Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 26 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

14. Adeus a Vegas... “Que Deus tenha piedade de vocês, seus porcos!”

14. Adeus a Vegas... “Que Deus tenha piedade de vocês,

seus porcos!”

 

Enquanto me esgueirava pelo aeroporto, percebi que ainda estava usando meu crachá de identificação. Era um retângulo cor de laranja, coberto de plástico transparente, anunciando: “Raoul Duke, Investigador Especial, Los Angeles”. Reparei no crachá ao me olhar no espelho que ficava sobre o mictório.

Livre-se desse troço, pensei. Rasgue. Essa história acabou... e não deu em nada. Pelo menos não para mim. E certamente não para meu advogado – que também tinha um crachá – mas agora estava de volta a Malibu, acalentando suas feridas paranoides.

Aquilo tinha sido uma perda de tempo, uma palhaçada sem sentido que tinha servido apenas – analisando friamente – como desculpa barata para mil policiais passarem alguns dias em Las Vegas e deixarem a conta para os contribuintes. Ninguém tinha aprendido nada – ou pelo menos nada de novo. Exceto, talvez, no meu caso... e tudo que aprendi foi que a Associação Nacional dos Promotores Públicos está pelo menos dez anos atrasada em relação à verdade macabra e às realidades cruas e inquietas daquilo que eles recém aprenderam a chamar de “Cultura das Drogas” neste asqueroso Ano de Nosso Senhor de 1971.

Ainda estão gastando milhares de dólares dos contribuintes para fazer filmes sobre “os perigos do LSD” numa época em que todos – menos os policiais – sabem que o ácido é o Studebaker do mercado das drogas; a popularidade dos psicodélicos caiu de forma tão drástica que a maioria dos grandes traficantes nem mesmo vende ácido ou mescalina de qualidade, exceto para fazer algum favor a clientes especiais: em sua maioria, usuários diletantes de drogas com mais de TRINTA anos e cansados de novidades – como eu e meu advogado.

Agora o grande mercado está nos Tranquilizantes. Vermelhas, opiáceos – Seconal e heroína – e todo tipo de maconha vagabunda plantada em fundo de quintal e tratada com tudo que se pode imaginar, de arsênico a tranquilizantes para cavalo. Hoje em dia o que vende é aquilo Que Fode Você – qualquer coisa que dê curto-circuito no seu cérebro e o deixe fora de combate pelo maior período de tempo possível. O mercado do gueto se espalhou para os subúrbios. Quem usava ansiolíticos mergulhou de cabeça na onda das agulhas subcutâneas, chegando até a injetar nas veias... e para cada ex-usuário de anfetaminas que passou aos opiáceos para se aliviar existem duzentos garotos que passaram direto do Seconal para as agulhas. Nunca nem se preocuparam em experimentar anfetaminas.

Estimulantes saíram de moda. No mercado de 1971, metedrina é tão rara quanto ácido puro ou DMT. “Expansão de Consciência” virou passado com Lyndon Johnson... e vale a pena lembrar que, historicamente, a onda dos tranquilizantes surgiu com Nixon.

Cambaleei para dentro do avião sem problema nenhum, exceto por uma onda de vibrações incômodas proveniente dos outros passageiros... mas a essa altura minha cabeça fritava tanto que eu não me importaria de embarcar completamente nu e coberto de cancros purulentos. Teria sido necessário usar de extrema força física para me impedir de entrar naquela aeronave. Eu tinha ido tão além da simples fadiga que começava a me sentir confortável com a ideia de histeria permanente. Sentia que um simples mal-entendido com a aeromoça me faria chorar ou perder a razão... e a mulher pareceu notar, porque me tratou com muita delicadeza.

Quando pedi mais cubos de gelo para o meu bloody mary, ela trouxe rapidinho... e quando meus cigarros acabaram ela tirou um maço da própria bolsa. Só pareceu nervosa quando saquei uma toranja da minha sacola e comecei a descascá-la com uma faca de caça. Percebi que ela me vigiava de perto e tentei sorrir. “Nunca vou a lugar nenhum sem levar uma toranja”, falei. “É difícil achar toranjas realmente boas – a não ser que você seja rico.”

Ela concordou com a cabeça.

Esbocei outra careta/sorriso, mas era difícil saber o que ela estava pensando. Era inteiramente possível, eu sabia, que ela já tivesse decidido me tirar do avião numa jaula assim que pousássemos em Denver. Encarei seus olhos por algum tempo, mas ela conseguiu manter o controle.

Eu estava dormindo quando nosso avião encostou na pista, mas a sacudida me acordou instantaneamente. Olhei pela janela e vi as Montanhas Rochosas. Mas que porra eu estava fazendo ali?, pensei. Não fazia nenhum sentido. Resolvi telefonar para meu advogado assim que fosse possível. Pedir que mandasse algum dinheiro para eu comprar um enorme dobermann albino. Denver é um centro nacional de triagem de dobermanns roubados; chegam de todas as partes do país.

Como eu já estava por lá, imaginei que seria uma boa ideia arranjar um cachorro bem violento. Mas antes precisava de algo para os nervos. Assim que o avião pousou, avancei pelo corredor até chegar à farmácia do aeroporto. Pedi amilas para a balconista.

Ela começou a ficar inquieta e sacudir a cabeça. “Ah, não”, falou enfim. “Isso eu não posso vender sem receita.”

“Eu sei”, respondi. “Mas veja bem, eu sou um doutor. Não preciso de receita.”

A balconista continuava inquieta. “Bem... preciso ver algum tipo de identificação”, gemeu.

“É claro.” Puxei a carteira e exibi o distintivo policial enquanto procurava meu Cartão-Desconto Eclesiástico – que me identifica como Doutor em Teologia, Sacerdote Autorizado da Igreja da Verdade Nova.

Depois de inspecionar o cartão atentamente, ela o devolveu. Percebi em sua atitude que tinha começado a me tratar com respeito. Seus olhos se tornaram cordiais. Parecia estar com vontade de me tocar. “Espero que me perdoe, Doutor”, ela disse, abrindo um belo sorriso. “Mas eu preciso perguntar. Aparecem uns sujeitos muito esquisitos por aqui. Todo tipo de viciados perigosos. Você não acreditaria.”

“Não se preocupe”, falei. “Entendo perfeitamente. Mas tenho problemas no coração e espero...”

“Com certeza!”, ela exclamou – e em poucos segundos voltou com uma dúzia de amilas. Paguei sem discutir sobre meu direito a um desconto eclesiástico. Tirei uma da caixa e abri imediatamente sob meu nariz, bem na frente da balconista.

“Agradeça por ter um coração jovem e forte”, falei. “Se eu fosse você, nunca... ah... puta merda!... hein? Sim, agora preciso que me dê licença; está fazendo efeito.” Saí da farmácia e fui deslizando até onde imaginei que ficava o bar.

“Que Deus tenha piedade de vocês, seus porcos!”, gritei para dois marines que saíam do banheiro masculino.

Ambos me olharam, mas não disseram nada. Eu já estava rindo como um demente. Mas não fazia diferença. Eu era só mais um clérigo perturbado com problemas no coração. Porra, eles me adorariam no Brown Palace. Dou outra fungada nas amilas e quando chego ao bar meu coração está tomado de alegria. Eu me sinto uma reencarnação monstruosa de Horatio Alger... um Homem em Movimento, doente o bastante para se sentir totalmente seguro de si.

Texto de acordo com a nova ortografia.

Título original: Fear and Loathing in Las Vegas

 

Tradução: Daniel Pellizzari

Ilustrações da capa e miolo: Ralph Steadman. Copyright © 1971 by Ralph Steadman. www.ralphsteadman.com

Preparação: Eduardo Fernandes

Revisão: Andréa Bruno, Erika Nakahata, Patrícia Yurgel, Gustavo de Azambuja Feix e Joseane Rücker

 

Cip-Brasil. Catalogação na Fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

 

T389m

Thompson, Hunter S., 1937-2005

Medo e delírio em Las Vegas : uma jornada selvagem ao coração do Sonho Americano / Hunter S. Thompson; [ilustrações: Ralph Steadman]; tradução: Daniel Pellizzari. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.

 

Tradução de: Fear and Loathing in Las Vegas ISBN 978.85.254.3477-7

1. Thompson, Hunter S., 1937-2005. 2. Jornalistas - Estados Unidos -Biografia. I. Título. II. Série.

 

10-1118. CDD: 920.5

CDU: 929:070

 

Copyright © The Estate of Hunter S. Thompson, 1971. All rights reserved.

 

Todos os direitos desta edição reservados a L&PM Editores Rua Comendador Coruja 314, loja 9 – Floresta – 90.220-180 Porto Alegre – RS – Brasil / Fone: 51.3225.5777 – Fax: 51.3221-5380 Pedidos & Depto. Comercial: vendas@lpm.com.br Fale conosco: info@lpm.com.br

www.lpm.com.br

Table of Contents

 

PARTE 1

1.

2. Confiscando trezentos dólares de uma porca em Beverly Hills 3. Estranho remédio no deserto... Uma crise de confiança 4. Música atroz e o barulho de muitas espingardas... Vibrações terríveis num

sábado à noite em Vegas

5. Cobrindo a matéria... Um gostinho da imprensa em ação... horror &

fracasso

6. Uma noite na cidade...Confronto no Desert Inn... Frenesi drogado no

Circus-Circus

7. Terror paranoide... e o terrível espectro da sodomia... Visões de facas e

água verde

8. “Gênios mundo afora estão de mãos dadas, e basta um choque de

reconhecimento para o círculo inteiro andar” Art Linkletter

9. Nenhuma compaixão pelo diabo... jornalistas torturados?... Voando rumo à

loucura

10. Entra em cena a Western Union: um alerta do sr. Heem... A editoria de

esportes manda uma nova pauta e a polícia faz um convite demente

11. Aaawww, Mama, can this really be the end?[1]...Exausto em Las Vegas...

A volta da psicose de anfetamina?

12. Velocidade infernal...Brigando com a Polícia Rodoviária da Califórnia...

Mano a mano na Rodovia 61

PARTE 2

1.

2. Outro dia, outro conversível... & outro hotel cheio de policiais 3. Lucy transtornada... “Dentes de bolas de beisebol, olhos de fogo

coagulado”

4. Nenhuma escapatória para os degenerados... Reflexões sobre um viciado

homicida

5. Uma experiência terrível com drogas altamente perigosas 6. Arregaçando as mangas... Dia de abertura da convenção sobre drogas 7. Se você não sabe, venha aprender... Se você sabe, venha ensinar 8. Rabinho doce... & enfim um racha de verdade na Strip 9. Colapso na Paradise Boulevard 10. Dificuldades no aeroporto... Horrendo flashback peruano... “Não! É tarde

demais! Nem tenta!”

11. Fraude? Furto? Estupro? Um momento brutal com a camareira Alice 12. Voltando ao Circus-Circus... Atrás do macaco... Que se dane o Sonho

Americano

13. Fim da linha... Morte da Baleia... Suando em bicas no aeroporto 14. Adeus a Vegas... “Que Deus tenha piedade de vocês, seus porcos!”

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