Medo e Delírio em Las Vegas
4. Música atroz e o barulho de muitas espingardas... Vibrações terríveis num sábado à noite em Vegas
4. Música atroz e o barulho de muitas espingardas...
Vibrações terríveis num sábado à noite em Vegas
Quase anoitecia quando finalmente entramos na suíte. Meu advogado pegou o telefone na mesma hora e ligou para o serviço de quarto – pediu quatro sanduíches de três andares, quatro coquetéis de camarão, um litro de rum e nove toranjas frescas. “Vitamina C”, explicou. “A gente vai precisar de toda a vitamina C que conseguir.”
Concordei com ele. Àquela altura, a bebida estava começando a cortar o efeito do ácido e minhas alucinações estavam num nível tolerável. O garçom do serviço de quarto tinha feições vagamente reptilianas, mas eu tinha parado de enxergar pterodáctilos imensos caminhando pelos corredores em meio a poças de sangue fresco. Só restava um problema – um gigantesco letreiro de neon bem na nossa janela, bloqueando a vista das montanhas. Milhões de esferas coloridas se acendiam numa sequência bastante complexa, formando símbolos & filigranas estranhos e zumbindo muito alto...
“Dá uma olhada ali fora”, pedi ao meu advogado.
“Por quê?”
“Tem uma... máquina enorme no céu... tipo uma serpente elétrica... vindo direto pra cima da gente.”
“Atira nela”, sugeriu meu advogado.
“Ainda não”, falei. “Quero estudar seus hábitos.”
Meu advogado caminhou até a janela e começou a puxar uma corrente para fechar as cortinas. “Olha”, avisou, “acho bom você parar com essa conversa de serpentes, sanguessugas, lagartos e coisa e tal. Tô ficando de saco cheio.”
“Não se preocupe”, respondi.
“Me preocupar? Jesus, eu quase fiquei maluco no bar. Nunca vão deixar que a gente volte pra lá depois da confusão que você armou na mesa da imprensa.”
“Que confusão?”
“Seu filho da puta”, rosnou. “Eu deixei você sozinho por três minutos! Você apavorou aquela gente, porra! Ficou sacudindo um arpão de madeira e berrando maluquices sobre répteis. Sorte sua que voltei a tempo. Estavam quase chamando a polícia. Inventei que aquilo era culpa da bebida e falei que ia levar você pra tomar uma ducha fria no quarto. Porra, eles só nos entregaram as credenciais porque queriam que você saísse dali.”
Caminhava de um lado para o outro, nervoso. “Jesus, aquela confusão me deixou sóbrio na hora! Preciso de drogas. Que fim levou a mescalina?”
“Está na sacola.”
Meu advogado abriu a sacola e engoliu duas bolinhas enquanto eu ligava o gravador. “Talvez seja melhor você comer só uma”, sugeriu. “Aquele ácido ainda tá fazendo efeito.”
Concordei. “Precisamos estar na pista antes que escureça”, expliquei. “Mas temos tempo pra assistir ao noticiário. Vamos cortar esta toranja e fazer um ponche de rum, talvez misturar uma folha de ácido... cadê o carro?”
“Entregamos prum cara no estacionamento”, respondeu. “O canhoto tá na minha mala.”
“Qual é o número? Vou ligar e pedir que lavem o bicho. Quero ficar livre daquela poeira e da imundície toda.”
“Boa ideia”, ele concordou. Mas não conseguia achar o canhoto.
“Bem, estamos fodidos”, suspirei. “Nunca vamos convencer esses caras a devolver o carro pra gente sem ter um comprovante.”
Meu advogado refletiu por um instante, pegou o telefone e ligou para a garagem. “Aqui quem fala é o Doutor Gonzo, do quarto 850”, anunciou. “Perdi o comprovante de estacionamento daquele conversível vermelho que deixei aí com vocês, mas quero meu carro lavado e prontinho em meia hora. Dá pra mandar uma segunda via?... Hein?... Ah, é?... Bem, ótimo.” Desligou o telefone e apanhou o cachimbo de haxixe. “Tá tudo em ordem”, informou. “O cara se lembra de mim.”
“Maravilha”, respondi. “Agora vão jogar uma rede em cima de nós assim que a gente pisar no estacionamento.”
Meu advogado sacudiu a cabeça. “Como seu advogado, recomendo que não se preocupe comigo.”
O noticiário da tevê falava da invasão do Laos. Uma série de desastres horripilantes: explosões, ruínas fumegantes, pessoas fugindo apavoradas, generais do Pentágono balbuciando mentiras descaradas. “Desliga essa merda!”, ele gritou. “Vamos cair fora daqui!”
Sábia decisão. Logo depois que buscamos o carro, meu advogado apagou por causa das drogas e cruzou um sinal vermelho na Main Street antes que eu pudesse controlar o veículo. Consegui passá-lo para o banco do passageiro e assumi o volante... eu me sentia bem, totalmente alerta. Via pessoas conversando ao meu redor e queria escutar o que estavam dizendo. Todas elas. Mas o microfone especial estava no porta-malas, e resolvi deixá-lo por lá. Las Vegas não é o tipo de cidade em que você pode circular por uma via principal apontando um instrumento negro parecido com uma bazuca na direção dos outros.
Aumente o rádio. Aumente o gravador. Veja o pôr do sol. Abra as janelas para saborear o vento frio do deserto. Ah, sim. É isso aí. Controle total. Cruzando a rua principal num sábado à noite em Vegas, dois bons camaradas num conversível vermelho-sangue... chapados, detonados, alucinados... Gente Boa.
* * *
Meu Deus do céu! Que música terrível é essa?
“O Hino de Batalha do Tenente Calley”:
“... e marchamos em frente...
Quando cheguei ao destino final, naquela terra além do sol,
e o Grande Comandante quis saber...”
(E o que ele quis saber, Rusty?)
“... Você lutou ou você fugiu?”
(e o que você disse, Rusty?)
“... Respondemos ao fogo inimigo com todo nosso ardor...”
Não! Eu não podia estar ouvindo aquilo! Devia ser a droga. Olhei de relance para o meu advogado, mas ele estava encarando o céu. Percebi que o cérebro dele tinha escapado para o destino final naquela terra além do sol. Graças a Jesus ele não está ouvindo essa música, pensei. Aquilo causaria um acesso de fúria racista.
Felizmente a música terminou. Mas meu humor já estava arruinado... e então o demoníaco suco de cacto assumiu o comando e detonou um pânico sub-humano dentro de mim quando chegamos ao desvio que levava ao Clube de Tiro Mint. Dois quilômetros, informava a placa. Mas mesmo a dois quilômetros de distância eu escutava os gritos lancinantes dos motores de dois tempos... e então, assim que chegamos mais perto, escutei outro barulho.
Espingardas! Aquele estrondo seco e oco era inconfundível.
Parei o carro. Que diabos estava acontecendo ali adiante? Fechei as janelas do carro e avancei com cuidado pela estrada de cascalho baixando a cabeça até quase encostá-la no volante... e de repente enxerguei um punhado de vultos apontando espingardas para o ar, disparando em intervalos regulares.
Ali estavam eles, sobre uma laje de concreto no meio de um deserto cheio de arbustos espinhosos – um pequeno oásis ressecado no meio do nada, ao norte de Vegas... reunidos com suas espingardas a pouco mais de cinquenta metros de uma construção de blocos de concreto, cercada por dez ou doze árvores e rodeada por carros de polícia, trailers e motocicletas.
É claro! Clube de Tiro Mint! Esses dementes nunca permitiriam que alguma coisa interferisse em seus treinos. Havia ali uns cem motociclistas, mecânicos e todo tipo de automobilistas reunidos nos boxes para se inscrever na corrida do dia seguinte, bebendo cerveja tranquilamente e avaliando as máquinas concorrentes – e bem no meio de tudo aquilo estava o pessoal das espingardas, sem tomar conhecimento de nada além dos pombos de argila que eram lançados no ar a cada cinco segundos.
Ora, e por que não?, pensei. Aqueles disparos proporcionavam uma certa cadência – uma espécie de ritmo grave e constante para o caos agudo dos motociclistas. Estacionei o carro e me misturei à multidão, sem interromper o coma do meu advogado.
Comprei uma cerveja e fiquei conferindo as motos que iam chegando. Muitas Husquavarnas 405, meteoros suecos envenenados... e também Yamahas, Kawasakis, algumas Triumphs 500, Maicos, aqui & ali uma CZ, uma Pursang... motocicletas muito velozes e superleves, perfeitas para off-road. Não havia nenhuma moto estradeira por ali, nem mesmo uma Sportster... seria como participar de uma corrida de buggies nas dunas com nosso Grande Tubarão Vermelho.
Talvez eu devesse fazer isso, pensei. Inscrever meu advogado como piloto e mandar o infeliz para a largada com a cabeça cheia de éter e ácido. Como será que eles lidariam com isso? Ninguém ousaria entrar na pista na companhia de alguém tão alucinado. Ele capotaria na primeira curva, levando junto uns quatro ou cinco buggies – uma jornada camicase.
“Quanto é a inscrição?”, perguntei ao responsável.
“Dois e cinquenta”, ele respondeu.
“E se eu disser que tenho uma Vincent Black Shadow?” Ele me encarou sem dizer nada, fazendo cara de poucos amigos. Notei que tinha um 38 na cintura. “Esquece”, falei. “Meu piloto está doente mesmo.”
Ele apertou os olhos. “Seu piloto não é o único doente por aqui, camarada.”
“Ele está com uma espinha na garganta”, falei.
“Como?”
O sujeito estava se enfurecendo, mas desviou os olhos de repente. Olhava para alguma outra coisa...
Meu advogado, sem os óculos escuros dinamarqueses, sem a camisa de Acapulco... um sujeito de aparência totalmente transtornada, seminu e ofegante.
“Qual é o problema?”, gritou. “Este homem é meu cliente. Tá preparado pra ir ao tribunal?”
Segurei meu advogado pelo ombro e o tirei dali sem fazer alarde. “Tudo bem”, falei. “É a Black Shadow... eles não aceitam.”
“Espera aí!”, berrou. “Como assim, não aceitam? Você fez um acordo com esses porcos?”
“Claro que não”, desconversei, empurrando meu advogado portão afora. “Mas todos eles estão armados, percebeu? Somos as únicas pessoas sem armas por aqui. Não está ouvindo os tiros?”
Meu advogado fez uma pausa, atento ao barulho. De repente, saiu correndo na direção do carro. “Seus filhos da puta!”, berrou, olhando para trás. “Nós voltaremos!”
Só conseguiu voltar a falar quando o Tubarão voltou à rodovia. “Jesus Cristo! Como fomos parar no meio daquele bando de psicóticos? Vamos cair fora desta cidade de merda. Aqueles vagabundos tentaram matar a gente!”