o carro por um barco. Seguir em frente.

Mas essa ideia demente logo acabou sendo esquecida. Não havia por que criar problemas para aquele garoto inofensivo – e além disso eu tinha planos para o carro. Estava louco para dar umas voltas em Las Vegas dirigindo aquele negócio. Talvez fazer uns pegas na Strip; parar naquele semáforo imenso em frente ao Flamingo e gritar para os outros carros:

“Tudo bem, seus covardes de merda! Suas bichas! Quando essa porra de sinal ficar verde eu vou pisar fundo e tirar todos vocês do meu caminho, seus cuzões!”

Isso mesmo. Desafiar os filhos da puta em seu próprio território. Cantar pneu na faixa de pedestres e arrancar derrapando, segurando uma garrafa de rum e enfiando a outra mão na buzina para abafar a música... olhos vidrados, pupilas dilatadas escondidas por trás de óculos escuros minúsculos de armação folheada a ouro, berrando coisas sem nenhum sentido... um bêbado realmente perigoso, fedendo a éter e psicose terminal. Acelerando até o motor chiar, esperando o sinal abrir...

Não é muito comum ter uma chance como essa. Uma oportunidade de deixar os filhos da puta incomodados até a medula. Quando sentem que vão morrer, os elefantes velhos cambaleiam até as montanhas; os americanos velhos, por sua vez, vão para rodovias e rumam para a morte em carros imensos.

Mas nossa viagem era diferente. Era uma afirmação clássica de tudo que é correto, verdadeiro e decente no caráter nacional. Era uma saudação grosseira e material às possibilidades fantásticas da vida neste país – disponíveis apenas para quem realmente tem coragem. E isso nós tínhamos de sobra.

Apesar de sua desvantagem racial, meu advogado entendia o conceito, mas não era uma ideia fácil de transmitir ao garoto. Ele dizia entender, mas seus olhos afirmavam o contrário. Aquele garoto estava mentindo para mim.

De repente o carro guinou para fora da estrada e deslizamos até parar em cima do cascalho. Fui jogado contra o painel. Meu advogado desabou sobre o volante. “O que aconteceu?”, gritei. “Não dá pra parar aqui. Estamos na terra dos morcegos!”

“Meu coração”, ele gemeu. “Cadê o remédio?”

“Ah”, respondi. “O remédio, claro, está bem aqui.” Catei umas amilas na sacola. O garoto parecia congelado. “Não se preocupe”, falei. “Este homem tem problemas no coração – angina pectoris. Mas nós temos a cura. Sim, aqui está ela.” Tirei quatro amilas da latinha e estendi duas para o meu advogado. Na mesma hora ele quebrou uma cápsula debaixo do nariz. Fiz a mesma coisa.

Meu advogado deu uma bela fungada e se recostou com força no banco, olhando direto para o sol. “Aumenta essa música, caralho!”, gritou. “Meu coração tá parecendo um jacaré!”

“Volume! Limpidez! Grave! Precisamos de graves!” Sacudiu os braços para o céu. “Qual é o nosso problema, porra? Por acaso somos velhinhas?”

Aumentei o rádio e o gravador até o volume máximo. “Desgraçado”, praguejei. “Olha como fala, seu advogado charlatão! Você está falando com um doutor em jornalismo!”

Ele ria, descontrolado. “Mas que porra estamos fazendo no meio do deserto?”, berrou. “Chamem a polícia! Precisamos de ajuda!”

“Ignore esse porco”, falei para o garoto. “Ele não tolera muito bem o remédio. Na verdade, nós dois somos doutores em jornalismo. Estamos a caminho de Las Vegas para cobrir a pauta mais importante da nossa geração.” Aí comecei a gargalhar...

Meu advogado se virou para trás e encarou o garoto. “Na verdade”, falou, “vamos pra Vegas apagar um traficante de heroína chamado Henry Selvagem. Conheço esse cara há um tempão, mas ele enganou a gente... e você sabe o que isso quer dizer, né?”

Eu queria fazer ele calar a boca, mas não conseguíamos parar de rir. Que porra estávamos fazendo naquele deserto se nós dois tínhamos problemas no coração?

“Henry Selvagem assinou sua sentença de morte!”, rosnou meu advogado para o garoto no banco de trás. “Vamos arrancar os pulmões dele!”

“E depois comer!”, completei. “Aquele filho da puta não vai sair impune! Que país é este? Desde quando um vagabundo tenta passar a perna num doutor em jornalismo?”

Não houve resposta. Meu advogado cafungou outra amila e o garoto fugiu do banco de trás, escorregando pelo porta-malas. “Valeu pela carona”, gritou. “Valeu mesmo, caras. Eu gostei de vocês. Não se preocupem comigo.” Botou os pés no asfalto e saiu correndo de volta para Baker. Bem no meio do deserto, sem ao menos uma árvore à vista.

“Espera um pouco”, berrei. “Volta aqui, pega uma cerveja.” Mas pelo jeito ele não conseguia me escutar. A música estava muito alta e ele se afastava de nós a uma boa velocidade.

“Já vai tarde”, disse meu advogado. “Estávamos com um problemão nas mãos. Esse garoto me deixou nervoso. Viu os olhos dele?” Ainda estava rindo. “Jesus!”, exclamou. “Que remédio bom!”

Abri a porta e passei para o lado do motorista. “Sai daí”, falei. “Vou dirigir. Precisamos sair da Califórnia antes que o garoto encontre algum policial.”

“Porra, isso vai levar horas”, desdenhou meu advogado. “Ele tá a quase duzentos quilômetros de qualquer lugar.”

“Nós também”, respondi.

“Vamos dar meia-volta e voltar pro Polo Lounge”, sugeriu. “Duvido que procurem a gente por lá.”

Ignorei a sugestão. “Abre a tequila”, berrei quando o vento voltou a fazer barulho; pisei fundo no acelerador assim que voltamos à rodovia. Pouco depois meu advogado se debruçou em cima de um mapa. “Bem ali tem um lugar chamado Fontes Mescal”, informou. “Como seu advogado, recomendo que encoste o carro pra gente nadar um pouco.”

Sacudi a cabeça. “É absolutamente imperativo que a gente chegue ao hotel Mint dentro do prazo para o credenciamento da imprensa”, falei. “Senão vamos ter que pagar pela suíte.”

Meu advogado assentiu com a cabeça. “Mas vamos esquecer essa conversa fiada de Sonho Americano”, falou. “Só o que importa é o Grande Sonho Samoano.” Estava remexendo na sacola de drogas. “Acho que tá na hora de mascar um ácido”, sugeriu. “Faz um tempão que aquela mescalina vagabunda parou de fazer efeito e não sei se ainda aguento o cheiro dessa merda de éter.”

“Eu gosto”, respondi. “Bem que a gente podia encharcar uma toalha com éter e botar no assoalho do carro, ali perto do acelerador. Aí o vapor ia ficar subindo pro meu nariz durante todo o caminho até Las Vegas.”

Ele estava virando a fita. O rádio gritava: “Power to the People – Right

On!”.[1] A canção política de John Lennon, dez anos atrasada. “Esse pobre infeliz não deveria ter saído de onde estava”, comentou meu advogado. “Esses vagabundos só atrapalham quando tentam falar sério.”

“Por sinal”, aproveitei a deixa, “falando sério, chegou a hora do éter e da cocaína.”

“Chega de éter”, ele reclamou. “Melhor guardar o resto pra encharcar o tapete da suíte no hotel. Toma, aqui tem metade da sua folha de ácido. Agora masca aí, que nem chiclete.”

Peguei o ácido e enfiei na boca. Meu advogado começou a mexer no saleiro com cocaína. Abriu. Derramou tudo. Aí gritou e ficou sacudindo as mãos no ar enquanto a fina poeira branca se espalhava pela rodovia do deserto. Um caríssimo redemoinho de pó escapou do Grande Tubarão Vermelho. “Ah, Jesus”, ele gemeu. “Viu só o que Deus acabou de fazer com a gente?”

“Deus não fez nada!”, gritei. “Foi você! Seu bosta, você é um investigador do departamento de narcóticos! Estou de olho em você desde o começo, seu porco!”

“Cuidado com a língua”, ele sugeriu. Aí sacudiu na minha direção um revólver Colt Python negro, de cano curto e raiado, calibre Magnum 357. “Abutres não faltam por aqui”, ameaçou. “Deixam seus ossos bem limpinhos antes de o sol raiar.”

“Putinha”, falei. “Quando a gente chegar a Las Vegas você vai virar picadinho. Como acha que os traficantes vão reagir quando eu aparecer por lá com um samoano do departamento de narcóticos?”

“Nós dois vamos ser mortos”, respondeu. “Henry Selvagem sabe quem eu sou. Sou seu advogado, porra!” Começou a rir e não parou mais. “Você tá louco de ácido, seu imbecil. Vai ser um milagre se a gente conseguir chegar ao hotel e se registrar antes que você vire um animal selvagem. Tá pronto pra isso? Tá pronto pra se hospedar num hotel em Vegas com nome falso, cometendo falsidade ideológica, com a cabeça em chamas por causa do ácido?” Sem parar de rir, enfiou o nariz no saleiro, encostando o rolinho verde de uma nota de vinte dólares no que tinha sobrado do pó.

“Quanto falta?”, eu quis saber.

“Mais uns trinta minutos”, ele respondeu. “Como seu advogado, recomendo que enfie o pé nesse acelerador.”

Las Vegas estava logo à frente. Já dava para ver os contornos dos hotéis e dos prédios da Strip tomando o céu em meio às ondas de calor do deserto: o marcante Sahara, o Americana e o sinistro Thunderbird – um grupo de retângulos cinzentos ao longe, surgindo em meio aos cactos.

Trinta minutos. Chegaríamos em cima da hora. Nosso objetivo era a imensa torre do hotel Mint, bem no centro – e se a gente perdesse o controle antes de chegar lá nos restaria a Penitenciária Estadual de Nevada, em Carson City. Eu já tinha passado por lá, mas para conversar com os detentos – e não tinha nenhuma intenção de voltar, por qualquer motivo que fosse. Então não havia escolha: era preciso encarar o desafio, e o ácido que se fodesse. Aguentar toda a burocracia, guardar o carro na garagem do hotel, ter paciência com o recepcionista, lidar com o mensageiro, buscar as credenciais – tudo falso, totalmente ilegal, uma completa fraude, mas obviamente teria que ser feito.

“MATE O CORPO E

A CABEÇA MORRERÁ”

Por algum motivo essa frase aparece no meu caderno. Talvez tenha alguma relação com Joe Frazier. Será que ainda está vivo? Será que ainda consegue falar? Assisti àquela luta em Seattle – horrivelmente alucinado, bem pertinho do governador. Uma experiência muito dolorosa em todos os sentidos, um final adequado para os anos 60: Tim Leary prisioneiro de Eldridge Cleaver na Argélia, Bob Dylan passando dificuldades em Greenwich Village, os dois Kennedy assassinados por mutantes, Owsley dobrando guardanapos em Terminal Island e, por fim, Cassius/Ali derrubado de seu pedestal por um hambúrguer humano, um homem moribundo. Como Nixon, Joe Frazier acabou saindo vitorioso por motivos que gente como eu se recusou a compreender – ao menos em público.

...Mas essa foi outra época, há muito encerrada, bem distante das realidades grosseiras deste asqueroso Ano de Nosso Senhor de 1971. Muitas coisas mudaram desde então. E naquele momento eu estava em Las Vegas como correspondente especial de uma revista metida a besta que tinha me enviado até lá no Grande Tubarão Vermelho por algum motivo que ninguém admitia compreender. “Vai lá dar uma olhada”, eles disseram, “e depois a gente resolve...”

Isso mesmo. Dar uma olhada. Mas, quando enfim chegamos ao hotel Mint, meu advogado não estava em condições de dar um jeito de subverter com elegância o procedimento de registro de hóspedes. Fomos obrigados a entrar na fila como todos os outros – uma coisa que se provou bastante difícil naquelas circunstâncias. Eu repetia para mim mesmo: “Fique quieto, fique calmo, não diga nada... fale apenas quando falarem com você: diga seu nome, seu cargo e seu veículo de comunicação, nada mais, ignore essa droga terrível, finja que nada está acontecendo...”.

Nem sei como explicar o terror que senti quando finalmente me arrastei até o balcão e comecei a balbuciar. Todas as minhas tão bem ensaiadas frases desabaram por terra diante do olhar frio daquela mulher. “Oi”, comecei. “Meu nome é... ah, Raoul Duke... sim, estou na lista, é claro. Almoço grátis, informações completas, cobertura total.. e por que não? Trouxe meu advogado comigo. Compreendo que o nome dele não consta da lista, mas precisamos dessa suíte, sim, na verdade este homem é o meu motorista. Trouxemos o Tubarão Vermelho lá da Strip e agora chegou a hora do deserto, é ou não é? Sim. Dá uma olhada na lista, você vai ver. Não se preocupe. Qual é o esquema aqui? Qual é o próximo passo?”

A mulher nem piscou. “Seu quarto ainda não está pronto”, informou. “Mas uma pessoa perguntou pelo senhor.”

“Não!”, gritei. “Por quê? Ainda nem fizemos nada!” Minhas pernas se transformaram em borracha. Eu me agarrei ao balcão e fui me inclinando na direção do envelope que ela tentava entregar, mas me recusei a aceitá-lo. O rosto da mulher era mutante: inchava, pulsava... papadas verdes e horríveis, dentes afiados à mostra, o rosto de uma Moreia! Veneno letal! Cambaleei até meu advogado, que segurou meu braço e apanhou o recado. “Eu cuido disso”, falou para a Moreia. “Este homem tem problemas de coração, mas eu trouxe muitos remédios. Meu nome é Doutor Gonzo. Prepare nossa suíte agora mesmo. Estaremos no bar.”

Enquanto a mulher encolhia os ombros, ele me conduziu para longe da recepção. Numa cidade repleta de loucos de pedra, ninguém percebe quando alguém está louco de ácido. Atravessamos o saguão lotado com muito esforço e encontramos dois lugares vagos no bar. Meu advogado pediu duas cubas-libres acompanhadas de cerveja e mescal. Depois abriu o envelope. “Quem é Lacerda?”, ele quis saber. “Ele está esperando a gente num quarto do 12o andar.”

Eu não conseguia lembrar. Lacerda? O nome não me era estranho, mas eu não conseguia manter a concentração. Coisas terríveis aconteciam ao nosso redor. Ao meu lado, um réptil imenso mastigava o pescoço de uma mulher, o tapete tinha virado uma esponja encharcada de sangue – impossível pisar naquilo sem escorregar. “Peça sapatos de golfe”, sussurrei ao meu advogado. “Senão nunca sairemos com vida deste lugar. Você notou que esses lagartos conseguem caminhar tranquilos por cima dessa gosma? É que as patas deles têm garras.”

“Lagartos?”, desdenhou meu advogado. “Se você acha que estamos em apuros, espera só até ver o que tá acontecendo nos elevadores.” Quando tirou seus óculos escuros brasileiros, notei que tinha chorado. “Acabei de subir pra falar com esse tal de Lacerda”, explicou. “Já informei que sabemos qual é a dele. Ele diz ser fotógrafo, mas quando mencionei Henry Selvagem... bem, foi o suficiente; o cara surtou. Deu pra ver nos olhos dele. O sujeito sabe que está na nossa mira.”

“Ele já sabe que estamos armados?”, perguntei.

“Não. Mas falei que temos uma Vincent Black Shadow. Ele se cagou de medo.”

“Ótimo”, falei. “Mas e o nosso quarto? E os sapatos de golfe? Estamos no meio de um zoológico de répteis, porra! E ainda estão dando bebida pra esses bichos malditos! Daqui a pouco vão fazer picadinho de nós dois. Jesus, olha pra esse chão! Já tinha visto tanto sangue? Quantos será que eles já mataram?” Apontei para um grupo no outro lado do bar, que parecia estar encarando a gente. “Puta merda, olha aqueles ali! Eles nos descobriram!”

“É a mesa da imprensa”, informou meu advogado. “É onde precisamos buscar as credenciais. Vem, vamos resolver essa merda de uma vez. Você pega as credenciais, eu cuido do quarto.”

 

[1] “Poder para o Povo – É isso aí!” (N.T.)