Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 12 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

12. Velocidade infernal...Brigando com a Polícia Rodoviária da Califórnia... Mano a mano na Rodovia 61

12. Velocidade infernal...Brigando com a Polícia

Rodoviária da Califórnia... Mano a mano na Rodovia 61

 

Terça-feira, meio-dia e meia... Baker, Califórnia... Estou na cervejaria Ballantine, sou um zumbi embriagado e nervoso. Conheço a sensação: três, quatro dias de álcool, drogas, sol, falta de sono e reservas de adrenalina exauridas – uma viagem dominada por tonturas e tremores que indicam a chegada do colapso. Mas quando? Ainda vai demorar? Essa tensão é parte da viagem. A possibilidade de um colapso físico e mental é bastante palpável...

...mas um colapso está fora de questão; é inaceitável como solução ou mesmo como alternativa mais fácil. De fato. Este é o momento da verdade, aquele limite tênue e decisivo entre o controle e o desastre – a diferença entre ficar leve e solto nas ruas ou passar as manhãs de verão dos próximos cinco anos jogando basquete no pátio da penitenciária de Carson City.

Não tenha compaixão pelo diabo; lembre-se disso. Compre a passagem, embarque na jornada... e, se as coisas ficarem mais sérias do que você imaginou, bem... talvez o melhor a fazer seja considerar isso tudo uma expansão de consciência forçada: se ligue, enlouqueça, apanhe. Está tudo na bíblia de Kesey... O Extremo da Realidade.

E chega de bobagens; agora nem mesmo Kesey pode me ajudar. Acabo de passar por duas experiências emocionais muito ruins – uma com a Polícia Rodoviária da Califórnia e outra com um carona fantasma que pode ou não ter sido quem eu pensei ser. E agora, me sentindo à beira de um episódio psicótico severo, estou curvado sobre meu gravador numa “cervejaria” instalada nos fundos de um imenso armazém de implementos agrícolas – cercado por todo tipo de arados, arreios e sacos e mais sacos de fertilizante, tentando entender como tudo aconteceu.

Uns oito quilômetros atrás tive um encontro infeliz com a PRC. Não me mandaram encostar nem sair do carro: não foi nada rotineiro. Sempre dirijo corretamente. Talvez um pouco rápido demais, mas sempre com uma habilidade inegável e um temor natural pela estrada reconhecido até pelos policiais. Ainda está para nascer um policial que não aprecie a execução perfeita de uma Fuga em Alta Velocidade, especialmente quando inclui um trevo de rodovia.

Pouca gente compreende a psicologia que deve ser empregada ao lidar com um policial rodoviário. Infratores de velocidade comuns entram em pânico e encostam imediatamente quando avistam as luzes vermelhas atrás de si... e então começam a inventar desculpas e implorar perdão.

É um erro. Isso faz brotar o desprezo no coração do policial. Quando você está correndo a uns 160 e enxerga de repente as luzes vermelhas de uma viatura da PRC piscando no retrovisor – a atitude correta nessa situação é acelerar. Nunca encoste o carro ao escutar a sirene. Pise fundo e faça o desgraçado perseguir você a quase duzentos por hora até a próxima saída. Ele não vai desistir, mas vai ficar bem confuso quando você der sinal indicando uma conversão à direita.

Isso avisa que você está procurando por um lugar adequado para encostar o carro e conversar... continue dando sinal e procure um desvio qualquer, de preferência com placas que indiquem uma velocidade máxima de quarenta quilômetros por hora... o truque é sair da rodovia de repente e inspirar o policial a fazer o mesmo – a não menos de 160 por hora.

Ele vai pisar no freio na mesma hora que você, mas levará um instante para se dar conta de que àquela velocidade isso vai causar um cavalo de pau... você, por outro lado, estará preparado, pronto para trabalhar rápido e lidar com a situação. Com um mínimo de sorte, já vai estar em pé ao lado do seu automóvel quando o policial enfim conseguir parar.

De início ele não vai ser nada racional... mas não importa. Espere ele se acalmar. O policial vai exigir dar a primeira palavra. Conceda. O cérebro dele estará em polvorosa: pode gritar ou até mesmo sacar a arma. Deixe; continue sorrindo. Nossa intenção é demonstrar que você estava o tempo todo no controle de si mesmo e de seu veículo – enquanto ele perdeu o controle de tudo.

Ajuda ter um distintivo da polícia na carteira quando ele se acalmar o bastante para pedir sua carta de motorista. Eu tinha – mas também tinha uma lata de Budweiser na mão. Até aquele instante, não tinha percebido isso. Estava me sentindo no controle da situação... mas, quando olhei para minha mão e vi aquela bomba vermelha/prateada, sabia que estava fodido...

Ultrapassar a velocidade permitida é uma coisa, dirigir bêbado é outra. O policial parecia consciente disso – eu tinha arruinado toda minha performance ao me esquecer da lata de cerveja. Seu rosto relaxou e ele até sorriu. E eu também. Porque naquele momento nós dois compreendemos que meu teatrinho de Rei das Estradas não tinha servido para nada – aquela lata de cerveja na minha mão tornava desnecessária qualquer discussão sobre “alta velocidade”.

O policial aceitou minha carteira aberta com a mão esquerda e estendeu a direita na direção da lata de cerveja. “Posso ficar com isso?”, perguntou.

“E por que não?”, respondi.

Ele pegou a lata e derramou a cerveja na estrada, entre nós dois.

Sorri. Não me importava mais. “Estava ficando quente mesmo”, comentei. Logo atrás de mim, no banco de trás do Tubarão, havia umas dez latas de Budweiser quente e mais ou menos uma dúzia de toranjas. Eu tinha me esquecido completamente daquilo. Eram evidentes demais para serem ignoradas por qualquer um de nós. Minha culpa era tão clara e esmagadora que inventar desculpas não fazia nenhum sentido.

O policial sabia disso. “Você tem consciência”, perguntou, “de que é um crime...”

“Sim”, respondi. “Eu sei. Sou culpado. Estou consciente disso. Eu sabia que era um crime, mas não me importei.” Dei de ombros. “Merda, por que discutir? Sou um criminoso, porra.”

“Que comportamento estranho”, ele comentou.

Encarei o policial, notando pela primeira vez que estava lidando com um cara jovem, de uns trinta anos, com olhos bem vivos. Parecia gostar do trabalho.

“Sabe”, ele continuou, “acho que seria bom você tirar uma soneca.” Ergueu o queixo. “Bem ali tem uma área de descanso. Que tal estacionar por lá e dormir algumas horas?”

Entendi de imediato o que ele estava me dizendo, mas por algum motivo insano sacudi a cabeça. “Uma soneca não vai adiantar”, admiti. “Estou acordado há muito tempo – três ou quatro noites; nem lembro mais. Se dormir agora, vou capotar por umas vinte horas.”

Deus do céu, pensei. O que eu tinha acabado de dizer? Esse filho da puta está tentando ser compreensivo; poderia me levar direto para a cadeia, mas em vez disso está sugerindo que eu tire uma porra duma soneca. Pelo amor de Jesus Cristo, concorde com ele: Sim, seu guarda, é claro que vou usar a área de descanso. E nem sei dizer o quanto estou grato por essa chance que você está me dando...

Mas não... eu insistia em dizer que, caso fosse liberado, continuaria voando até Los Angeles. Sim, era verdade, mas por que dizer isso? Não é o momento para uma coisa dessas. Este é o Vale da Morte... controle-se.

É claro. Controlar-se. “Olha”, falei. “Eu estava em Las Vegas, cobrindo a Mint 400.” Apontei para o adesivo do “Estacionamento VIP” no para-brisa. “Incrível”, continuei. “Dois dias com todas aquelas motos e buggies correndo pelo deserto. Você já assistiu?”

O policial sorriu, sacudindo a cabeça com um ar melancólico de compreensão. Dava para ver que estava pensando. Será que eu era perigoso? Será que ele estava pronto para a situação desagradável e demorada que certamente viria à tona caso resolvesse me prender? Quantas horas de folga teria que perder no tribunal, esperando para testemunhar contra mim? Que tipo de monstro apareceria para ser meu advogado?

Eu sabia, mas e ele?

“Certo”, falou enfim. “Presta atenção. Aqui no meu registro vai constar que abordei você ao meio-dia... por dirigir acima da velocidade permitida, e... entreguei esta advertência por escrito” – estendeu a advertência para mim – “determinando que você não ultrapasse a próxima área de descanso... ela é seu novo destino, correto? Seus planos são tirar uma longa soneca por lá...” Pendurou o bloco de multas no cinto. “Fui claro?”, perguntou enquanto se afastava.

Dei de ombros. “Baker fica muito longe? Estava pensando em almoçar por lá.”

“É fora da minha jurisdição”, respondeu o policial. “Os limites do município ficam a uns três quilômetros e meio da área de descanso. Consegue chegar lá?” Abriu um sorriso enorme.

“Vou tentar”, falei. “Quero visitar Baker há um tempão. Ouvi falar muito de lá.”

“Frutos do mar excelentes”, comentou. “Pelo seu tipo, acho que vai gostar do caranguejo. Recomendo o restaurante Majestic.”

Sacudi a cabeça e voltei para o carro, me sentindo estuprado. O porco tinha me atacado por todos os lados e agora estava se afastando para dar boas risadas – encostado na saída oeste da cidade, esperando que eu tentasse fugir para Los Angeles.

Voltei para a estrada e passei direto pela área de descanso para chegar à intersecção que levava direto a Baker. Quando me aproximei do retorno, eu vi... Jesus do céu. Era o carona, o garoto que tínhamos aterrorizado na viagem para Las Vegas. Nossos olhos se encontraram quando desacelerei para fazer a curva. Senti vontade de acenar, mas quando o vi baixar o polegar pensei não, não é a hora... Só Deus sabe o que esse garoto falou de nós quando conseguiu voltar à cidade.

Acelerar. Sair de vista imediatamente. Como eu podia ter certeza de que ele tinha me reconhecido? Mas o carro era inconfundível. E que outro motivo ele teria para se afastar da estrada?

De uma hora para outra, eu tinha dois inimigos pessoais naquele fim de mundo. Se eu tentasse seguir viagem até Los Angeles, a polícia rodoviária certamente tentaria me prender. Se eu ficasse, o filho da puta do garoto/carona promoveria uma caçada a mim. (Pela madrugada, Sam! É ele, sim! É o cara da história que o garoto contou! Ele tá de volta!)

Eram duas opções terríveis – e se aqueles predadores caipiras descobrissem minha situação... e descobririam; numa cidade tão pequena, era inevitável... isso acabaria comigo de vez. Eu precisaria de muita sorte para sair vivo. Uma bola de alcatrão coberta de penas arrastada para o ônibus da prisão por nativos furiosos...

Era isso: a Crise. Corri pela cidade e encontrei uma cabine telefônica perto da saída norte, entre um posto Sinclair e... sim... o restaurante Majestic. Telefonei a cobrar para o meu advogado, em Malibu. Ele atendeu na hora.

“Eles me pegaram!”, berrei. “Estou preso em Baker, um cu de mundo no meio do deserto! Não tenho muito tempo. Os escrotos estão fechando o cerco.”

“Quem?”, ele quis saber. “Você parece meio paranoico.”

“Seu filho da puta!”, gritei. “Primeiro fui apanhado pela PRC, depois aquele garoto me viu! Preciso de um advogado agora mesmo!”

“O que você tá fazendo em Baker?”, ele perguntou. “Não recebeu meu telegrama?”

“Hein? Que se foda o telegrama. Estou em apuros.”

“Você deveria estar em Vegas”, ele insistiu. “Temos uma suíte no Flamingo. Eu tava saindo agora mesmo pro aeroporto...”

Desabei na cabine. Era horrível demais. Ali estava eu, telefonando para o meu advogado num terrível momento de crise, e o idiota estava completamente drogado – parecia um maldito vegetal! “Seu desgraçado inútil”, grunhi. “Vou botar no seu rabo! Toda aquela merda no carro é sua! Está entendendo? Quando eu terminar meu depoimento, você vai perder sua licença!”

“Seu escroto descerebrado!”, ele berrou. “Eu mandei um telegrama pra você! Você precisa cobrir a Conferência Nacional dos Promotores Públicos! Fiz todas as reservas... aluguei um Cadillac branco conversível... tá tudo armado! Que porra você tá fazendo no meio do deserto, caralho?”

De repente, lembrei. Sim. O telegrama. Tudo ficou muito claro. Minha mente se acalmou. Enxerguei a coisa toda num instante. “Esquece”, falei. “É brincadeira. Na verdade, estou na piscina do Flamingo. Usando um telefone portátil. Um anão trouxe do cassino pra mim. Tenho crédito total! Está entendendo?” Eu ofegava, me sentindo totalmente louco, transpirando ao telefone.

“Não chega nem perto deste lugar!”, berrei. “Estrangeiros não são bem-vindos por aqui.”

Desliguei e voltei para o carro. Bem, pensei, é assim que o mundo funciona. Toda energia flui de acordo com os caprichos do Grande Ímã. Fui idiota ao desafiá-lo. Ele sabia. Sabia o tempo todo. Foi Ele quem me atirou em Baker. Como fui longe demais, Ele me pegou... fechou todas as minhas rotas de fuga, me enrolou com a PRC e depois com esse maldito garoto-fantasma... me encheu de medo e confusão.

Nunca aborreça o Grande Ímã. Agora compreendo... e essa compreensão foi acompanhada por um alívio quase supremo. Sim, eu voltaria a Las Vegas. Enganaria o Garoto e confundiria a PRC voltando para o leste ao invés de seguir para oeste. Seria a jogada mais esperta de toda a minha vida. Voltar para Vegas e me inscrever para a conferência sobre Drogas e Entorpecentes; eu e milhares de porcos. E por que não? Misture-se a eles, confie em si mesmo. Registre-se no Flamingo e exija imediatamente o Cadillac branco. Faça as coisas direito; lembre-se de Horatio Alger...

Olhei para a estrada e vi uma imensa placa vermelha anunciando CERVEJA. Maravilha. Deixei o Tubarão ao lado da cabine telefônica, cruzei a rodovia e entrei no armazém de implementos agrícolas. Um judeu surgiu por trás de uma pilha de rodas dentadas e perguntou o que eu queria.

“Ballantine Ale”, respondi... uma bebida mística, desconhecida entre Newark e San Francisco.

Ele a serviu, estupidamente gelada.

Relaxei. De uma hora para outra, tudo corria bem; finalmente eu estava tendo uma folga.

O garçom se aproximou, sorrindo. “Pra onde cê vai, meu jovem?”

“Las Vegas”, respondi.

Ele sorriu. “Vegas. Grande cidade. Cê vai ter sorte por lá. Vai, sim. Cê é do tipo sortudo.”

“Eu sei”, falei. “Sou Triplo Escorpião.”

Ele pareceu satisfeito. “Uma ótima combinação”, disse. “Não perde nunca.”

Dei risada. “Não se preocupe”, falei. “Na verdade, sou o promotor público do condado de Ignoto. Sou apenas outro bom americano, como você.”

O sorriso dele sumiu. Será que tinha entendido? Não havia como saber. Mas não importava. Eu estava voltando para Vegas. Não tinha escolha.