Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 14 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

2. Outro dia, outro conversível... & outro hotel cheio de policiais

2. Outro dia, outro conversível... & outro hotel cheio de

policiais

 

A primeira providência a ser tomada era se livrar do Tubarão Vermelho. Aquele carro era chamativo demais. Podia ser reconhecido por muita gente, especialmente pela polícia de Vegas – ainda que, para todos os efeitos, eles imaginassem que o carro já havia voltado para Los Angeles. Tinha sido visto pela última vez correndo a toda velocidade pelo Vale da Morte, na rodovia interestadual 15. Foi parado e advertido em Baker pela Polícia Rodoviária da Califórnia... e então sumiu de repente...

Senti que o último lugar em que o procurariam seria no estacionamento de uma locadora de automóveis no aeroporto. De qualquer modo, eu precisava mesmo ir até lá para encontrar meu advogado. Ele chegaria de Los Angeles no final da tarde.

Dirigi tranquilamente pela rodovia, controlando meu instinto habitual, que exigia aceleradas súbitas e trocas repentinas de pista – tentando manter a discrição. Quando cheguei ao aeroporto, deixei o Tubarão entre dois velhos ônibus da Aeronáutica, num “estacionamento de serviço” a quase um quilômetro do terminal. Eram ônibus bem altos. Isso dificultaria as coisas para os filhos da puta, e caminhar um pouco nunca fez mal a ninguém.

Quando cheguei ao terminal, estava me desfazendo em suor. Mas isso não era nada anormal. Costumo suar bastante em climas quentes. Minhas roupas ficam ensopadas do raiar do dia até o pôr do sol. No começo isso me preocupou, mas, quando fui a um médico e descrevi meu consumo diário normal de bebida, drogas e venenos, ele me mandou voltar ao consultório quando parasse de suar. Alertou que isso indicaria perigo – um sinal de que o sistema de resfriamento do meu corpo, terrivelmente sobrecarregado, tinha se desmantelado de vez. “Tenho muita fé nos processos naturais”, explicou. “Mas no seu caso... bem... não encontro precedentes. Será preciso esperar para ver o que acontece, e então trabalhar com o que restar.”

Passei umas duas horas no bar, tomando bloody marys pelo valor nutricional do suco de tomate e acompanhando os voos de Los Angeles. Fazia vinte horas que eu não comia nada além de toranjas. Minha cabeça estava voando solta.

Melhor tomar cuidado, pensei. Existem limites para a resistência do corpo humano. Ninguém quer ter um colapso e começar a sangrar pelas orelhas no meio do aeroporto. Não nesta cidade. Em Las Vegas, eles matam os fracos e degenerados.

Quando me dei conta disso, fiquei imóvel mesmo após ter a impressão de que começaria a suar sangue. Mas isso logo passou. Vi que as garçonetes estavam ficando nervosas e fiz um esforço para levantar. Caminhei com dificuldades para longe do balcão. Nem sinal do meu advogado.

Fui até o posto de atendimento da locadora de automóveis VIP, onde troquei o Tubarão Vermelho pelo Cadillac Branco Conversível. “Esse Chevy maldito só me deu problemas”, reclamei. “Todo mundo tira sarro de mim – especialmente em postos de gasolina, quando preciso sair e abaixar a capota manualmente.”

“Bem... é claro”, disse o balconista. “Acho que o senhor precisa de um dos nossos Mercedes 600 com ar-condicionado. Se desejar, pode até mesmo levar seu próprio combustível; oferecemos essa opção...”

“E por acaso eu pareço um nazista, porra?”, protestei. “Quero um autêntico carro americano ou nada feito!”

Mandaram buscar o Coupe de Ville branco imediatamente. Tudo era automático. Eu podia sentar no banco do motorista, forrado de couro vermelho, e fazer o carro inteiro pular apertando os botões corretos. Uma máquina sensacional, dez mil dólares de truques e efeitos especiais caríssimos. Bastava um toque para as janelas de trás pularem como rãs num lago onde fizeram uma explosão com dinamite. A capota de lona branca subia e descia como uma montanha-russa. O painel era cheio de luzes & mostradores & medidores esotéricos que eu nunca seria capaz de entender – mas eu não tinha dúvidas de que estava na presença de uma máquina superior.

O Cadillac não arrancava tão rápido quanto o Tubarão Vermelho, mas assim que pegava embalo – lá pelos 120 – virava um demônio... deslizar pelo deserto a bordo daquela massa bruta elegante e acolchoada era como rasgar a madrugada num trem expresso California Zephyr.

Fiz a transação inteira com um cartão de crédito que mais tarde descobri estar “cancelado” – não servia para nada. Mas, como isso ainda não estava registrado no Grande Computador, eu ainda podia gastar à vontade.

Mais tarde, ao relembrar essa transação, tive certeza de como foi a conversa:

“Alô. Aqui é da locadora de automóveis VIP, em Las Vegas. Estou ligando para conferir o número 875-045-616-B. É apenas uma conferência de rotina, nada urgente...”

(Longa pausa no outro lado da linha. Então:) “Puta merda!”

“Como?”

“Desculpe... sim, temos esse número em registro. Está na lista de emergência. Ligue agora mesmo para a polícia e não deixe ele sair de vista!”

(Outra longa pausa) “Hmm... hã... veja bem, no momento esse número não se encontra em nossa lista de emergência, e... hã... o número 875-045-616-B acaba de sair de nosso estacionamento com um Cadillac conversível novinho.”

“Não!”

“Sim. Saiu há muito tempo; com seguro total.”

“Para onde ele foi?”

“Acho que ele disse St. Louis. Sim, é o que diz o cartão. Raoul Duke, batedor campeão & estrela dos Browns de St. Louis. Cinco dias a 25 dólares cada um, mais 25 centavos por quilômetro rodado. Como era um cartão válido, é óbvio que não tivemos escolha...”.

E é verdade. Como meu cartão era tecnicamente válido, a locadora de automóveis não tinha nenhum motivo legal para me encher o saco. Nos quatro dias seguintes dirigi aquele carro por toda Las Vegas – cheguei até a passar várias vezes pela sede da locadora VIP na Paradise Boulevard – e em nenhum momento alguém me aborreceu com grosserias.

Essa é uma das marcas inconfundíveis da hospitalidade de Vegas. Só existe uma regra sagrada: Não Sacaneie os Nativos. Tirando isso, ninguém se importa. Preferem nem saber. Se Charlie Manson se registrasse no Sahara amanhã de manhã e desse boas gorjetas, ninguém o aborreceria.

Depois que aluguei o carro fui direto para o hotel. Como ainda não havia nenhum sinal do meu advogado, decidi me registrar sozinho – ao menos para sair da rua e evitar um colapso em público. Deixei a Baleia num estacionamento da VIP e tropecei meio encabulado até o saguão, carregando uma pequena sacola de couro – uma bolsa personalizada, feita à mão por um amigo de Boulder, artesão em couro.

Nosso quarto ficava no Flamingo, no centro nervoso da Strip: em frente ao Caesar’s Palace e ao Dunes – local da Conferência sobre Drogas. A maioria dos participantes estava no Dunes, mas quem teve a elegância de se inscrever na última hora foi colocado no Flamingo.

O lugar estava cheio de policiais. Percebi assim que entrei. A maioria deles só estava parada por ali, tentando agir com naturalidade. Todos estavam vestidos exatamente da mesma forma, com uma espécie de uniforme informal para Las Vegas: camisas de golfe Arnie Palmer e bermudas xadrez, exibindo pernas brancas e lisas que terminavam em “sandálias de praia” emborrachadas. Era uma cena aterrorizante – parecia algum tipo de supertocaia. Minha mente teria explodido se eu não soubesse da conferência. Parecia que a qualquer momento alguém seria fuzilado numa troca de tiros violenta – talvez a Família Manson inteira.

Não cheguei num bom momento. Quase todos os promotores públicos e agentes policiais já haviam se registrado. Essa gente ocupava o saguão inteiro, encarando com suas carrancas todos os que entravam. Aquilo que parecia a Tocaia Suprema não passava de uns duzentos policiais em férias, sem nada melhor para fazer. Nem notavam a presença dos outros.

Cheguei com dificuldades ao balcão e entrei na fila. Um chefe de polícia de alguma cidadezinha de Michigan estava na minha frente. Sua esposa, que parecia o Spiro Agnew, estava parada à sua direita, a quase um metro de distância. Ele discutia com o recepcionista: “Olha só, camarada – já falei que tenho aqui um cartão-postal dizendo que tenho reservas neste hotel. Estou na Conferência dos Promotores Públicos, ora! Já paguei pelo meu quarto”.

“Desculpe, mas o senhor está na ‘lista de atrasados’. Suas reservas foram transferidas para o... hã... motel Moonlight, também localizado na Paradise Boulevard. Oferece ótimas acomodações e fica a apenas dezesseis quarteirões daqui, com piscina e...”

“Seu veadinho inútil! Cadê o gerente? Cansei de ouvir essa merda!”

O gerente apareceu, oferecendo um táxi. Estava claro que aquele era o segundo, talvez o terceiro ato de um drama cruel que começou bem antes da minha chegada. A esposa do chefe de polícia estava chorando; o grupo de amigos que ele tinha arrebanhado para ajudar estava constrangido demais para lhe dar qualquer apoio – mesmo com aquele duelo acontecendo no balcão, com o policial furioso dando seu último e melhor disparo. Eles sabiam que seu colega havia sido derrotado; ele estava indo contra as REGRAS, e as pessoas contratadas para fazer essas regras serem cumpridas diziam que não havia vagas.

Depois de dez minutos na fila atrás desse escroto barulhento e seus amigos, senti a bile subir. Onde aquele sujeito – um policial! – tinha arrumado coragem para discutir com alguém sobre Direitos & Razão? Eu já estive nas mãos desses animais de carga – e senti que o mesmo poderia ser dito sobre o recepcionista. Ele tinha o ar de alguém que já foi maltratado por um bom número de policiais cruéis, obcecados por regras...

Estava aproveitando a chance de se guiar pelo mesmo raciocínio: não importa quem tá certo ou errado, cara... ou quem pagou a conta & quem não pagou... o que importa é que pela primeira vez na minha vida eu posso descer a lenha num porco: “Vá se foder, seu guarda, quem manda aqui sou eu e tô dizendo que não tem vaga pra você”.

Eu estava apreciando aquela vingança. Mas depois de algum tempo comecei a ficar tonto, muito nervoso, e a impaciência venceu o divertimento. Passei na frente do Porco e me dirigi ao recepcionista. “Oi, desculpa atrapalhar, mas tenho uma reserva e gostaria de saber se posso resolver isso rapidinho e desaparecer da sua frente.” Sorri, deixando bem claro que entendia sua jogada com o policial – que por sua vez estava psicologicamente abalado e me encarava como se eu fosse uma ratazana gigante que tivesse escalado o balcão.

Minha aparência era terrível: calças Levi’s velhas, tênis All Star brancos modelo Chuck Taylor... e minha camisa de Acapulco comprada por dez pesos, que o vento da estrada já havia descosturado no ombro. Estava com uma barba de três dias, parecendo um bêbado de rua, e meus olhos estavam ocultos por trás das lentes espelhadas dos óculos modelo Saigon da Sandy Bull.

Mas o tom da minha voz indicava um homem que sabia ter uma reserva. Eu contava com a eficiência do meu advogado... mas não podia deixar passar a oportunidade de sacanear um policial... e estava certo. Havia uma reserva em nome do meu advogado. O recepcionista tocou a sineta para chamar o carregador. “No momento só tenho essa bagagem comigo”, expliquei. “O resto está ali fora, naquele Cadillac branco conversível.” Apontei para o carro, estacionado bem em frente ao hotel. “Pode pedir que o levem para perto do meu quarto?”

O recepcionista era bem simpático. “O senhor não precisa se preocupar. Aproveite sua estadia – e ligue para a recepção se precisar de alguma coisa.”

Assenti com a cabeça e sorri, espiando com o canto de olho a reação do grupo de policiais ao meu lado. Estavam mudos de choque. Ali estavam eles, usando todas as suas armas para lutar por um quarto pelo qual já tinham pagado – e de repente a situação toda é desmantelada pela aparição súbita de um porcalhão que parecia ter saído de uma selva de mendigos do norte de Michigan. E ele se registrou usando um punhado de cartões de crédito! Jesus! O que está havendo com esse mundo?