Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 16 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

4. Nenhuma escapatória para os degenerados... Reflexões sobre um viciado homicida

4. Nenhuma escapatória para os degenerados...

Reflexões sobre um viciado homicida

 

Adentramos o estacionamento do Flamingo e cruzamos todo o labirinto para chegar à nossa ala. Não tivemos nenhum problema para estacionar, nem no elevador, e um silêncio mortal reinava na suíte quando entramos: uma penumbra elegante e tranquila, com portas corrediças que davam para o gramado e a piscina.

Só a luz vermelha do telefone se movia no quarto, piscando para indicar que havia um recado. “Deve ser o serviço de quarto”, falei. “Pedi gelo e bebida. Acho que chegou quando estávamos fora.”

Meu advogado deu de ombros. “A gente tem bastante”, falou. “Mas não seria nada mal conseguir mais. É isso aí, manda subir.”

Peguei o telefone e liguei para a recepção. “Qual é o recado?”, perguntei. “Minha luz está piscando.”

O recepcionista pareceu hesitar. Ouvi papéis sendo remexidos. “Ah, sim”, acabou dizendo. “Senhor Duke? Sim, temos dois recados para o senhor. O primeiro diz o seguinte: ‘Bem-vindo a Las Vegas, é o que deseja a Associação Nacional dos Promotores Públicos’.”

“Maravilha”, falei.

“... e o outro”, ele prosseguiu, “diz: ‘Ligue para Lucy no Americana, quarto 1.600’.”

“Como?”

Ele repetiu o recado. Não era um engano.

“Puta merda!”, balbuciei.

“Perdão?”, disse o recepcionista.

Desliguei.

* * *

Meu advogado estava no banheiro, vomitando de novo. Saí para a varanda e olhei para a piscina, um tanque em forma de meia-lua cheio de água brilhante, resplandecendo do lado de fora de nossa suíte. Eu me senti Otelo em pessoa. Estava na cidade havia poucas horas e já tinha estabelecido os alicerces de uma tragédia clássica. O herói estava condenado; já havia plantado a semente de sua própria queda...

Mas quem seria o Herói daquele drama sórdido? Dei as costas para a piscina e encarei meu advogado, que saía do banheiro limpando a boca com uma toalha. Seus olhos estavam vidrados, límpidos. “Essa porra de mescalina”, resmungou. “Cacete, por que não fazem uma coisa menos pura? Sei lá, podiam misturar com antiácidos, algo assim.”

“Otelo usava Dramamine”, falei.

Ele sacudiu a cabeça, pendurou a toalha no pescoço e ligou a televisão. “É, ouvi falar desses remédios. Seu amigo Fatty Arbuckle usava azeite de oliva.”

“Lucy ligou”, contei.

“O quê?” Meu advogado quase desabou – parecia um bicho alvejado por um tiro.

“Acabei de receber o recado. Ela está no Americana, quarto 1.600... e pediu pra gente telefonar.”

Meu advogado me encarou... e nesse exato momento tocou o telefone.

Dei de ombros e atendi. Não havia motivos para tentar se esconder. Ela tinha nos encontrado e isso bastava.

“Alô”, falei.

Era o recepcionista.

“Senhor Duke?”

“Sim.”

“Olá, senhor Duke. Desculpe, a ligação caiu um minuto atrás... mas achei que deveria telefonar de novo, porque andei pensando...”

“Hein?” Senti o cerco se fechar. Esse filho da puta estava prestes a me sacanear. O que aquela vagabunda transtornada tinha dito para ele? Tentei manter a calma. “Porra, estamos vendo o noticiário!”, gritei. “Por que você está interrompendo a gente, caralho?”

Silêncio.

“O que você quer, hein? Cadê a porra do gelo que eu pedi? Cadê a bebida? Tem uma guerra acontecendo, cara! Tem gente sendo morta!”

“Morta?” Ele quase sussurrava.

“No Vietnã!”, gritei. “Na televisão, porra!”

“Ah... sim... sim... “, falou. “Essa guerra terrível. Quando será que vai acabar?”

“Agora diga”, falei, calmo. “O que você quer?”

“Oh, sim”, ele disse, assumindo novamente o tom de recepcionista.

“Como sei que o senhor está aqui para a convenção da polícia... achei que deveria contar... que a mulher que deixou este recado para o senhor parecia bastante perturbada.”

Ele hesitou, mas continuei quieto.

“Achei que o senhor deveria saber disso”, falou enfim.

“O que você disse pra ela?”, eu quis saber.

“Nada. Nada mesmo, senhor Duke. Só anotei o recado.” Fez uma pausa. “Mas não foi muito fácil falar com aquela mulher. Ela estava... bem... muito nervosa. Acho que estava chorando.”

“Chorando?” Meu cérebro emperrou. Eu não conseguia pensar. A droga estava assumindo o controle. “Por que ela estava chorando?”

“Bem... hã... ela não disse, senhor Duke. Mas, conhecendo a natureza do seu trabalho, imaginei que...”

“Entendo”, cortei. “Olha, seja delicado com essa mulher se ela telefonar novamente. Ela é o nosso estudo de caso. Está sendo observada minuciosamente.” Senti minha cabeça destravar. As palavras fluíam: “É totalmente inofensiva, claro... não causará problemas... essa mulher tem usado láudano... é um experimento controlado, mas suspeito que precisaremos de sua colaboração antes que tudo isso chegue ao fim.”.

“Bem... certamente”, ele respondeu. “É sempre um prazer colaborar com a polícia... desde que não haja problema nenhum... para nós, é o que quero dizer.”

“Não se preocupe”, garanti. “Você está protegido. Apenas trate essa pobre garota como trataria qualquer outro ser humano em apuros.”

“Hã?” Ele parecia estar gaguejando. “Ah... sim, sim, entendo o que o senhor quer dizer... sim... então o senhor se responsabiliza?”

“É claro”, falei. “E agora preciso voltar ao noticiário.”

“Obrigado”, ele murmurou.

“Manda logo o gelo”, pedi, e desliguei.

Meu advogado sorria na frente da televisão, tranquilo. “Bom trabalho”, falou. “Depois dessa eles vão nos tratar que nem leprosos.”

Sacudi a cabeça, enchendo um copo com Chivas Regal.

“Faz três horas que não passa noticiário nenhum nessa tevê”, ele reclamou, sem tirar os olhos da tela. “Esse pobre coitado deve achar que sintonizamos algum canal especial da polícia. Não quer ligar de novo e pedir pra mandarem um capacitor de três mil watts junto com o gelo? Diz pra ele que o nosso acabou de queimar...”

“Você se esqueceu da Lucy”, falei. “Ela quer falar com você.”

Meu advogado riu. “Não, ela quer falar com você.”

“Comigo?”

“Sim. Você deixou a Lucy maluca. Só consegui me livrar dela no aeroporto dizendo que você estava me levando prum duelo no deserto. Falei que você queria se livrar de mim pra que ela fosse todinha sua.” Encolheu os ombros. “Porra, eu precisava dizer alguma coisa. Mandei ela ir pro Americana e esperar pra ver qual de nós dois ia voltar do duelo.” Riu de novo. “Parece que ela acha que você saiu vencedor. Aquele recado não era pra mim, era?”

Balancei a cabeça. Aquilo não fazia sentido, mas eu sabia que era verdade. Raciocínio alucinado. Ritmos claros e brutais – que, para ele, faziam todo o sentido do mundo.

Meu advogado estava atirado na cadeira, concentrado em Missão impossível.

Refleti por um instante, levantei e comecei a enfiar coisas na valise.

“O que você tá fazendo?”, ele quis saber.

“Não importa”, falei. O zíper travou, mas resolvi o problema com um puxão. Depois calcei os sapatos.

“Peraí”, ele protestou. “Jesus, você tá indo embora?”

Admiti. “É isso mesmo, porra. Estou indo embora. Mas não se preocupe. Passo na recepção antes de sair. Vão cuidar de você.”

Ele se levantou num salto, chutando o drinque. “Peraí, caralho. Agora é sério! Cadê meu 357?”

Dei de ombros, enfiando as garrafas de Chivas Regal na sacola sem olhar para ele. “Vendi em Baker”, falei. “Devo 35 dólares pra você.”

“Jesus Cristo!”, ele berrou. “Aquele troço me custou 190 dólares, porra!”

Sorri. “Você me contou onde conseguiu aquela arma”, eu disse. “Lembra?”

Ele hesitou, fingindo pensar. “Ah, é”, admitiu. “Sim... aquele marginal de Pasadena...” Mas logo voltou à carga. “Então me custou mil, porra. Aquele imbecil atirou num policial do departamento de narcóticos. Ia pegar prisão perpétua!... Cacete, eu passei três meses naquele tribunal e tudo que ganhei foi essa porra de arma.”

“Você é burro”, desdenhei. “Já falei que esse negócio de dar crédito pra viciados é furada – especialmente quando eles são culpados. Sorte sua que o desgraçado não te pagou com uma bala na barriga.”

Meu advogado despencou na cama. “Era meu primo. Inocente, de acordo com o júri.”

“Ah, caralho!”, estourei. “Em quantas pessoas aquele viciado de merda atirou desde que você conhece ele? Seis? Oito? Aquele escroto é tão culpado que, se você tivesse princípios, deveria se matar agora mesmo. Claro que ele atirou naquele policial, assim como matou aquela garota no Holiday Inn... e aquele cara em Ventura!”

Meu advogado me encarou com frieza no olhar. “Melhor tomar cuidado, cara. Isso aí é calúnia séria.”

Dei risada, atirando toda minha bagagem ao pé da cama enquanto terminava meu drinque. Eu pretendia mesmo ir embora. Não era o que eu tinha vontade de fazer, mas resolvi que nada valia o risco de me envolver com Lucy... Se algum dia voltasse ao normal, imagino que sem dúvida provaria ser uma ótima pessoa... muito sensível, com reservas secretas de carma positivo escondidas por baixo de seu jeito de pitbull; um grande talento instintivo... Era só uma garotinha balofa que infelizmente ficou louca de pedra pouco antes de completar dezoito anos.

Eu não tinha nada pessoal contra Lucy. Mas sabia que ela era perfeitamente capaz – naquelas circunstâncias – de mandar a mim e ao meu advogado para a prisão por pelo menos vinte anos. Tudo por culpa de alguma história horrenda que nem chegaríamos a escutar antes que ela aparecesse para depor no tribunal.

“Sim, senhor. Esses aí são os dois homens que me deram o LSD e me levaram pro hotel...”

“E o que eles fizeram depois, Lucy?”

“Bem, senhor, não lembro direito...”

“É mesmo, Lucy? Bem, talvez este documento dos arquivos do Promotor Público refresque sua memória... É a declaração que você deu ao policial Squane quando foi encontrada caminhando nua pelo deserto perto do lago Mead.”

“Não sei bem o que eles fizeram comigo, mas lembro que foi horrível. Um dos caras me pegou no aeroporto de Los Angeles; foi ele que me deu a pílula... e o outro encontrou a gente no hotel; estava suando bastante e falava tão rápido que eu não conseguia entender o que ele queria... Não, senhor, não lembro exatamente o que eles fizeram comigo a essa altura, porque ainda estava sob efeito daquela droga... sim, senhor, do LSD que eles me deram... e acho que fiquei nua por um bom tempo, talvez durante todo o tempo em que fiquei por lá. Acho que era noite, porque lembro que estava passando o noticiário. Sim, senhor, Walter Cronkite, lembro bem do rosto dele...”

Não, eu não estava pronto para isso. Nenhum júri duvidaria dessas declarações. Especialmente se fossem acompanhadas por um turbilhão de lágrimas e flashbacks de ácido obscenos. E, como ela não lembraria ao certo o que fizemos com ela, seria impossível negar qualquer coisa. O júri saberia o que fizemos. Já tinham lido sobre tipinhos da nossa laia em livros de bolso vendidos em bancas de revista por 2,95: Até a cintura, À flor da pele... já tinham visto gente como nós em filmes de sacanagem com ingresso de cinco dólares.

E é claro que não poderíamos correr o risco de falar em defesa própria – não depois que esvaziassem o porta-malas da Baleia: “Meritíssimo, gostaria de lembrar ao júri que está disponível uma série de provas da acusação, de A até Y – sim, a coleção incrível de drogas e entorpecentes ilegais que estava em posse dos réus quando foram presos. Essa tarefa, por sinal, exigiu a intervenção de nada menos que nove policiais, seis dos quais permanecem hospitalizados... e também estão disponíveis as provas Z. São depoimentos em juízo de três especialistas em entorpecentes recomendados pelo presidente da Conferência Nacional dos Promotores Públicos – vítima de um grande constrangimento com a tentativa dos réus de se infiltrarem em sua convenção anual com intenção de transtornar e perverter o ambiente... segundo o testemunho desses profissionais, a quantidade de drogas em posse dos réus quando de sua prisão era suficiente para matar um pelotão inteiro de marines... e, cavalheiros, neste momento uso o verbo matar com todo respeito pelo medo e repulsa que, tenho certeza, ele provoca em cada um dos senhores enquanto consideram que esses estupradores degenerados utilizaram essa miríade de entorpecentes para destruir por inteiro a mente e a moral dessa jovem então inocente, dessa adolescente arruinada e vítima de degradação que agora está diante dos senhores, coberta de vergonha... sim, esses dois forçaram a garota a usar tantas drogas que ela se tornou incapaz de relembrar os detalhes sórdidos da orgia que foi forçada a protagonizar... imaginem a extensão dos danos cerebrais... eles usaram essa jovem, senhores e senhoras do júri, para seus próprios e indescritíveis fins!”.